Xilogravura, a madeira entalhada com a poesia Nordestina.

Ariano Suassuna disse sentir na gravura popular o que mais lhe agradava: o real transfigurado pelo poético, o real como mero ponto de partida, o achatamento geral da gravura pela ausência de profundidade, pela falta de tons entre o claro-escuro e pela falta de perspectiva, assim como a predominância do traço limpo, puro e forte contornando as figuras. Ele próprio é de opinião que a gravura e a literatura populares nordestinas representam um dos mais autenticamente brasileiros trabalhos de criação.

"Moça roubada" - J Borges - Galeria Brasiliana

Primeiros Traços – Em setembro de 1907, o Nordeste via surgir a gravura nos livretos de literatura popular em versos, ou simplesmente literatura de cordel. Ela ilustrava A História de Antônio Silvino, folheto editado por Francisco das Chagas Rodrigues, na Imprensa Industrial do Recife.

Em 1907 surge no Recife pela primeira vez a xilogravura no cordel. estampa de Antônio Silvino - Acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa.

No começo do século, quando o cangaço inquietava as populações do interior, surgiu um folheto de poesia da chamada literatura de cordel, contendo A greve da estrada de ferro e A história de Antônio Silvino (novas arruaças). Pelos assuntos, percebe-se que os acontecimentos narrados eram muito recentes, de acordo com a linha habitual dessa espécie de publicações, de uma atualidade quase jornalística. Portanto, é de presumir-se, com certeza, que o folheto é anterior a 1914, ano da prisão do famoso cangaceiro. Na capa, vê-se uma gravura reproduzindo a figura de Silvino em corpo inteiro, chapéu de couro, facão na cintura e nas mãos um bacamarte. Era o primeiro ponto de atração para o comprador analfabeto e até para o letrado, revelando a perspicácia do editor em utilizar como ilustração do folheto uma linguagem gráfica do próprio homem do povo, tão ao sabor da poesia.

A Origem no Mundo:

A xilogravura – arte de gravar em madeira – é de provável origem chinesa, sendo conhecida desde o século VI. No Ocidente, ela já se afirma durante a Idade Média, através das iluminuras e confecções de baralhos. Mas até ai, a xilogravura era apenas técnica de reprodução de cópias. Só mais tarde é que ela começa a ser valorizada como manifestação artística em si. No século XVIII, chega à Europa nova concepção revolucionária da xilografia: as gravuras japonesas a cores. Processo que só se desenvolveu no Ocidente a partir do século XX. Hoje, já se usam até 92 cores e nuanças em uma só gravura.

O entalhe da madeira

As matrizes para impressão das ilustrações são talhadas, quase sempre, na madeira da cajazeira , matéria-prima mole, fácil de ser trabalhada e abundante na região Nordeste do Brasil.

Os xilogravuristas utilizam apenas um canivete ou faca doméstica bem amolados.

“Em toscos pedaços de madeira, o artista popular nordestino construiu a mais rica e instigante expressão plástica da cultura brasileira. De pouca leitura, o artista usou a técnica milenar da xilogravura para retratar o seu mágico universo, onde anjos se misturam com demônios, beatos com cangaceiros, princesas com boiadeiros, todos envolvidos nas crenças, esperanças, lutas e desenganos da região mais pobre do país.

A aridez inclemente de todas as estações torna a paisagem sertaneja campo fértil para o fantástico. “Dentro da paisagem real, marcada por contrastes sociais, em que a maior sede é de justiça, os seres sofridos, desprezados e perseguidos encontram nos traços do gravador popular o campo para se transfigurarem em heróis e hóspedes de um mundo melhor.”

Jeová Franklin , curador da exposição: 100 anos da Xilogravura
(Xilogravura popular na literatura de cordel. Brasília: LGE, 2007)

Fontes:

O Conterrâneo – Banco do Nordeste

Exposição 100 anos da Xilogravura no cordel

O Cordel

A popularização da Xilogravura veio com a Literatura de cordel: um tipo de poema popular, originalmente oral, e depois impressa em folhetos, expostos para venda pendurados em cordas ou cordéis, o que deu origem ao nome originado em Portugal, que tinha a tradição de pendurar folhetos em barbantes. No Nordeste do Brasil, o nome foi herdado (embora o povo chame esta manifestação de folheto), mas a tradição do barbante não perpetuou.  São escritos em forma rimada e alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, o mesmo estilo de gravura usado nas capas. As estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações muito empolgadas e animadas para conquistar os possíveis compradores.

