Cruz de Beira de Estrada – a eternização da perda.

Quando fui a primeira vez na Paraíba e cruzei de bugre com um amigo a estrada que vai de João Pessoa a Campina Grande a fim de passar o maravilhoso São João (o maior do mundo), vi umas cruzes em casinhas minusculas na beira da estrada, a partir da terceira, a curiosidade aguçou: o que seria aquilo? ele prontamente me respondeu: “são as Cruzes de Estrada, pequenas homenagens dos familiares ou amigos e representam as pessoas que naquele local morreram em acidentes ou assassinadas”.

Foto Cruz sob uma capela no meio do sertão: autoria de Maria Hsu - http://www.flickr.com/photos/mariahsu

São pequenas e tradicionais cruzes, muitas vezes em madeira crua ou pintada, sustentadas por um amontoado de pedras, ou são presas a um bloco de concreto, outras vezes ficam dentro de um oratório de cimento ou taipa. Algumas com flores outras abandonadas no meio do mato seco. Elas são levantadas pelo autor arrependido do crime, pelos familiares do morto ou erigidas por algum devoto que alcançou uma graça solicitada aos céus, aos pés da cruz e em pagamento ele constrói uma mais merecedora.

… Quando uma pessoa morre assim, caída da perversidade um malvado, o povo acredita que a alma dessa pessoa foi logo para o céu, e começa a fazer-lhe “promessas”: acende velas, e coloca flores no lugar em que se deu o crime; às vezes até se levantam capelinhas, onde o povo vem rezar…

As inscrições são feitas em pedaços de madeira de forma triangular no centro do cruzamento ou nos braços da cruz: “Aqui foi assassinado barbaramente o cristão…”

Casa de Taipa com cruz na beira da estrada, Penedo - Alagoas - 1965 : Acervo Digital da Fundação Joaquim Nabuco

Muitas vezes as cruzes são recheadas de mistérios e assombrações que a tornam num boca a boca um lugar sagrado que pode operar milagres. Quem passa por elas, em respeito, tira o chapéu, se benze ou faz uma pequena oração.
Em algumas delas os devotos depositam ex-votos, figuras esculpidas em madeira ou cera, geralmente representando partes do corpo, como testemunho público de gratidão, para pagamento de promessa ou em agradecimento a uma graça alcançada.

Ex-votos depositados nos pés da cruz da beira de estrada - Penedo - Alagoas - 1965 - Foto Acervo Digital da Fundação Joaquim Nabuco

Confesso que fiquei encantado com a diversidade de formas e tamanhos, interrompendo a monotonia da estrada. pra mim era uma novidade o importante sentido desta rica manifestação popular.

Cruzes marcam o local da morte de duas pessoas BR 262 - Foto: Leo Drumond - Projeto Beira de Estrada

Cruz marca o local da morte de um jovem de 25 anos na BR 116 que liga o Rio á Bahia - Foto: Leo Drumond - Projeto Beira de Estrada

Fiquei pensando que cada pequeno templo daquele, carrega uma história de dor e de perda, eternizado ali, disponibilizado a quem quiser prestar sua homenagem, aquela pequena cruz, por vezes abandonada no meio do mato, nos mostra, a cada Km, que devemos olhar cada vez mais pra o ser humano que morre por um assassinato ou uma desatenção deste outro ser humano, que conduz uma máquina de ferro assassina sem responsabilidade, sem respeito ao outro. Os milhares de motoristas que por ali passam, lembram a cada pequena cruz daqueles que ali encerraram de forma cruel as suas vidas. Esta é a intenção destas pequenas manifestações de fé popular.
Fico imaginando se aqui em nossas grandes metrópoles do Sudeste tivéssemos a mesma tradição, nossas estradas seriam cercadas de túmulos coloridos muito juntos, enfeitados de flores, como uma sinalização de transito celeste. Talvez nossa consciência se tornasse um pouco mais “humana”.
DOC TV – Cruz de Beira de Estrada

 

Fontes:

Matéria de Gilvaldar de Campos Monteiro, “Santa crus de beira de estrada“, publicada no Correio de Maceió, em 19 de julho de 1969 e republicada no Jangada Brasil

…”Pois com ela há de casar antes de ser degolado, pagando a ela e a Deus pelo teu crime e pecado — não me entrem na Igreja nem noutro lugar sagrado… mas na beira duma estrada, me pondo na cabeceira a sela do meu cavalo. Quem passar lá de jornada reze por mim desgraçado”…

