DJ Dolores do Brasil

O Celophane Cultural traz hoje um DJ que com a sua persistencia leva a musicalidade popular pro mundo. É como se ele pegasse todo um jeito brasileiro de fazer musica, criativo, bem humorado, recheado de sonoridades de referencias diversas e com suas sampleagens e mirabolações eletronicas sai uma musica unica, dançante e muito nossa cara.  Com voces DJ Dolores do Brasil

Entrevista para o site OVERMUNDO

Uma caixa cheia de vinis, dois toca-discos, o computador no centro da sala, uma mesa pequena de jantar com um cinzeiro metálico e a varanda do vigésimo andar na rua da Aurora, que revela a paisagem natural do rio Capibaribe. É nesse ambiente que Helder Aragão, mais conhecido como DJ Dolores, abre seu baú da memória e apresenta alguns momentos da sua vida. O jeito tímido pode não demonstrar as experiências vividas por esse sergipano de 40 e tantos anos, mas no decorrer da entrevista ele vai se revelando um artista que sabe muito bem o que quer: criar música.

Foto divulgação - site Overmundo

O currículo de Helder é invejável: ele se apresentou nos principais festivais de música da Europa dividindo o palco com artistas de peso como Bjork, Moby, Chemical Brothers e Elvis Costello, remixou músicas de Bob Marley, assinou a trilha sonora do filme e da peça A Máquina de João Falcão, ganhou o recente prêmio Tim conquistado na categoria música eletrônica e realiza freqüentes turnês pelo mundo com a Aparelhagem (banda que o acompanha há dois anos).

O que muita gente não imagina é que mesmo tendo acumulado tantas premiações e participado de muitos eventos importantes, Dolores não se arrisca a tocar nenhum instrumento. “Desde pequeno sempre fui muito envolvido com a música e o caminho natural de quem não toca nenhum instrumento é virar técnico, produtor ou DJ. Eu escolhi a última opção”.

No pequeno quarto do seu apartamento, entre laptops, microfones, samplers e teclados midi, são criadas as principais elaborações do artista, que afirma produzir 80% dos seus discos em casa. “Minha música ainda segue a estrutura da canção, mas a forma de compor não obedece, definitivamente, ao formato violão e voz”. Dolores diz pensar no ritmo, ou na melodia e a partir daí começa a criar as batidas, utilizando os programas que simulam som dos instrumentos. Passada essa fase, ele reúne os músicos e começa a dar um formato de som de banda. “A música eletrônica cria uma esfera lúdica, brincar com os programas acaba gerando uma batida legal e daí surgem as canções e remixes”.

O som de Helder têm a capacidade de conjugar influências que a principio possam parecer contraditórias, mas que funcionam muito bem no resultado final. Essa facilidade de tráfego livre por diversos estilos o acompanhou da sua formação familiar até os tempos em que, juntamente com Chico Science, Renato L. e Fred 04, iniciou os encontros que originariam o movimento manguebit. “Nasci em Propriá, interior de Sergipe, e desde pequeno convive constantemente com as manifestações populares e com a música dentro de casa. Meu pai era músico e gostava de choro e jazz”.

Na mudança para Aracaju, durante a adolescência, veio a afinidade com cultura punk e o gosto pelas músicas produzida por The Clash e Sex Pistols. A partir daí, os cabelos ganharam cores e as sobrancelhas ganharam alfinetes, como uma forma de identificação com o visual das bandas preferidas. “Eu sempre brinco dizendo que fui o primeiro punk de Aracajú, foi um período que mergulhei fundo nesta cultura, mas com o tempo fui sacando que estava virando dogmático”.

A vinda para o Recife abriu o acesso a mais informações e definiu a inclinação para trabalhar com arte, quando Helder começou a desenvolver animações, clipes, vídeos e capas de discos (a primeira capa do Mestre Ambrósio foi feita por ele). Foi justamente da parceria em projetos audiovisuais com Hilton Lacerda que surgiu a dupla Dolores e Morales. O nome foi adotado pelo DJ para os trabalhos com música, que começaram quando ele fez a trilha do filme de Kleber Mendonça Filho, Enjaulado (1994). “Compus toda trilha com um programa para editar recados de secretária eletrônica” diz, relembrando os tempos em que a tecnologia era incipiente.

DJ Dolores faz sigilo quando o assunto é o novo disco. “Estou aqui no Recife para gravar meu novo CD, só sei que tenho que terminar até o início do próximo ano, caso contrário terei que cancelar nossa turnê européia”, afirma. Apenas um fato entristece o DJ: o de não se apresentar na sua própria cidade. “Moro no Recife porque adoro esse lugar, estou sempre criando coisas novas, e gostaria de ter mais oportunidade de poder mostrar o que faço para as pessoas”. A campainha toca e Dolores se despede para voltar a gravar algumas bases para o seu novo disco.

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Um dos precursores da nova cena musical pernambucana, na década de 80, Hélder Aragão, sergipano de Propriá, tem hoje uma extensa discografia, que inclui CDs de composição própria, remixes e trilhas sonoras para cinema, teatro e dança.

O DJ Dolores foca seu turntable na música eletrônica feita nas periferias do mundo. Banghra, kuduro, funk carioca ou reggaeton são nomes de alguns estilos que passam por seu set, apresentado nos principais festivais de música da Europa, como Glastonbury Festival e Womad (ambos da Inglaterra), Cactus Festival (Bélgica), Jazz Festival (Dinamarca), Montreaux (Suíça), Rock Art (França) ou Meco Dance (Portugal), dividindo palco com nomes relevantes da música contemporânea, como Bjork, Moby, Chemical Brothers e Elvis Costello; remixou músicas de Bob Marley, sendo ainda pioneiro no uso da licença Creative Commons no Brasil, ao fazer um remix de “Oslodum” (Gilberto Gil), música da qual o artista-ministro abriu mão da cobrança dos direitos autorais.

Assinou a trilha sonora do filme e da peça A Máquina de João Falcão e de filmes, como O Rap do Pequeno Príncipe Contra As Almas Sebosas, Clandestina Felicidade, Simião Martiniano – O Camelô do Cinema e Narradores de Javé; ganhou prêmios, como o BBC Awards (2004) na categoria “club global” (música eletrônica) e o prêmio Tim (2006) conquistado na categoria música eletrônica.

Hélder Aragão é um alquimista do som, fazendo a fusão de elementos humanos e digitais. Com a mixagem de elementos aparentemente díspares, Hélder promove o encontro de ritmos e instrumentos regionais, como rabeca com bateria eletrônica; scratches com tambores de maracatu; drum’n’bass com levadas de coco.

Dolores participa das comemorações do Centenário do Cariri e lança o kit “itinerário Musical do Nordeste”

Dolores já tem um histórico com a Fundação Joaquim Nabuco PE. Ele compôs a trilha sonora dos VTs “Nordestes Plurais” e “Transformações urbanas” da exposição de tempo prolongado do Museu do Homem do Nordeste.

Nordestes MUltiplos nos Cariris

O Show apresentará os resultados da oficina desenvolvida pelo Dj com os músicos da região do Cariri, marcando o lançamento do kit Itinerário Musical do Nordeste, fruto de uma pesquisa realizada em 1976 e 1977 pela Fundação Joaquim Nabuco, em parceria com o Instituto de Etnomusicologia e Folclore de Caracas.

