O Profeta da “Gentileza”

O Celophane Cultural conta a história de um profeta urbano, ele nos encantou antes de sua morte com seus ensinamentos suas andanças pelo centro do Rio dando flores e suas profecias eternizadas nas pilastras do cemitério do Caju até  Rodoviária do Rio de Janeiro. Sua palavra nos faz pensar até hoje o quanto o simples ato de dar Gentileza… pode gerar Gentileza  principalmente nos tempos de tanta violência no nosso dia a dia.  Esta é a história de José Datrino ou como ficou eternizado O Profeta Gentileza.

Detalhe da Grafia criada pelo profeta gentileza, cheia de significados. fonte Museu Virtual Gentileza

Desde Criança fui atraído pelos seus murais pintados em verde e amarelo, quando passava de ônibus pela Rodoviária. Conheci mais profundamente sua história quando fui convidado pela Designer Vanessa Bittencout, para montar a Exposição: “A Arte Mural do profeta Gentileza” na UFRJ com produção de Ana Cunha.

Fotos da Exposição

“Quem é esse cavaleiro andante, em plena cidade contemporânea, a conduzir seu estandarte cheio de apliques, metendo-se pelos lugares, a levar sua palavra? De início, chega-nos sua estranheza, seu “deslocamento”, antes, até de sua gentileza. Vê-lo com sua bata branca pela rua é ter contato com uma figura que nos parece extemporânea. Não de um futuro, mas de uma voz que ecoa, bizarramente, um sagrado que não se mostra mais.”

“Brasil Tempo de Gentileza” – Leonardo Guelman

Imagem em close do profeta com sua "táboa Estandarte" com inscrições proféticas - fonte "Rio com Gentileza"

A Gentileza desde sua Infância

Nascido em 11 de abril de 1917, em Cafelândia, interior de São Paulo, com mais nove irmãos, José Datrino teve uma infância de muito trabalho, onde lidava diretamente com a terra e com os animais. Para ajudar a família, puxava carroça vendendo lenha nas proximidades. Desde cedo aprendeu a amar, respeitar e agradecer à natureza pela sua infinita bondade. O campo ensinou a José Datrino a amansar burros para o transporte de carga. Tempos depois, como profeta Gentileza, se dizia “amansador dos burros homens da cidade que não tinham esclarecimento”. Desde sua infância José Datrino era possuidor de um comportamento atípico. Por volta dos doze anos de idade, passou a ter premonições sobre sua missão na terra, onde acreditava que um dia, depois de constituir família, filhos e bens, deixaria tudo em prol de sua missão. Este comportamento causou preocupação em seus pais, que chegaram a suspeitar que o filho sofria de algum tipo de loucura, chegando a buscar ajuda em curandeiros espíritas.

A Vinda para o  Rio de Janeiro.

Aos vinte anos foi para o estado do Rio de Janeiro, enquanto sua família mudava-se para Mirandópolis, também cidade do interior de São Paulo. No Rio de Janeiro, casou com Emi Câmara com quem teve cinco filhos. Começou sua vida de empresário com um pequeno empreendimento na área de transportes, onde fazia fretes para o sustento da família. Aos poucos, o negócio foi crescendo até se tornar uma transportadora de cargas sediada no centro da cidade.

Surge um Profeta das cinzas

No dia 17 de dezembro de 1961, na cidade de Niterói, quando tinha 44 anos, houve um grande incêndio no circo “Gran Circus Norte-Americano“, o que foi considerado uma das maiores tragédias circenses do mundo. Neste incêndio morreram mais de 500 pessoas, a maioria, crianças.

Capa do Jornal do Brasil anunciando a tragédia - fonte arquivo JB

Na antevéspera do natal, seis dias após o acontecimento, José acordou alucinado ouvindo “vozes astrais“, segundo suas próprias palavras, que o mandavam abandonar o mundo material e se dedicar apenas ao mundo espiritual. O Profeta pegou um de seus caminhões e foi para o local do incêndio. Plantou jardim e horta sobre as cinzas do circo em Niterói, local que um dia foi palco de tantas alegrias, mas também de muita tristeza. Aquela foi sua morada por quatro longos anos. Lá, José Datrino incutiu nas pessoas o real sentido das palavras “Agradecido” e “Gentileza”. Foi um consolador voluntário, que confortou os familiares das vítimas da tragédia com suas palavras de bondade. Daquele dia em diante, passou a se chamar “José Agradecido“, ou simplesmente “Profeta Gentileza”.

