Coco do Amaro Branco

O Coco do Amaro Branco é um projeto musical que envolve vários mestres e discípulos de um coco tradicional que acontece na comunidade do Amaro Branco em Olinda, há mais de 100 anos. Conheça seus mestres brincantes e conheça as belissimas fotos de Emiliano Dantas “Coco do Amaro Branco | Retratos”

Mas o que é o Coco?

Dança tradicional do Nordeste e do Norte, cuja origem é discutida: há quem acredite que tenha vindo da África com os escravos, e há quem defenda ser ela o resultado do encontro entre as culturas negra e índia. Apesar de mais freqüente no litoral, o coco teria surgido no interior, provavelmente no Quilombo dos Palmares, a partir do ritmo em que os cocos eram quebrados para a retirada da amêndoa. A sua forma musical é cantada, com acompanhamento de um ganzá ou pandeiro e da batida dos pés. Também conhecido como samba, pagode ou zambê (quando é tocado no tambor de mesmo nome), o coco originalmente se dá em uma roda de dançadores e tocadores, que giram e batem palmas. A música começa com o tirador de coco (ou coqueiro), que puxa os versos, respondidos em seguida pelo coro. A forma é de estrofe-refrão, em compassos 2/4 ou 4/4.

Muitas são as variações do coco espalhadas pelo Nordeste: agalopado, bingolé, catolé, de roda (um dos mais primitivos), de praia, de zambê, de sertão, desafio, entre outros. Muitos deles caíram em desuso, por causa das influências culturais urbanas e da repressão das autoridades (há um grau de erotismo embutido nas danças), mas ainda são praticados nas festas juninas. Um dos cocos mais populares é o de embolada, que se caracteriza pelas curtas frases melódias repetidas várias vezes em cadência acelerada, com textos satíricos (quase sempre improvisados, em clima de desafio) onde o que importa é não perder a rima.

Um dos artistas mais célebres do coco foi o paraibano Jackson do Pandeiro, que começou acompanhando a mãe nos cocos tocando zabumba. Sua carreira fonográfica começou em 1953, em Recife, com o coco Sebastiana, o primeiro de muitos que viria a gravar, acabando por tornar o estilo (e tantos outros da música nordestina) conhecido no Sudeste. Mais tarde, nomes como Bezerra da Silva e Genival Lacerda também se valeriam do gênero. Celebrado por muitos dos artistas da MPB, como Gal Costa (que gravou Sebastiana), Gilberto Gil e Alceu Valença, o coco seria redescoberto nos anos 90 em Recife, pela via do mangue beat, através do trabalho de grupos como Chico Science & Nação Zumbi e Cascabulho. Eles chamaram a atenção para artistas recifenses contemporâneos, mais próximos da raiz musical, como Selma do Coco, Lia de Itamaracá e Zé Neguinho do Coco.

DONA RITINHA DA GARRAFA , 82, mais velha da turma, única mulher da comunidade que mantém a tradição longínqua de dançar equilibrando uma garrafa de cachaça na cabeça. Costume herdado do Samba de Véio, que trouxe da ilha do Massangano no submédio Rio São Francisco, município de Petrolina, lugar onde nasceu, para a comunidade do Amaro Branco em Olinda.

D. Ritinha da Garrafa - foto Blog Coco do Amaro Branco

ISA MELO, Formada em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco, considera-se uma discípula de todas as mestras do coco com quem já tocou e cantou. Aurinha, Selma, D. Célia Coquista, D. Cila e Mestras do Amaro Branco. Começou sua carreira musical cantando no Coral de São Pedro Mártir, em 1991, e, desde então, não deixou mais de subir aos palcos acompanhando vários artistas e grupos pernambucanos a exemplo do Maracatudo Camaleão, Corpo Primitivo, Aurinha do Coco, Lia de Itamaracá, Grupo Cultural Cabralada, Naná Vasconcelos (Grupo Evocação), Erasto Vasconcelos, Antonio Madureira, Herbert Lucena, Grupo Serra Veia e Cila do Coco. Sua experiência com produção cultural sempre seguiu lado a lado com a carreira artística. Isa Melo que participou da produção do filme de Mariana Fortes, O Coco, A Roda, O Pneu e O Farol, tem vários projetos aprovados e executados, entre eles o Concerto nas Igrejas, MIMO edição 2007, CDs Cila do Coco e Seus Pupilos, Coco do Amaro Branco, Estrela Brilhante, de Erasto Vasconcelos e Conexões Cila do Coco, que consistiu na realização de shows da artista e grupo em Barcelona, Lisboa e Porto (2008). Em 2009 Isa assina a produção executiva e direção musical (ao lado de Viola) do Coco do Amaro Branco Vol.2. Também é responsável pelo ganzá em todas as faixas do CD, exceto nas faixas do Estrelinhas do Coco onde quem balança o ganzá é Raiana, a filha de 10 anos de Lú do Pneu.

