Os Gigantes de Olinda

No Nordeste o Carnaval ainda não acabou, em tempo o Celophane Cultural mostra uma arte que a cada ano que passa traz pras ruas de Olinda mais e mais personalidades da cultura POP para nos encantar com sua beleza plástica seu bom humor e traços realistas. Os famosos Bonecos Gigantes de OLinda que a dois anos inaugurou um museu numa das ruas mais charmosas do Recife Antigo, a Rua do Bom Jesus,  a Embaixada dos Bonecos Gigantes. A matéria tem a colaboração do correspondente de OLinda, Juliano Mendes da Hora do Blog Cajumanga.

Nas apertadas ladeiras de Olinda os encantadores bonecos desfilam por entre os foliões - Foto: Juliano Mendes da Hora

Os Bonecos Gigantes surgem na Europa, provavelmente na Idade Média, sob a influência dos mitos pagãos escondidos pelos temores da Inquisição. Chegam em Pernambuco através da pequena cidade de Belém do São Francisco no sertão do estado.

AS Margems do rio a Belem do São Francisco todo ano recebe os bonecos gigantes - foto do Homem da Meia Noite personagem indispensável no Carnaval Pernambucano - foto:Renato Spencer/Santo Lima - site: http://carnaval.uol.com.br/2010/album/belem_sao_francisco_album

Os bonecos surgiram da vontade de um jovem sonhador que ouvia atento as narrativas de um padre belga sobre o uso de bonecos nas festas religiosas da Europa.

O primeiro boneco foi às ruas da pequena cidade durante o carnaval de 1919 com o surgimento do personagem Zé Pereira, confeccionado em corpo de madeira e cabeça em papel machê, somente no ano de 1929 resolveram criar sua companheira, boneca esta batizada com o nome de Vitalina.

Quem foi essa tal de Zé Pereira

A constatação da existência de uma diversão carnavalesca conhecida como Zé Pereira em Portugal do século XIX parece apontar para a forte influência lusitana no surgimento da brincadeira no carnaval carioca. A Hsitória oral  atribui a “invenção” do Zé-Pereira a um português de nome José Nogueira de Azevedo Paredes, comerciante estabelecido no Rio de Janeiro em meados do século XIX. Divulgada na maioria dos livros sobre carnaval, essa versão acabou ocultando toda uma série de influências que contribuíram para o surgimento dessa curiosa categoria carnavalesca. As raras referências sobre a tema na literatura carnavalesca são bastante desencontradas. Estas apontam o “surgimento” do Zé Pereira em 1846 (Moraes, 1987), em 1852 (Edmundo, 1987) ou em 1846, 1848 e 1850 (Araújo, 2000).

Zé Pereira no Carnaval - fonte desconhecida

A principal razão dessa discrepância é o fato de que a categoria “Zé Pereira” só se fixaria anos mais tarde. Na segunda metade do século XIX, o termo era usado para qualquer tipo de bagunça carnavalesca acompanhada de zabumbas e tambores, semelhantes ao que chamaríamos hoje de bloco de sujo. Ferreira (2005) e Cunha (2002) abordaram o tema com profundidade destacando a multiplicidade de forma e conceitos que podiam envolver as diversas brincadeiras chamadas genericamente de Zé Pereira.

E viva o Zé Pereira.
Pois a ninguém faz mal
E viva a bebedeira
Nos dias de Carnaval


Os Gigantes de OLinda

A tradição dos bonecos gigantes, iniciada em Belém do São Francisco, ganhou as ladeiras de Olinda em 1932, com a criação do boneco do Homem da Meia Noite, confeccionado pelas mãos dos artistas plásticos Anacleto e Bernardino da Silva

O primeiro Homem da Meia Noite - Fonte: http://www.homemdameianoite.com

Fundado no dia 02 de fevereiro de 1932 pelos senhores Benedito Bernardino da Silva, Sebastião Bernardino da Silva, Luciano Anacleto de Queiroz, Cosme José dos Santos, Manoel José dos Santos e Eliodoro Pereira da Silva. O Homem da Meia Noite é resultado de uma dissidência dos diretores da troça Cariri de Olinda. Porém, muitos mistérios e curiosidades envolvem sua história. Alguns admiradores, historiadores e parentes dos fundadores retratam duas versões sobre a origem desse símbolo cultural, dessa figura mística e encantadora. A 1ª versão; conta a sabedoria popular, que Luciano Anacleto de Queiroz, era um apaixonado pela sétima arte. Em um belo dia de domingo foi ao cinema assitir a um filme “O ladrão da meia noite”. Era a história de um ladrão de classe, que saía de um relógio sempre a meia-noite, cada dia de um lugar diferente, causando pânico na cidade. Impressionado com o personagem do filme, Aanacleto resolveu homenageá-lo criando o Homem da Meia Noite.


