O Brinquedo Artesanal Popular Brasileiro

O Celophane Cultural comemora o Dia da Criança trazendo a arte de fazer brinquedos, brinquedos populares, que para muitos que desempenham este ofício, representa uma forma de sustento. Com vocês o Brinquedo Artesanal Popular Brasileiro.

Um brinquedo é um objeto ou uma atividade lúdica, voltada única e especialmente para o lazer , e geralmente associada a crianças, também usada por vezes para descrever objetos com a mesma finalidade, voltada para adultos.

"Crianças Brincando" - Cândido Portinari

Na pedagogia, um brinquedo é qualquer objeto que a criança possa usar no ato de brincar. Alguns brinquedos permitem às crianças divertirem-se enquanto, ao mesmo tempo, as ensinam sobre um dado assunto. Brinquedos muitas vezes ajudam no desenvolvimento da vida social da criança, especialmente aquelas usadas em jogos cooperativos.

Jacaré do Miro - confeccionado em madeira e tinta latex - João Pessoa - PA

Os brinquedos são de vital importância para o desenvolvimento e a educação da criança, por propiciar o desenvolvimento simbólico, estimular a sua imaginação, a sua capacidade de raciocínio e a sua auto-estima.

Podem ser utilizados em tratamento psicoterapêutico na Ludoterapia, com crianças com problemas emocionais causados por fatores variados, ou que apresentam distúrbios de comportamento ou baixo rendimento escolar. Caminhõezinhos, carrinhos em miniatura, bonecas, bolas, ursos de pelúcia, ioiôs e action-figures são exemplos de brinquedos. O ato de brincar em si, geralmente não exige um brinquedo, que seja um objeto tangível, pode acontecer como jogos simbólicos (faz-de-conta).

Não se sabe precisar em que época surgiram os brinquedos populares, sabe-se apenas que eles apareceram em todas as sociedades desde as mais remotas.

Ciclista do Miro - Artesão Popular -João Pessoa - PA

No contexto folclórico, o brinquedo popular é peça fundamental para o desenvolvimento intelectual e coordenação motora da criança.

Caracterizado como produto artesanal, o brinquedo age de forma interativa no mundo de fantasias da criança, aproximando-a da realidade social em que vive, desenvolvendo experiências internas e externas ao seu mundo, promovendo melhores resultados na aprendizagem.

Com o advento da revolução industrial, o brinquedo sofreu grandes modificações tecnológicas. Diminuiu a demanda artesanal e a sociedade passou a consumir os brinquedos industrializados, com novas formas e roupagens que fugiram da realidade social das crianças de classe média e baixa.

Mas apesar do avanço tecnológico, o brinquedo artesanal continua com a sua identidade cultural, que encanta as crianças de todas as gerações e classes sociais, ricas e pobres.

O brinquedo artesanal nunca deixou de ser fabricado, principalmente nas regiões mais pobres do Brasil, onde o artesanato é o meio de subsistência da maioria da população.

É grande a variedade destes brinquedos, que vai desde os carrinhos de madeira ou de lata, bonecas de pano, marionetes, aviãozinho de papel, pião, baladeiras, estilingue, badoque, papagaio ou pipa, peteca e outros. Todos são encontrados nas feiras livres, mercados , mercearias e museus.

Bodoque ou badoque ou ainda estilingue

Originário da Índia, foi trazido para o Brasil pelos portugueses. Fabricado a partir de uma vara de marmelo de boa grossura, flexível e ressecada ao fogo, com ganzepe nas extremidades onde faz-se o encaixe para amarrar a corda, mais ou menos no centro, a madeira deve ser afinada para melhor flexibilidade.

BOdoque ou estilingue - Fonte: Doma Racional Porto Alegre

Conhecido também por setra, baladeira e atiradeira, sua utilidade é medir a pontaria dos participantes. É composto de três partes distintas: o gancho ou forquilha (cabo), o espástico e a malha. A forquilha é feita preferencialmente de laranjeira, goiabeira ou jabuticabeira. Nas extremidades das duas hastes da forquilha, amarra-se o elástico diretamente na madeira. O elástico usado é de câmaras-de-ar de pneus de automóveis, onde risca-se à lápis duas paralelas e corta-se duas tiras longas de mais ou menos trinta centímetros de comprimento e um centímetro de largura. A malha é uma parte do couro onde vai o projétil: pedra, mamona verde ou pelota de barro cozido.