Fundadora do CENTRO CULTURAL COCO DO AMARO BRANCO em setembro de 2008, Isa Melo busca desenvolver ações de inclusão de idosos nos processos artísticos da comunidade e de apoio e incentivo a iniciativas já existentes.

Severino José da Silva, mais conhecido como Pombo Roxo, tem 60 anos de idade e mora na comunidade do Amaro Branco há mais de 50 anos. Casado e com um filho de 10 anos que já lhe segue os passos, Pombo Roxo é um grande talento do coco na comunidade, mantendo inclusive estreita relação com as brincadeiras e folguedos locais. Mestre da Tradição Oral na Ação Griô do Ministério da Cultura, Pombo Roxo é também Babalorixá conhecido e respeitado. Em 2009 Pombo Roxo fará seu primeiro registro fonográfico profissional através da gravação do CD Coco do Amaro Branco Vol.2.

POmbo Roxo - foto Blog Coco do Amaro Branco

Lú do Pneu é responsável pela festa que depois do Acorda Povo e do Coco das Ruas dos Pescadores é a mais antiga da comunidade. Trata-se do Coco do Pneu, fundado por seu pai o pescador Ivo da Janoca, há 21 anos quando na praia do Janga pescou, em rede de arrastão, um pneu de avião que levou ao Amaro Branco para ser colocado a sombra de uma árvore e servir de banco aos pescadores e coquistas do bairro que lá se encontravam para beber, jogar conversa fora e cantar cocos. Daí o nome de Coco do Pneu. Hoje, em lugar do pneu, há um desenho na parede indicando onde ficava o objeto fruto daquela pescaria de Seu Ivo da Janoca. Apesar do pneu já não existir, a casa de Lú continua promovendo a sambada anual que acontece impreterivelmente no dia 29 de junho e é dedicada a São Pedro, padroeiro dos pescadores. Como a maioria dos homens no Amaro Branco, Lú é excelente tocador de bombo tendo aprendido a arte com vários dos mestres do passado.

Dona GLORINHA DO COCO tem 77 anos, herdou da mãe, D. Maria Belém, nascida em 1894 e falecida aos 105 anos, o gosto pelo rítmo coco. D. Maria Belém, assim como D. Jove e as mestras do passado, cantavam com o ganzá em punho, costume que hoje já não é regra entre as mulheres da tradição. O Coco da Rua dos Pescadores é um legado desta brincante que deixou a herança nas mãos da filha. Atualmente D. Glotinha é a Mestra mais antiga da comunidade e tendo parado o coco de sua mãe por um bom tempo, hoje se alegra com o registro de sua composições e as apresentações em palco. Cheia de auto-estima, voltou a organizar a brincadeira na Rua dos Pescadores onde também reside.

Dona Glorinha do Coco - Foto Blog Coco do Amaro Branco

Edimilsom Bispo, 64, irmão do Mestre Ferrugem, revelou-se um grande talento da comunidade a partir das gravações do filme O Coco, A Roda, O Pneu e O Farol, onde aparece cantando composições próprias, de respostas fáceis e curtas, o que rapidamente se fixa na memória de quem o escuta cantar pela primeira vez. Em 2007, com o grupo Coco do Amaro Branco, Edmilsom participou do Festisesi em Brasília conquistando a todos que o assistiam repetindo o refrão de sua música, “ Maca como cheira”…Edmilsom também é muito bom de “maceta”, gíria usada pelos tocadores para dizer que o cara sabe tocar bombo de coco.

EDmilson Bispo - Foto: Blog Coco do Amaro Branco

CARLINHOS, ou Cavalinho, é filho do finado Mestre Dédo, com 39 anos é ele quem toca zabumba no coco da Mestra Ana Lúcia e outras mestras da comunidade. Tendo herdado do pai o talento para tocar e cantar cocos, Carlinhos também se dedica à comercialização de peixes na praia do Carmo em Olinda, mas afirma que não quer conversa com o mar, ao contrário do Mestre Dédo que navegava por dias infinitos, para voltar à terra trazendo os frutos de uma boa pescaria. Carlinhos que é fã inveterado de seu pai, ressalta que mesmo não entendendo de navegação tem profundo respeito pelo mar que era como a segunda casa do nosso tão querido Mestre Dédo. No Coco do Amaro Branco Vol.2, Carlinhos assina sua batida em duas faixas, a saber, “É no mar” e Navio”.