A segunda versão, retrata a história de outro fundador, o marceneiro Benedito Bernardino, autor oficial do Hino do Homem da Meia Noite que junto com dois amigos de profissão da comunidade do Bonsucesso deu vida ao calunga mais famoso do Brasil. Conta-se que Benedito ficava madrugada adentro em frente a sua residência compondo músicas carnavalescas, na Estrada do Bomsucesso. Nos finais de semana especialmente do sábado para o domingo, Benedito começou observar que um homem forte, alto e elegante trajando sempre cores verdes e branca com chapéu preto, com um dente de ouro o cumprimentava com um aceno e um belo sorriso. Desconfiado, pois aquele homem passava nos finais de semana, quase sempre a meia noite, fato incomum nos anos 30 na velha Marim dos Caetés.Intrigado, Benetido resolveu segui-lo e descobriu que o homem era um apreciador das belas mulheres, pulava escondido as janelas das donzelas da cidade para namorar. Voltando pra casa muito surpreso com sua descoberta, lhe veio a idéia de homenagear tal figura , o “Dom Juan” das madrugadas olindeses. Qual a verdadeira versão, não se sabe ,a verdade é que o gigante da meia noite arrasta milhões de foliões durante os seus desfiles; e sua saída apoteótica é tradição nos sábados de Zé Pereira.

Porta da sede do Homem da Meia Noite - 1996 - foto acervo Homem da Meia NOite

 

Coencidências ou Fato ?

Versões a parte, outras curiosidades marcaram a história do calunga: Viaje conosco neste mundo de magia .O homem da Meia-Noite nasceu no dia 2 de Fevereiro, dia de Iemanjá à meia-noite, por isso é considerado uma figura mística do candomblé denominado assim de calunga.Sua quarta sede social hoje definitiva fica localizada em frente a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens pretos de Olinda uma das mais mistíca da nossa cidade. Tárcio Botelho,foi o presidente do clube que sucessivamente mas tempo permaneceu no cargo de 1991 à 2001, Tárcio morreu em 2001.O alfaiate “Brasil” é o grande responsavel pelas belas roupas do Homem da Meia-Noite a mais de 30 anos.O Senhor “Brasil” alfaiate antigo da cidade não veste outra cor a não ser a branca, você sabe porque? Outros fatos recentes chamam a nossa atenção a casa número 301 da Rua do Amparo pertence ao atual presidente do clube Luiz Adolpho, que descobriu após anos de pesquisa, que a mesma foi a segunda sede social do homem da meia-noite, o calunga saiu muitas vezes do quintal da sua casa. Segundo o presidente Luiz Adolpho o titúlo mais importante da história do clube “Patrimônio Vivo de Pernambuco” foi conquistado no dia 20 de Dezembro de 2006 dia do aniversário do seu filho mais velho que tem o nome do seu pai Tárcio Botelho.Coincidencias ou fato a verdade é que o Homem da Meia-Noite respira emoção e magia.


A Família Gigante

Em 1937 surgiu a Mulher do Meio Dia, em 1974 foi à vez do Menino da Tarde pelas mãos do artista plástico Silvio Botelho Botelho, que popularizou a tradição com criação do Encontro dos Bonecos Gigantes, onde vários bonecos de diversos artistas se encontram para um grande desfile pelo sitio histórico de Olinda na terça de carnaval.

 

Silvio Botelho posa ao lado de boneco do fundador do Galo da Madrugada, Enéas Freire, à sua esquerda e do compositor Capiba. - Foto: Geyson Magno / UOL

“Na adolescência, com dez, doze anos já tinha essa energia. Brincava com máscaras. A primeira máscara que fiz, foi uma máscara com o rosto de Glória, minha irmã. Morava no Amaro Branco. Deitei Glória no chão, tinha muito capim e disse: – Eu quero fazer uma máscara. Coloquei papel misturado com goma no rosto de Glória e um canudo na boca para ela respirar. As formigas mordiam Glória, mas ela resistiu. E a primeira máscara ficou pronta.”