O trabalho foi recuperado e masterizado, resultando num valioso registro das manifestações folclóricas da região Nordeste, realizado pelo Centro de Documentação e Estudos da História Brasileira (Cehibra) da Fundaj. Totalizando dez CDs, o material reúne sonoridades de cultos afro-brasileiros (cerimônia de Obori, jurema, orixás, tambor de mina e Casa Nagô), além de bandas de pífanos, ciranda, tambor de crioula, maneiro-pau, coco de embolada, aboio, incelência, reisado, guerreiro, histórias e cantigas. Dentre os grupos pesquisados, destacam-se diversos sons de Juazeiro do Norte (CE), coletados no ano de 1976.

O show irá promover o encontro dos ritmos e instrumentos de raiz da região, com os samplers, sintetizadores e vitrola do Dj Dolores, durante a abertura da 13ª Mostra Arte e Cultura do Juazeiro, promovida pelo Sesc.

11/NOVEMBRO/2011
Local: Palco da 13ª Mostra de Arte e Cultura do SESC, na Praça Padre Cícero

– SHOW DO DJ DOLORES e lançamento do kit “Itinerário Musical do Nordeste”

Imagem do Kit Itinerário Musical do Nordeste

Fontes:

Entrevista com Felipe Barros – PE – Site Overmundo

Site da FUNDAJ

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A Cozinha Brasileira um suculento caldeirão cultural

Quem me conhece sabe que adoro cozinhar, quando me perguntam que tipo de prato voce gosta de fazer: eu respondo os pratos da minha Cozinha Brasileira.

O Celophane Cultural faz uma homenagem a Luis da Camara Cascudo e seu livro “História da Alimentação no Brasil” que “debulha” as origens desta nossa cozinha tão ampla e misturada que faz do ato de comer do Brasileiro, um importante veio cultural.

Foto da exposição onde aparece Câmara Cascudo visitando e experimentando a culinária Brasileira: Viagens de Câmara Cascudo – Um Cardápio do Brasil - em cartaz no SESC Carmo - SP

Junte as influências dos escravos que vieram da África, a cultura indígena dos povos que já moravam aqui e as novidades que os europeus trouxeram quando chegaram ao Brasil; misture com os ingredientes típicos dessas terras e voilà: está pronta a culinária brasileira, um legítimo caldeirão de sabores.

Nossa culinária  é uma bela misturada, saborosa e suculenta “Farofa

Farofa suculenta: foto: http://www.massasonline.com.br/

Muitas das técnicas de preparo e ingredientes são de origem indígena, com diversas  adaptações por parte dos escravos e dos portugueses. Esses faziam adaptações dos seus pratos típicos substituindo os ingredientes que faltassem por correspondentes locais.

A feijoada, prato mais brasileiro não existe, é um exemplo disso.

Feijoada com diversos acompanhamentos: arroz, mandioca frita, torresmo, laranja, caipirinha, entre outros. Fonte: Wikipédia

Os escravos trazidos ao Brasil desde fins do século XVI, somaram à culinária nacional elementos como o azeite-de-dendê e o cuscuz. As levas de imigrantes recebidas pelo país entre os séculos XIX e XX, vindos em grande número da Europa, trouxeram algumas novidades ao cardápio nacional e concomitantemente fortaleceu o consumo de diversos ingredientes.

Livro Dendê-símbolo e sabor da Bahia - Raul Lody

A alimentação diária, feita em três refeições, envolve o consumo de café-com-leite, pão, frutas, bolos e doces, no café da manhã, feijão com arroz no almoço, refeição básica do brasileiro, aos quais são somados, por vezes, o macarrão, a carne, a salada e a batata e, no jantar, sopas e também as várias comidas regionais.

Café com leite e pão - base do café da manhã brasileiro - foto: http://meme.yahoo.com/

As bebidas destiladas foram trazidas pelos portugueses ou, como a cachaça, fabricadas na terra. O vinho é também muito consumido, por vezes somado à água e açúcar, na conhecida sangria. A cerveja por sua vez começou a ser consumida em fins do século XVIII e é hoje uma das bebidas alcoólicas mais comuns.

A História da nossa mesa:

No Brasil colonia os portugueses assimilaram os ingredientes dos nativos da África, Ásia e América para sobreviver em terras estranhas, mas também por curiosidade.

Jean-Baptiste Debret - O Jantar, 1834 - 1839

A atual culinária colonial constituinte das bases culinárias do país pode ser dividida em quatro correntes: a do litoral açucareiro; a do norte; a dos Bandeirantes que partiam de Vila de São Paulo do Piratininga; e a quarta, da pecuária.

No norte, os habitantes dependiam mais dos conhecimentos indígenas para sobreviver e para a coleta das drogas do sertão e, por isso, sua alimentação incluía pratos e ingredientes como a carne de peixes como o pirarucu, a carne de jacarés, tartarugas — além de seus ovos — e do peixe-boi do qual se fazia também a manteiga, e frutas.

PIrarucu - Foto: THIAGO ITACARAMBY /Assessoria/Sepe-MT

Como o terreno próximo a Vila de São Paulo do Piratininga era inadequado ao cultivo da cana de açúcar, a economia voltou-se para o interior, para a procura de ouro, pedras preciosas e apresamento dos indígenas e, por isso, puderam desenvolver-se lavouras de subsistência. O sistema de plantação dos tupis — aonde se cultivam pequenas áreas estratégicas — foi aproveitado pelos viajantes: plantava-se uma área para que houvesse alimento na viagem de volta. 

A própria história influenciou a culinária de cada região.

Indígenas

A alimentação indígena tinha como alicerce a mandioca, na forma de farinha e de beijus,mas também de frutas, pescado, caça, milho, batata e pirões e, com a chegada dos portugueses, do inhame trazido da África.

INdios descascando a raiz de Mandioca - foto: http://breederscafegourmet.blogspot.com

Todos os povos indígenas conheciam o fogo e o utilizavam tanto para o aquecimento e a realização de rituais quanto para preparar os alimentos. As principais formas de preparo da carne eram assá-la em uma panela de barro sobre três pedras (trempe),em um forno subterrâneo (biaribi), espetá-la em gravetos pontudos e colocá-la para assar ao fogo — de onde teria vindo o churrasco do Rio Grande do Sul — colocá-la sobre uma armação de madeira até ficar seca para que assim pudesse ser conservada (moquém) ou algumas vezes cozê-la.

gauchos e seu famoso churrasco - foto: http://costumesrs.blogspot.com/

No biaribiri colocavam uma camada de folhas grandes em um buraco e sobre elas a carne a ser assada e sobre essa carne ainda, uma camada de folhas e outra de terra, acendendo sobre tudo um fogueirade onde teria surgido o modo de preparar o barreado do Paraná.

Barreado do Paraná - foto: http://www.brasiliadedolma.blogspot.com

Por vezes a carne cozida servia para o preparo de pirões, mistura de farinha de mandioca, água e caldo de carnes. Havia duas formas de prepará-lo, cozido ou escaldado. Na primeira, o caldo é misturado com a farinha aos poucos e mexido até ganhar consistência adequada, na segunda, simplesmente misturam-se os dois, resultando em um pirão mais mole.

Ao lado da farinha e do beiju, a caça era outra das principais fontes de alimento.As principais carnes eram as de mamíferos como o porco-do-mato, o queixada, o caititu, a paca, o veado, macacos e a anta, que servia a comparações com o boi, a anta estrangeira. Eram preparadas com pele e vísceras, o pêlo queimado pelo fogo e os miúdos, órgãos internos, depois retirados e repartidos.

