A Contemporaneidade da Arte Popular… ou o lixo da arte contemporânea

Em tempos de Bienal de Arte, a cidade de São Paulo respira, transpira, exala, dita moda e tendencias, com várias exposições paralelas,  a polêmica “Arte Contemporânea”.

Não sou crítico de arte e muito menos um estudiodo na área, sou um “visitador” assíduo de exposições e me incomoda, e torço o nariz, sempre que visito uma exposição de “arte contemporânea”, na verdade vou a exposições em busca de emoção de sensações e de poesia, mas ao deparar com obras que realmente não me dizem nada, tenho cada vez mais certeza de que tudo isso é um verdadeiro lixo. Ao contrário quando atravesso o parque do Ibirapuera e entro no Pavilhão das Culturas Brasileiras (recem aberto) e pertenço, me emociono, me encanto com as diversidade das obras de arte popular, aquelas que não precisam de Monitoria Especializada para explicar o seu sentido, aquela que é gerada por uma sensibilidade pura e que ao meu ver tem muito mais valor.

Descrição da Imagem: Banco em madeira talhada po José Bezerra - Buíque – PE, 1952 - Banco em formato de um Tamanduá - Cortesia Galeria Estação, São Paulo - SP

Confira matéria sobre a Bienal Naifs do Brasil – SESC Piracicaba

Mas no meio de toda esta contemporaneidade, um curador propõe uma discussão muito interessante:

…por que obras de arte popular não podem ser colocadas ao lado de obras de arte copntemporânea?… Este é o incomodo que o curador, ex Fundação Bienal, Paulo Sérgio Duarte pretende através da  exposição: “Arte Brasileira: além do Sistema” na Galeria Estação em Pinheiros – SP.

Segundo o Curador:

“Aqui, na exposição, por um momento, estão juntos artistas de diferentes origens. Esse foi o problema que arrumei. Não há nenhum “nexo curatorial” entre essas diferentes potências poéticas, ainda mais que preponderam as questões pictóricas e gráficas nos chamados “eruditos” sobre as escultóricas nos “populares”. Mas esse foi um entre muitos desafios que se apresentam. Orecorte de artistas populares foi inteiramente realizado a partir do acervo de Vilma Eid que fazem parte do instituto do  Imaginário do Povo Brasileiro.

Descrição da Imagem: Obra de Manoel Graciano - Reisado - figuras do reisado esculpidas em madeira pintada - tamanho 100 x 200cm aproximadamente

Esta exposição quer provocar o seu olhar e reflexão. É apenas o início de um trabalho que pretendo desenvolver, mas que me preocupa há muitas décadas. Me intrigava a ausência da arte popular nas exposições coletivas que contemplavam os artistas, digo provisoriamente, “eruditos”. Por que essa “reserva de sistema” para artistas de um determinado nicho em detrimento de outros? No capítulo da arte chamada contemporânea ou do “sistema da arte” somos obrigados a nos confrontar com trabalhos de dar dó, coisas realmente desprezíveis, não somente em galerias, como em bienais e grandes feiras, e, no entanto, muita força poética está ausente porque o “sistema” não admite o confronto com esta outra intensidade. A arte popular pode ser facilmente compreendida e avaliada se colocada lado a lado com a produção da chamada arte contemporânea.

São os limites do chamado “sistema da arte” que precisam ser pensados. Porque obras da arte popular não podem ser colocadas ao lado das obras de “arte contemporânea”? Porque as fronteiras do “sistema da arte” são pensadas à luz de três instituições: a estética, a academia e instituições conexas – sobretudo os museus –, e o mercado.”

…O que se precisa é repensar não uma teoria de arte contemporânea mas uma teoria contemporânea da arte que dê conta dos processos poéticos independentemente da origem das obras…

Catálogo da Exposição

Mas o que os pensadores “Contemporâneos” acham da “Arte Contemporânea”???

A larva de mosca segundo Ferreira Gullar:

“…Atualmente temos a chamada arte contemporânea ou conceitual. Na minha opinião, é uma coisa que pouco tem a ver com arte. É só ver. Você acha que uma exposição que nos mostra larvas de mosca é arte? Pode até ser muito interessante, mas não tem nada a ver com arte… É uma besteirada. Mas não se pode dizer isso. Eu sou o único crítico que diz essas coisas. Todo mundo fica com medo de parecer retrógrado. Todo mundo é avançado, moderno. Eu estou cagando para a modernidade.”