Blog Overmundo por Joel Ribeiro: a cruz branca da estrada

“Guardou aquele álbum e retornou, um tanto triste, com duas fotos de um rapaz. Um rapaz de físico bem formado, talvez um metro e oitenta, por aí. Bochechas rosadas em derredor de um par de raros olhos azuis. Com a voz cinzelada de nítido sofrimento, disse – nos que aquele era o Renzo, seu filho caçula. Há dois meses, vindo de uma festa à noite, pilotando uma moto, perdera a vida. Lá no asfalto, ladeado de eucaliptos, um pouquinho antes de entrar na estrada para Panorama. Era o morto da cruz branca.”

Acervo Digital da FUNDAJ

Fotos do Projeto: “Beira de Estrada” de Leo  Drumond: Beira de Estrada

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A Cabaça, o fruto da diversidade brasileira

A riqueza da fauna brasileira e a criatividade popular encontram neste fruto, com formas tão originais, uma de suas expressões mais fascinantes. Como objeto do cotidiano, suporte de várias artes ou cheio de fundamentos religiosos, pode nos surpreender e emocionar com seus multiplos usos e sentidos, seja no artesanato, na musica, na cozinha, na religião ou nos brinquedos.

O Celophane Cultural convida você a conhecer o enorme universo da “Cabaça”

Úteis em casa e no trabalho, mágicos nos rituais, próprios pra fazer música e arte, prontos pra brincar, estes frutos são também bons pra pensar. Bons pra pensar o Brasil, as relações dos homens com os meios em que vivem, com os mundos que veem e representam, e os encontros e desencontros destes homens.

A divresidade de formas das cabaças secando no girau - foto: Pedro Martinelli

É o que se pretendo mostrar aqui, textos e imagens relacionadas à presença das cabaças no cotidiano de donas de casa, trabalhadores, músicos, artesãos, religiosos e brincantes – que, remetendo a um universo muito mais amplo de práticas e tradições culturais, convida ao entendimento da pluralidade cultural dos grupos sociais que vivem em solo brasileiro.

Conhecidos desde tempos ancestrais pelos nomes de cabaça, cuia, porongo, coité ou cuité, os frutos de espécies vegetais distintas, mas assemelhadas nos sistemas de pensamento e classificação populares, têm recebido múltiplos usos e sentidos ao longo dos séculos nas cinco regiões brasileiras, perdendo-se na história referências à época e ao local de origem dos cabaceiros (Crescentia lagenaria), porongos (Lagenaria vulgaris) e das cuieiras (Crescentia cujete) no país.

Pé de cabaça - Foto: Isabela Moura

No cenário cotidiano, como instrumento de trabalho e recipiente para líquidos e alimentos, na música, nos rituais, nas festas e brincadeiras, no artesanato tradicional e nas recriações de artesãos urbanos, entrecascas desses frutos multiformes constituem tanto objetos de uso corriqueiro quanto suportes de expressões que distinguem e identificam indivíduos e grupos da sociedade brasileira, num universo misto de referências culturais. Além disso, dão nomes a cidades, rios, praias, serras e lagoas de Norte a Sul, e estão amplamente presentes na tradição oral no Brasil.

A Influência Indigena

Os Indios tem uma grande influencia no uso da cabaça, como recipiente para água, cuia para servir ou guardar alimentos preparados, pequenas taças de uso ritual e na confecção de alguns instrumentos sonoros: a cabacinha com quatro furos; a buzina, na qual completa o gomo de taquara; no cinto de algodão, sob a forma de sininhos sem badalos que se chocam uns contra os outros, usado na cintura por corredores, amarrado abaixo do joelho ou socado contra o chão pelos cantores.

Mulher Tupinambá com criança, 1641-44 Albert Eckhout, Flandres (1610-1666) Óleo sobre madeira, 265 x 157 cm Museu Nacional da Dinamarca

Bons pra comer, beber e trabalhar

O que é que o homem faz e Deus não fez? A cuia, Deus só fez a cabaça.

