O povo Makuxi, netos de Macunaíma.

O Celophane Cultural vai até Roraima visitar um “Povo Ancestral Brasileiro” que vive, e sempre viveu, em harmonia com suas tradições e com a sua terra a  Serra Raposa do Sol,  o Povo Makuxi. Mas nem sempre foi assim, estes bravos brasileiros tiveram de lutar muito pra manter esta harmonia.

Makunaimî ou Macunaima?

A 100 anos Theodor Koch-Grünberg um pesquisador e Etinólogo Alemão fez uma expedição na região amazônica onde conheceu, se encantou e divulgou para o mundo, dentre vários povos, o Povo Makuxi. Ele relatou seus feitos sua cultura, mitos e lendas na monumental obra “Vom Roraima zum Orinoco”.

Capa do livro


Além da importância dos mitos, lendas e cantos xamânicos, coletados por Koch-Grünberg, para a antropologia, sua obra também causou impactos na literatura. Os mitos transcritos pelo etnólogo alemão foram fartamente utilizados por Mário de Andrade na composição de Macunaíma – o herói sem nenhum caráter (1928), um marco do modernismo brasileiro. Muitos dos episódios protagonizados por Makunaíma, os irmãos mais velhos Ma’nápe e Zigé, pelo primeiro xamã Piaimã, pelo trapaceiro Kalawunség, pelo destemido Kone’wó e pela segunda cabeça do urubu-rei Etetó foram transpostos, por Mário de Andrade, literalmente, das narrativas Pemon registradas por Koch-Grünberg.

A etnografia da fala seria o principal propósito de Mário de Andrade em Macunaíma. “A sua rapsódia macunaímica é uma composição, como ele mesmo definiu, de incidentes expressos em locuções, fórmulas sintáticas, processos de pontuação oral e modismos característicos da fala no Brasil”. Também nesse sentido as obras de Koch-Grünberg e Mário de Andrade se encontram.

Koch-grumberg e Mayuluaypu narrando mitos - dominio público

Koch-Grunberg usou em suas expedições tecnologias inovadoras para a época, fotografando, gravando sons e filmando. Foram gravadas músicas dos índios Makuxi, Taurepang, Tukano, Desana e Yekuana. A análise das músicas e instrumentos musicais recolhidos eram feitas pelo musicólogo Erich Moritz von Hornbostel que publicou estudos detalhados do material recolhido no volume 3 de Vom Roroima zum Orinoco.

Crianças do povo Macuxi - foto: Koch Grumberg


“No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma…” –

Sesc Araraquara reconstitui o nascimento da obra de Mário de Andrade:

Reprodução do quadro "Macunaima" de Aldemir Martins que fazia parte da Exposição: "Na Terra de Macunaima"


A exposição Na Terra de Macunaíma, realizada pelo Sesc Araraquara com material do acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da USP, mostrou o nascimento da obra-marco da literatura modernista, Macunaíma – o Herói sem Nenhum Caráter, de 1928, escrita por Mário de Andrade. A partir do cenário em que ela foi produzida, a Chácara de Sapucaia, em Araraquara – doada à Universidade Estadual de São Paulo (Unesp) –, da seleção do material do IEB e da Biblioteca Pública, cartas de Mário de Andrade enviadas a intelectuais brasileiros – como os poetas Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira e o folclorista Luís da Câmara Cascudo –, e de registros das pesquisas feitas pelo escritor sobre lendas brasileiras, o evento buscou reproduzir o ambiente que originou Macunaíma. Nas vitrines o exemplar de “Vom Roraima zum Orinoco” estava em destaque como a principal obra de pesquisa.