Foto de Ferreira Gullar onde ele está com as mãos levantadas a frente da cabeça com seus longos cabelos brancos, parecendo um mago das letras.

Foto: http://apaginadavida.blogspot.com/2010/09/jose-ribamar-ferreira-ou-nosso-poeta.html

… Arte é expressão, mas nem toda expressão é arte. Se eu pegar essa folha de papel e amassar, estarei me expressando. Um quadro em branco, sem nada, não é uma expressão? É. Se eu fizer um traço preto, é outra expressão. Arte não é isso. Não é feita nem pela natureza, nem pelo acaso. Arte é uma coisa do ser humano. A arte existe porque a vida não basta,a vida é pouca. E a arte nos traz coisas belas, fascinantes, atordoantes, maravilhosas. É para isso que existe. Não serve para mostrar larva de mosca…”

Entrevista de Ferreira Gullar á Revista de História da Biblioteca Nacional – nº 59 – Agosto de 2010.

Revista História da Biblioteca Nacional

Para Roberto Rugiero em entrevista á revista: ARTE! Brasileiros

“A arte popular pelo olhar treinado de um especialista do gênero” – por Mário Gioia

“…Com a abertura do Pavilhão das Culturas Brasileiras, em São Paulo, a recuperação das peças coletadas por Lina Bo Bardi na Bahia nos anos 1960, e reunidas novamente no Solar do Ferrão, em Salvador, a arte popular retoma um papel mais efetivo na cena das artes visuais do Brasil.

Foto de Roberto Rugiero em meio ás obras na Galeria que dirige.

Para Roberto Rugiero, um dos mais prestigiados especialistas da área no País e dono da Galeria Brasiliana, o momento não merece ser tão festejado. “Trabalhar com arte popular no Brasil ainda é muito instável. Já vivemos tempos bem piores, mas o mercado não é muito amplo e o preconceito existe. É como se fosse uma luta de classes. Parte da elite não consegue ver genialidade em autores populares”, afirma, com cautela, o marchand.

Rugiero acredita que a terminologia “arte popular” é a mais adequada para englobar “a arte espontânea”. Mas é um segmento tão rico que não cabe em um nome só. No entanto, o galerista é contrário a qualificar artistas de cunho menos erudito de “arte naïf”. “É uma terminologia odiosa, um galicismo inclassificável. O nome surgiu apenas para qualificar uma arte água com açúcar, pretensamente ingênua. Serve apenas para ser vendida a gringos desavisados.”

Bem é conferir e tecer sua opinião sobre este tema tão instigante.

Um abraço

JeffCelophane

Arte Brasileira: além do sistema

Aberaldo – Alcides – Chico Tabibuia – Elizabeth Jobim – Fernanda Junqueira – Fernando da Ilha do Ferro – Gabriela Machado – Germana – Monte-Mór – José Bezerra – Manoel Graciano – Nuno Ramos – Samico – Tunga – Véio

Curadoria Paulo Sergio Duarte

Galeria Estação

Rua Ferreira de Araujo 625 Pinheiros SP 05428001

Fone 11 3813 725

exposição até 06 de novembro

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10 comentários sobre “A Contemporaneidade da Arte Popular… ou o lixo da arte contemporânea

  1. oi querido. complicada mesmo esta tal de arte contemporânea…. mas o que te toca, me toca? as vezes eu odeio ser um libriano a aceitar tudo que vejo, meu lado ariano quer jogar alguns no lixo…. ai ai ai ai que dor….

  2. Querido Jeff, é muito dificil questionar sobre arte. Porquê? Eu sou uma artista Pop total, e me questiono sim, de como agradar ao publico, ou tendências , nas quais a arte te impõe, nos dias de hoje. Para mim, o que importa é o artista ter sua identificação, e principalmente criatividade. Agora eu te questiono….vc tem razão…vivemos na atualidade, no qual, grupos denominam, o que seja uma obra de arte. É amigo , é dificil de se aceitar, principalmente algumas obras da Bienal, eu concordo com vc. E o que faz a diferença, é opinarmos também. O livre arbitrio faz a diferença,……. lixo por lixo garanto o que crio, e defendo a minha criatividade…Bjos Barata.