Em casas ribeirinhas, indígenas e quilombolas do Brasil, os frutos dos cabaceiros, das cuieiras e dos porongos costumam ser partidos em vários formatos, esvaziados do miolo, polidos e, quem sabe, até tingidos e decorados com incisões de exímia precisão, para servir como baldes, coiós, bacias, copos, tigelas; ou como cuias de tomar água, tacacá, chibé e mingau, no Norte, ou chimarrão e teréré, no Sul e no Centro-Oeste. Desses mesmos frutos que são transformados em objetos para comer e beber, também se fazem instrumentos de trabalho de pescadores, seringueiros e produtores de farinha de mandioca, que partem suas bandas de cuia para levá-las aos rios, às florestas e casas de forno.

No Nordeste, das mesmas cabaças que armazenam e transportam água pelo sertão, cortam-se cuias que são usadas nas feiras como unidade de medida para pesar, comprar e vender itens como farinha e tapioca, além de líquidos. Nelas também se guardam as sementes do replantio, a nata pra fazer manteiga, mel e até peças de roupa.

NO Sul e no Centro Oeste do Brasil, é o fruto do porongo objeto de cuidados especiais e a grande atração das rodas de chimarrão e de tereré. Na forma do numero oito, cortados na parte de cima, furados e polidos com cera, prontos pra receber a erva mate com água morna ou fria, deles se fazem cuias que passam de mão em mão, sempre à direita, como manda o antigo ritual de sociabilidade dos mateadores.

Gaucho tomando chimarrão na tradicional cuia feita de cabaça - foto: http://zerguishow.blogspot.com/

O fruto que cura:

Além dos usos das cuias e cabaças como recipientes, registram-se vários outros, de carater medicinal. Desses frutos tudo se aproveita: da casca, preparam-se extratos contra os males do fígado; do miolo, que também serve como ração para o gado, fazem-se xaropes, usados como purgativo, expectorante e antitérmico, ou cataplasmas indicadas contra dores de cabeça.

Miolo do fruto que serve como medicamento - Foto: Francisco Moreira da Costa

A música que sai da cabaça:

Eu vou ler o B-A-BA /
O B-A-BA do berimbau /
A cabaça e o caxixi /
E um pedaço de pau /
A moeda e o arame, colega velho /
Está aí um berimbau
(ladainha de capoeira, de Mestre Pastinha)

De vários tamanhos e formatos, as cabaças e cuias prestam-se sobremodo à confecção de instrumentos de percussão, corda e sopro, tradicionais e ‘inventados’, como os chamam alguns artesãos contemporâneos. Atabaques, cuícas, bongôs, maracás, chocalhos, xequerês, djembês, calimbas, rabecas, cavaquinhos, violas, harpas, flautas, apitos, além de marimbas e berimbaus, são algumas das possibilidades de criação exploradas em diferentes expressões musicais brasileiras a partir desses frutos, cuja sonoridade marca também celebrações religiosas e profanas.

Berimbau instrumento que usa a cabaça na sua confecção - foto: Capoeira-berimbau-pandeiro _ ridim-br.mus.ufba.br

Frutos bons pra brincar:

Ô minha gente venha ver como é que é/
Coisa bem original da cidade de Abaeté/
Temos a cuia que se manda preparar/
Cana que se faz cachaça pra na cuia se tomar
(Dança da cuia, Nina Abreu).

Embora sejam objetos de amplo uso e de grande serventia cotidiana, as cuias e cabaças também viram brinquedos em vários lugares e são festejadas em diferentes celebrações populares: na dança da cuia, em Abaetetuba, e nos festejos do Çairé, em Santarém, no Pará; no bumba-meu-boi e no reisado de caretas, no Maranhão; nos bonecos do artesão Laurentino Rosa dos Santos, do Paraná; nos mamulengos de Pernambuco e do Ceará.

Bate, bate na cumbuca /
Que o congo vem aí /
É congo de Angola /
Quem manda é Pai Joaquim
(ponto de chamada do preto velho Pai Joaquim)

