O Olhar brasileiro de Thomaz Farkas – 1924-2011

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O Celophane Cultural homenageia mais um ilustre brasileiro, bem ele era húngaro e naturalizado brasileiro mas muito brasileiro, que voltou no dia 26 de Março passado para o Reino de Oxalá: Thomaz Frakas (1924-2011)

Foto: Farkas por Alexandre Belem/JC Imagem

“[…] propondo que o pensamento descubra a imagem”.

Nome definitivo para a compreensão da fotografia brasileira, também produtor e diretor de cinema, Farkas perpetuou os seus dias com doçura e generosidade tanto quanto o fez com sua arte. Naquele dia a fotografia brasileira se despedia fisicamente de um personagem que, resumiu a imagem da forma mais simples e certeira, como se jamais ouvíssemos de outro fotógrafo: “Fotografia é emoção!”. Apenas isso, emoção.

O interesse pela fotografia

A história começa com o seu pai, fundador da loja Fotoptica, especializada em equipamentos fotográficos. Farkas vivia entre profissionais e conciliava o curso de engenharia com a paixão por imagens.

A Revolução pela Fotografia

Naturalizou-se brasileiro aos 25 anos, passou a amar esse Pais com tanta intensidade que em 1964 diante do anuncio perverso do que seria um longo esquema de repressão política: A Ditadura, imaginou que o melhor para o Brasil seria conhecer a si mesmo “Eu achava que dando essa consciência, mostrando para a população quem somos nós, seria tão revolucionário quanto uma revolução”

Auto retrato - Thomas Frakas - Acervo IMS

Ainda trabalhando na loja do pai, ele reuniu amigos conhecidos para uma ideia simples: a Caravana Farkas: documentar lugares e pessoas pelo Brasil, uma espécie de biblioteca em imagens da cultura popular, em fotos e vídeos. “Esse era o princípio da coisa: como é o Brasil do Norte, como é o Brasil do Sul, como posso ilustrar isso?  A proposta era estudar, correr e documentar o país, em diversas fases.” Essa foi definitivamente o inicio da sua enorme contribuição ao Brasil.

(…) Em 1968, parte para o Nordeste um grupo de jovens cineastas, organizados em torno do empresário, fotógrafo produtor e Thomaz Farkas (2), com o intuito de realizar um projeto pioneiro na área da documentação de manifestações da cultura popular brasileira, em que havia liberdade tanto para o uso das técnicas de reportagem tradicionais quanto para as da ficção, contemplando da precisão etnográfica ao improviso.

No total, foram dezenove os documentários produzidos. Cada um deles traz a abordagem de um tema único: a literatura oral, em A Cantoria e Jornal do Sertão; a religiosidade popular, em Padre Cícero e em Frei Damião; o artesanato, em A Mão do Homem, Os Imaginários e Vitalino/Lampião; a economia, em Casa de Farinha (mandioca), Erva Bruxa (tabaco), O Engenho (rapadura), A Morte do Boi (gado) e Região: Cariri (estrutura agrária); o sertanejo, em A Beste, A Vaquejada, O Homem de Couro e O Rastejador; e o cotidiano na fazenda, em Jaramataia. As exceções ficam por conta de Visão de Juazeiro e Viva Cariri!, que apresentam uma síntese de toda a temática do projeto, relacionando economia, cultura e religiosidade popular.(…)

Do lado de fora do Estádio do Pacaembu. São Paulo, SP. 1941. Foto: Thomaz Farkas/Acervo IMS

A Imagem pode falar

Farkas não gostava de legendas nas fotografias para que a imagem não tivesse interferência e pudesse “falar” em sua plena representação poética.

torcedores no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, em 1942 - Thomaz Farkas - acervo IMS

Foto Cine Clube Bandeirante

O Foto Cine Clube Bandeirante é um dos mais antigos e importantes fotoclubes brasileiros, localizado na cidade de São Paulo. Fundado em 1939, tem diversas atividades e ajudou o conceito de fotografia artística no Brasil, com reconhecimento inclusive de clubes do exterior.

Foto: Thomaz Farkas - Acervo IMS

Do Foto Cine Clube Bandeirante sairam fotógrafos brasileiros famosos, tais como Thomas Farkas, Geraldo de Barros, German Lorca, Eduardo Salvatore, Chico Albuquerque, Madalena Schwartz e José Yalenti, entre outros.

O clube organizou por anos o Salão Brasileiro de Arte Fotográfica, já organizou duas vezes a Bienal Brasileira de Fotografia entre clubes, e salões digitais como Web Art Photos e Tecnologia na Arte.

Sendo um dos pioneiros na fotografia-arte brasileira, o FCCB introduziu na fotografia a partir da década de 40 novoas conceitos para a foto-arte, com seus salões concorridíssimos, exposições e múseus antes só para pinturas e esculturas, também foi responsável pela “Escola Paulista” de fotográfos que mudaram os conceitos de composição, estilo, recortes, etc… na fotografia vista até então como academica e pictorialista.