    • Cara Andrea Barata
      Muito grato pela sua visita e comentário, importantissimos pra discussão em questão. Temos que perder o medo de colocar nossa opinião diante destas questões que sempre me incomodaram e ao deparar com a exposição que fui visitar me senti menos sozinho. Quem sou eu pra criticar a arte Contemporânea, mas me considero um “publico que consome” assiduo e insistente, por isso me sinto com direito de opinar e me abrir pra discussão. Estes grupos de Curadores que dominam a o que é ou o que não é “arte” tem que descer dos pedestais e ouvir o que as pessoas estão achando disso tudo. Exemplo dos polêmicos urubus na Bienal, pura ação de marketing e pra mim isso não é arte.
      Prazer estar me correspondendo com voce. Um forte abraço.

  3. Super Jeff,
    vamos lá: de fato, há um incômodo no sentido de aumentar ou diminuir a arte x da arte y…
    Mas, que tal se pensarmos em Arte Naif (Arte Ingênua) – vide http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_na%C3%AFf
    e Arte Brut (arte bruta)??? http://pt.wikipedia.org/wiki/Arte_bruta

    São expressões artísticas, tão importantes (e talvez menos acadêmicas, isso é que denota uma diferença) quanto quaisquer outras… contudo… apreciar o simples é uma qualidade de quem tem coração e espírito aberto… de fato, sinto que não são todas as pessoas que compreendem que a beleza da árvore está na falta de simetria, na falta de “conceito” e portanto, é de uma beleza natural sem igual… só estou tentando parafrasear, comparar, e expressar que na minha opinião a arte popular é o reflexo de como essse artista interage, se comunica e se expressa no mundo… alguns são os populares, outros, os eruditos, outros, os acadêmicos… mas todos, humanos. Se conseguirmos elevar nosso grau de humanidade, arte nenhuma será considerada menor, maior ou diferente. Será apenas brisa para o espítiro, uma janela para a alma. Vamos abrir os corações, que a arte nos invadirá! Abs!!! Amauri

    • Amauri que bom ter voce aqui participando deste bate papo virtual sobre este assunto que me instiga bastante.
      O que estamos comparando aqui Tomando emprestado o exemplo da “larva de mosca” de Fereira Gullar por mais que tenha um conceito aseado em estudos etc etc… toda uma explicação pra existencia dela ali. Mas o que falta é poesia, o que falta é “arte” não consigo abrir a minha janela para que esta “alma” entre, não me diz nada… diferente da sensação que sinto ao estar diante da expressividade um trabalho de um “mestre” santeiro. Toda a baboseira ao redor do Urubus na Bienal, isso pra mim é golpe de marketing então isso não é arte. Quero que fique bem claro que não estou generalizando, algumas obras como por exemplo o penetravel de Henrique Oliveira – A Origem do Terceiro MUndo – http://www.henriqueoliveira.com/ Além do que não sou capacitado para ser crítico de arte apenas sou “público” “apreciador” e sensivel.
      Dai me deparo com uma exposição, indicada na matéria, com curadoria de um Ex Bienal, um acadêmico, um profundo conhecedor de arte e me diz aquilo que sinto, quase tive um orgasmo. Acho que a arte contemporânea já teve e já cumpriu o seu papel e ela tem que abrir espaço pra uma nova e realmente “contemporânea” forma de ver a arte.
      Ah… eu não gosto de usar o termo Naif e sim Arte Popular é mais digno dada a sua dimensão – ver artigo neste Blog: http://jeffcelophane.wordpress.com/2010/09/01/bienal-naifs-do-brasil-2010/
      Um abraço

  4. Jeff acho a arte contemporanea muito mais dificil de realizar por isso tanta porcaria. Por acaso vc viu o Waltercio Caldas aqui no Rio? simplesmente maravilhosa, nao eh pra qualquer um, o cara tem que ter muita arte na veia. To lendo um livro bem legal sobre esse assunto: Desconstruir Duchamp, do Affonso Romano de Sant’ Anna, se vc jah nao leu acho que vai gostar. bjks e saudades