Foto da Exposição em Araraquara - SP - Foto: Jefferson Duarte

A Curadoria foi de Curadoria: Audálio Dantas e Fernando Granato
Cenografia: Jefferson Duarte e Yara Candotti
Produção e montagem: Candotti Cenografia

A TI (Terra Indigena) Raposa do SOL

A Raposa foi identificada em 1993 pela FUNAI. Demarcada durante a presidência de Fernando Henrique Cardoso, foi homologada em 2005 pelo seu sucessor, Luís Inácio Lula da Silva É formada por imensas planícies, semelhantes às das regiões de cerrado, e por cadeias de montanhas, na fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana.

Festa da Homologação da TI Raposa do Sol - Foto: Rogelio Casado

Nos limites da TI encontram-se o Monte Roraima, ponto culminante do Estado, origem de seu nome e uma das montanhas mais altas do Brasil, e o Monte Caburaí, onde fica a nascente do rio Ailã, ponto extremo norte do país. Na área vivem cerca de 20 mil índios, a maioria deles da etnia macuxi.


 

Documentário inédito mostra a história, a luta, a vitória, os mitos do netos de Makunaimî

O documentário A Vitória dos Netos de Makunaimî narra a história de povos indígenas, entre eles o Macuxi, que habitam a região da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, no Monte Roraima – RR, tríplice fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana Francesa. No roteiro, a luta pela posse de terras; a importância de ter uma identidade; as lendas sobre Makunaimî, um mito indígena que inspirou o escritor Mário de Andrade.

Os Makuxi, netos de Makunaimî - Foto Divulgação

Produzido pelo Sesc SP, com direção de Marina Marcela Herrero e Ulysses Fernandes, “o documentário mostra os índios como protagonistas de sua própria história e resgata culturalmente essa história que sempre lhes foram negada”, explica Marina. A diretora ainda ressalta a importância dessa produção para o povo indígena. “Os índios não mantêm a tradição da escrita e ter um registro audiovisual é um patrimônio para eles”.

Os Makuxi e ao fundo a serra - foto: Clayton de Souza/AE

Marina conta que a ideia de produzir o documentário surgiu na época da homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, no Supremo Tribunal Federal. “Das muitas notícias que saíram sobre a posse da terra, as falas eram de generais, indigenistas, antropólogos, políticos, funcionários da FUNAI (Fundação Nacional do Índio), entre outros. Faltava dar voz aos índios”, esclarece. A produção do documentário aconteceu depois da homologação da terra e do término no conflito.

Os Makuxi em Brasilia aguardando a decisão de homologação da TI Raposa do Sol - Foto: Michael Melo

“A Vitória dos Netos de Makunaimî” registra a vida na Maturuca, uma aldeia onde, há 34 anos, os índios assumiram o compromisso de lutar pela sua terra.  Divido em três blocos, o documentário relata, no primeiro, o contato dos índios com o não índio; e a luta pela terra, que durou três décadas até a homologação. Mostra um malocão onde os povos indígenas de Roraima se reúnem para discutir e resolver problemas; as feiras que os índios promovem para troca de produtos; e a festa da vitória, comemorando a homologação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, reunindo diversas aldeias com muita dança, canto e comida.

Outro tema é Makunaimî – uma figura tida como sagrada pelos indígenas, que se consideram netos e filhos desse personagem – e revela lendas em torno desse mito.

"O Nascimento de Macunaima - Carybé

Segundo essas fábulas, Makunaimî possuía poderes, como o de criar rios e lagos.  Também são contemplados neste bloco os desenhos deixados pelo mito em pedras por onde passava e as crenças que são transmitidas de pai para filho sobre essas pedras.

Banda Caxiri na Cuia

A miscigenação com migrantes nordestinos na época da Borracha levou para a região Amazônica a forte cultura musicalNordestina, criando o chamado forró indígena que ajudou muito a divulgar a causa indígena nas capitais e na mídia.

O forró indígena, mescla ritmos como forró, xote, baião, frevo e maracatu. Os índios levam a realidade que vivem para as letras das músicas, uma forma de se comunicar com os não índios.

Desta mistura nasceu o Caxiri na Cuia um grupo de forró indígena 100% Makuxi.