A cabaça como objeto ritual

Consideradas por diversos grupos humanos como elementos dotados de poderes especiais, as cuias e cabaças estão presentes num vasto conjunto de práticas rituais e tradições religiosas, de matrizes indígenas e africanas em especial, amplamente difundidas no Brasil. Inteiras ou cortadas em partes, ocas, preenchidas ou envoltas em palhas e contas, lisas ou decoradas com incisões, todas têm seus donos na Terra e nos outros mundos, e constituem objetos prenhes de significados ritualísticos que só podem ser integralmente compartilhados por iniciados que conhecem ‘o fundo da cabaça’. Entre o povo de santo, assim como entre povos indigenas, aqueles frutos chocalham sons que afastam espíritos e influências negativas, quando balançados por determinados agentes rituais, conhecedores das palavras e cânticos apropriados. Nas religiões afro brasileiras, a cabaça é igba, na terminologia nagô, que representa o universo, o masculino e o feminino; o simbolo da união de Obatalá e Oduduwá, o Céu e a Terra; o invólucro mágico das folhas curativas de Ossain, presentes nos assentamentos desse orixá; um item poderoso do azé de Omulu; o recipiente sagrado dos panos da costa, também conhecidos como panos de cuia, das oferendas, como o padê (farofa) de Exu, e de beberagens devotadas a entidades que ligam a terra dos homens ao mundo dos deuses. Em rituais caseiros, as cuias pitingas são preparadas especialmente para os banhos de cheiro, à base de ervas escolhidas por suas virtudes benfazejas, pra “fechar o corpo”  e “abrir os caminhos”.

Cerimônia do Ipadê de Exu onde a cabaça é um elemento essencial - Aquarela de Carybé

Vinho velho em garrafa nova, vinho novo em garrafa velha.

Substituíssemos garrafa por cabaça, e teríamos uma perfeita metáfora para a profusão de objetos criados no Brasil a partir desses frutos, tanto em comunidades artesanais tradicionais quanto por artistas plásticos urbanos. Assinalando a circularidade de elementos culturais que, sendo encontrados preferencialmente nas camadas populares, acabam ganhando espaço junto a outros segmentos sociais, a expressão é sugestiva da mobilidade de velhas tradições em novos espaços, bem como das novas criações em suportes antigos, como os frutos em questão.

poster do artista Robert Rivera para a exposição de seus trabalhos no México que mostra a diversidade de técnicas e formas que podem ser dadas á cabaças ou porongos - fonte: http://www.virginiacosta.com/

Cuias de Santarém – PA

Artesanato típico de Santarém e um dos ícones da identidade cultural do Pará, as cuias pintadas de Santarém passaram do anonimato a patrimônio cultural do Pará. Bonitas e coloridas, são feitas geralmente por mulheres. A participação dos homens acontece principalmente no processo de retirada do miolo do fruto.

Como toda cultura tem seu berço, o das cuias pintadas é a comunidade de Aritapera, situada às margens do rio Amazonas, em Santarém, Oeste do Pará. É na comunidade que, pelas mãos habilidosas de um grupo de mulheres, nascem peças do artesanato, nacionalmente conhecido como “cuias pintadas”.

Cuias pintadas e decoradas fonte: Museu do Folclore Edson Cordeiro - RJ

Velha conhecida dos índios amazônicos que a utilizam para beber água, tomar banho no rio e até como prato, a cuia, fruto da cuieira (Crescentia cujete) ou Kuimbúka em Tupi, significa cabaça ou concha de tirar água do pote. É da casca desse fruto que há séculos índios e caboclos de Santarém fazem nascer o que hoje se conhece como artesanato das cuias pintadas. Atualmente, além da função utilitária, as cuias têm papel decorativo, tanto no Brasil quanto no exterior.

As cuias podem receber decorações gravadas, pintadas ou incisas, com formas que remetem às culturas indígenas presentes em toda a região amazônica. Hoje, por iniciativa dos próprios artesãos, o emprego das cuias também se estende a brinquedos, instrumentos musicais, máscaras, roupa de banho e acessórios, como bolsas, brincos, pulseiras. Nas barracas de venda de tacacá, elas se destacam, pois essa iguaria típica da culinária paraense é servida exclusivamente em cuias pintadas.

Tradições indígenas mantidas no processo de produção

Mas qual o processo de produção das cuias pintadas? Após a retirada da árvore, passa pela limpeza (retirado o miolo), secagem e eliminação das imperfeições (geralmente com lixa natural feita de escamas de pirarucu). Depois a cuia é tingida com o “cumatê”, tinta natural vermelho-escuro, extraída da casca da árvore conhecida como axuazeiro.

Em seguida as peças, já com a cor preta, são postas para secar sobre jiraus, onde ocorre a fixação da tinta. Nesta fase da produção entra a parte mais interessante, pois as cuias são tratadas com urina, o que permite uma aderência ainda maior da tinta nas peças. Só então as cuias ficam prontas para receber os desenhos pelas artesãs.