O nome de “Profeta Gentileza” foi ganho porque vivia pregando o amor, a paz e pedia  sempre “por gentileza”. Jamais dizia a palavra “Obrigado”, pois dizia que obrigado vinha de obrigação e preferia dizer “agradecido”.

Profeta exibindo sua táboa/estandarte com inscrições e todo enfeitado com Flores, ramos e cataventos. Foto acervo Claudio Rocha

Após deixar o local que foi denominado “Paraíso Gentileza”, o profeta Gentileza começou a sua jornada como personagem andarilho. A partir de 1970 percorreu toda a cidade. Era visto em ruas, praças, nas barcas da travessia entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói, em trens e ônibus, fazendo sua pregação e levando palavras de amor, bondade e respeito pelo próximo e pela natureza a todos que cruzassem seu caminho. Aos que o chamavam de louco, ele respondia: – “Sou maluco para te amar e louco para te salvar“.

Os murais que eternizaram suas profecias.

A partir de 1980, escolheu 56 pilastras do Viaduto do Caju que vai do Cemitério do Caju até a Rodoviária Novo Rio, numa extensão de aproximadamente 1,5km. Ele encheu as pilastras do viaduto com inscrições em verde-amarelo propondo sua crítica do mundo e sua alternativa ao mal-estar da civilização.

O Profeta sorridente sobre a escada pintando seus murais. Foto Acervo Claudio Rocha

Gentileza e seus murais promoveu uma das maiores intervenções urbanas de arte na cidade do Rio de Janeiro.

Durante a Eco-92, o Profeta Gentileza colocava-se estrategicamente no lugar por onde passavam os representantes dos povos e incitava-os a viverem a Gentileza e a aplicarem Gentileza em toda a Terra.

TRanscrição dos Escritos de Gentileza

O profeta sempre com seus passos largos e determinados - Acervo Claudio Rocha

O profeta vai pro céu, encontrar Deus

Em 29 de maio de 1996, aos 79 anos, faleceu na cidade de seus familiares, onde se encontra enterrado, no “Cemitério Saudades”.

Com o decorrer dos anos, os murais foram danificados por pichadores, sofreram vandalismo, e mais tarde cobertos com tinta de cor cinza. Com ajuda da prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, foi organizado o projeto Rio com Gentileza, que teve como objetivo restaurar os murais das pilastras.

foto da restauração dos murais - fonte: Rio com Gentileza

Começaram a ser recuperadas em janeiro de 1999. Em maio de 2000, a restauração das inscrições foi concluída e o patrimônio urbano carioca foi preservado.

DEcreto da Prefeitura do Rio tornando os Murais patrimônio histórico da Humanidade.

 

O Universo do Gentileza vira livro

No final do ano 2000 foi publicado  o livro UNIVVVERRSSO GENTILEZA, do professor Leonardo Guelman. A obra introduz o leitor no “universo” do profeta Gentileza através de sua trajetória, da estilização de seus objetos, de sua caligrafia singular e de todos os 56 painéis criados por ele, além de trazer fatos relacionados ao projeto Rio com Gentileza e descrever as etapas do processo de restauração dos escritos. O livro é ricamente ilustrado com inúmeras fotografias, principalmente do profeta e de seus penduricalhos e painéis. Além de fotos do próprio profeta Gentileza trabalhando junto a algumas pilastras, existem imagens dos escritos antes, durante e após o processo de restauração.

Capa do Livro: UNIVVVERRSSO GENTILEZA Leonardo Guelman

Livro: UNIVVVERRSSO GENTILEZA – Leonardo Guelman
Ed. Mundo das Idéias

Fonte Museu virtual Gentileza

Fonte: Rio com Gentileza

Fonte: Blog Gentileza gera Gentileza

Video:

Gentileza – Documentário de Dado Amaral e Vinicius Reis

Diz assim a música Gentileza”, de Mariza Monte

que integra o CD Memórias, Crônicas e Declarações de Amor:

Foto do profeta com sua táboa estandarte - fonte: Rio com Gentileza

Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
A palavra no muro
Ficou coberta de tinta

Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras
E as palavras de Gentileza
Por isso eu pergunto
A vocês no mundo
Se é mais inteligente
O livrou ou a sabedoria

O mundo é uma escola
A vida é o circo
Amor palavra que liberta
Já dizia o profeta.


 

 

 

 

 

Aprendemos sempre com estes sábios representantes populares que acreditam que a humanidade tem jeito e pode ser gentil pra receber “Gentileza” em troca. Que ele seja sempre lembrado nos momentos em que esquecemos de ser “humanos” e “gentis”.