Farkas fala do vídeo feito por ele: “Pixinguinha e a velha guarada do samba”

O Olhar sobre Brasília

Thomaz se viu em meio à outra revolução. Desta vez estética: Brasília. “Fui até lá quando era só descampado”, lembra. “Tinha amigos entre os arquitetos que concorreram com projetos para a capital. Sobretudo, o Jorge Wilheim.”

Àquela altura, Thomaz era mais que o empresário que tocava os negócios da família. Havia se tornado engenheiro mecânico e eletricista e, também, um apaixonado – e ótimo – cineasta e fotógrafo. “Passei a ir várias vezes à Brasília, antes e depois da inauguração”, conta. “Estava fascinado com toda a modernidade, a maravilhosa aventura de tirar a capital do Rio e fazê-la no meio do País. Continuo juscelinista.”

Foto: Construção de Brasilia - Thomaz Farkas - Acervo IMS

Thomaz encantou-se com um aspecto em especial: a mistura de sotaques. “Era fantástico ouvir os trabalhadores de todos os cantos do País, cada um com seu jeito de falar”, recorda o fotógrafo que, ao longo dos anos, permaneceu visitando e registrando imagens de Brasília. “Continuo fascinado pela cidade!”, exulta. “Ok, ficou com trânsito congestionado. Mas isso ocorre com qualquer metrópole, não tem jeito.”

O FIESP montou uma mostra fotográfica – AS Construções de Brasilia – A mostra fotográfica, reuniu cerca de 200 registros entre fotografias e obras de artes visuais sobre a capital federal. AS imagens feitas por Farkas fizeram parte desta mostra.

“Eu gostaria de ser baiano”

(…) No dia 2 de agosto de 2010, à beira da Bahia de Todos os Santos, no Museu de Arte Moderna da Bahia, inaugurou a exposição Thomaz Farkas – O Tempo Dissolvido, dentro do projeto A Gosto da Fotografia. Já com a saúde debilitada.

Na mostra em Salvador existia um Núcleo para o Afeto, onde estavam tesouros pessoais do fotógrafo, entre eles, um “santinho” enviado por Deoscóredes Maximiliano dos Santos, outro grande homem, o Mestre Didi. O cartão anunciava a “passagem” de Mãe Senhora, rainha absoluta do Ilê Axé Opô Afonjá. Tomado de “emoção”, ele disse, quase em silêncio: “No Brasil, a coisa mais importante não é o dinheiro, mas, sim, a amizade”. Às 19h30, naquele 31 de julho, Thomaz entrou no MAM. Vestido de branco, sentou-se em uma cadeira ao lado do mar da Bahia. Ali, sentia-se o seu tempo dissolvido. Foi como num transe. Recortado pelas luzes da Ilha de Itaparica ao fundo. Sentado em seu trono, diante das imagens que fez durante a vida inteira. Com o mar da sua terra espiritual arrebentando em espumas flutuantes de brancura, memória e solidão (…)

Thomaz sempre conservou um olhar deslumbrado. Possivelmente, semelhante àquele do garotinho húngaro ao chegar ao país. Que se tornou o seu.

O Acervo:

No Instituto Moreira Salles em São Paulo, encontra-se grande parte da obra do artista – cerca de 34 mil imagens.

A expo Thomaz Farkas: uma Antologia Pessoal,  produzida pelo Instituto Moreira Salles, em São Paulo ficou em cartaz até 1º de maio deste ano. Na expo, imagens do fotógrafo produzidas a partir da década de 1940, época em que Farkas se associou ao Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), local de debate sobre a atividade fotográfica. E também trabalhos posteriores do fotógrafo, com uma abordagem mais humanista, quando Farkas se aproxima do fotojornalismo. Destacam-se as séries sobre o Rio de Janeiro que incorporam o retrato e a vida dos moradores de bairros populares e regiões do centro histórico da então capital federal.

Capa do Livro - IMS

Paralelo a mostra, foi lançado o livro homônimo que possui cerca de 140 imagens, com texto de João Farkas, filho do fotógrafo. Para compor livro e exposição, durante dois anos Thomaz Farkas revisitou toda a sua trajetória, com suporte de seus filhos João e Kiko Farkas, e em conjunto com os pesquisadores e curadores do IMS, que hoje preserva sua obra fotográfica.

Entrevista do Blog do Coletivo Produção Cultural:

Fontes:

Matéria da revista Brasileiros : Thomaz Farkas e o tempo dissolvido (1924 – 2011) – Diógenes Moura (Escritor e Curador de Fotografia da Pinacoteca do Estado de São Paulo) Matéria revista Brasileiros

Entrevista na Integra de Tomas Farkas – Blog: Produção CulturalEntrevista em PDF

Blog Olhavê – Por Alexandre Belém – OLhavê

O diálogo entre culturas presente nos filmes documentários da Caravana Farkas: uma proposta de análise por Alfredo Dias D’Almeida

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