“O primeiro boneco que fiz, foi em 1975, foi o Menino da Tarde. Ernandes Lopes foi a pessoa que me pediu para fazer. Nessa época, só existia o Homem da Meia-Noite e a Mulher do Dia. Era o filho dos dois. O maior desafio foi entender o que era fazer um boneco gigante. Um boneco com 2 metros e 90 centrímetros de altura. Em dois meses o Menino da Tarde ficou pronto. O boneco pesava 35 quilos e foi confeccionado em madeira, capim, papelão duro e papel. Ao ver o resultado, o renomado artesãoRoque Fogueteiro ficou impressionado com a beleza da obra e me aconselhou a prosseguir no caminho da arte.”

Silvio Botelho em entrevista para o Blog Arlindo Siqueira

A Nova Geração

Em 2008, o empresário e produtor cultural Leandro Castro criou uma nova geração dos Bonecos Gigantes. Uma equipe montada com diversos artistas como: Antônio Bernardo (Escultor), Aluísio de Nazaré da Mata e a estilista Sineide Castro, responsável pelos figurinos dos bonecos, materializaram grandes ícones da história e cultura brasileira e personalidades mundiais como: Duarte Coelho, Mauricio de Nassau, D. Pedro I, Dragões da Independência, Lampião, Presidente Lula, Obama, Michael Jackson, Nelson Mandela, Ariano Suassuna , Dominguinhos, Chacrinha, Alceu Valença, Chico Science, Nóbrega, Elba Ramalho, Pelé, Renato Aragão, Jô Soares ente outros.

 

personagens da Cultura POp na Embaixada dos Bonecos Gigantes - foto JeffCelophane

A nova geração dos bonecos tem impressionado bastante a todos pelo grande realismo das expressões faciais e figurinos, o que originou o titulo de museu de cera popular itinerante. Este maior realismo foi obtido na inovação dos materiais utilizados, a matriz moldada em argila para posterior aplicação de fibra de vidro, material este mais leve e duradouro, as mãos dos bonecos permaneceram em isopor para não machucar nenhum folião durante as apresentações, a altura média dos bonecos é de 3,90m.

O defensor da Cultura Popular Brasileira eternizado num boneco - Ariano Suassuna - Embaixada dos Bonecos Gigantes - Foto: JeffCelophane

 

Em 2009, foi realizado na segunda feira de carnaval, a primeira Apoteose dos Bonecos Gigantes no Sitio Histórico de Olinda com 30 bonecos, em 2010 o evento contou com mais de 60 bonecos revivendo grandes personalidades da cultura e historia pernambucana, brasileira e mundial.

 

Atualmente os bonecos permanecem em exposição o ano inteiro na Embaixada dos Bonecos Gigantes em REcife.

 

Vejam a Matéria do Blog Cajumanga de Olinda onde o pernambucano JUliano Mendes da Hora nos conta sobre o Carnaval de Olinda e sobre os bonecos gigantes que povoam um dos carnavais mais valiosos de nossa cultura popular.

Juliano nos conta um pouco como foi o Carnaval de Olinda 2011:
A saída dos Bonecos Gigantes de Olinda, que se concentram no Largo de Guadalupe, próximo ao bairro do Amparo, na Terça-Feira de Carnaval, é um espetáculo de cores e tradição popular que é passada de geração em geração. Vale à pena assistir se embrenhar pelas ruas estreitas do bairro e se perder por entre os ícones da cidade alta, que são preparados pelo povo enquanto não iniciam a sua missão de andar por entre os foliões no penúltimo dia de carnaval.

A responsabilidade de carregar um Icone da cultura Pernambucana - Foto Juliano Mendes da Hora

Os bonecos representam as várias culturas e pessoas envolvidas na história da cidade. Não importa a sua classe social, se é famoso, ou se pertence ao cotidiano do bairr: Todos são importalizados e tratados com reverência durante estes dias de folia. Geralmente, artistas são homenageados e recebem suas versões gigantes, assim como Tapioqueiras, cantores, estudiosos, educadores… Cada pessoa que possa ter deixado sua marca na cidade e no mundo é homenageada com um boneco.
Estão presentes desde Capiba, famoso poeta e autor dos mais clássicos frevos do estado, passando por celebridades nacionais como Ayrton Senna, ou internacionais, como Einstein, Fidel Castro e Michael Jacskon, entre outros.
As lendas e personagens do folclore pernambucano também marcam presença, tornando a festa ainda mais autêntica e brasileira.