Em 2007 a Exposição “100 anos de Cordel – a história que o povo conta” com curadoria de Audálio Dantas mostrou que ao contrário do que se imagina, a literatura popular se mantém viva, e com muito vigor no Brasil, apropriando-se em alguns casos das novas tecnologias . Destaca também a presença de poetas populares nos grandes centros urbanos, onde continuam a produzir, não deixando se perder, entretanto, a cultura de origem.

Exposição 100 anos de Cordel - Curadoria de Audálio Dantas - Expografia Jefferson Duarte

Fotos: 100 ANOS DE CORDEL

SESC Pompéia – SP

Cordéis pendurados nas cordas - fonte Wikpédia

Os mestres:

Mestre Noza

O precursor da xilogravura decorativa

Inocêncio Medeiros da Costa ou Inocêncio da Costa Nick era do grupo de “santeiros do Padre Cícero”. Nascido em Pernambuco, em 1897, mudou-se para Juazeiro do Norte aos 15 anos. Foi o primeiro artista a ser publicado em álbum de gravuras populares brasileiras com a seqüência da Via Sacra, em Paris (1965) e a trabalhar por encomenda para um produtor cultural.

Página de cordel do Mestre Noza - Fonte: http://mestrenoza.blogspot.com/

Foto do Mestre Noza em seu atelier - por Mgorete

Xilogravura de Antonio Silvino

J Borges

Nascido em Pernambuco, em 1935, é patriarca de um clã de xilogravadores. Diz que tudo que aprendeu deveu-se ao medo de cortar cana. Estudou somente dez meses em escola. Agricultor, pintor, carpinteiro, fabricante de brinquedos, poeta, foi ser cordelista, ilustrar, imprimir e vender seus próprios folhetos. Obteve reconhecimento nacional e internacional e é hoje o mais conhecido xilogravador nordestino.

J. Borges em seu ateliê de xilogravura no Memorial J. Borges em Bezerros, Pernambuco - foto: Mais Cultura

Mãe da Lua de Abraão Batista

A Arte da xilogravura se mantém viva até os dias atuais gerando novos artistas com trabalhos impressionantes destaco aqui dois jovens que gosto muito do trabalho criado por eles:

Eduardo Ver

que está com uma exposição “O Tear Castanho de Eduardo Ver” –  Atelier Piratininga

Xilogravura que está na exposição de Eduardo Ver

Fernando Vilela:

Site Fernando Vilela

Imagens do livro de Fernando Vilela

Teia de Cordéis

A partir de Março de 2011, romances, personagens históricos, operetas, manuais, autos, hinos, elegias, canções, sátiras e muitos outros elementos serão encontrados no Museu de Arte Popular do Recife, através de um passeio por uma parte da coleção de cordéis portugueses do pesquisador Arnaldo Saraiva, professor da Universidade do Porto.

Museu de Arte Popular

Fundação Casa de Rui Barbosa

UM abraço cultural a quem me acompanha

Jefferson Duarte | JeffCelophane

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5 comentários sobre “Xilogravura, a madeira entalhada com a poesia Nordestina.

  1. Obrigado Jefferson pelo comentário.
    Muito legal a postagem no seu blog.
    Esperamos você na exposição.

    Abraço

    Pedro Pessoa
    Atelier Piratininga

  2. Show! Sou um cara apaixonado pelas artes em geral, mas tenho um apreço imenso pelo povo nordestino e por xilogravuras! Tamanha essa admiração que será minha próxima tattoo um desenho de xilogravura!
    Estou há dois anos e meio morando no Nordeste (26/8/11) e como sou amante das letras, escrevo e leio de tudo, não pude deixar de ter um enorme carinho com os cordéis!
    Adorei o site!
    Amplexos e muita inspiração!
    André Anlub

  3. Oi pessoal… Estou escrevendo um livro sobre a cultura sertaneja, e gostaria de usar algumas das imagens aqui contidas, para ilustrar a obra quando abordo o tema “Literatura de Cordel”. Gostaria de informações a respeito dos direitos das imagens, e a quem devo solicitar a autorização para reproduzir algumas delas no meu trabalho.
    Meu email: cezar.lmtl@hotmail.com
    lcezar36@hotmail.com.
    Agradeço e aguardo retorno.
    Cezar Carneiro. Historiador e Escritor

    • Caro Cezar Carneiro

      Cada imagem que publico tem o crédito isso para um blog funciona, mas para uma publicação
      você tem que procurar os autores e pedir as devidas autorizações. Não posso autorizar a publicação de uma imagem que não é minha.
      Eu apenas pego emprestado e coloco no Blog.
      Não tenho contato com nenhum deles apenas o Eduardo Ver que é um amigo pessoal aqui de SP.
      SE você fussar em cada autor na Net você consegue contato com eles.

      Boa sorte

      Jefferson Duarte.

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