Don’t follow the sheep

tumblr_static_sheep_version3Eu cresci acreditando que eu deveria me ajustar ao meio em que vivo. De alguma forma, isso é válido para que os dias sigam sem maiores conflitos, mas quando esse ajuste me impele a abaixar a cabeça, então, eu me recuso a seguir o rebanho.

Ter crescido na região mais travada em termos de liberdade individual num país conservador me despertou uma consciência política que meu pai sempre me incentivou a ter, mas tinha medo que não batesse à minha porta antes de me tornar um adulto feito.

Consciência dos direitos e deveres é que nem leitura. Sabemos da importância dos clássicos, mas não poderemos absorvê-los sem a devida bagagem que nos permita enxergá-los além da obrigação de percorrer suas páginas para passar de ano. Cada um tem o seu tempo para cada coisa da vida. Eu só fui gostar de Machado de Assis aos 22 anos.

No quesito cidadania, só fui me interessar por política e direitos civis ao me perceber como parte de uma população de segunda classe, igualzinha a tantas outras com as quais temos contato todos os dias, mas não nos sensibilizamos talvez por não sofrer na pele o que eles sofrem.

Não estou dizendo que é normal seguirmos apáticos ao sofrimento alheio por não estarmos inseridos no contexto deles. Acho até muito correto defendermos outras causas que não sejam as nossas, por que de verdade verdadeira, só mesmo uma pessoa muito ingênua acha que tais problemas nunca irão bater à nossa porta.

Mas aprendemos mais rápido quando acontece com a gente. E a partir do momento em que conhecemos outros iguais, o que não nos afeta diretamente tem um peso simbólico, que machuca e causa indignação do mesmo jeito.

Nem todos são iguais, e ao longo do caminho vamos encontrar posturas diferentes, para o bem e para o mal. Principalmente nos contextos em que se tenta impor um controle por parte de uma parcela da sociedade que está acostumada com um status quo e se esperneia diante da inevitável mudança de cenário.

É uma época de mudanças em vários setores. Vejam por exemplo a maneira como se consome música e informação. Os hábitos mudaram e os antigos sistemas já não são mais eficientes no sentido de se autogerir. Gravadoras agonizam, mas não admitem enxergar que elas já não podem mais controlar a criação e fruição dos trabalhos sonoros como antes. Revistas e jornais demitem ótimos profissionais e acumulam os remanescentes com novas funções, na base de uma multitarefa rasa e descartável, para se manter no mesmo sistema, que enfrenta a gratuidade e descentralização da produção de conteúdo pela internet.

Da mesma forma se dá com a representação e exercício da cidadania por parte de grupos marginalizados, que hoje encontram-se mais conscientizados de seu papel enquanto parte da engrenagem social. Estes grupos sabem que precisam ser os protagonistas desta integração que não pode ser dada ou permitida por outros. Os outros continuarão a praticar o que lhes é de direito, que é a defesa de seus interesses, como em qualquer democracia. Cabe a nós fazer o mesmo, com a diferença de que a defesa dos nossos interesses não irá prejudicar a vida do resto do mundo, que seguirá tranquila. O máximo que acontecerá será um avanço em termos de garantia dos direitos civis.

A cabeça dos indivíduos poderá ser tocada com muito debate e diplomacia, mas ainda assim, não é garantida uma mudança plena de comportamento. Cada um sabe de seus pensamentos. Classificar o racismo como crime inafiançável é louvável, mas não garante que vá conscientizar a cabeça de um racista. Ele no mínimo irá pensar duas vezes antes de abrir a boca mais por medo de ser preso, do que por ter desenvolvido uma consciência social e respeito às diferenças.

Esta semana, um fato relacionado ao preconceito contra homossexuais me trouxe à tona a quantidade de posturas diferentes dentro da própria comunidade. Na segunda-feira, li na minha timeline do Facebook uma postagem de uma moça relatando uma abordagem de um garçom de um renomado restaurante do Recife a um casal de rapazes. Segundo o que li, o funcionário do local pediu que ambos fossem mais comedidos, por que os clientes do recinto se mostraram incomodados com tal situação.

Isto configura uma violação ao direito da livre manifestação de afeto, garantido pela Lei Municipal 16.780/2002. A mensagem conclamava as pessoas a escrever uma nota de repúdio ao mencionado restaurante, coisa que prontamente fiz.