Cavalinho - foto: Blog Coco do Amaro Branco

VIOLA– Músico autodidata, 42, olindense da Barreira do Rosário, percussionista desde criança, Viola (direção musical, bombos e congas) é bastante conhecido por seus trabalhos musicais em Olinda e no Recife. Já tocou com Naná Vasconcelos, Antônio Madureira, Selma do Coco, Aurinha do Coco, Kátia de França, Erasto Vasconcelos e Alceu Valença. O percussionista realizou a direção musical dos CDs Coco do Amaro Branco, Cila do Coco e Seus Pupilos, Seu Grito, de Aurinha do Coco e já participou de vários festivais importantes, no Brasil e no exterior. Também participou das gravações dos CDs Pernambuco em Concerto, Recifrevoé, Serra Veia (vocalista e percussionista), CD Pedro Índio, entre outros, além de participar como músico do DVD mais recente do pernambucano Alceu Valença.

Cartaz da Exposição

“Coco do Amaro Branco | Retratos” – esse é o nome da exposição de fotos do Coco do Amaro Branco, com registro do fotógrafo Emiliano Dantas, que teve abertura em Maio e segue até 04 de setembro no Museu da Abolição. Na ocasião foi lançado também o catálogo com 16 fotos de caráter etnográfico dos membros do Coco do Amaro Branco. O material tem o objetivo de ser uma memória viva dos integrantes, alguns com mais de 80 anos já. A distribuição será gratuita no dia do evento e também serão doadas unidades para diversas instituições públicas e órgãos ligados à cultura, escolas e bibliotecas, entre outros. A exposição tem apoio do Funcultura, Fundarpe, Secretaria de Educação, Governo do Estado, Sistema Brasileiro de Museus, Instituto Brasileiro de Museus, Museu da Abolição, Ministério da Cultura e Governo Federal.

Criança Vestida de anjo; Foto: Emiliano Dantas

Segundo Emiliano Dantas, a exposição visou não trabalhar com o convencional e sim romper com estereótipos associados às culturas de raiz. “As fotografias são retratos por que valorizam as pessoas fotografadas, mostrando o seu rosto sua imagem de forma mais universal. Resolvi também não trabalhar os símbolos associados ao coco para que não caísse na armadilha da folclorização dos personagens”.  Emiliano acredita que o principal é não folclorizar e exotizar os integrantes dos retratos.
Tanto na exposição como no catálogo será colocado o nome completo de cada integrante. “Só para esclarecer, essas pessoas são mestres que tem apelidos muito marcantes, mas vamos enfatizar o nome, para ressaltar a identidade e valorizar a pessoa. Enfim é um trabalho que é baseado em fotografias clássicas de portraits, que caminha na busca de romper com os clichés das diversas imagens folclorizadas que tanto se repetem em catálogos de agências de turismo”, diz Emiliano.
As fotografias são compostas por duas series, a primeira é a dos mestres antigos do amaro Branco. Começando por dona Glorinha (foto da mulher com o chapéu rosa), a que estamos usando como divulgação, ela é a coquista mais antiga do amaro branco. A segunda serie são retratos das crianças do bairro que já participam das sambadas de coco. é seria uma forma de trabalhar a perenidade da raiz, lançando olhar sobre dois tempos diferentes o presente e o futuro.
Para quem não conhece, o folguedo popular, brincadeira de umbigada, o Coco que acontece no bairro do Amaro Branco, em Olinda, ultrapassa os cem anos de idade. Todos os anos, os Mestres e brincantes reunem-se sob céus ensolarados ou cravejados de estrelas para sambar o coco em suas várias formas de expressão, reatualizando ensinamentos de um passado distante. “Com a brincadeira em alta, esse catálogo fotográfico pretende valorizar os indivíduos, reconhecendo suas identidades. Aqui, esses mestres são ainda destacados como fazedores/transmissores de uma cultura de tradição oral – que tem suas raízes nas matrizes afro-indígenas – e colocados para posteridade como parte fundamental no processo construtivo das representações coletivas”, comenta Isa Melo, produtora cultural do Coco do Amaro Branco.

Fontes:

Blog: Coco do Amaro Branco

Museu da Abolição

BLog: Boom

Blog do Fotógrafo Emiliano Dantas

Sobre o Coco Clique Music

Coco Produções:

Isa Melo – 81 8602 0804 / 81 9977 5297 – e-mail

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3 comentários sobre “Coco do Amaro Branco

  1. Que matéria linda! Esses vestidos de chita traduzem uma brasilidade!! Como gosto dessa cor… Chegar numa pequena comunidade, sentir seu cheiro, seu sabor, sua dança, seu sotaque… Muitas culturas dentro de um país, o nosso país… Esse é o lado bonito do Brasil, que vale a pena sentir e viver! Adorei!

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