O produtor musical Marcos Wesley produziu CD Caxiri na Cuia, o Forró da Maloca, que ganhou o Prêmio Culturas Indígenas 2006 – promovido pela Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural do Ministério da Cultura – SID/Minc, em parceria com a Associação Guarani Tenonde Porã e o Sesc SP.

Encontro da Diversidade Cultural

Publicação, que vem em uma edição trilingue, traz 30 mitos do povo nas línguas makuxi, português e inglês é lançado em Roraima

A Igreja de Roraima (RR), comprometida há décadas com a causa indígena, dá agora mais um passo significativo no trabalho de revitalização das línguas indígenas com o lançamento do livro “Onças, Antas e Raposas”, do padre canadense radicado no Brasil, Ronaldo Mac Donnell.

Macuxi confeccionando cestaria na Maloca do Congresso. Foto: Vincent Carelli, 1986.

O livro é uma edição trilingue – em Makuxi, Português e Inglês, de 30 mitos do povo Makuxi coletados pelo monge beneditino dom Alcuino Meyer, entre os anos 1926 e 1948. Esses mitos encontravam-se no acervo do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, e foram pesquisados pelo organizador da obra, padre Ronaldo Mac Donnell, missionário do Instituto Scarboro, doutor em linguística e assessor linguístico do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) do Regional Norte1 da CNBB (Norte do Amazonas e Roraima).

A revitalização das línguas indígenas faz parte da orientação de valorizar as culturas autóctones (da região) e avançar a causa de uma evangelização inculturada.

Ipaty: O Curumim da SElva

O  livro de Ely Macuxi, descendente do povo indígena Macuxi, narra as aventuras do curumim Ipaty, uma série de episódios típicos do cotidiano daquela região serrana, entre o cerrado e a floresta, às margens das àguas transparentes e refrescantes.

Ilustração do Livro "Ipaty - O Curumim da Selva" - Mauricio Negro

Onde é tão quente no verão que, segundo o autor, as aves voam só com uma asa enquanto se abanam com a outra!

Fontes:

Blog da Tereza Surita: História: os estudos de Koch-Grunberg na Amazônia

Com Ciência – SBPC | Labor – Do Roraima ao Orinoco

Boletim do Museu Paraense Emilio Goeldi – Objetos, imagens e sons: a etnografia de Theodor Koch-Grünberg

Sesc TV – A Vitória dos Netos de makunaimî

Blog Aurora de Cinema: Povos indígenas de Roraima no SESC TV

CIMI – Lançamento do LIvro

Ilustrações: Mauricio Negro.Ipaty o Curumim da Selva

Flickr de Michael Melo – Raposa Serra do Sol

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O Olhar brasileiro de Thomaz Farkas – 1924-2011

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O Celophane Cultural homenageia mais um ilustre brasileiro, bem ele era húngaro e naturalizado brasileiro mas muito brasileiro, que voltou no dia 26 de Março passado para o Reino de Oxalá: Thomaz Frakas (1924-2011)

Foto: Farkas por Alexandre Belem/JC Imagem

“[…] propondo que o pensamento descubra a imagem”.

Nome definitivo para a compreensão da fotografia brasileira, também produtor e diretor de cinema, Farkas perpetuou os seus dias com doçura e generosidade tanto quanto o fez com sua arte. Naquele dia a fotografia brasileira se despedia fisicamente de um personagem que, resumiu a imagem da forma mais simples e certeira, como se jamais ouvíssemos de outro fotógrafo: “Fotografia é emoção!”. Apenas isso, emoção.

O interesse pela fotografia

A história começa com o seu pai, fundador da loja Fotoptica, especializada em equipamentos fotográficos. Farkas vivia entre profissionais e conciliava o curso de engenharia com a paixão por imagens.