Sarapatel feito com miudos do boi - foto: http://www.casacoisasetal.blogspot.com

A pesca, de peixes, moluscos e crustáceos, era realizada com arco a pequenas distâncias, sem haver uma espécie mais apreciada que outras.Os maiores eram assados ou moqueados e os menores cozidos sendo o caldo utilizado para fazer pirão.Por vezes, secavam os peixes e socavam-nos até fazer uma farinha que podia ser transportada durante viagens e caçadas.

A paçoca era produzida da mesma maneira, pilando-se a carne com a farinha de mandioca, alimento posteriormente adaptado com castanhas de caju, amendoins e açúcar no lugar da carne e transformado em um doce.

Para temperar o alimento usavam a pimenta ou uma mistura de pimenta e sal pilada chamada ionquet, inquitaia, juquitaia, ijuqui. Sempre era colocado após o preparo e mesmo comido junto com o alimento, colocando-se um naco de comida na boca e em seguida o tempero. O sal era obtido a partir de difíceis processos de secagem da água do mar, em salinas naturais — sal mineral — ou a partir da cinza de vegetais.

Pimenta dedo de moça - foto: http://www.cozinhapossivel.blogspot.com

Entre os alimentos líquidos indígenas encontra-se a origem do tacacá, do tucupi, da canjica e da pamonha. O primeiro surge a partir do sumo da mandioca cozida, chamado manipueira, misturado com caldo de peixe ou carne, alho, pimenta e sale o segundo a partir da fervura mais demorada do mesmo sumo.

Tacacá prato tradicional de belem do Pará - foto: /www.santaremtur.com.br

A canjica era uma pasta de milho puro até receber o leite, o açúcar e a canela dos portugueses ganhando adaptações de acordo com o preparo, como o mungunzá, nome africano para o milho cozido com leite, e o curau, feito com milho mais grosso.A pamonha era um bolo mais grosso de milho ou arroz envolvido em folhas de bananeira.

Pamonha de milho verde - foto: http://www.papjerimum.blogspot.com

Fabricavam também bebidas alucinógenas para reuniões sociais ou religiosas como a jurema no Nordeste. Com seus ingredientes e técnicas a culinária indígena formaria a base da culinária brasileira e daria sua autenticidade,com a mandioca sendo o ingrediente nacional,pois incluído na maioria dos pratos.

O Sabor da Africa

A alimentação cotidiana na África por volta do século XVI incluía arroz, feijão (feijão-fradinho), milhetos, sorgo e cuscuz.

Feijão tropeiro prato mineiro feito com feijão fradinho: /www.fotolog.com.br/food/

A carne era em sua maior parte da caça  abundante de antílopes, gazelas, búfalos, aves, hipopótamos e elefantes. Pescavam pouco,de arpão, rede e arco. Criavam gado ovino, bovino e caprino, mas a carne dos animais de criação era em geral destinada ao sacrifício  e trocas; serviam como reserva monetária.  Preparavam os alimentos, assando, tostando ou cozendo-o  e para temperar a comida tinham apreço pelas pimentas,  mas também utilizavam molhos de óleos vegetais, como o azeite-de-dendê que acompanhavam a maioria dos alimentos.

Bolinho do Acarajé feito com feijão fradinho pilado e frito no azeite de dendê: foto retirada do Blog AlemdoqueseV

O escravo era apresentado aos gêneros brasileiros antes mesmo de deixar a África,  recebendo uma ração de feijão, milho, aipim, farinha de mandioca e peixes  para a travessia. A base da alimentação escrava não variava de acordo com a função que fosse exercer, quer fosse nos engenhos, nas minas ou na venda.Essa base era a farinha de mandioca. Ela variava mais em função de seu trabalho ser urbano ou rural e de seu proprietário ser rico ou pobre. A alimentação dos escravos nas propriedades ricas incluía canjica, feijão-preto, toucinho, carne-seca, laranjas, bananas, farinha de mandioca e o que conseguisse pescar e caçar; nas pobres era de farinha, laranjas e bananas.

Nas cidades, a venda de alguns pratos poderia melhorar a alimentação do escravo através dos recursos extras conseguidos.Os temperos usados eram o açafrão, o óleo de dendê e o leite de coco. Este último tem sua origem nas Índias e seria usado na costa leste da África já no século XVI, sendo trazido para o Brasil aonde é utilizado para regar peixes, mariscos, o arroz-de-coco, o cuscuz, o mungunzá e ainda diversos outras iguarias.

MUngunzá ou canjica amarela doce:foto: http://www.wp.clicrbs.com.br/feitoemcasa

Prato apreciado no Brasil atualmente, o cuscuz era conhecido em Portugal e na África antes da chegada dos portugueses ao Brasil.Surgido no norte da África, entre os berberes, ele podia ser feito de arroz, sorgo, milhetos ou farinha de trigoe consumido com frutos do mar. Com o transporte do milho da América ele passou a ser feito principalmente deste.  No Brasil é por regra, consumido doce, feito com leite e leite de coco, a não ser o cuscuz paulista, consumido com ovos cozidos, cebola, alho, cheiro-verde e outros legumes.

Cuscuz Paulista - foto: http://www.cybercook.terra.com.br

Europeus e outros povos

Dos imigrantes chegados ao Brasil do século XIX ao início do século XX, como alemães, italianos, espanhóis, sírio-libaneses, japoneses, foram os alemães e italianos que deixam maiores influências na culinária nacional.

Os alemães não muito numerosos, vindos de diferentes regiões da Alemanha e limitados ao Sul e Sudeste do país apenas reforçam o consumo de gêneros já utilizados pelos portugueses como a cerveja, a carne salgada, sobretudo de porco, e as batatas.Ao mesmo tempo em que mantêm o consumo de alguns gêneros como as salsichas, a mortadela, o toucinho e a cerveja, mostram-se adaptativos substituindo o que lhes falta da terra natal por matérias-primas locais. As comidas típicas da Alemanha não se difundem pelo país.

Os italianos por sua vez, em maior número e mais espalhados pelo território nacional conseguem impor as massas de farinha de trigo e os molhos. O macarrão italiano tornou-se alimento complementar,ao lado da farofa, do feijão, do arroz e das carnes. Além do macarrão, outras massas italianas foram trazidas como a pizza, o ravioli e a lasanha e outras comidas que não massas como os risottos e a polenta.

Divulgaram também o sorvete como doce e sobremesa. Fortaleceram o gosto pelo queijo, usado em todas as massas,tanto que o queijo passa a ser consumido junto com doces e frutas, como com a goiabada, ou sozinho, assado.

Um evento Cultural/Gastronômico no SESC SP

E, para mostrar toda essa diversidade, o Sesc Carmo, no Centro de SP, promove a Pitadas de Sabores e Alimentos do Brasil – Homenagem a Câmara Cascudo, uma série de encontros com direito à degustação dos pratos, que acontece entre 14 de outubro a 1º de dezembro.

Cartaz do Evento Pitadas e sabores do Brasil - SESC Carmo - SP

Baseado no livro História da Alimentação no Brasil, do folclorista e escritor Luís da Câmara Cascudo, o evento foi organizado de maneira a dar um panorama da formação da cozinha no Brasil. Nos encontros, que acontecem sempre às quintas-feiras (com exceção do primeiro, que será em uma sexta), chefs e especialistas no assunto mostram ao público todas essas influências. “O evento resgata como a cozinha nacional se formou”, conta Mariana Meirelles Ruocco, coordenadora do setor de alimentos do Sesc Carmo.