Fontes:

Embaixada dos bonecos gigantes de Olinda

A Embaixada funciona de domingo a domingo, com horário das 8h às 18h de segunda à sábado e até às 19h nos domingos. A entrada custa R$ 4,00, com gratuidade para crianças até 12 anos acompanhadas de adulto.

Endereço: Rua do Bom Jesus, 183, Recife antigo
Tel: (81) 3441-5102 ou 8775-0540

wikipedia – Zé Pereira

Homem da Meia Noite

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REndeiras, as mulheres que tecem o dia a dia com finos fios.

O Celophane Cultural em homenagem ao dia internacional da mulher invade o universo restrito da mulher rendeira este secular ofício que é passado de bisavó pra avó, de avó pra mãe e de mãe pra filha e que nos encanta até os dias de hoje.

A Origem:

Surgiu nos fins da idade média, sobretudo na França, Itália, Inglaterra e Alemanha. A renda chegou ao Brasil no século XVIII, através das famílias portuguesas colonizadoras, um oficio praticado  pelas moças de fino trato  foi resignificado pelo povo brasileiro.

A Lenda:

Há uma lenda sobre sua origem que diz: que “um jovem pescador usando pela primeira vez uma rede de pescar tecida pela sua noiva, apanhou do fundo do mar uma belíssima alga petrificada, que ofereceu à sua eleita. Tempos depois, partiu para a guerra. A noiva, saudosa e com pensamento voltado para o ausente, um dia, teceu outra rede que reproduziu o modelo da alga; os fios dessa rede eram terminados por pequenos chumbos. Assim foi descoberta a renda chamada “a piombiini” ou de chumbos; os chumbos foram posteriormente substituídos por bilros. Dessa forma, de um pensamento amoroso teria surgido a renda de bilros.” ( Rendas e Bordados do Maranhão – FUNC-MA)

“Olê muié rendeira, oie Mulé rendá…”

A mulher rendeira faz parte do imaginário popular brasileiro e é, desde muito, transmissora de um conhecimento que, mesmo não fazendo parte do que se considera educação formal, ela existe e tem sua importância social. Este conhecimento permeia a história de muitas famílias de mulheres que ainda tentam transmiti-lo para as novas gerações. Daí a necessidade de entendimento de um cotidiano que, além de tradicional, alinha-se e se insere às necessidades do mundo de mercado sendo, ao mesmo tempo, trabalho de mulheres e modo de produção de riqueza.

Mulher confeccionando a renda Filé - foto: Marcelo Albuquerque - http://www.flickr.com/photos/marceloalbuquerque/

O ofício de rendeira proporciona uma viagem ao imaginário feminino são mulheres que tecem o dia a dia com finos fios. A força que emana da tradição de tramar as linhas é real. E o fio que conecta essas mulheres, entre gerações de uma mesma família, é que parece torná-las o que são: mulheres que lutam bravamente e que, ao mesmo tempo, desempenham um ofício minucioso e delicado. Com paciência e maestria seguem fazendo a renda da mesma forma que outras muitas gerações de mulheres de sua família já faziam, mas revisitam e atualizam as formas e os pontos que fazem hoje. De modo que estão, ao mesmo tempo, com um pé no passado e outro no presente.

Algumas rendeiras trabalham em grupo; conversam, cantam, fumam. “Quando você está na almofada, menino chora, panela queima, marido briga, você se esquece do mundo.” Ela vira o rosto e se concentra para terminar mais um ponto.

Rendeira de Bilro - foto: Carla Régia Medeiros - http://www.flickr.com/photos/carlaregia/

“Bendito seja o trabalho que se faz cantando!…”, entre as trovas que as moças trabalhadeiras de 20 a 60 anos entoam:

Tiro renda e boto renda,

Faço renda na almofada.

Por causa do meu benzinho

Não faço renda nem nada…

Estou fazendo esta renda

Pra buscá dinheiro,

Pra comprá um par de pente

Pra botá no meu cabelo.

Esta almofada me mata,

Estes bilros me consome,

Os alfinetes me espetam,

A renda me tira a fome.

O Ofício da Renda Irlandesa confeccionada em Sergipe se tornou Patrimônio Imaterial e tem seu registro nos saberes da humanidade.