Até o proximo Celophane Cultural

JeffCelophane | Jefferson Duarte

 

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O Brasil é “negro” e com muito orgulho.

É sempre muito importante lembrar o quanto “negro” é o Brasil, miscigenado no meio do sofrimento, com os que aqui moravam e os que aqui vieram colonizar. Assim se gerou o povo Brasileiro esse “Macunaima” de Mário de Andrade.

Somos negros nos sabores de nossa comida, no sincretismo, no gingado e jeito de ser do brasileiro, na musicalidade dos sambas, Batuques, Maracatus e Congados, na indiscutivel força de vontade de ir em frente, na beleza, nos cabelos sararás, nas virtudes, na bondade, na alegria, na sabedoria, no respeito ás tradições que atravessaram o mundo. Sim somos Negros e com muito orgulho.

” tratar os iguais com igualdade e os desiguais na medida de suas desigualdades é aplicação do princípio da igualdade. Propalar somente a igualdade formal não nos fará menos “sexistas”; nem menos “racistas”.

Rui Barbosa – trecho de “Oração aos Moços”

Dia da Consciência Negra

O dia 20 de novembro foi escolhido porque marca a morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, em Alagoas, importante foco de resistência da população negra escravizada que lutava por sua liberdade. Zumbi morreu em 1695, aos 40 anos. Após ser denunciado por um companheiro, ele foi capturado por portugueses, teve a cabeça cortada, e seu corpo exibido em praça pública para semear o medo entre os escravos e impedir novas revoltas e fugas.

Visitantes do Brasil e do exterior sobem anualmente a Serra da Barriga para conhecer a história do Quilombo dos Palmares - Foto: Regina Santos

O mês de novembro é utilizado pelo movimento negro para refletir, tornar público e ampliar as reivindicações de políticas necessárias para o combate ao racismo e a desigualdade racial. É também um mês de celebração das conquistas negras.

A militante negra Nilma Bentes define assim a idéia de consciência negra:

” Ter consciência negra, significa compreender que somos diferentes, pois temos mais melanina na pele, cabelo pixaim, lábios carnudos e nariz achatado, mas que essas diferenças não significam inferioridade.
Ter consciência negra, significa que ser negro não significa defeito, significa apenas pertencer a uma raça que não é pior e nem melhor que outra, e sim, igual.

Foto
Ter consciência negra, significa compreender que somos discriminados duas vezes: uma, porque somos negros, outra, porque somos pobres, e, quando mulheres, ainda mais uma vez, por sermos mulheres negras, sujeitas a todas as humilhações da sociedade.

Ter consciência negra, significa compreender que não se trata de passar da posição de explorados a exploradores e sim lutar, junto com os demais oprimidos, para fundar uma sociedade sem explorados nem exploradores. Uma sociedade onde todos tenhamos, na prática, iguais direitos e iguais deveres.
Ter consciência negra, significa sobretudo, sentir a emoção indescritível, que vem do choque, em nosso peito, da tristeza de tanto sofrer, com o desejo férreo de alcançar a igualdade, para que se faça justiça ao nosso Povo, à nossa Raça.
Ter consciência negra, significa compreender que para ter consciência negra não basta ser negro e até se achar bonito, e sim que, além disso, sinta necessidade de lutar contra as discriminações raciais, sociais e sexuais, onde quer que se manifestem. ”

Fonte: Blog História em Projetos

Site: Fundação Palmares

Cartaz da Secretaria de Politicas de Promoção da Igualdade Racial - 2010

Este ano a data marca os 100 anos da Revolta da Chibata liderada pelo Marinheiro João Candido.

Programação completa

Quem foi o Almirante Negro?

Nasceu em 24 de Junho de 1880, na então Província (hoje Estado) do Rio Grande do Sul, no município de Encruzilhada (hoje Encruzilhada do Sul), na fazenda Coxilha Bonita que ficava no vilarejo Dom Feliciano. Filho dos ex-escravos João Felisberto Cândido e Inácia Felisberto, apresentou-se em 1894 na Companhia de Artífices Militares e Menores Aprendizes no Arsenal de Guerra de Porto Alegre com uma recomendação de atenção especial, escrita por um velho amigo e protetor de Rio Pardo, o então capitão-de-fragata Alexandrino de Alencar, que assim o encaminhava àquela escola. Em 1895 conseguiu transferência para a Escola de Aprendizes de Porto Alegre, e em dezembro do mesmo ano, para a Marinha do Brasil, na capital, a cidade do Rio de Janeiro.