Só para se ter uma ideia dos pratos e suas influências, quando a chef Teresa Paim falar da contribuição africana, no dia 20 de outubro, ela irá preparar o vatapá de inhame. O também chef Mauro Fernandes vai tratar dos europeus na cozinha no dia 3 de novembro e traz um exemplar típico de Portugal: o cozido português, que vai além do tradicional bacalhau. “O prato leva frango, carne de boi, linguiça, presunto cru, repolho, cenoura e batata”, descreve Mariana.

Na programação, os demais encontros falam da importância da pimenta, do açúcar e das frutas, além da cozinha do Brasil Colônia com a farinha, feijão e carne-seca (o arroz só entrou depois). E o evento não se resume a receitas e palestras – nas instalações do Sesc Carmo há duas exposições fotográficas. Uma traz fotos de pessoas e objetos que fizeram parte da pesquisa de Câmara Cascudo para compor o livro. A outra vem com fotos de pratos típicos brasileiros que receberam diversas influências culturais, frutas, legumes, verduras e temperos que fazem parte da culinária verde-amarela.

Exposição:
“Viagens de Câmara Cascudo – Um Cardápio do Brasil”
Assim como fez Câmara Cascudo, viajando à África, em 1963, para colher informações sobre a alimentação do Brasil, a ideia é propor ao público uma viagem imaginária, com fotos de locais e elementos que fizeram parte de suas pesquisas. Fachada da unidade e elevadores.
De 14/10 a 30/12. Segunda a sexta, das 9h às 20h.

Mostra Fotográfica:
“Pitadas de Sabores e Alimentos do Brasil”
Mostra fotográfica de pratos típicos da culinária nacional, com influências indígena, africana e portuguesa, além da diversidade de frutas, legumes, verduras e especiarias do solo brasileiro, destacando várias sensibilidades presentes na alimentação do Brasil. Restaurante 1 e Bar Café. Apoio do acervo fotográfico: Keystone.
De 14/10 a 30/12. Segunda a sexta, das 9h às 20h.

Música:
“Intervenções Musicais”
Músicas que remetem ao universo da cultura popular, mencionada na obra do pesquisador Câmara Cascudo em seu livro “História da Alimentação no Brasil”.
Dias 14, 20 e 27/10 Sextas e quintas, às 18h30. Hall do restaurante 1.
Os ingressos custam de R$ 5,00 a R$ 20,00, incluem a degustação e começam a ser vendidos no dia 01/10, com 200 lugares disponíveis. O endereço do SESC Carmo é Rua do Carmo, 147. Mais informações pelo telefone 3111-7000 ou pelo portal http://www.sescsp.org.br.

Pitadas de Sabores e Alimentos do Brasil – Homenagem a Câmara Cascudo
Entre 14 de outubro e 1º de dezembro
SESC Carmo, Rua do Carmo, 147, Metrô Sé, São Paulo
Preço: De R$ 5,00 a R$ 20,00
Telefone:             (11) 3111-7000

Fontes: 

Cascudo, Luis da Câmara. História da alimentação no Brasil.

Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1983.

O Nosso “Raloin” é Caipira – 31 de Outubro dia do “SACI”

No Brasil o “Raloin” é CAIPIRA porque temos a nossa própria assombração, voce se lembra daquela figura que tem uma perna só, sacana, defensor das matas, fumador de pito, com gorrinho vermelho, ta sempre aprontando por ai, no meio do redemoinho: sim é ele mesmo, no Brasil dia 31 de Novembro, é dia do SACI.

Em Tupi Guarany – SACI quer dizer “Irriquieto”

Os Defensores

Um grande responsável por manter viva nos dias atuais da “crença” no SACI é uma  sociedade que acredita e se compromete a manter viva a imagem deste representante genuinamente Brasileiro: A Sociedade dos Observadores do Saci – SOSACI


Por que “raloins”, duendes e gnomos? Nós, brasileiros, temos nossos próprios mitos, que não ficam nada a dever a esses importados, comerciais, que são usados para anestesiar a auto-estima do nosso povo. Respeitamos os mitos dos outros, mas não queremos que eles sejam usados pela indústria cultural como predadores dos nossos. Cada vez mais, muitos brasileiros começam a compreender isso.  Uma  prova é a onda de adesões que a Sosaci (Sociedade dos Observadores de Saci) vem recebendo de vários pontos do país. O Saci, a Iara, o Boitatá, o Curupira, o Mapinguari e muitos outros brasileiros legítimos estão aí para serem festejados, sem espírito comercial, como nossos legítimos representantes no mundo do imaginário popular e infantil.
Viva essa turma boa!

O Dia do Saci consta do projeto de lei federal nº 2.762, de 2003 (apensado ao projeto de lei federal nº 2.479, de 2003), elaborado pelo então líder do governo Aldo Rebelo (PCdoB – SP) e Ângela Guadagnin (PT – SP) com o objetivo de resgatar figuras do folclore brasileiro, em contraposição ao “Dia das Bruxas“, ou “Halloween”, da tradição cultural dos Estados Unidos da América. Propõe-se seja celebrado em 31 de Outubro. Anteriormente, consta que iniciativas semelhantes já tinham sido aprovadas na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo e na Câmara Municipal de São Paulo.

Lei do SACI

A SOSACI fica em São Luiz do Piraitinga e mantem uma exposição permanente noMuseu afro Brasileiro – SP com peças da sua coleção.

Estátua do Saci em exposição no Museu Afro Brasileiro - SOSACI

fotos dos Sacis expostos

Museu Afro Brasil

As várias faces do Saci?

Em seu livro Conversas ao pé do fogo, Cornélio Pires deixou-nos este retrato do endiabrado saci:

“É um molequinho deste porte… risonho e cavorteiro como ele só… Tem de uns pretinho e já hai de uns mulatinho, mestiço de saci português, que us buava truxero pro Brasir no tempo de dante. Tem uma perna só, os óios aceso, sempre reganhado airrindu, mostrano os dente, pulano, granfino e desfrangino a testa, topetudinho cumo mico… É levado da breca e gosta de brincá de vira-mundo no rodamuinho de poêra c’o vento… PRa caçar os tár é perciso fazê um laço de rosário. Moram sempre em cima dos morão das portera e nas encruziada. Cavaleiro que passá na meia-noite de sexta-feira, já sabe: o tarzinho amunta na garupa e garra a fazê cosca que dexa um vivente por nada. O gosto do saci é amuntá e judiá dos animar no pasto, galopeano e trançano a crina. O reméde é marrá um dente de áio no cedenho do cavalo. Im burro eles num munta: são tosado”.

Ilustração do saci sobre um cavalo trançando sua crina

Não há país do mundo que não tenha incorporado a seu folclore e à sua própria vida, lendas e histórias fantásticas criadas na imaginação do povo. Embora a grande maioria seja de caráter internacional, como as crenças a respeito do lobisomem, dos vampiros e fantasmas de toda ordem, há algumas que têm características tipicamente regionais, originadas que foram do modo de vida em cada lugar.

No Brasil, por exemplo, embora as lendas variem acentuadamente de região para região, em todas pode ser encontrada o que os psicólogos chamam de “busca de uma ilusão” que, segundo a voz popular, “não faz mal a ninguém”.