A Revolução pela Fotografia

Naturalizou-se brasileiro aos 25 anos, passou a amar esse Pais com tanta intensidade que em 1964 diante do anuncio perverso do que seria um longo esquema de repressão política: A Ditadura, imaginou que o melhor para o Brasil seria conhecer a si mesmo “Eu achava que dando essa consciência, mostrando para a população quem somos nós, seria tão revolucionário quanto uma revolução”

Auto retrato - Thomas Frakas - Acervo IMS

Ainda trabalhando na loja do pai, ele reuniu amigos conhecidos para uma ideia simples: a Caravana Farkas: documentar lugares e pessoas pelo Brasil, uma espécie de biblioteca em imagens da cultura popular, em fotos e vídeos. “Esse era o princípio da coisa: como é o Brasil do Norte, como é o Brasil do Sul, como posso ilustrar isso?  A proposta era estudar, correr e documentar o país, em diversas fases.” Essa foi definitivamente o inicio da sua enorme contribuição ao Brasil.

(…) Em 1968, parte para o Nordeste um grupo de jovens cineastas, organizados em torno do empresário, fotógrafo produtor e Thomaz Farkas (2), com o intuito de realizar um projeto pioneiro na área da documentação de manifestações da cultura popular brasileira, em que havia liberdade tanto para o uso das técnicas de reportagem tradicionais quanto para as da ficção, contemplando da precisão etnográfica ao improviso.

No total, foram dezenove os documentários produzidos. Cada um deles traz a abordagem de um tema único: a literatura oral, em A Cantoria e Jornal do Sertão; a religiosidade popular, em Padre Cícero e em Frei Damião; o artesanato, em A Mão do Homem, Os Imaginários e Vitalino/Lampião; a economia, em Casa de Farinha (mandioca), Erva Bruxa (tabaco), O Engenho (rapadura), A Morte do Boi (gado) e Região: Cariri (estrutura agrária); o sertanejo, em A Beste, A Vaquejada, O Homem de Couro e O Rastejador; e o cotidiano na fazenda, em Jaramataia. As exceções ficam por conta de Visão de Juazeiro e Viva Cariri!, que apresentam uma síntese de toda a temática do projeto, relacionando economia, cultura e religiosidade popular.(…)

Do lado de fora do Estádio do Pacaembu. São Paulo, SP. 1941. Foto: Thomaz Farkas/Acervo IMS

A Imagem pode falar

Farkas não gostava de legendas nas fotografias para que a imagem não tivesse interferência e pudesse “falar” em sua plena representação poética.

torcedores no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, em 1942 - Thomaz Farkas - acervo IMS

Foto Cine Clube Bandeirante

O Foto Cine Clube Bandeirante é um dos mais antigos e importantes fotoclubes brasileiros, localizado na cidade de São Paulo. Fundado em 1939, tem diversas atividades e ajudou o conceito de fotografia artística no Brasil, com reconhecimento inclusive de clubes do exterior.

Foto: Thomaz Farkas - Acervo IMS

Do Foto Cine Clube Bandeirante sairam fotógrafos brasileiros famosos, tais como Thomas Farkas, Geraldo de Barros, German Lorca, Eduardo Salvatore, Chico Albuquerque, Madalena Schwartz e José Yalenti, entre outros.

O clube organizou por anos o Salão Brasileiro de Arte Fotográfica, já organizou duas vezes a Bienal Brasileira de Fotografia entre clubes, e salões digitais como Web Art Photos e Tecnologia na Arte.

Sendo um dos pioneiros na fotografia-arte brasileira, o FCCB introduziu na fotografia a partir da década de 40 novoas conceitos para a foto-arte, com seus salões concorridíssimos, exposições e múseus antes só para pinturas e esculturas, também foi responsável pela “Escola Paulista” de fotográfos que mudaram os conceitos de composição, estilo, recortes, etc… na fotografia vista até então como academica e pictorialista.