Desse modo, numa época em que a maioria dos aprendizes era recrutada pela polícia, João Cândido alistou-se com o número 40 na Marinha do Brasil em Janeiro de 1895, aos 14 anos de idade, ingressando como grumete a 10 de dezembro de 1895.

Em depoimento para a Anamnese do Hospital dos Alienados em abril de 1911 e para a Gazeta de Notícias de 31/12/1912, João Cândido afirma ter sido soldado do General Pinheiro Machado, na Revolução Federalista, em 1893, portanto antes de entrar para a escola de aprendizes.

Teve uma carreira extensa de viagens pelo Brasil e por vários países do mundo nos 15 anos que esteve na Marinha de Guerra. Muitas delas foram viagens de instrução, no começo recebendo instrução, e depois dando instrução de procedimentos de um navio de guerra para marinheiros mais novos e oficiais recém-chegados à Marinha.

A partir de 1908, para acompanhar o final da construção de navios de guerra encomendados pelo governo brasileiro, muitos marinheiros foram enviados à Grã-Bretanha. Em 1909 João Cândido também para lá foi enviado, onde tomou conhecimento do movimento realizado pelos marinheiros russos em 1905, reivindicando melhores condições de trabalho (a revolta do Encouraçado Potemkin).

Tornou-se muito admirado pelos companheiros marinheiros, que o indicaram por duas vezes para representar o “Deus Netuno” na travessia sobre a linha do equador, e muito elogiado pelos oficiais, por seu bom comportamento, e pelas suas habilidades principalmente como timoneiro. Era o marinheiro mais experiente e de maior trânsito entre marinheiros e oficiais, a pessoa indicada para liderar a revolta.

O movimento dos marinheiros da Marinha de Guerra

O uso da chibata como castigo na Armada brasileira já havia sido abolido em um dos primeiros atos do regime republicano, o decreto número 3, de 16 de Novembro de 1889, assinado pelo então presidente marechal Deodoro da Fonseca. Todavia, o castigo cruel continuava de fato a ser aplicado, a critério dos oficiais. Num contingente de 90% de negros e mulatos, centenas de marujos continuavam a ter seus corpos retalhados pela chibata, como no tempo da escravidão. Entre os marinheiros, insatisfeitos com os baixos soldos, com a má alimentação e, principalmente, com os degradantes castigos corporais, crescia o clima de tensão.

Já em 1893, na canhoeira Marajó, um contingente de marinheiros havia se revoltado contra o excesso de castigos físicos, exigindo a troca do comandante que abusava da chibata e outros suplícios. Na época, ainda não queriam o fim da Chibata, mas a troca do comandante do navio, para evitar abusos. Definitivamente, não era normal receber chibatadas. E, para piorar, os oficiais extrapolavam o limite de próprio regimento da Marinha, baseado num decreto que nunca foi publicado no Diário Oficial, que estabelecia a criação de Companhias Correcionais que poderiam indicar a punição de até 25 chibatadas, após a Abolição da Escravatura.

Ainda na Grã-Bretanha, e depois, ao retornarem ao Brasil, os marinheiros que lá estiveram para acompanhar a construção dos encouraçados Minas Gerais e São Paulo, iniciaram um movimento conspiratório com vistas a tomar uma atitude mais efetiva no sentido de acabar com a Chibata na Marinha de Guerra.

As eleições presidenciais de 1910, embora vencidas pelo candidato situacionista marechal Hermes da Fonseca, expressaram o descontentamento da sociedade com o regime vigente. O candidato oposicionista, Rui Barbosa, realizou intensa campanha eleitoral, reforçando a esperança de transformações do povo brasileiro.

Esgotadas as tentativas pacíficas e propositivas dos marinheiros, incluindo uma audiência de João Cândido no Gabinete do presidente anterior, Nilo Peçanha, e na presença do ministro da marinha, Alexandrino de Alencar sem qualquer providência efetiva para o fim dos castigos físicos, os marinheiros decidiram que iriam fazer um motim pelo fim do uso da chibata em 25 de Novembro de 1910.

Entretanto, menos de uma semana após a posse do marechal Hermes da Fonseca, o marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes foi punido a 21 de Novembro com 250 chibatadas, que não se interromperam nem mesmo com o desmaio do mesmo, conforme noticiado pelos jornais da época, aplicadas na presença de toda a tripulação do Encouraçado Minas Gerais, nau capitânia da Armada. Este fato antecipou a data programada para o motim, de 25 para 22 de Novembro de 1910.