Assim, o negrinho do pastoreio, do Rio Grande do Sul, o uirapuru, do Amazonas, o caipora, da região do Rio Negro e Pará, o saci pererê, da região leste e o boitatá, também do sul, são alguns dos mitos brasileiros já incorporados à música e à literatura do país.

A figura do Saci a princípio surge como um ser maléfico, mas pode ser somente brincalhão ou gracioso, conforme as versões comuns no sul do Brasil. Na Região Norte, a mitologia africana o transformou em um negrinho que perdeu uma perna lutando capoeira, imagem que prevalece nos dias de hoje. Herdou também, da cultura africana, o pito e o cargo de Defensor das matas se misturando á figura de Oassain. Veio da mitologia européia, o píleo, um gorrinho vermelho usado pelo lendário trasgo.

Na cultura afro, a imagem de Ossain é sincretizada com o Saci, devido ao fato do Orixá ser o defensor do poder que vem das folhas.

Todos os sacis reunidos através da tradição oral

O primeiro escritor a se voltar de verdade para a figura do Saci-Pererê foi Monteiro Lobato, que realizou uma pesquisa entre os leitores do jornal O Estado de São Paulo com o título de “Mitologia Brasílica – Inquérito sobre o Saci-Pererê“, Lobato colheu respostas dos leitores do jornal que narravam as versões do mito, no ano de 1917. O resultado foi a publicação, no ano seguinte, da obra Saci-Pererê: resultado de um inquérito, primeiro livro do escritor. Depois o Saci assim como seus amigos da mata viraram personagem do célebre Sítio do Pica Pau Amarelo. O Inquérito pode ser encontrado nas livrarias em sua nova edição de 2008 comemorando seus 90 anos.

Monteiro Lobato nosso defensor da fantástica tradição oral

Segundo o estudioso: Luís da Câmara Cascudo

O inquérito fora feito no estado de São Paulo. Depoimentos inúmeros evocaram o saci unípede, pretinho, com um só olho, atrapalhando todas as coisas vivas, assobiando e assombrando. Um traço característico era a carapuça vermelha que o usa o saci no cimo da cabecinha inquieta. Essa carapuça é encantada. Faz o saci ficar invisível. Todas as “forças” vêm desse barrete. Quem lho arrebatar terá direitos completos sobre o negrinho poderoso. Poderá exigir o que quiser. O saci dará riquezas, poderios, grandezas, para que lhe restituam a carapuça. O sr. Luís Fleury, de Sorocaba, prestou depoimento dessas tradições. Narrou que o saci fizera aparecer um monte de moedas de ouro para receber seu barretinho. O ouro sumiu-se porque o viajante esquecera de benzê-lo (Inquéritos, 180).

Publicado no site: Revista Jangada Brasil

O Saci vira astro da TV, Documentário e quadrinhos:

Com a transposição dos textos de Lobato para a Televisão, o Saci deixou o imaginário para ser personificado numa figura de carne e osso e sua imagem se firmou com grande alcance e simpatia do público.

Existe um documentário sobre o Saci feito por Sylvio do Amaral Rocha e Rudá K. Andrade. Somos Todos Says refaz o caminho do Inquérito de Lobato e resignifica o mito hoje. Fruto de longa pesquisa em comunidades rurais, vilas e pequenas cidades do Vale do Paraíba, Vale da Ribeira e da região de Botucatu, o filme dá voz a pessoas que dizem ter visto ou ouvido sacis. Rudá e Sylvio ficaram um ano e meio na realização do projeto, reduzindo o material recolhido para 50 minutos. A pré-estréia de “Somos todos Sacys” ocorreu no MIS, em 27 de abril de 2005. Dois dias depois, foi exibido pela Rede STV (Sesc Senac).

Somos todos Sacys – Vídeo

Ziraldo não criou apenas um personagem, mas uma turma essencialmente Brasileira a Turma do Pererê, com aventuras pra lá de fantásticas.

Como prender o “Danado”

Temido por alguns, que vêem nele uma entidade maléfica, o saci pererê tem sido através dos séculos, o motivo de alegria e zombaria para a garotada que sai à sua procura em dias de ventania.

Conta a lenda que nesses dias, quando há redemoinhos de poeira e folhas secas, o saci aparece no meio deles, dando gargalhadas e assobiando. Embora jamais alguém o tenha conseguido, afirmam os supersticiosos que, quem um dia prender o saci e colocá-lo sem o seu gorrinho dentro de uma garrafa bem fechada e com uma cruzinha na rolha, terá para sempre seus pedidos atendidos por um ente humilde e obediente. Mas, é importante que se tire o gorrinho vermelho, origem de toda a força do tal negrinho.

A forte imagem do saci será sempre eternizada por aqueles que acreditam em sua existencia.

Bom, voce acreditando ou não, o danado Saci existe, muita gente já viu, já ouviu seu assobio, já riu muito e  já sofreu com suas brincadeiras, outros o tem guardado numa garrafa. Acreditar no Saci é manter vivo dentro de si o “encantamento”, a tradição do nosso povo, a nossa cara Caipira.

Em tempos de Sustentabilidade, evocamos nosso maior representante defensor das matas  pra pra dar um baita susto naqueles que querem, de forma absurda e insensível, destruir nossas matas e o poder que vem das nossas folhas.

Salve o Saci

Saiba mais:

Manifesto do Saci – ou – Manifesto Antropofágico Revisitado –

Quer se aprofundar mais no assunto:

Bibliografia sobre o Saci

O Blog saci urbano recebe e publica fotos de Grafites com o perneta.

iva essa turma boa!

O Brinquedo Artesanal Popular Brasileiro

O Celophane Cultural comemora o Dia da Criança trazendo a arte de fazer brinquedos, brinquedos populares, que para muitos que desempenham este ofício, representa uma forma de sustento. Com vocês o Brinquedo Artesanal Popular Brasileiro.

Um brinquedo é um objeto ou uma atividade lúdica, voltada única e especialmente para o lazer , e geralmente associada a crianças, também usada por vezes para descrever objetos com a mesma finalidade, voltada para adultos.

"Crianças Brincando" - Cândido Portinari

Na pedagogia, um brinquedo é qualquer objeto que a criança possa usar no ato de brincar. Alguns brinquedos permitem às crianças divertirem-se enquanto, ao mesmo tempo, as ensinam sobre um dado assunto. Brinquedos muitas vezes ajudam no desenvolvimento da vida social da criança, especialmente aquelas usadas em jogos cooperativos.

Jacaré do Miro - confeccionado em madeira e tinta latex - João Pessoa - PA

Os brinquedos são de vital importância para o desenvolvimento e a educação da criança, por propiciar o desenvolvimento simbólico, estimular a sua imaginação, a sua capacidade de raciocínio e a sua auto-estima.

Podem ser utilizados em tratamento psicoterapêutico na Ludoterapia, com crianças com problemas emocionais causados por fatores variados, ou que apresentam distúrbios de comportamento ou baixo rendimento escolar. Caminhõezinhos, carrinhos em miniatura, bonecas, bolas, ursos de pelúcia, ioiôs e action-figures são exemplos de brinquedos. O ato de brincar em si, geralmente não exige um brinquedo, que seja um objeto tangível, pode acontecer como jogos simbólicos (faz-de-conta).

Não se sabe precisar em que época surgiram os brinquedos populares, sabe-se apenas que eles apareceram em todas as sociedades desde as mais remotas.

Ciclista do Miro - Artesão Popular -João Pessoa - PA

No contexto folclórico, o brinquedo popular é peça fundamental para o desenvolvimento intelectual e coordenação motora da criança.