Mão da artesã trabalhando sobre a cuia virgem - foto: Francisco Moreira da Costa

Engana-se quem imagina que as cuias são lavadas com urina. Um forro de palha impede qualquer contato direto das cuias com a urina, da qual apenas se extrai a amônia. Numa reação química já conhecida pelas índias há pelo menos quatro séculos, desde quando se tem notícia do fabrico artesanal das cuias pretas de Santarém. A amônia atua sobre a tintura do cumatê, enegrecendo-a por inteiro. Depois de bem lavadas e enxutas, as cuias perdem qualquer resíduo de odor de urina que possa ter ficado durante o processo e já estão prontas para serem pintadas ou para uso absolutamente higiênico.

Tacacá

Um tradicional prato da Culinária da região Amazônica está diretamente ligado á confecção das cuias é o Tacacá.

O tacacá, um prato à bace de mandioca brava (Manihot esculenta), consumido nas ruas de diversas cidades amazônicas é considerado tradicional e classificado pela população local como sendo “típico daqui”. Para numerosos paraenses (habitantes do Estado do Pará, cuja capital é Belém), o tacacá é preparado por especialistas (as tacacazeiras), consumido de preferência no cotidiano, em lugares e momentos bem específicos. Mais recentemente, foi incluído na lista dos produtos selecionados e inventariados pelo “Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional” (IPHAN). Reconhecido como sendo um “alimento típico”, participa do processo de construção de uma identidade paraense, e mesmo amazônica .

No trabalho intitulado “ Historia da alimentação no Brasil” (1967), Câmara Cascudo indica que o tacacáprovém do mani poi, que é constituído por uma mistura de tucupi,de beiju de mandioca esmigalhada e de suco de frutas, saboreado quente. A receita, escreve o folclorista, foi mencionada no século XVI pelo padre capuchinho Abbeville em sua descrição das práticas alimentares indígenas (Câmara Cascudo, 2004 : 135). A palavra tacacá provém certamente do nheengatu ou língua geral, o tupi veicular da Amazônia, falado em Belém até o fim do século XIX

Tacacá servido tradicionalmente em cuia feita de cabaça - Belem PA - foto: Ministério do turismo

«A língua adormece e o lábio treme levemente. É desta forma que a velha receita indígena manifesta a sua magia: entorpecendo o céu da boca. Faça a experiência de qualquer uma das especialidades culinárias famosas do Pará e você vai ver que a comida é comida de índio»

Saiba mais em: A hora do tacacá

Receita de Tacacá – Receitas de mãe

Bem foi bom viajar com voce neste fantástico universo das cabaças.

Fontes:

Catálogo da Exposição: “da cabaça o Brasil: natureza, cultura e diversidade” – Ministério da CUltura – Centro Nacional de Folclore e Cultura POpular – Museu do Folclore Edson Cordeiro – RJ e Museu de artes e Ofícios – BH – 2007: fotos da exposição

Em tempo: Após sete meses em que esteve fechada para reformas de seus espaços, a exposição de longa duração do Museu de Folclore Edison Carneiro reabriu à visitação nesta quarta-feira, 19. Situado na Rua do Catete, 181

Exposição “Cuias de Santarém”www.defender.org.br
por Silvana Losekann – Local da Exposição em 2009: Centro Cultural João Fona (Museu de Santarém)

Povos Indigenas no BrasilSite

Arte em cabaças transformadas em plena cidade grande: www.cabaca.com.br

Anthropology of food

Os Reis estão em festa, é só abrir a porta e receber a bandeira em sua morada.

O Celophane Cultural abre suas portas pra receber uma tradição vinda de Portugal, mas que logo tomou formas brasileiras. Uma Folia, daqueles que foram a Belém levar os presentes pro menino Jesus, Aqui em nossa tradição, eles vem festejando pelas ruas, com um mestre, uma banda, estranhos palhaços e uma bandeira carregada de simbologias e religiosidade.

 

Foto de Capitão da Folia - com sua farda: Gui Christ - site: Hoje é dia de Folia

De onde vem esta tradição:

Folia de Reis é um festejo de origem portuguesa ligado às comemorações do culto católico do Natal, trazido para o Brasil ainda nos primórdios da formação da identidade cultural brasileira, e que ainda hoje mantém-se vivo nas manifestações folclóricas de muitas regiões do país tanto no interior como nas grandes capitais.