O modo de fazer Renda Irlandesa se constitui de saberes tradicionais que foram ressignificados pelas rendeiras do interior sergipano a partir de fazeres seculares, que remontam à Europa do século XVII, e são associados à própria condição feminina na sociedade brasileira, desde o período colonial até a atualidade. Trata-se de uma renda de agulha que tem como suporte o lacê, cordão brilhoso que, preso a um debuxo ou risco de desenho sinuoso, deixa espaços vazios a serem preenchidos pelos pontos. Estes pontos são bordados compondo a trama da renda com motivos tradicionais e ícones da cultura brasileira, criados e recriados pelas rendeiras.

Saber patrimônio imaterial - Renda Irlandesa - foto E-Sergipe - http://www.flickr.com/photos/e-sergipe/sets/

O “saber-fazer” é a qualidade mais característica da produção da Renda Irlandesa, a qual é compartilhada pelas rendeiras sob a liderança de uma mestra reconhecida pelo grupo. As mestras traçam o risco definidor da peça, que é apropriado coletivamente. Fazer Renda Irlandesa é, portanto, uma atividade realizada em conjunto, o que permite conversar, trocar idéias sobre projetos, técnicas e pontos. Neste universo de sociabilidades, são reafirmados sentimentos de pertença e de identidade cultural, possibilitando a transmissão da técnica e o compartilhamento de saberes, valores e sentidos específicos.

A cidade de Divina Pastora se tornou o principal pólo da Renda Irlandesa em razão de condições históricas de produção vinculadas à tradição dos engenhos canavieiros, à abolição da escravatura e às mudanças econômicas que culminaram na apropriação popular do ofício de rendeira, restrito originalmente à aristocracia. Reinventando a técnica, os usos e os sentidos desse saber-fazer, as mulheres de Divina Pastora fizeram dele seu meio de vida.

A Pedagogia do saber

Uma rendeira, que em seu trabalho tece habilidosamente peças extraordinárias, passando de geração em geração um ofício e uma arte, verificamos que, apesar de leiga, do ponto de vista da pedagogia e da ciência, essa “mestra” cumpre de modo brilhante, com eficiência e eficácia os objetivos a que se propõe: produzir e ensinar o que produz, perpetuando a existência do oficio.

Curioso é pensar que nas universidades e centros de profissionalização, apesar de todo o acesso à ciência e tecnologia, muitas vezes os mestres que lá trabalham não conseguem atingir esses mesmos objetivos básicos. Em muitos desses centros nem se produz um saber, nem se ensina a produzir esse mesmo saber. O máximo que se consegue é “formar” profissionais muitas vezes medíocres que vão se encarregar de perpetuar a reprodução de um saber igualmente medíocre, mantendo o estado de coisas que vem nos conduzindo ao caos social, econômico e cultural.

As diversas  RENDAS:

Há duas categorias de rendas: uma produzida com o auxílio de bilros. Outra é confeccionada com o uso de agulhas, como é o caso da renda renascença, o filé e o labirinto. Em outros casos, há agulhas especiais, como para produzir crochê e tricô. Tanto a renascença como a renda de bilro é produzida em cima de almofadas.

  • Filé (Salgado de São Félix, Paraíba)

Esta técnica milenar encontra-se difundida sobretudo nos estados de Alagoas e Ceará. O filé surge a partir de uma rede simples, composta de malhas e de nós, e por isso é também denominado “rede de nó”, seguindo a técnica de confecção da rede de pescador, que lhe serve de inspiração.

  • Renascença (Jataúba, Pernambuco)

A renda renascença é uma técnica têxtil que teve sua origem na ilha de Burano, em Veneza, Itália, no século XVI. É confeccionada com agulha, linha e lacê de algodão. Em uma primeira etapa, faz-se o desenho sobre papel, que é preso sobre a almofada. O lacê é então afixado sobre o papel com a ajuda de alfinetes e entremeado pelos diferentes pontos da renda.

Rendeira produzindo a renda renascença Pernambucana - foto FUNDARPE

Cada ponto é nominado segundo elementos da natureza, comidas, ou expressam na renda sentimentos e esperanças de quem os criou: aranha, abacaxi, traça, cocada, xerém, amor seguro, laço, sianinha, malha e amarrado.