Revolta da Chibata

No dia 22 de novembro de 1910, João Cândido deu início ao levante, assumindo o comando do Minas Gerais, pleiteando a abolição dos castigos corporais na Marinha de Guerra brasileira. Foi designado à época, pela imprensa, como Almirante Negro.

Marinheiros durante a Revolta da Chibata, com João Cândido ao centro, em 1910

Por quatro dias, os navios de guerra Minas Gerais, São Paulo, Bahia e Deodoro apontaram os seus canhões para a Capital Federal. No ultimato dirigido ao Presidente Hermes da Fonseca, os revoltosos declararam:

Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira“.

A rebelião terminou com o compromisso do governo federal em acabar com o emprego da chibata na Marinha e de conceder anistia aos revoltosos. Entretanto, no dia seguinte ao desarmamento dos navios rebelados, o governo promulgou em 28 de novembro um decreto permitindo a expulsão de marinheiros que representassem risco, o que era um nítida quebra de palavra, uma traição do texto da lei de anistia aprovada no dia 25 pelo Senado da República e sancionada pelo presidente Hermes da Fonseca. Alguns marinheiros começaram a ser afastados da Marinha, aparentemente em comum acordo, para o bem de todos.

Jornal que exibia a falsa anistia - fonte: http://feirapreta.ning.com/

Banido da Marinha, João Cândido sofreu grandes privações, vivendo precariamente, trabalhando como estivador e descarregando peixes na Praça XV, no centro do Rio de Janeiro.

De acordo com a sua ficha, nos quinze anos em que permaneceu na Marinha, foi castigado em nove ocasiões, preso entre dois a quatro dias em celas solitárias “a pão e água”, além de ter sido duas vezes rebaixado de cabo a marinheiro. A sua ficha registra ainda dez elogios por bom comportamento nos últimos três meses antes da revolta.

A sua vida pessoal foi profundamente abalada pelo suicídio de sua segunda esposa (1928). Em 1930 foi novamente detido, acusado de subversão.

Discriminado e perseguido pela Marinha até ao fim de sua vida, se recolheu no município de São João de Meriti. Ali em sua casa passou mal e foi levado ao Hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, onde viria a falecer de câncer, pobre e esquecido, em 6 de dezembro de 1969, aos 89 anos de idade.

João Candido pouco antes de seu falecimento.

Fonte: Wikipedia

Leia matéria da Revista História da Biblioteca Nacional

Video Vídeo da Rede Histórica – Revolta da chibata 100 anos – Globo News

Xilogravura, a madeira entalhada com a poesia Nordestina.

Ariano Suassuna disse sentir na gravura popular o que mais lhe agradava: o real transfigurado pelo poético, o real como mero ponto de partida, o achatamento geral da gravura pela ausência de profundidade, pela falta de tons entre o claro-escuro e pela falta de perspectiva, assim como a predominância do traço limpo, puro e forte contornando as figuras. Ele próprio é de opinião que a gravura e a literatura populares nordestinas representam um dos mais autenticamente brasileiros trabalhos de criação.

"Moça roubada" - J Borges - Galeria Brasiliana

Primeiros Traços – Em setembro de 1907, o Nordeste via surgir a gravura nos livretos de literatura popular em versos, ou simplesmente literatura de cordel. Ela ilustrava A História de Antônio Silvino, folheto editado por Francisco das Chagas Rodrigues, na Imprensa Industrial do Recife.

Em 1907 surge no Recife pela primeira vez a xilogravura no cordel. estampa de Antônio Silvino - Acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa.

No começo do século, quando o cangaço inquietava as populações do interior, surgiu um folheto de poesia da chamada literatura de cordel, contendo A greve da estrada de ferro e A história de Antônio Silvino (novas arruaças). Pelos assuntos, percebe-se que os acontecimentos narrados eram muito recentes, de acordo com a linha habitual dessa espécie de publicações, de uma atualidade quase jornalística. Portanto, é de presumir-se, com certeza, que o folheto é anterior a 1914, ano da prisão do famoso cangaceiro. Na capa, vê-se uma gravura reproduzindo a figura de Silvino em corpo inteiro, chapéu de couro, facão na cintura e nas mãos um bacamarte. Era o primeiro ponto de atração para o comprador analfabeto e até para o letrado, revelando a perspicácia do editor em utilizar como ilustração do folheto uma linguagem gráfica do próprio homem do povo, tão ao sabor da poesia.