Na tradição católica, a passagem bíblica em que o menino Jesus foi visitado por reis magos, converteu-se na tradicional visitação feita pelos três “Reis Magos”, denominados Melchior, Baltasar e Gaspar, os quais passaram a ser referenciados como santos a partir do século VIII.

Natal - RN - Monumento em homenagem aos Reis Magos na cidade de Natal. Foto: Patrick-br

Fixado o nascimento de Jesus Cristo a 25 de dezembro, adotou-se a data da visitação dos Reis Magos como sendo o dia 6 de Janeiro que, em alguns países de origem latina, especialmente aqueles cuja cultura tem origem espanhola, passou a ser a mais importante data comemorativa católica, mais importante, inclusive, que o próprio Natal. No estado do Rio de Janeiro, os grupos realizam folias até o dia 20 de Janeiro, dia de São Sebastião e padroeiro do Estado.

Bandeira de Folia de Reis com imagem de São sebastião no Rio de Janeiro -site da prefeitura de muqui

Na cultura tradicional brasileira a Folia ganhou força especialmente no século XIX e mantém-se viva em muitas regiões do país, sobretudo nas pequenas cidades dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo, Goiás, Rio de Janeiro, dentre outros.

A Folia Brasileira

No Brasil a visitação das casas é feita por grupos organizados, muitos dos quais motivados por propósitos sociais e filantrópicos. Cada grupo, chamado em alguns lugares de Folia de Reis, em outros Terno de Reis, é composto por músicos tocando instrumentos, em sua maioria de confecção caseira e artesanal, como tambores, reco-reco, flauta e rabeca (espécie de violino rústico), além da tradicional viola caipira e do acordeão, também conhecida em certas regiões como sanfona, gaita ou pé-de-bode.

Folia de Reis em Piabetá - RJ menino membro da Folia beija a fita da Bandeira, ato simbólico de devoção - Foto Gui Christ - Site: Hoje é dia de Folia

Além dos músicos instrumentistas e cantores, o grupo muitas vezes se compõe também de dançarinos, palhaços e outras figuras devidamente fardadas segundo as lendas e tradições locais. Todos se organizam sob a liderança do Capitão da Folia e seguem com reverência os passos da bandeira, cumprindo rituais tradicionais de inquestionável beleza e riqueza cultural.

Musicos da Folia - Foto: Ratão Diniz

As canções são sempre sobre temas religiosos, com exceção daquelas tocadas nas tradicionais paradas para jantares, almoços ou repouso dos foliões, onde acontecem animadas festas com cantorias e danças típicas regionais, como catira, moda de viola e cateretê. Contudo ao contrário dos Reis da tradição, o propósito da folia não é o de levar presentes mas de recebê-los do dono da casa, em troca por graça alcançada. Os foliões são recebidos durante a madrugada com doações e fartas mesas com comes e bebes.

Folia Sagrada Família, bandeireira e o altar onde a bandeira fica guardada durante todo o ano. Foto: Gui Christ - site: Hoje é dia de folia.

A Bandeira

O costume de usar bandeiras ou estandartes em cortejos e procissões rituais no Brasil, também vem de Portugal, muito usado nas corporações de ofícios medievais, irmandades religiosas, e companhias militares.

Câmara Cascudo diz que a palavra bandeira vem de “bando, bandaria, grupo sob o mesmo simbolo”.

Na Folia de Reis, a bandeira é um objeto “Sagrado” guardado e cuidado na sede da Folia por uma Bandeireira, res´ponsável pelo sua manutenção. Geralmente ela fica sobre um altar todos os dias do ano e só sai para a Folia.

Sempre com a imagem de Santos, S. Sebastião, menino Jesus etc etc… são enfeitados e cobertos por fitas coloridas. A bandeira carrega o “fundamento” da Folia e é responsável pelas graças alcançadas.

Ao visitar uma casa, a Bandeira guia a folia e é a primeira a entrar sendo oferecida ao dono da casa  (devoto)  que permanece com ela todo o tempo da visita dos foliões. Um dos gestos mais conhecidos de fé ao poder da bandeira é beijar ou passar suas fitas pelo corpo, ou ainda amarrar dinheiro nelas.

O Palhaço e a dona da casa - Foto Gui Christ - Site: Hoje é dia de Folia

Os Palhaços

Um dos personagens mais curiosos das Folias e que sempre me chamaram a atenção, pela força plástica,  são os mascarados palhaços. Estes personagens prinicpais das folias, carregam a missão de vertir as máscaras e representar estes personagens, muitas vezes por cumprimento de uma promessa aos reis. Eles fazem parte do fundamento religioso entre a Bandeira e a máscara, o sagrado e o profano.