Farkas fala do vídeo feito por ele: “Pixinguinha e a velha guarada do samba”

O Olhar sobre Brasília

Thomaz se viu em meio à outra revolução. Desta vez estética: Brasília. “Fui até lá quando era só descampado”, lembra. “Tinha amigos entre os arquitetos que concorreram com projetos para a capital. Sobretudo, o Jorge Wilheim.”

Àquela altura, Thomaz era mais que o empresário que tocava os negócios da família. Havia se tornado engenheiro mecânico e eletricista e, também, um apaixonado – e ótimo – cineasta e fotógrafo. “Passei a ir várias vezes à Brasília, antes e depois da inauguração”, conta. “Estava fascinado com toda a modernidade, a maravilhosa aventura de tirar a capital do Rio e fazê-la no meio do País. Continuo juscelinista.”

Foto: Construção de Brasilia - Thomaz Farkas - Acervo IMS

Thomaz encantou-se com um aspecto em especial: a mistura de sotaques. “Era fantástico ouvir os trabalhadores de todos os cantos do País, cada um com seu jeito de falar”, recorda o fotógrafo que, ao longo dos anos, permaneceu visitando e registrando imagens de Brasília. “Continuo fascinado pela cidade!”, exulta. “Ok, ficou com trânsito congestionado. Mas isso ocorre com qualquer metrópole, não tem jeito.”

O FIESP montou uma mostra fotográfica – AS Construções de Brasilia – A mostra fotográfica, reuniu cerca de 200 registros entre fotografias e obras de artes visuais sobre a capital federal. AS imagens feitas por Farkas fizeram parte desta mostra.

“Eu gostaria de ser baiano”

(…) No dia 2 de agosto de 2010, à beira da Bahia de Todos os Santos, no Museu de Arte Moderna da Bahia, inaugurou a exposição Thomaz Farkas – O Tempo Dissolvido, dentro do projeto A Gosto da Fotografia. Já com a saúde debilitada.

Na mostra em Salvador existia um Núcleo para o Afeto, onde estavam tesouros pessoais do fotógrafo, entre eles, um “santinho” enviado por Deoscóredes Maximiliano dos Santos, outro grande homem, o Mestre Didi. O cartão anunciava a “passagem” de Mãe Senhora, rainha absoluta do Ilê Axé Opô Afonjá. Tomado de “emoção”, ele disse, quase em silêncio: “No Brasil, a coisa mais importante não é o dinheiro, mas, sim, a amizade”. Às 19h30, naquele 31 de julho, Thomaz entrou no MAM. Vestido de branco, sentou-se em uma cadeira ao lado do mar da Bahia. Ali, sentia-se o seu tempo dissolvido. Foi como num transe. Recortado pelas luzes da Ilha de Itaparica ao fundo. Sentado em seu trono, diante das imagens que fez durante a vida inteira. Com o mar da sua terra espiritual arrebentando em espumas flutuantes de brancura, memória e solidão (…)

Thomaz sempre conservou um olhar deslumbrado. Possivelmente, semelhante àquele do garotinho húngaro ao chegar ao país. Que se tornou o seu.

O Acervo:

No Instituto Moreira Salles em São Paulo, encontra-se grande parte da obra do artista – cerca de 34 mil imagens.

A expo Thomaz Farkas: uma Antologia Pessoal,  produzida pelo Instituto Moreira Salles, em São Paulo ficou em cartaz até 1º de maio deste ano. Na expo, imagens do fotógrafo produzidas a partir da década de 1940, época em que Farkas se associou ao Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), local de debate sobre a atividade fotográfica. E também trabalhos posteriores do fotógrafo, com uma abordagem mais humanista, quando Farkas se aproxima do fotojornalismo. Destacam-se as séries sobre o Rio de Janeiro que incorporam o retrato e a vida dos moradores de bairros populares e regiões do centro histórico da então capital federal.