Algum tempo depois, na mesma tarde, a autora da postagem, que eu compartilhei na minha timeline, apagou-a. E eu fiquei sem entender o porquê. Teria o restaurante entrado em contato com ela? Um dos envolvidos na situação pediu para que ela apagasse o que escreveu?

Enfim. Escrevi sobre o meu desconforto com tal situação, e para a minha surpresa, no dia seguinte, o blog de um jornalista local, voltado à comunidade LGBT, afirmava que não houve ato homofóbico e que a disseminação do tal caso pela internet foi comparada com anarquia disfarçada de ativismo.

Achei a colocação confusa, mas continuei lendo. Uma das partes envolvidas foi um artista recifense, conhecido do cenário do rock local, que vem a ser amigo do editor do blog em questão. O mesmo relatou que “o garçom chegou à mesa e comentou o pedido da senhora. A mesa não deu importância ao pedido e a tal senhora levou uma bela vaia de todos os gays e simpatizantes que estavam no bar.”

Fiquei pensando na diferença entre “chegar na mesa e comentar que alguém se incomodou” e “chegar na mesa e pedir que deixem de ser eles mesmos por que alguém se incomodou”.

Façamos uma analogia: você está em seu local de trabalho e numa sexta-feira, dá na sua telha de calçar uma sandália de couro estilosa que você comprou no dia anterior. Ao encontrar seu chefe, ele lhe diz “Olha só que bom, isso! Queria eu poder vir trabalhar de sandália de couro.” As chances desta afirmação ser uma reprimenda sutil para evitar discussões são enormes. Só sendo muito ingênuo para achar que ele te elogiou. Ele simplesmente disse “Não é permitido usar calçados informais neste recinto” com outras palavras.

No caso do escritório, você acata com a recomendação, por que cada local tem suas regras. Mas e num local público, onde você está amparado por uma lei que te garante a liberdade de expressar carinho com o seu cônjuge? Tal fato foi repercutido e apagado do Facebook, não encontrando nenhum outro canal que tratasse do tema ao não ser o citado blog.

Pela falta de outras vozes que falassem sobre o tema, a informação ficou restrita a um único veículo, que me despertou o olhar para o uso da linguagem enquanto definidora de moldes que possam atender à produção e reprodução de poderes. Segundo o relato da matéria sobre o ocorrido no restaurante, após a vaia contra a senhora ruborizada com a sexualidade alheia, o garçom pediu desculpas e a história acabou ali. E com isso, o jornalista concluiu que não houve ato homofóbico, e portanto, a repercussão do caso nas redes sociais foi classificada como “anarquia e confusão”.

Como eu não estive presente no local, não dá para afirmar se o garçom ultrapassou a linha tênue entre “comentar o incômodo da cliente” e “solicitar que os rapazes não se beijassem”, ou ainda se ele tentou dissuadi-los de tal ato, utilizando uma linguagem sutil. Também não sei o que se passou nos bastidores, se o fato de um dos envolvidos ser uma pessoa pública interferiu na situação, ou se o próprio restaurante tentou conter uma potencial crise de imagem.

É visível que vivemos em uma diversidade de hábitos, sonhos e forças, e no meu caso, eu ficaria chateado com a situação, pelo simples fato de que preconceito é problema de quem tem, e dentro dessa pessoa ele deve permanecer. Quando ele consegue sair e atingir outros que não tenham nada a ver com os grilos que se cria no cérebro, é um abuso, não importa a forma que ele encontra para chegar a terceiros. E sendo um abuso, ele está passível de enfrentar processos.

Acho até que o restaurante em si teve sorte das partes envolvidas não reagirem contra. Digo isso por que tal caso poderia ter acontecido com um cliente que pensasse diferente e se sentisse incomodado, como eu confesso que me sentiria.

Não posso emitir julgamento das partes envolvidas na resolução deste episódio, por que cada um reage de uma forma. Por mais que alguns digam que não houve ato homofóbico, e que a reação de outros soe exagerada, uma coisa é certa: o fato é que o garçom não deveria nunca ter se dirigido à mesa dos rapazes para comentar qualquer chilique alheio.

Que isto sirva de lição para todos.

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