  • Irlandesa (Divina Pastora, Sergipe)

A renda irlandesa, ou ponto de Irlanda, surgiu na Europa, possivelmente no norte da Itália, em torno dos séculos XVI ou XVII. Sua tradição foi mantida nos conventos da Irlanda, de onde se difundiu para diversas partes do mundo. No Brasil, este tipo de renda é executado há várias gerações pelas artesãs sergipanas de Divina Pastora, fazendo parte do seu patrimônio cultural. Caracteriza-se pelo uso de lacê, um cordão sedoso o que a diferencia da renda renascença. É elaborada com linha e agulha que, seguindo o roteiro de desenhos feitos em papel grosso e que é preso em almofada, perpassam os meandros e os florões delineados com o lacê, formando assim uma variada combinação de pontos.

  • Labirinto (Ingá, Chá dos Pereira, João Pessoa, Serra Redonda, Juarez Távora – Paraíba)

O labirinto (ou crivo) é um tipo de renda de agulha e tem como caracteristica o fio desfiado preliminarmente, o qual é tecido com linha, seguindo os desenhos estabelecidos. O processo de feitura possui 6 etapas: escolher o tecido e tirar a metragem; riscar o desenho; desfiar o tecido; fazer o enchimento; torcer e perfilar.

  • Renda de Bilro

Diversos são os “pontos” preparados: abacaxi, folha em renda, cocadinha, não-me-deixe, mata-fome, quadro, margarida, coração, palma, ziguezague, trocado, trança, trocadinho, matachim, aranha, meus olhos, escadinha de Cupido etc. etc. etc.

Instrumento das rendeiras, os Bilros - Foto: Fábio Venhorst - http://www.flickr.com/photos/fabiovenhorst/

A renda de bilros é feita sobre uma almofada com enchimento de crina, serragem ou algodão; tal amofada é em geral recoberta de tecido cujas cores não agridam a vista. A almofada pode ser presa num suporte de madeira, mas há rendeiras que simplesmente a apóiam numa cadeira ou banquinho. A almofada é a base sobre a qual se executam as rendas e nela se prende o cartão com o esquema em cima do qual irão se trançando os bilros, ‘a medida que se prendem os compassos com alfinetes. Os bilros são uma espécie de haste de madeira provida de uma cabecinha numa das extremidades. Sobre ela enrola-se a linha para fazer a renda. Os bilros são sempre utilizados aos pares.

Fontes:

www.artesol.org.br

IPhan – Instituto do Patrimônio Histórico

Livro: ‘Renda Renascença – uma memória de ofício paraibana’, Sebrae (224 pág. – 2005) Escrito pelo designer e pesquisador Christus Nóbrega – Baixe o Livro em PDF

A imagem das mãos calejadas de mulheres sertanejas quase sempre nos remete ao trabalho árduo do campo, à luta diária para vencer as dificuldades da seca, recorrente no semi-árido nordestino. Mas no livro  elas nos levam a descobrir outro tipo de trabalho, também extenuante, mas prazeroso para muitas mulheres do Cariri paraibano, que é o da arte de fazer renda.

Livro: “A Renda de Bilros e sua aculturação no Brasil”, de Luiza e Arthur Ramos.

QUEM INVENTOU A RENDA? HISTÓRIAS DE RENDEIRAS DO MORRO DA MARIANA – PI – ANA CLÁUDIA PIRES FONTENELE DE MENESES  e GILBERTO ANDRADE MACHADO

LIvro rendeiras do Cariri

Revista Brasileiros

Estação Capixaba

Bordados e Rendas – pra Cama Mesa e Banho – SEBRAE

Fotopintura, a memória “tatuada” na parede

Hoje o Celophane Cultural vai tratar de uma arte, quase esquecida pelo tempo, que se não fosse o empenho e perseverança de um Cearense, mestre do ofício, ela hoje não existiria mais: a Fotopintura

São Paulo, Fevereiro de 2011 um workshop sobre as técnicas da Fotopintura e uma parceria entre a Galeria Choque Cultural com o Mestre e ainda o lançamento do livro: “Júlio Santos – Mestre da Fotopintura” celebram mais um paço na preservação desta arte que “tatua” a imagem e a memória das pessoas nas paredes de uma casa.

São Paulo, 05 de Abril a 28 de Maio a Galeria Estação traz a Exposição “Fotopinturas – Coleção Titus Riedl”.
O Ofício da Fotopintura

Ofício muito comum no começo do século XX, tempo em que a fotografia ainda engatinhava e precisava da ajuda de um colorista-pintor que para complementar a imagem preto e branca. Até o final dos anos 1950, era muito comum ver os álbuns de foto da família com retratos pintados à mão ou a família e entes queridos “tatuados’ e emoldurados nas paredes da casa. As câmeras coloridas vieram, com tamanhos menores e valores acessíveis fazendo com que a fotopintura caísse em decadência.