Capa do Livro - IMS

Paralelo a mostra, foi lançado o livro homônimo que possui cerca de 140 imagens, com texto de João Farkas, filho do fotógrafo. Para compor livro e exposição, durante dois anos Thomaz Farkas revisitou toda a sua trajetória, com suporte de seus filhos João e Kiko Farkas, e em conjunto com os pesquisadores e curadores do IMS, que hoje preserva sua obra fotográfica.

Entrevista do Blog do Coletivo Produção Cultural:

Fontes:

Matéria da revista Brasileiros : Thomaz Farkas e o tempo dissolvido (1924 – 2011) – Diógenes Moura (Escritor e Curador de Fotografia da Pinacoteca do Estado de São Paulo) Matéria revista Brasileiros

Entrevista na Integra de Tomas Farkas – Blog: Produção CulturalEntrevista em PDF

Blog Olhavê – Por Alexandre Belém – OLhavê

O diálogo entre culturas presente nos filmes documentários da Caravana Farkas: uma proposta de análise por Alfredo Dias D’Almeida

Uma “Casa Grande” cheia de Cultura, Memória e Educação.

O Celophane Cultural vai a Nova OLinda conhecer uma Casa Grande, grande devido ao seu valor cultural, social e de preservação da Memória de um povo.

Logo da Fundação - foto: AUGUSTO PESSOA


A Casa Grande da Fazenda Tapera, no Sertão do Cariri, é uma escola de gestão cultural, hoje  Fundação Casa Grande é sem dúvida uma das ações culturais mais transformadoras de nosso país. Não é por acaso, que é POnto de Cultura e várias vezes premiada no Brasil e no exterior. Ordem do Mérito Cultural e medalhas de Mérito de vários estados brasileiros. Também, Chindren’s World, Unicef, Fellow, entre tantas.

A famosa fachada azul simbolo da fundação - Foto Divulgação

Praça central da fundação - Foto Jefferson Duarte

Possui programas voltados para memória, artes, comunicação e turismo. Conta com laboratório de conteúdos com gibis, CDs, DVDs, informática. Laboratório de produções com rádio, TV, teatro e editora; pesquisa arqueológica, lendas e mitos do Araripe e um Memorial do Homem Kariri.

Além do trabalho com os meninos a Fundação é muito presente no dia a dia da pequena Nova OLinda

A fundação é um lugar maravilhoso de se estar, vivo, pulsante e alegre - foto: AUGUSTO PESSO

Os Produtos embalados prontos para o Mercado

São palestras, espetáculos, cursos e até consultoria. Tudo num círculo virtuoso que vai e volta sempre para a gente cearense de Nova Olinda. Mas, vale ressaltar, com impactos profundos com o seu exemplo e resultados para toda nossa cultura popular.

O caldeirão Cultural chamado Cariri:

O Cariri é localizado na Chapada do Araripe delimitada geograficamente por três estados: Ceará, Pernambuco e Piauí. Conhecido como terra do Padre Cícero, é um oásis no centro do seco sertão nordestino, lugar que foi habitat de populações humanas desde a pré-história, herdando dos seus primeiros habitantes, os índios Kariri, o seu nome regional, de quem herdou também a herança em patrimônio material e imaterial. A região é fortemente marcada pela presença de mitos, lendas, rituais, festas, religiosidade, música, danças, grutas com expressões gráficas rupestres, santuários entre outras formas de riqueza e patrimônio cultural.

Pioneiro da conquista do sertão do Ceará, o Cariri foi colonizado por baianos da Casa da Torre de Garcia D’Avila que ocuparam as terras indígenas com a pecuária que ali introduziu a civilização do couro no final do século XVII.

Expedição Caminhos da Chapada

A Casa Grande tem origem no Ciclo do Couro entre os séculos XVII e XVIII no nordeste brasileiro. Na década de 70, a Casa Grande foi abandonada e se transformou em ruínas. Em 1983 Alemberg Quindins e sua esposa Rosiane Limaverde, iniciaram uma pesquisa de campo coletando lendas regionais para comporem músicas que resgatassem a pré-história do homem Kariri. Em suas andanças pelo sertão, além de várias lendas, foram desvendando todo um acervo arqueológico.