A Origem no Mundo:

A xilogravura – arte de gravar em madeira – é de provável origem chinesa, sendo conhecida desde o século VI. No Ocidente, ela já se afirma durante a Idade Média, através das iluminuras e confecções de baralhos. Mas até ai, a xilogravura era apenas técnica de reprodução de cópias. Só mais tarde é que ela começa a ser valorizada como manifestação artística em si. No século XVIII, chega à Europa nova concepção revolucionária da xilografia: as gravuras japonesas a cores. Processo que só se desenvolveu no Ocidente a partir do século XX. Hoje, já se usam até 92 cores e nuanças em uma só gravura.

O entalhe da madeira

As matrizes para impressão das ilustrações são talhadas, quase sempre, na madeira da cajazeira , matéria-prima mole, fácil de ser trabalhada e abundante na região Nordeste do Brasil.

Os xilogravuristas utilizam apenas um canivete ou faca doméstica bem amolados.

“Em toscos pedaços de madeira, o artista popular nordestino construiu a mais rica e instigante expressão plástica da cultura brasileira. De pouca leitura, o artista usou a técnica milenar da xilogravura para retratar o seu mágico universo, onde anjos se misturam com demônios, beatos com cangaceiros, princesas com boiadeiros, todos envolvidos nas crenças, esperanças, lutas e desenganos da região mais pobre do país.

A aridez inclemente de todas as estações torna a paisagem sertaneja campo fértil para o fantástico. “Dentro da paisagem real, marcada por contrastes sociais, em que a maior sede é de justiça, os seres sofridos, desprezados e perseguidos encontram nos traços do gravador popular o campo para se transfigurarem em heróis e hóspedes de um mundo melhor.”

Jeová Franklin , curador da exposição: 100 anos da Xilogravura
(Xilogravura popular na literatura de cordel. Brasília: LGE, 2007)

Fontes:

O Conterrâneo – Banco do Nordeste

Exposição 100 anos da Xilogravura no cordel

O Cordel

A popularização da Xilogravura veio com a Literatura de cordel: um tipo de poema popular, originalmente oral, e depois impressa em folhetos, expostos para venda pendurados em cordas ou cordéis, o que deu origem ao nome originado em Portugal, que tinha a tradição de pendurar folhetos em barbantes. No Nordeste do Brasil, o nome foi herdado (embora o povo chame esta manifestação de folheto), mas a tradição do barbante não perpetuou.  São escritos em forma rimada e alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, o mesmo estilo de gravura usado nas capas. As estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações muito empolgadas e animadas para conquistar os possíveis compradores.

Em 2007 a Exposição “100 anos de Cordel – a história que o povo conta” com curadoria de Audálio Dantas mostrou que ao contrário do que se imagina, a literatura popular se mantém viva, e com muito vigor no Brasil, apropriando-se em alguns casos das novas tecnologias . Destaca também a presença de poetas populares nos grandes centros urbanos, onde continuam a produzir, não deixando se perder, entretanto, a cultura de origem.

Exposição 100 anos de Cordel - Curadoria de Audálio Dantas - Expografia Jefferson Duarte

Fotos: 100 ANOS DE CORDEL

SESC Pompéia – SP

Cordéis pendurados nas cordas - fonte Wikpédia

Os mestres:

Mestre Noza

O precursor da xilogravura decorativa

Inocêncio Medeiros da Costa ou Inocêncio da Costa Nick era do grupo de “santeiros do Padre Cícero”. Nascido em Pernambuco, em 1897, mudou-se para Juazeiro do Norte aos 15 anos. Foi o primeiro artista a ser publicado em álbum de gravuras populares brasileiras com a seqüência da Via Sacra, em Paris (1965) e a trabalhar por encomenda para um produtor cultural.

Página de cordel do Mestre Noza - Fonte: http://mestrenoza.blogspot.com/

Foto do Mestre Noza em seu atelier - por Mgorete

Xilogravura de Antonio Silvino

J Borges

Nascido em Pernambuco, em 1935, é patriarca de um clã de xilogravadores. Diz que tudo que aprendeu deveu-se ao medo de cortar cana. Estudou somente dez meses em escola. Agricultor, pintor, carpinteiro, fabricante de brinquedos, poeta, foi ser cordelista, ilustrar, imprimir e vender seus próprios folhetos. Obteve reconhecimento nacional e internacional e é hoje o mais conhecido xilogravador nordestino.