Palhaço diante do altar - foto Gui Christ - site: Hoje é dia de folia

Ao sair para a folia o ato da colocação da máscara representa todo um ritual que deve ser cumprido á risca diante da Bandeira, reforçando a missão que por vezes dura sete anos, sem poder ser quebrada.

O corpo de quem carrega a máscara também rompe barreiras físicas, pois as acrobacias cambalhotas e piruetas que fazem parte de uma  virtuosa apresentação, por vezes absurdas mostrando assim o grau de dedicação e devoção daquele que o carrega.

As máscaras e fardas sempre com um tom grotesco são consideradas contagiosas, pois só devem ser manipuladas e guardadas por aquele que as utiliza, carregam uma carga mágico-religiosa muito fortes.

Os palhaços das Folias representam também os guardas de Herodes. Quando Herodes ficou sabendo que ía nascer o novo Rei, que havia sido enviado, pela profecia, Herodes, ordenou seus guardas correrem o mundo atrás do salvador. Quando Jesus nasceu Herodes então mandou matar todas as crianças e essa matança representa isso, a própria máscara representa essa coisa demoníaca, o diabo, o assassino do menino Jesus. O mais interessante é que Jesus os converteu  no decorrer da história.

Palhaço fazendo acrobacias - Foto: Gui Christ - Site: Hoje é dia de folia

“Os bons palhaços não só das Folias precisam de força espiritual, malandragem, vivência e malícia. Caso contrário são engolidos.”                              Inimar dos Reis

Encontro nacional de Folia de Reis em Muqui – ES

O Encontro  é uma seqüência do Torneio de Folias iniciado em 1950 na cidade de Muqui, sul do Espírito Santo. O Encontro reúne grupos folclóricos do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo, e acontece há 60 anos. É o maior e o mais antigo encontro do gênero no Brasil.

Atualmente, o evento tem características de encontro, o que significa que não há disputa entre os grupos. Assim, promove-se a difusão da cultura popular, além do belíssimo espetáculo cênico oferecido aos turistas, durante as apresentações das Folias no Sítio histórico.

Foliões na praça central da cidade - Casarão histórico e Igreja matriz ao fundo - foto: Ériton Berçaco

O festejo acontece durante todo o dia. Pela manhã, os grupos folclóricos chegam e há o chamado congraçamento, uma espécie de cumprimento, saudação entre os foliões. À tarde, por volta das 16h as folias saem pela rua e cantam em diversas casas, incluindo casarões do sítio histórico. Depois há a bênção das folias na Igreja Matriz, um dos pontos altos do Encontro.

No evento, que tem data móvel, os grupos, vestidos com roupas coloridas, cantam e tocam instrumentos musicais. É uma grande festa folclórica e religiosa. Turistas de várias regiões visitam a cidade, atraídos pela riqueza cultural ou por pura fé cristã. Seja por um, por outro, ou por ambos motivos, o que importa é que vale a pena conhecer este Encontro cheio de cor, música e energia positiva.

Além da festa, a cidade reúne o maior número de imóveis tombados pelo patrimônio histórico estadual. Os 200 Casarões de Muqui compõem o maior sítio histórico do Espírito Santo. No encontro anual, as folias e a arquitetura local se harmonizam. É a tradição popular dando vida ao que restou do império dos barões do café na bela e acolhedora Muqui.

Infelizmente as chuvas de Dezembro causaram enchentes na bela cidade provocando pânico na cidade com algumas destruições e acidentes. Acompanhe pelo site:
http://www.muqui.es.gov.br/

Encontro de Folia de Reis em Muqui – ES

Vamos pedir aos Reis que olhem pelo nosso patrimônio castigado pela natureza.

Fontes:

Fotos: Gui Chsit

Site: www.guichrist.com

Blog dia de folia

Flickr: www.flickr.com/photos/gui_c

Fotos: Rodrigo Gavini – www.rodrigogavini.wordpress.com

Site Overmundo – http://overmundo.com.br

Wikipedia: wikipedia

“A Bandeira e a Máscara – A circulação de objetos rituais nas folias de reis” – Daniel Bitter

Blog Os Palhaços do nosso Povo: http://ospalhacosdonossopovo.blogspot.com/

www.imaterial.org