Fotopintura de Mestre Julio - divulgação

No Nordeste, essa tradição continuou por vários motivos, principalmente pela dificuldade de acesso aos novos produtos fotográficos e novidades tecnológicas. Uma outra forma de eternizar um ente querido, já falecido, onde apenas uma foto “carcomida” pelo tempo era a única lembrança, seria a reprodução em fotopintura, preservando a beleza guardada na memória e muitas vezes, a pedido do cliente, consertando alguns defeitinhos que por ventura a foto apresentasse.

O Mestre Julio

No Ceará, o Mestre Júlio, fotopintor de primeira, criou boa fama entre os que precisavam de um retoque de estilo nos retratos e manteve seu negócio até a virada do milênio.

Fotopintura do Fotografo e amigo Tiago Santana e sua esposa feita por Mestre Julio - a foto faz parte do Livro

Mestre Júlio Santos, fotopintor de retratos, atua há mais de 40 anos em Fortaleza (CE). Foi formado no estúdio do seu pai, o Pai Didi, pelo artista plástico Medeiros –contemporâneo de Estrigas, Aldemir Martins e Mário Barata, todos da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), onde Júlio Santos trabalhou desde os 12 anos. Atualmente, em seu próprio estúdio, o Áureo Studio, atende a todos os pedidos de retrato, restauro e “transformação” do Ceará e outras capitais de norte a sul do país.

Com o advento da fotografia digital, poderia se pensar que o oficio da fotopintura acabaria de vez e ficaria na memória dos saudosistas. Apesar das dificuldades, Mestre Júlio não desistiu e, com a ajuda da filha, resolveu “virar a mesa” trazendo finalmente a tecnologia digital para transformar o negócio da fotopintura. “Mantive as características estéticas da fotografia colorizada, mas hoje uso o Photoshop, scanners e outros programas e equipamentos de captação e tratamento de imagem disponíveis, detalha Mestre Júlio.

Mestre Júlio acredita na transformação pelo trabalho artístico do fotopintor e investe na construção da memória e recuperação da história do cliente que encomenda um restauro ou um retrato. Ao mesmo tempo, já teve seu trabalho registrado em diversos documentários produzidos pela historiadora e diretora do Memorial da Cultura Cearense, Valéria Laena, pelo fotógrafo Tiago Santana e pelo cineasta Joe Pimentel. Participou dos Encontros de Fotografia Popular, no Memorial da Cultura Cearense, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e do Encontro DeVERcidade, em Fortaleza. Participou também da mostra Retratos Populares, na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, em 2006, ao lado de Telma Saraiva, outra artista do Crato (CE).

Desde 2009 trabalha com o fotógrafo Luiz Santos, de Recife, no projeto Fotopintura Contemporânea, na Tamarineira, nome popular do Hospital Psiquiátrico Ulisses Pernambucano, que fica no bairro homônimo.

O LIvro

“Júlio Santos, Mestre da Fotopintura”

Capa do Livro - “Júlio Santos, Mestre da Fotopintura”

Este livro foi selecionado pelo Edital Conexão Artes Visuais MinC/ Funarte/ Petrobrás e pelo Edital de Incentivo á Fotografia da Secretaria de Cultura de Fortaleza – Secultfor, e foi publicado pela Editora Tempo d’Imagem.

A obra traz texto de apresentação da curadora Rosely Nakagawa e entrevista inédita com Mestre Júlio Santos, realizada por Isabel Santana Terron, Rosely Nakagawa e Tiago Santana, no Áureo Studio, em Fortaleza. Nessa entrevista, Mestre Júlio fala sobre sua carreira desde os primeiros retratos, feitos com recursos de pintura sobre papel de sais de prata, até os retratos feitos hoje com recursos digitais, quando teve que aprender a utilizar o Photoshop.

Foto: divulgação

Imagem do Livro: Divulgação

 

O livro foi produzido por várias mãos, como por exemplo: Rosely Nakagawa, Isabel Santana e Tiago Santana. Com divisão eficiente sobre o tema e bem ilustrado a partir do acervo de Júlio Santos, seguindo o modelo do antes e depois, podemos “entrar” no universo da fotopintura de forma objetiva e clara. Os textos de Rosely nos introduzem ao tema da fotopintura e ao Mestre Júlio.