J. Borges em seu ateliê de xilogravura no Memorial J. Borges em Bezerros, Pernambuco - foto: Mais Cultura

Mãe da Lua de Abraão Batista

A Arte da xilogravura se mantém viva até os dias atuais gerando novos artistas com trabalhos impressionantes destaco aqui dois jovens que gosto muito do trabalho criado por eles:

Eduardo Ver

que está com uma exposição “O Tear Castanho de Eduardo Ver” –  Atelier Piratininga

Xilogravura que está na exposição de Eduardo Ver

Fernando Vilela:

Site Fernando Vilela

Imagens do livro de Fernando Vilela

Teia de Cordéis

A partir de Março de 2011, romances, personagens históricos, operetas, manuais, autos, hinos, elegias, canções, sátiras e muitos outros elementos serão encontrados no Museu de Arte Popular do Recife, através de um passeio por uma parte da coleção de cordéis portugueses do pesquisador Arnaldo Saraiva, professor da Universidade do Porto.

Museu de Arte Popular

Fundação Casa de Rui Barbosa

UM abraço cultural a quem me acompanha

Jefferson Duarte | JeffCelophane

A Arte Popular sobre as águas do Velho Chico

Sim um Barco-Museu é a mais nova atração em Alagoas e Sergipe. Uma inicativa unica, idealizada e posta em prática pelos artistas: Dalton e Maria Amélia. O Museu sobre as águas vai flutuar, levando Arte Popular, sobre um dos mais celebres, curiosos e encantados rios brasileiros: O Velho Chico.

O barco-museu Santa Maria estará percorrendo as águas do rio São Francisco levando exposição de cultura popular, exibição de vídeos e oficinas de arte-educação para cerca de 10 mil moradores ribeirinhos de cidades e povoados de Alagoas e Sergipe.

Imagem do barco Museu sobre o rio

O projeto “O Museu no Balanço das Águas é uma realização da Galeria Karandash – Arte Contemporânea, com o patrocínio do Programa BNB de Cultura Edição 2010 parceria BNDES e apoio do Sebrae-AL, Sesc-AL e das prefeituras por onde a embarcação vai passar.

A viagem cultural do barco-museu Santa Maria começou na Ilha do Ferro (Pão de Açúcar), onde foi montada a exposição “Fernando Rodrigues – O Guardião de Memórias”, em homenagem ao artista e designer morto ano passado.

EScultura de Fernando Rodrigues O Guardão das Memórias em madeira

A embarcação também ganhou carranca (escultura) do artista Veio, o Marinheiro do escultor Resendio e os cataventos de mestre Zezinho.

Carranca criada por "Véio" especialmente para o museu.

Enfeitado e lotado de cultura, o Santa Maria inicia a jornada com paradas nos municípios alagoanos de Pão de Açúcar, Traipu e Belo Monte; atravessa o rio e vai para a margem sergipana, atracando em Porto da Folha, Ilha do Ouro e Niterói.

Em cada local, a comunidade é convocada para visitas guiadas ao barco-museu, assistir vídeos sobre os artistas da região e participar das oficinas de pintura, desenho, escultura e instalações com arte-educadores e professores das escolas públicas das cidades. A intenção é que 1500 crianças e adolescentes da rede pública de ensino participem das atividades.

“O barco-museu, além de possibilitar acesso às manifestações artísticas nas mais variadas linguagens, dentro da diversidade cultural, será um instrumento importante também na comunicação entre os povoados e entre os seus moradores, estreitando laços, revelando talentos e permitindo a troca de saberes, inclusive na proteção ambiental e na valorização patrimonial”, ressalta Maria Amélia, que assina o projeto com o também artista Dalton Costa.

IMagem aérea do barco com as enormes esciulturas anexadas á estrutura da embarcação.