Caracterizado como produto artesanal, o brinquedo age de forma interativa no mundo de fantasias da criança, aproximando-a da realidade social em que vive, desenvolvendo experiências internas e externas ao seu mundo, promovendo melhores resultados na aprendizagem.

Com o advento da revolução industrial, o brinquedo sofreu grandes modificações tecnológicas. Diminuiu a demanda artesanal e a sociedade passou a consumir os brinquedos industrializados, com novas formas e roupagens que fugiram da realidade social das crianças de classe média e baixa.

Mas apesar do avanço tecnológico, o brinquedo artesanal continua com a sua identidade cultural, que encanta as crianças de todas as gerações e classes sociais, ricas e pobres.

O brinquedo artesanal nunca deixou de ser fabricado, principalmente nas regiões mais pobres do Brasil, onde o artesanato é o meio de subsistência da maioria da população.

É grande a variedade destes brinquedos, que vai desde os carrinhos de madeira ou de lata, bonecas de pano, marionetes, aviãozinho de papel, pião, baladeiras, estilingue, badoque, papagaio ou pipa, peteca e outros. Todos são encontrados nas feiras livres, mercados , mercearias e museus.

Bodoque ou badoque ou ainda estilingue

Originário da Índia, foi trazido para o Brasil pelos portugueses. Fabricado a partir de uma vara de marmelo de boa grossura, flexível e ressecada ao fogo, com ganzepe nas extremidades onde faz-se o encaixe para amarrar a corda, mais ou menos no centro, a madeira deve ser afinada para melhor flexibilidade.

BOdoque ou estilingue - Fonte: Doma Racional Porto Alegre

Conhecido também por setra, baladeira e atiradeira, sua utilidade é medir a pontaria dos participantes. É composto de três partes distintas: o gancho ou forquilha (cabo), o espástico e a malha. A forquilha é feita preferencialmente de laranjeira, goiabeira ou jabuticabeira. Nas extremidades das duas hastes da forquilha, amarra-se o elástico diretamente na madeira. O elástico usado é de câmaras-de-ar de pneus de automóveis, onde risca-se à lápis duas paralelas e corta-se duas tiras longas de mais ou menos trinta centímetros de comprimento e um centímetro de largura. A malha é uma parte do couro onde vai o projétil: pedra, mamona verde ou pelota de barro cozido.

Carrinhos

Carrinho de lata de cerveja. Em diversas regiões brasileiras se produz carrinhos dos mais diferentes materiais acompanhando a onda da reciclagem de resíduos - foto: Comparsas do Blog

Os carrinhos podem ser confeccionados a partir de sucatas industriais como latas de leite, óleo, doce, dependendo da criatividade do artesão. São encontrados em cores vibrantes e de vários modelos como as carretas¸ ônibus, carros de corridas, locomotivas.

Carrinhos do Renan com PET e tampinhas de garrafa - foto: Priscila Okino

As ferramentas utilizadas para confecção são a bigorna, alicate, ferro de solda e martelo. São encontrados nas feiras livres, mercados e mercearias.

Bonecas Abayomi

A história das Bonecas Abayomi, começou com Lena Martins, uma maranhense militante do movimento de mulheres negras, que procurava na arte popular um instrumento de conscientização e sociabilização. Logo outras mulheres se juntaram ao movimento e fundaram a Cooperativa Abayomi, em 1988.

Bonecas Abayomi - foto site: Etnico Racial

Inspiradas em personagens do cotidiano, contos de fada, circo e orixás, as Bonecas Abayomi, sempre negras, buscam o fortalecimento da auto-estima e reconhecimento da identidade afro-brasileira. São feitas de sobras de panos cedidas pelas confecções, que são amarrados, resgatando o fazer artesanal da forma mais singela, sem costuras e com o uso mínimo de ferramentas, enquanto questões sobre o racismo, sexismo e violência são refletidos. A Cooperativa também ministra cursos, oficinas e palestras.

Barcos de Paraty – RJ

Nos anos 60, os irmãos João e Pedro Souza brincavam com os próprios barcos que construíam, enquanto apreciavam seu pai e pescadores em sua traineiras no Saco de Mamanguá, uma ilha a 2 horas de Paraty. Hoje os barcos em miniatura são uma tradição.  Metade das 100 famílias que residem na ilha ganham a vida com as pequenas traineiras, canoas, veleiros e saveiros.

Barcos coloridos de madeira de Paraty - RJ - Foto: Eulina Rego

Feitos dos galhos da Caxeta (Tabebuia), árvore nativa dos manguesais da Mata Atlântica,  madeira alva, leve e macia, os barcos eram de madeira natural, hoje são coloridos e lembram as traineiras que ainda singram as águas de Paraty.

Brinquedos de Miriti

Os Brinquedos de Miriti, uma fibra leve da palmeira também conhecida como Buriti e chamada de isopor da Amazônia, são fabricados há 200 anos no Pará. 

Nascidos da espetacular capacidade de adaptação do caboclo brasileiro à natureza que o circunda, os Brinquedos de Miriti são a expressão da sensibilidade e da representação ingênua do universo ribeirinho da região de Abaetetuba, cidade vizinha de Belém, distante hora e meia de carro e balsa, ou duas horas de barco, o transporte mais usado, talvez até pela calma e placidez que a floresta e os igarapés sugerem.

Barquinhos em Miriti com santinhas - Foto Diário do Pará

A confecção dos brinquedos começa com a coleta dos talos (braços) da palmeira, no meio do mato, em Sirituba, um logradouro que se atinge de barco.

O miriti escolhido é de preferência jovem. Da planta se colhe apenas os braços, onde estão as folhagens.  Com isso, não é uma atividade predatória, e sim sustentável,  uma vez que a árvore é mantida viva e crescendo.

Carregadores de agua - foto: DJ Vitor Pedra Roots

Para se obter a matéria prima dos brinquedos os braços do miriti são descascados e se aproveita apenas o miolo. As cascas que são bem flexíveis, depois de secas, transformam-se em cestos, paneiros, varetas de papagaios e pipas. O miolo, trabalhado com facões de mato, é alisado e transportado em feixes para os produtores dos brinquedos.

Cena do filme: "Nossa Senhora do Miriti" do animador e ilustrador paraense Andrei Miralha - Foto Nina Abreu

Os artistas com ferramentas rústicas (normalmente facas e facões) esculpem e montam peças segundo suas referências pessoais. Alguns especializaram-se em barcos, outros em bonecos dançarinos, cobras, jacarés, madeireiros, pássaros, insetos perfeitos, vaquinhas, aviões, rádios de pilha, televisões. A escolha deste ou daquele motivo é parte da crônica individual de cada autor ou família de autores.

Muitos dos barquinhos feitos em Miriti são usados para pagamento de promessa no Cirio de Nazaré - Foto Breno Peck

Depois de prontas, com as partes coladas e secas, é aplicado o desenho base da pintura final feita por membros das famílias (homens, mulheres e crianças) que repetem em cada peça o padrão estabelecido. Os brinquedos são estocados e, à véspera do Círio de Nazareth, são levados para Belém, onde são expostos nas praças ou comercializados em girândolas.

Boneca Esperança

“Sou uma boneca artesanal, de pano, trapos, fios, linhas, fitas, rendas e muitos enfeites. Costurada ponto a ponto, uma parte de cada vez. Sou loira, morena, ruiva, como a gente do meu país. Pequena alta, gorda ou magra.