EXpedito Seleiro - um dos mais famosos artitas do couro de Nova Olinda - seus trajes já foram utilizados em várias séries de TV e no cinema foto: Tereza Raquel

Em 1992 resolveram restaurar a velha casa grande da Fazenda Tapera, para dentro, funcionar o Memorial do Homem Kariri. A casa foi tombada como patrimônio histórico municipal e foi criada a Fundação Casa Grande.

A pré-história foi relacionada com a vida dos moradores, orientando-os na preservação, e surgiu a idéia de deixar que as crianças escrevessem as legendas, a fim de que a exposição ficasse mais inteligível para todos. Mas a Casa era muito grande e havia espaço para mais atividades.

E as necessidades eram maiores ainda. Os jovens queriam produzir música. Foi montada uma banda – uma não, algumas. Faltava cinema, montaram uma videoteca. Faltavam livros, montaram uma biblioteca. Faltava teatro, construíram um teatro. Tudo muito simples e utilizando apenas os recursos de que dispunham, mas feito com muito esmero (como na música de Vinicius) e com tudo que um bom centro cultural precisa: cenotecnia, equipamento de iluminação, som, bancos na platéia, área de descanso. Com um museu de qualidade próximo de casa, bandas de música, oferta de filmes que não passam na TV, livros que dificilmente chegariam ao vale e teatro, os moradores quiseram mais. Emissora de rádio, internet, TV local.

foto da antigaCasa Grande da fazenda Tepara - reprodução

Nas paredes da casa a Memória de seus moradores ainda permanece com fotos flores e altares como se eles abençoassem esta iniciativa tão importante para NOva Olinda.

Altar no interior da casa, tradição nordestina - com as fotos da familia que viveu ali protege a Fundação Casa Grande - Foto: Jefferson Duarte

Cada cômodo da casa tem o nome de um dos moradores, uma forma de respeito a quem viveu ali e de alguma forma abençoa a existencia da Fundação - Foto: Jefferson Duarte

Hoje a Fundação Casa Grande trouxe o Cariri para o mapa maior da nossa Cultura com C maiúsculo, respeitando suas tradições, respeitando seu povo e oferecendo a cultura como meio e fim de um trabalho que inova e resgata o melhor do Brasil.

Logo do Memorial do Homem Kariri - foto: AUGUSTO PESSOA

Algumas das ações reconhecidas e premiadas:

A banda: Os Cabinha

Eles têm entre 9 e 11 anos, e estão em turnê. Os Cabinha é a terceira geração da banda de lata da Fundação Casa Grande, que toca com seus instrumentos de brinquedo, construídos por eles mesmos.

No show, o repertório é de rock, ou melhor, uma sátira a ele. Eles brincam com o “mundo rock” adulto, imaginando que estão tocando, enquanto a platéia acredita que está ouvindo. A postura é ainda de menino de interior, ou cabinha, como chamam os pequenos “Caba” (referência a homem) no sertão do Cariri.

Ao longo dos anos, os meninos da bandinha, que tem tradição de iniciação musical, se apresentaram ao lado de nomes como Lobão e Arnaldo Antunes, além da participação no espetáculo Mãe Gentil, de Ivaldo Bertazzo, com Zeca Baleiro. Também foram personagens do documentário Música do Brasil, de Belisário Franca.

Em abril de 2008 essa nova geração, formada por Arthur, Iêdo, Momô, Renê e Rodrigo se apresentou no palco do Itaú Cultural, em São Paulo. Selecionados pelo projeto Rumos, foram as únicas crianças a participar do projeto. Considerada uma das melhores formações, eles puderam contar com a tecnologia do estúdio da Fundação para gravarem seu primeiro cd, em que cuidam de todas as etapas: da composição das músicas à gravação em si.