Os "barqueiros" Dalton e Maria Amélia os criadores e responsáveis pelo projeto

Com a sede de conhecer e vivenciar a riqueza da arte popular do interior do Nordeste do Brasil, os artistas falam de uma experiência fantástica. “Numa dessas viagens, saboreando postas de piau com farofa, numa velha embarcação de passageiros do Baixo São Francisco, entre Pão de Açúcar e Ilha do Ferro, nosso olhar se perdeu em algo muito maior do que as nossas necessidades de artistas e colecionadores. Tivemos a grata experiência de olhar além do rio as comunidades ribeirinhas, afastadas dos grandes centros, algumas sem nenhuma comunicação, crianças brincando em suas margens, os cantos das lavadeiras com suas roupas coloridas, o batuque dos lençóis ensaboados nas pedras, os solitários pescadores em seus pequenos barcos, a paisagem mágica e desoladora, enfim, estávamos dentro de um Brasil que não conhecíamos com profundidade. Nossos corações inquietos buscavam muito mais do que os estímulos para nossa arte. Ali nascia a ideia de troca, de intercâmbio, de comunicação entre dois mundos. O mundo das grandes cidades e dos povoados de um Brasil esquecido. Nascia ali um barco-museu batizado pelo talentoso estudioso de literatura Roberto Sarmento de O MUSEU NO BALANÇO DAS ÁGUAS”. Nessa poesia, Dalton e Maria Amélia reverenciam o amor pela arte e pelo povo nordestino.

Fonte:  www.baratelli.com.br

Terminadas as viagens, explica Maria Amélia, o barco-museu não será desmontado. Pelo contrário. Sua nova vocação é permanente e ficará atracado no município de Pão de Açúcar, podendo ser palco de várias ações educativas e culturais.
“É um equipamento cultural à disposição das regiões afastadas dos grandes centros, que irá possibilitar o acesso e a inclusão dessas comunidades aos bens culturais de um modo geral”.

O São Francisco e suas Carrancas

Já não se encontram mais nas proas das embarcações são – franciscanas as célebres carrancas – uma das mais genuínas e enigmáticas manifestações da arte popular brasileira -, cuja forma predominantemente zooantropomorfa se mostra de uma originalidade sem similar na história das navegações.

Mesclando detalhes humanos com os de animais, destes, sobretudo a generosa cabeleira à semelhança de uma juba de leão, elas apresentam em geral uma expressão de ferocidade. São feitas de um único tronco de madeira e retratam apenas a cabeça e o pescoço de alguma figura mitológica indeterminada.

As primeiras referências às carrancas datam de 1888 em livros de Antônio Alves Câmara e Durval Vieira de Aguiar. As carrancas eram construídas a princípio com um objetivo comercial, pois a população ribeirinha dependia do transporte de mercadorias pelo rio, e os barqueiros utilizavam as carrancas para chamar a atenção para sua embarcação. Em certo momento, a população ribeirinha passou a atribuir características místicas de afugentar maus espíritos às carrancas. Esta atribuição colocava em segundo plano o aspecto artístico da produção das carrancas, ou seja, como forma de manifestação cultural popular de uma região brasileira.

Especial Velho Chico no site Jangada Brasil:

Universalidade

É difícil determinarmos a sua real origem, devido à sua universalização. Os selvagens adaptavam uma espécie de maraca na extremidade de seus barcos que serviam para conduzir os guerreiros ao combate. No Egito antigo, tais figuras eram por demais populares no rio Nilo; e nas regiões do Congo e da Guiné tornaram-se inconfundíveis pelo aspecto ornamental.

A primeira figura de proa de que se tem conhecimento teria sido uma criação dos Argonautas e representa a efígie de Argos. Aproveitaram, inicialmente, como idéias, criaturas humanas ou entidades fantásticas.

Os gregos exibiam sua mais famosa figura mitológica – Vênus, enquanto cartagineses e latinos esculpiam aves; mais tarde, ingleses e espanhóis difundiram largamente essas figuras, dando-lhes, os últimos, um cunho religioso.

Proteção

É provável que as carrancas das barcas do rio São Francisco tenham advindo do Mediterrâneo, sob a influência de portugueses e espanhóis. Possuem igual caráter religioso, porém ora de fundo fetichista, ora de fundo católico. Sua função é proteger a embarcação e os seus tripulantes dos inimigos que podem estar ocultos nas águas do rio.

As carrancas são entalhadas em madeira, recebendo depois um colorido quase grotesco. O leão e o cavalo são os animais preferidos para a representação, uma vez que os elementos marinhos são desconhecidos nos rios.

O fato mais importante, no entanto, a se assinalar é que elas se encontram correlacionadas ao ciclo pastoril em nosso país com marcante tipo de escultura.

(Saldanha, Maria Emília F. “Leões e cavalos garantem proteção aos barqueiros do São Francisco”. O Globo, Rio de Janeiro, 18 de julho de 1968)

Viagem conosco nesta aventura cultural sobre este Velho rio cheio de costumes e mistérios. Conheça o melhor da arte ribeirinha. Fonte: acessoria de Imprensa  do “Balanço nas águas”:

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