Boneca esperança - fonte: Arte Sol

A Boneca Esperança foi criada pelas mãos talentosas de Socorro da Conceição, que desde os 7 anos fazia bonecas no Sítio de Riacho Fundo, na cidade de Esperança do estado da Paraíba.

Mandala de bonecas esperança: Foto Babel das artes

Socorro e sua irmã Derita continuaram no ofício de produzir bonecas e ficaram conhecidas na região e no estado.  No ano 2000 foram procuradas pelo  Programa de Artesanato Solidário e incentivadas a  formarem um grupo. Hoje são 40 mulheres e uma sede, a Casa da Boneca Esperança, produzindo bonecas que tornaram-se famosas tanto no Brasil quanto no Exterior.

MAMULENGO

O “Mão Molenga”  é a forma mais primitiva e popular de teatro de bonecos. Muito popular em Pernambuco, onde era representado em praças, feiras e ruas, com uma linha de ação dramática muito simples, inspirada diretamente nos fatos do cotidiano e interagindo com o público que construía a trama. Os personagens sempre eram os mesmos: a Quitéria, o Cabo, o Coronel, o Simão, o Cangaceiro, o Padre, o diabo e as almas penadas. A linguagem era, e é ainda, muito provocativa, debochada e irreverente.

Mamulengo - Museu do mamulengo - Olinda - PE - foto: Jefferson Duarte

Os bonecos são talhados em mulungu, cortiça ou feitos em papel marché, com aproveitamento de sucata. O mamulengo, como o fantoche tradicional, tem cabeça e braços ocos e é manipulado pelos dedos indicador, médio e polegar dos mamulengueiros ou artesãos.

Mula manca

Mula Manca - foto: artesanato Menino Deus

A mula manca é um brinquedo confeccionado em madeira leve, com as características de uma burrinha, com os membros (pernas, pescoço e cauda). É colocada sobre uma base e tencionado por meio de fios ligados a uma espécie de mola localizada na base que quando é pressionada pelos dedos a burrinha movimenta-se para todos os lados.

Pião ou pinhão

Segundo Câmara Cascudo, no seu Dicionário de folclore brasileiro, a brincadeira do pião existe desde os tempos remotos. Na Grécia, era conhecido como strombo e em Roma como turba. No Brasil, o pião é um pequeno objeto feito de madeira, ou metal, tendo na ponta um prego ou ferrão. Com um cordão ou ponteira enrola-se da ponta ao corpo do pião e impulsiona-o para o chão e este ao desenrolar-se do impulso, fica a rodopiar.

Pião de madeira - Foto: Denize Pereira

O jogador apara o pião em movimento, usando os dedos indicador e médio em forma de tesoura e deixa-o rodar na palma da mão, onde ele gira e ou ronca até parar.

Ratinho

O ratinho é confeccionado sobre um molde de barro cru, usando uma mistura de água, goma e papel. O artesão modela o brinquedo, coloca um carretel de barro cru embaixo do brinquedo tensionado por borracha, puxado por uma linha, põe rabo, orelha de borracha de pneu e pinta o corpo do bichinho com cores fortes primárias.

Rato - foto Artesol

Xipoca

A xipoca é feita de um canudo de taquera de mais ou menos trinta centímetros de comprimento e um êmbolo feito de madeira resistente e pouco maior do que o tamanho do tubo, que deve correr, dentro do canudo não muito folgado. A munição é feita de pedaços de papel jornal molhado e amassado em forma de bolinhas e colocada no tubo com a vareta até atingir a extremidade e depois disparar. Este brinquedo é utilizado na “guerra”, entre dois grupos de meninos distantes um do outro cerca de cinco a oito metros. Quanto maior a pressão mais distante é lançado o projétil.

Um Brinquedo de Vinte séculos:

“Há dias parei na esquina da Juvino Barreto vendo uns garotos brincando o “jogo da pedrinha”. Não me julguem desocupado em deter andadura para examinar brincadeira de menino. A brincadeira, o jogo infantil, é um elemento precioso de informação. Mais, cheio de notícias do passado, que um num livro de histórias. Ninguém admira como esses processos de divertir uma criança tenham atravessado séculos, utilizados por milhares de criaturas humanas, transmitidos oralmente, mecanicamente, de geração a geração… ”

Câmra Cascudo – “O Livro das velhas figuras”

Fontes:

Fonte: MACHADO, Regina Coeli Vieira. Brinquedos populares. Pesquisa Escolar On-Line, Fundação Joaquim Nabuco, Recife.


Instituto Brinquedo Vivo

FEIRA-ATIVIDADE: brinquedos e brincadeiras populares: uma experiência no Museu do Homem do Nordeste. Recife: Fundaj, Ed. Massangana, 1992. 44 p.

SILVA, José Nilton da. Brinquedos populares: subsídios para o professor de educação do 1º grau. João Pessoa: Secretaria de Educação e Cultura, 1982. 59 p.

RIBEIRO, Paula Simon; SANCHOTENE, Rogério Fossari. Brincadeiras infantis: origem-desenvolvimento-sugestões. 2. ed. Porto Alegre: Sulina, 1990. 75 p.

A História do queijo “proibido” de Minas.

“Ao homem contemporâneo, a convivência com vestígios do passado costuma gerar conforto identitário, segurança por saber-se parte de uma construção antiga que lhe sustenta e justifica costumes e ações. Quando a construção passada é permanência e tradição vivas e arraigadas na dinâmica das construções culturais, esse conforto se transforma em orgulho identitário e supera o temor pelo esquecimento que geraria sentimento de perda. Modos de fazer tradicionais se enquadram nessa categoria de permanências que sinalizam ao homem moderno sentimentos de orgulho pelos saberes construídos em seu passado. Aos mineiros contemporâneos os modos de fazer artesanais de queijo a partir do leite cru, tradição persistente e em dinâmica transformação em sua cultura, identifica seus modos costumeiros e dá conforto à suas vidas. Além disso, embasa a sobrevivência de numerosas famílias e fundamenta a economia de municípios e de regiões”.

José Newton Coelho Meneses

O Celophane Cultural pegando carona no lançamento do documentário: “O Mineiro e o Queijo” de Helvécio Ratton, traz este universo, a discussão política e a tradição reconhecida como patrimônio Imaterial do nosso delicioso queijo mineiro.

A INVASÃO DE VACAS E BOIS NO SOLO BRASILEIRO?

Não, as primeiras cabeças de gado bovino chegaram ao Brasil em 1534, por iniciativa de Ana Pimentel de Souza, a esposa de Martim Afonso de Souza, que mandou vir do arquipélago de Cabo Verde, algumas dezenas de cabeças de gado para a capitania de São Vicente. Estudiosos especulam que alguns destes animais eram mestiços com sangue Zebu. Também vieram alguns equinos e poucas cabeças de suínos.

"Boi Barrosão" - Ilustração de Leopoldo Costa

No século XVIII, aventureiros portugueses em busca de ouro levaram para a região das minas a arte do queijo. O queijo era uma forma de conservar o leite e, à medida que estes exploradores percorriam novas áreas, a produção do queijo artesanal se espalhava por Minas Gerais, adaptando-se bem aos climas serranos. Hoje, o queijo minas é produzido por 30 mil famílias e considerado patrimônio
cultural do Brasil.

Livro: "500 anos de leite no Brasil" de João Castanho Dias - clique na imagem para saber mais.

