Círio de Belém – a luz de um povo que clama – Salve Nazaré

“Ó Virgem mãe amorosa
Fonte de amor e de fé
Dai-nos a bênção bondosa
Senhora de Nazaré”

 

DEscrição da Imagem: Fiéis demonstrando em suas faces a força e emoção ao segurarem a corda. Foto Breno Pack

 

Todo segundo domingo de Outubro em Belém do Pará há mais de dois séculos, o Círio de Nazaré é celebrado representando uma das maiores e mais belas procissões católicas do Brasil e do mundo. Reúne, cerca de dois milhões de romeiros numa caminhada de fé pelas ruas da capital do Estado do Pará, num espetáculo grandioso em homenagem a Nossa Senhora de Nazaré, a mãe de Jesus.
A Procissão sai da Catedral de Belém e segue até a Praça Santuário de Nazaré, onde a imagem da Virgem fica exposta para veneração dos fiéis durante 15 dias.

Na procissão, a Berlinda que carrega a imagem da Virgem de Nazaré é seguida por romeiros de Belém, do interior do Estado, de várias regiões do país e até do exterior. Em todo o percurso, os fiéis fazem manifestações de fé, enfeitam ruas e casas em homenagem à Santa.

Por seu reconhecimento com importante movimento cultural brasileiro, o Círio de Belém foi registrado, em setembro de 2004, pelo Iphan, como Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial.

Além da procissão de domingo, o Círio agrega várias outras manifestações de devoção, como a trasladação, a romaria fluvial e diversas outras peregrinações e romarias que ocorrem na quadra Nazarena.

O que quer dizer Círio?

“Acende-se um círio pra sair da escuridão”. O  termo “Círio” tem origem na palavra latina “cereus” (de cera), que significa vela grande de cera.

Descrição da Imagem: detalhe de uma vela "Círio" na mão de um romeiro envolto em uma garrafa Pet. Foto Breno Pack

 

História

A devoção a Nossa Senhora de Nazaré teve início em Portugal. A imagem original da Virgem pertencia ao Mosteiro de Caulina, na Espanha, e teria saído da cidade de Nazaré, em Israel, no ano de 361, tendo sido esculpida por São José. Em decorrência de uma batalha, a imagem foi levada para Portugal, onde, por muito tempo, ficou escondida no Pico de São Bartolomeu. Só em 1119, a imagem foi encontrada. A notícia se espalhou e muita gente começou a venerar a Santa. Desde então, muitos milagres foram atribuídos a ela.

No Pará, foi o caboclo Plácido José de Souza quem encontrou, em 1700, às margens do igarapé Murutucú (onde hoje se encontra a Basílica Santuário), uma pequena imagem da Senhora de Nazaré. Após o achado, Plácido teria levado a imagem para a sua choupana e, no outro dia, ela não estaria mais lá. Correu ao local do encontro e lá estava a “Santinha”. O fato teria se repetido várias vezes até a imagem ser enviada ao Palácio do Governo. No local do achado, Plácido construiu uma pequena capela.

Em 1792, o Vaticano autorizou a realização de uma procissão em homenagem à Virgem de Nazaré, em Belém do Pará. Organizado pelo presidente da Província do Pará, capitão-mor Dom Francisco de Souza Coutinho, o primeiro Círio foi realizado no dia 8 de setembro de 1793. No início, não havia data fixa para o Círio, que poderia ocorrer nos meses de setembro, outubro ou novembro. Mas, a partir de 1901, por determinação do bispo Dom Francisco do Rêgo Maia, a procissão passou a ser realizada sempre no segundo domingo de outubro.

Tradicionalmente, a imagem é levada da Catedral de Belém à Basílica Santuário. Ao longo dos anos, houve adaptações. Uma delas ocorreu em 1853, quando, por conta de uma chuva torrencial, a procissão – que ocorria à tarde – passou a ser realizada pela manhã

Berlinda

A berlinda que carrega a imagem da Virgem de Nazaré na procissão do Círio já é a quinta da história. Confeccionada em 1964 pelo escultor João Pinto, ela tem estilo barroco e é esculpida em cedro vermelho. Na parte interna possui cetim drapeado no teto e pingentes de cristal. Ao centro tem um dispositivo próprio para fixação da Imagem. Ornamentada com flores naturais na véspera do Círio, a Berlinda é colocada sobre um carro com pneus, que na procissão é puxado pela corda conduzida pelos devotos.

Descrição da imagem: Berlinda carregada por fiéis, totalmente enfeitada com flores e franjas. Foto Breno Pack

História da Berlinda – A berlinda começou a fazer parte do Círio a partir de 1855, em substituição a uma espécie de carruagem puxada por cavalos ou bois, chamada de palanquim. Neste mesmo ano, com a necessidade da Berlinda ser puxada pelos fiéis para vencer um atoleiro, os animais foram substituídos por uma corda, que foi emprestada às pressas por um comerciante e que, depois, foi incorporada à tradição do Círio. Mesmo com a introdução da berlinda, foi mantido o costume da imagem ser carregada no colo de autoridades da Igreja. Mas, em 1880, o Bispo Dom Macedo Costa mandou fazer uma berlinda que levasse a imagem sozinha. Em 1926, a berlinda foi transformada em andor e assim saiu até o Círio de 1930. No ano seguinte, ela voltou ao seu formato original, sendo puxada pelos fiéis através da corda.