    • Vanessa, que coisa boa receber um comentário seu, to vendo que só as feras estão me visitando, obrigado mesmo.
      Já vi uma ou outra obra do Waltercio Caldas, procurei o site dele pra lembrar: http://www.walterciocaldas.com.br e exatamente este tipo de trabalho que ele nos apresenta que não consegue tocar a minha emoção, a minha sensibilidade, a minha vontade de me aprofundar sobre o trabalho e o artista. São obras que precisam de um conceito acompanhado, uma monitoria ou uma legenda para tocarem o visitante. Desculpe mas são visões distintas sobre o que é realmente arte. Vou procurar o livro pra ver se “desconstruo” a minha opinião. Bjus e saudades grandes.

  5. Gostaria de compartilhar alguns mails enviados com opiniões sobre o assunto “esquentando” um pouco mais a discussão:

    Caro Jeff:

    Obrigado por suas gentis palavras. Li o seu blog. Excelente as citações do Gullar, sempre lúcido e corajoso. Permita-me apenas alguns comentários: pra mim Aberaldo, Zé Bezerra, Veio, são apenas pau pra fogueira de São João. Esse negócio de ter que justificar a arte popular numa interface com a contemporânea reflete um sentimento de inferioridade do qual não compartilho. E olhe, essa bienal não revela ninguém, serve apenas de vitrine para pintorecos de praça e nomes sem envergadura alguma. Sempre fui contestador desse certame, que desperdiça uma enorme soma de dinheiro. É a única coisa mal feita que o Sesc SP realiza, sob a brilhante batuta do Danilo. Por isso sou excluído, os curadores não nos visitam para colocar obras de nosso acervo, etc. Na versão passada o Olívio Tavares teve que dizer que desistiria de participar se não pudesse colocar obras procedentes da Brasiliana.

    Em minha opinião essa bienal é um desserviço da mesma categoria daquele museu (!?) que tem no Rio, ao pé do bondinho do Corcovado. Por isso vamos tocando a vida e fazendo questão de não mudar nosso ponto-de-vista. E essa história de “Imaginário” tb não me convence. Que história é essa de “arte do imaginário”? Todas as formas de arte o são, na verdade. E mais do que todas o surrealismo e a arte psicodélica. Na verdade a turma tem medo de falar de arte popular, pois povo é pra ficar na cozinha, não pode ser recebido na sala. Se entrar, é com um terninho emprestado pela arte contemporânea. Veja no nosso site a entrevista que demos para a Revista Raiz — “O Marchand da Resistência”.

    Mas, de qq maneira, o teu esforço é oportuno, e te parabenizo pela sinceridade e pela visão.

    Um grande abraço do

    R. Rugiero

  6. Mail enviado por Amauri Marques sobre a matéria

    Entendo, Jeff…
    na verdade, vc está mais aprofundado nesta discussão de valores e compreensão desta situação junto aos críticos aqui do Brasil. Entendi!
    De fato, há “obras” que não tem alma… um professor certa vez explicou que o artista é o poeta que transmite, visualmente, o que o povo sente, pensa, gostaria de dizer e não sabia dizer daquela maneira (naquela época, lembrei demais do Roberto Carlos – kkkk!!! -pode parecer caretice, mas Roberto, CHico e alguns outros conseguiam falar o que as pessoas diziam sem que elas soubessem como dizer, sabe??)… Então, o Ser Artista é um veículo de comunicação entre o povo e esse momento que o povo vive, e que usa a arte como meio de expressão para dar corpo, vida e alma para uma discussão e a superação dessa questão… Então, todo Ser Artista, antes de pensar nos críticos de Arte, nos curadores malucóides, deveria exatamente se embrenhar no povo, na alma popular de sua cultura… e daí vem toda a força de expressão que vc encontra no trabalho desses artistas que conhecemos como Populares… sim, nos falta um crítico com esta visão de arte…. será que a gente se lança??? Abs!!!!

    Amauri.

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