DEBRET E O QUEIJO

Jean-Baptiste Debret chegou ao Brasil em 1816, para ser o pintor da família real e foi um dos primeiros viajantes a notar que o país possuía um produto diferente, consumido ao final das refeições, o queijo-de-minas.

J. B. DEBRET. Um jantar brasileiro. 1827. Museus Castro Maya – IPHAN/MinC – MEA 0199

Sua história remonta à chegada dos portugueses a Minas Gerais, no século XVIII, depois da descoberta do ouro. Como os homens precisavam de um alimento que durasse todo o dia, uma antiga técnica portuguesa de queijo coalhado, feito de leite fresco, foi adaptada às condições locais.

A PROIBIÇÃO

Porém, em função de uma lei federal de 1952, de inspiração norte-americana, o queijo minas artesanal enfrenta um grave obstáculo: sua venda é proibida paraoutros estados brasileiros, o que provoca impactos econômicos e sociais significativos sobre os pequenos produtores.

Filmado nas belas regiões do Serro, serra da Canastra e Alto Paranaíba, O Mineiro e o Queijo traz a palavra de produtores, comerciantes, cientistas e atravessadores, traça um amplo painel sobre o queijo minas e investiga a estranha situação de um produto tradicionalíssimo, mas barrado em seu próprio país.


PATRIMÔNIO CULTURAL

Em 2008, o queijo minas virou patrimônio cultural imaterial brasileiro. Foi este reconhecimento que disparou o processo criativo e de pesquisas que levaria, três anos depois, ao documentário O Mineiro e o Queijo, do cineasta Helvécio Ratton. “O queijo sempre fez parte da minha vida”, explica o diretor. “Numa família como a minha, encabeçada por duas pessoas nascidas no interior de Minas, a presença do queijo era uma constante dentro de casa.” Assim, o tombamento do queijo artesanal naturalmente reavivou em Ratton a curiosidade sobre a história e a tradição desta iguaria típica de seu estado.

O QUEIJO FORA DA LEI

Uma das primeiras providências de Ratton e Marcellini foi o estudo do dossiê preparado para o Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais (IEPHA/MG) e a realização de reuniões com os técnicos da instituição. “Logo percebemos que a questão era muito mais complexa do que havíamos imaginado”, lembra Helvécio.

“Isso me fez mudar a linha que havia imaginado para o filme: inicialmente, iria numa linha em busca da tradição, mas gradualmente passei a me preocupar mais com o impacto da legislação federal sobre o pequeno produtor. Fui da História ao enfoque social”.

O cineasta se refere a uma lei assinada por Getúlio Vargas em 1952 que, com a intenção de regulamentar a produção de queijos, exige 60 dias de maturação para os queijos feitos de leite cru. Na prática, a lei proibe a comercialização dos queijos artesanais, transformando-os em produtos ilegais.

Cartaz do filme: O Mineiro e o Queijo

“Os norte-americanos querem suprimir dos mercados internacionais o queijo feito do leite cru e a lei brasileira foi claramente influenciada por eles”, explica Ratton. “Os americanos chegaram a entrar na OMS com uma ação para impedir a França de vender seus queijos do leite cru em outros países”.

A lei carece de bases científicas, já que desconsidera o clima tropical e as bactérias aqui existentes – e, assim, os 60 dias exigidos para a maturação do queijo antes da comercialização não são necessários no Brasil. “O curioso é que importamos queijos artesanais produzidos nas mesmas condições ou em condições piores de países europeus, já que temos uma cultura de higiene claramente melhor do que a deles”, pondera o historiador José Newton Meneses, responsável pelo dossiê que embasaria o tombamento do queijo artesanal mineiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) e cujo depoimento faz parte de O Mineiro e o Queijo.

"O MIneiro e o Queijo" foto divulgação de Ricardo Lima

“A Universidade Federal de Viçosa tem uma série de pesquisas que mostram o nosso cuidado com o queijo e que comprovam que este é próprio para consumo já com 15-20 dias”, completa o produtor Joãozinho, outra figura importante no documentário. Esta pesquisa, aliás, foi a base para a legislação estadual de Minas, que permite a comercialização do queijo artesanal com 21 dias de maturação.

As diferenças entre as legislações Federal e Estadual é que impedem a comercialização do queijo minas artesanal fora do estado. Para estabelecer um amplo painel acerca da situação, Ratton percebeu que precisaria discutir o tema não apenas com produtores, mas também com comerciantes, consumidores, técnicos, professores e até mesmo com atravessadores. E esta decisão, claro, implicou em ampliar radicalmente as pesquisas e o enfoque do documentário.

O MINEIRO E O QUEIJO - O produtor de queijo Zé Mário em São Roque de Minas, região da Canastra Foto de Rusty Marcellini

Processo muitas vezes solitário que implica num trabalho diário que leva o produtor a permanecer cerca de quatro a cinco horas profundamente concentrado na tarefa, o fazer do queijo artesanal é uma tarefa de delicadeza e concentração. “Se o sujeito não estiver bem consigo mesmo, o queijo não fica bom. Eles mesmos dizem que isso faz a diferença”. Assim, o diretor e sua equipe registraram todas as etapas da produção do queijo artesanal nas fazendas, voltando a captá-las em uma fábrica de laticínios para estabelecer a natureza similar do processo. “Na indústria, as etapas são exatamente as mesmas, mas numa escala bem maior e em outro ritmo. E o espectador consegue perceber como os processos são idênticos, mas a relação com o queijo é outra ”.

O MINEIRO E O QUEIJO - O produtor de queijo Luciano apresenta o queijo minas canastra real em Medeiros, região da Canastra Foto de Gilberto Otero

Por outro lado, Ratton se esforçou em não pintar os laticínios como “vilões”, como antagonistas dos produtores artesanais. “É apenas uma questão de diferença; cada um tem sua preferência”.

“A Europa inteira faz queijo de leite cru e vende para o mundo. Nossos técnicossão muito retrógrados, não têm interesse em regulamentar a produção agroartesanal.Nem o governo se entende, aliás; o Ministério da Cultura trombou defrente com o da Agricultura ao tombar nosso queijo como patrimônio ao mesmotempo em que este último nos proibe de circular pelo país”.

“O Estado precisa reconhecer o valor de identidade do queijo artesanal”, defende o historiador José Meneses. “A legislação se preocupa com a pasteurização, mas está defasada. Hoje o controle é feito no rebanho, através da vacinação contra brucelose, por exemplo, que diminui significativamente o risco de contaminação do queijo. No mundo inteiro é assim, mas aqui o Estado parece não
querer gastar com fiscalização e prefere proibir. Mas como proibir algo que dá identidade cultural a um estado?”.

Responsável por um dos documentários mais importantes no histórico do movimento anti-manicomial (Em Nome da Razão), Helvécio não é um estranho ao conceito de Cinema como gatilho de movimentos sociais e políticos. “Espero que o filme provoque uma bela polêmica, que as pessoas percebam o que está acontecendo não só com o queijo artesanal, mas com outros produtos da agricultura familiar”, confessa. “Nós vamos, inclusive, fazer uma sessão na Assembleia Legislativa de Minas Gerais com debate e presença de produtores logo depois do lançamento do longa nos cinemas”.

O diretor - divulgação - foto: Ricardo Lima

Fontes:

Site Oficial do filme “O MIneiro e o Queijo”

Introdução do gado no Brasil

PDF – Queijo Artesanal de Minas- Patrimônio Cultural do Brasil – Dossiê Interpretativo

Revista de História