A Corda

A corda puxada pelos promesseiros é um dos maiores ícones da grande procissão do Círio e, também, da Trasladação. Hoje, ela tem 400 metros de comprimento, duas polegadas de diâmetro e é produzida em titan torcido de sisal oleado.

Descrição da Imagem: mãos segurando a corda com muita força - foto: Breno Pack

Enfileirados, homens e mulheres puxam a corda que faz a berlinda com a imagem da Santa se movimentar. Anteriormente amarrada à berlinda, a partir de 1999 ela passou a ser atrelada através de uma argola metálica. O atrelamento ocorre no Boulervard Castilhos França, 400 metros depois do início da procissão.

Como são os promesseiros da corda que dão ritmo à procissão, em alguns anos ela precisou ser desatrelada antes do término da romaria para que o Círio pudesse seguir mais rapidamente.

Até 2003, o formato da corda era de “U”, ou seja, as duas extremidades da corda eram atreladas à berlinda. A partir de 2004, por motivos de segurança, ganhou formato linear, seccionada por peças de duralumínio, o que deu origem às chamadas estações da corda.

História da Corda – Durante a procissão de 1855, quando a berlinda ficou atolada por conta de uma grande chuva, a Diretoria da Festa teve a idéia de arranjar uma grande corda, emprestada às pressas de um comerciante, para que os fiéis puxassem a berlinda. A partir daí, os organizadores do Círio começaram a se prevenir, levando sempre uma corda durante a romaria. Mas só no ano de 1885, a corda foi oficializada no Círio, substituindo definitivamente os animais que puxavam a berlinda.

No Círio de 1926, o arcebispo Dom Irineu Jofilly suprimiu a corda do Círio, já que “não compreendia o comportamento na corda, onde homens e mulheres se empurravam em atitudes nada devotas”. A proibição gerou várias manifestações populares e políticas, mas chegou a durar cinco anos. Só em 1931, com intervenção pessoal de Magalhães Barata, então governador do Estado, a corda voltou a fazer parte do Círio

A Arte do Meriti

A arte se une a fé, dando um tom colorido e especial a Festa do Círio. Antes, os brinquedos de miriti eram vistos apenas no meio da procissão, balançando nas girândolas, agora têm exposição com lugar marcado: o Largo do Marco, no bairro da Cidade Velha. Feitos do miriti, palmeira tipicamente amazônica da região da várzea, vêm do outro lado da Baía do Guajará, do município de Abaetetuba, onde a matéria-prima dos brinquedos é farta. Dos galhos e caule do miritizeiro, as mãos dos artesãos formam cobras, tatus, barquinhos, pássaros, personagens que fazem parte do cotidiano do ribeirinho da Amazônia, pintados com as cores fortes da região.

DEscrição da Imagem: vendedor ambulante, eleva com um bastão, os barquinhos coloridos feitos de meriti no meio da procissão. Foto Breno Pack

Mas a tradição vem se modernizando. Das cobras e barcos, derivam foguetes, carros de corrida, personagens e heróis das histórias em quadrinhos e até disco voador para fazer páreo com tatus e pássaros da região. Modernidade à parte, eles são souvenir obrigatórios e indispensáveis durante a quadra nazarena.

O Manto

A história do manto se confunde com a procedência da imagem original de Nossa Senhora de Nazaré. Reza a lenda que a Santa, quando achada pelo caboclo Plácido, em 1700, já estava com um manto. A tradição, então, foi se mantendo.

Descrição da imagem: pequena santa exibe o manto ricamente bordado. Foto Breno Pack

Em 1953, a imagem autêntica recebeu um manto bordado a ouro e pedras preciosas. Os primeiros mantos foram confeccionados pela irmã Alexandra, da Congregação das Filhas de Sant’Ana, do Colégio Gentil. Ela fez desse feito uma devoção e o manteve até 1973, ano em que morreu.

A partir de então, a nobre tarefa passou a ser da ex-aluna e ajudante, Esther Paes França, que ficou encarregada de confeccionar o manto até 1992. De lá pra cá, o manto não ficou mais a cargo de uma pessoa apenas. Católicos da comunidade e estilistas de renome passaram a participar, também, da arte de confeccionar um dos maiores símbolos do Círio.

Fontes:

Site Oficial do Círio

Site CNFCP

Diário do Pará

Imagens:

Veja o álbum de fotos de Breno Peck, este paraense apaixonado por sua Belém do Pará, e com suas belíssimas e sensíveis fotos que ilustram esta matéria.

Flickr de Breno Peck

Descrição da imagem: Romeiro sem camisa com a imagem da santa pintada no peito.

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5 comentários sobre “Círio de Belém – a luz de um povo que clama – Salve Nazaré

  1. A fé de um povo também se reflete na sua cultura (ou seria o contrário?). É interessante notar que a Bíblia relata várias manifestações populares da fé do povo judeu nos tempos de Jesus: a ida ao templo no período da Páscoa, ocasião em que Jesus primeiro se perdeu dos pais quando adolescente e depois, já adulto, expulsou os vendilhões com um chicote de cordas; as parábolas que Ele contava também estão repletas de elementos da cultura daquele povo: o pastor, a colheita, a pescaria e assim por diante. É importante conhecer as origens e a cultura que dá origem à essas manifestações de fé para não correr o risco de ter uma fé cega e ritualista apenas – que é o que vemos na maioria da população. Parabéns pelas postagens e pelo blog, sempre cheio de curiosidades e riquezas de nosso povo.

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