Banda já conhecida internacionalmente "os Cabinha" - Foto: João Paulo Maropo

Com suas guitarras e baixos feitos de madeira, acompanhadas de percussão e bateria compostas de latas, Os Cabinha, como bem identificou o músico Maurício Pereira, deseletrificou o rock, tantos anos depois do rock ter eletrificado a guitarra.

Preservação:

A Fundação Casa Grande vem desenvolvendo uma proposta de educação patrimonial unindo educação e pesquisa através de um dinâmico e sistemático programa de formação, trabalhando para a identificação dos bens culturais de natureza material e imaterial, os sítios arqueológicos e mitológicos do Cariri com objetivo de manutenção de um banco de dados que revela o património cultural e a evolução da ocupação humana na Chapada do Araripe em sua pré-história, servindo de instrumento para a aplicação das políticas públicas de preservação nacional.

crianças na capacitação sobre os antepassados indios kariris - Foto João Paulo Maropo

OUtra iniciativa da Fundação é a Oficina de Revitalização de Fachadas

Preservar a memória e a identidade cultural da comunidade através da restauração casas do sertão, suas fachadas e platibandas, valorizando a organização, o trabalho comunitário e a reunião: escola, pais e filhos..

Os objetivos:

– Incentivar à conservação do patrimônio histórico e material.

– Repassar técnicas de restauração.

– Resgatar valores identitários da comunidade.

– Incentivar a organização da comunidade em mutirão.

– Reunir pais, filhos, familiares e escola em prol de um objetivo comum.

– Identificar lideranças na escola e na comunidade.

– Repassar noções e conceitos de programação visual, levando em consideração as cores e a geometria de cada casa.

Ruinas que empoderam

O empoderamento social nos Pontos de Cultura deve ser entendido enquanto processo pelo qual podem acontecer transformações nas relações sociais, culturais, econômicas e de poder. Ao concentrar sua atuação nos grupos historicamente alijados das políticas públicas, o Ponto de Cultura potencializa iniciativas já em andamento, criando condições para um desenvolvimento econômico alternativo e autônomo, de modo a garantir sustentabilidade na produção sociocultural das comunidades.

inscrições encravadas no vale ponto de partida para a criação do memorial - foto: AUGUSTO PESSOA

Isto é empoderamento.

E empoderamento pela força das idéias e pelo protagonismo da juventude.

Alemberg e sua esposa, arqueóloga, nem moram mais na cidade (se bem que sempre estão por perto), mas o Ponto de Cultura Casa Grande está cada vez mais forte. Com o tempo a notícia se espalhou e vieram os turistas: 3 mil por mês. Visitam as pinturas rupestres, as cachoeiras, a cultura do sertão e, principalmente, a experiência da Casa Grande.

Uma nova economia surge em Nova Olinda. Era preciso abrigar os turistas, criaram-se hospedarias familiares. O artesanato de couro revigorou-se, alguns adultos voltaram e houve mais renda para a cidade – bem distribuída, porque é repartida entre muitas famílias. E a casa malassombrada foi fazendo com que os moradores gostassem mais de si e de sua cidade, encontrando o seu lugar no mundo, cujo centro estava ali mesmo.

Como contactar e saiba mais:

www.fundacaocasagrande.org.br

Rua Ratisbona Nº 564 – Crato – CE

CEP: 63140-000

Fone/Fax (88) 3521-8133

E-mail: contato@fundacaocasagrande.org.br

SEDE

Fundação Casa Grande Memorial do Homem Kariri

AV. Jeremias pereira Nº 444 – Nova Olinda – CE

CEP: 63165-000

Fone/Fax (88) 3546-1333

Fontes:

REvista Raiz

RUÍNAS QUE EMPODERAM. . – POR CÉLIO TURINO

Matéria sobre expedito Seleiro – O artista do couro

Fotos que fiz em minha visita á Fundação Flickr Celophanico