O didatismo da obra se revela na entrevista com Mestre Júlio e com os últimos capítulos que são dedicados a uma espécie de glossário das técnicas do Estúdio Áureo, assim como de nomes que fazem parte do contexto da fotopintura no Ceará. Outro ponto didático é a apresentação da substituição da técnica artesanal da fotopintura pela ferramenta Photoshop. O livro mostra o passo a passo deste processo na transformação de um retrato em fotopintura.

Livros como esses são significativos, pois tratam de temas caros à difusão de conhecimento sobre história das técnicas fotográficas, da dinâmica do comércio da fotografia popular, do estilo autoral do profissional em questão, do valor simbólico existente entre pedir que a foto renasça de uma outra forma ou mesmo de preservar o que o tempo apagou de um retrato.

O livro acompanha um DVD com oum trecho do documentário “Câmera Viajante” com o título de “Retrato Pintado” de Joe Pimentel.

 

Faça a sua fotopintura em São Paulo

A Galeria Choque Cultural está atenta as iniciativas instigantes, como a de Mestre Júlio que foi convidado para um  workshop, marcando inicio da parceria entre a Choque e o estúdio do artista. “A partir desse dia, vamos oferecer o serviço de retratos fotopintados ao público da galeria. Basta trazer a sua foto 3×4 para receber de volta seu retrato estilizado pelo Mestre”, nos informa Ribeiro sócio da Choque. O preço inicial de uma fotopintura é de R$ 200,00.

Quem estiver no Ceará pode visitar o  Áureo Estúdio

encomendar sua foto e conhecer o simpático mestre:

R. Gonçalves Ledo, 1779 – Fortaleza (CE)

Mas a fotopintura não se restrige a Nordeste, no Rio – Baixada Fluminense a fotopintora D. Diana fez trabalhos com muita delicadeza e simplicidade, ela coloria as fotos do marido fotógrafo sem a intenção de se tornar uma profissional na área.

Auto retrato de D. Diana

A Galeria Estação traz a Exposição “Fotopinturas – Coleção Titus Riedl”, com Curadoria de Eder Chiodetto.

A exposição composta por 200 retratos pintados a partir de fotografias – técnica hoje praticamente extinta – que revelam o universo estético do sertanejo nordestino. Com curadoria de Eder Chiodetto, a mostra apresenta parte da coleção do sociólogo Titus Reidl, que reúne cerca de 5 mil imagens adquiridas, em sua maioria, em Juazeiro do Norte (CE) e região.

O recorte curatorial privilegiou o embate entre fotografia e pintura. Segundo o curador, enquanto numa parte das imagens o aspecto fotográfico se mostra visível, em outras a fotografia é completamente ocultada, com os traços fisionômicos chegando ao limite da caricatura. “A soma das imagens, no entanto, tem a capacidade de revelar, além das feições, os sonhos de projeção, de afetividade, de memória, bem como os valores sociais do povo nordestino”, completa Chiodetto.

Local: Galeria Estação
Rua Ferreira de Araújo, 625
Pinheiros – São Paulo

Convite da EXposição

Fotopintura do acervo de Titus Reidl

Fontes:

Galeria Choque Cultural:

Assessoria de imprensa:  Agência Cartaz

Blog Vila MUndo

Leandro Matulja e Sandra Calvi

Blog Olhave – Alexandre Belem

Fotos e BLog: Georgia Quintas

Workshop na Choque Cultural SP - Foto: Georgia Quintas

“Sigo o historiador Geoffrey Batchen que nos aconselha a olharmos mais para as nossas próprias fotografias e as dos anônimos. São nelas – nas imagens privadas – e nesses fotógrafos espalhados pelo Brasil e no mundo que vamos nos encontrar. Júlio Santos, como ele mesmo fala, acredita que o maior valor da fotopintura é “tatuar” as pessoas nas paredes de uma casa. Júlio Santos e Geoffrey Batchen fazem todo sentido.”

… A fotopintura de Júlio é um procedimento coletivo. A autoria? Quando se coloca o espírito e a alma naquele retrato, já é do mundo, de quem vê, não é mais do fotógrafo. Simples assim. “O retrato é encantador mesmo, não me sinto dono dele”.

Georgia Quintas.


Até a próxima edição do Celophane CUltural