Carrinhos

Carrinho de lata de cerveja. Em diversas regiões brasileiras se produz carrinhos dos mais diferentes materiais acompanhando a onda da reciclagem de resíduos - foto: Comparsas do Blog

Os carrinhos podem ser confeccionados a partir de sucatas industriais como latas de leite, óleo, doce, dependendo da criatividade do artesão. São encontrados em cores vibrantes e de vários modelos como as carretas¸ ônibus, carros de corridas, locomotivas.

Carrinhos do Renan com PET e tampinhas de garrafa - foto: Priscila Okino

As ferramentas utilizadas para confecção são a bigorna, alicate, ferro de solda e martelo. São encontrados nas feiras livres, mercados e mercearias.

Bonecas Abayomi

A história das Bonecas Abayomi, começou com Lena Martins, uma maranhense militante do movimento de mulheres negras, que procurava na arte popular um instrumento de conscientização e sociabilização. Logo outras mulheres se juntaram ao movimento e fundaram a Cooperativa Abayomi, em 1988.

Bonecas Abayomi - foto site: Etnico Racial

Inspiradas em personagens do cotidiano, contos de fada, circo e orixás, as Bonecas Abayomi, sempre negras, buscam o fortalecimento da auto-estima e reconhecimento da identidade afro-brasileira. São feitas de sobras de panos cedidas pelas confecções, que são amarrados, resgatando o fazer artesanal da forma mais singela, sem costuras e com o uso mínimo de ferramentas, enquanto questões sobre o racismo, sexismo e violência são refletidos. A Cooperativa também ministra cursos, oficinas e palestras.

Barcos de Paraty – RJ

Nos anos 60, os irmãos João e Pedro Souza brincavam com os próprios barcos que construíam, enquanto apreciavam seu pai e pescadores em sua traineiras no Saco de Mamanguá, uma ilha a 2 horas de Paraty. Hoje os barcos em miniatura são uma tradição.  Metade das 100 famílias que residem na ilha ganham a vida com as pequenas traineiras, canoas, veleiros e saveiros.

Barcos coloridos de madeira de Paraty - RJ - Foto: Eulina Rego

Feitos dos galhos da Caxeta (Tabebuia), árvore nativa dos manguesais da Mata Atlântica,  madeira alva, leve e macia, os barcos eram de madeira natural, hoje são coloridos e lembram as traineiras que ainda singram as águas de Paraty.

Brinquedos de Miriti

Os Brinquedos de Miriti, uma fibra leve da palmeira também conhecida como Buriti e chamada de isopor da Amazônia, são fabricados há 200 anos no Pará. 

Nascidos da espetacular capacidade de adaptação do caboclo brasileiro à natureza que o circunda, os Brinquedos de Miriti são a expressão da sensibilidade e da representação ingênua do universo ribeirinho da região de Abaetetuba, cidade vizinha de Belém, distante hora e meia de carro e balsa, ou duas horas de barco, o transporte mais usado, talvez até pela calma e placidez que a floresta e os igarapés sugerem.

Barquinhos em Miriti com santinhas - Foto Diário do Pará

A confecção dos brinquedos começa com a coleta dos talos (braços) da palmeira, no meio do mato, em Sirituba, um logradouro que se atinge de barco.

O miriti escolhido é de preferência jovem. Da planta se colhe apenas os braços, onde estão as folhagens.  Com isso, não é uma atividade predatória, e sim sustentável,  uma vez que a árvore é mantida viva e crescendo.

Carregadores de agua - foto: DJ Vitor Pedra Roots

Para se obter a matéria prima dos brinquedos os braços do miriti são descascados e se aproveita apenas o miolo. As cascas que são bem flexíveis, depois de secas, transformam-se em cestos, paneiros, varetas de papagaios e pipas. O miolo, trabalhado com facões de mato, é alisado e transportado em feixes para os produtores dos brinquedos.

Cena do filme: "Nossa Senhora do Miriti" do animador e ilustrador paraense Andrei Miralha - Foto Nina Abreu

Os artistas com ferramentas rústicas (normalmente facas e facões) esculpem e montam peças segundo suas referências pessoais. Alguns especializaram-se em barcos, outros em bonecos dançarinos, cobras, jacarés, madeireiros, pássaros, insetos perfeitos, vaquinhas, aviões, rádios de pilha, televisões. A escolha deste ou daquele motivo é parte da crônica individual de cada autor ou família de autores.

Muitos dos barquinhos feitos em Miriti são usados para pagamento de promessa no Cirio de Nazaré - Foto Breno Peck

Depois de prontas, com as partes coladas e secas, é aplicado o desenho base da pintura final feita por membros das famílias (homens, mulheres e crianças) que repetem em cada peça o padrão estabelecido. Os brinquedos são estocados e, à véspera do Círio de Nazareth, são levados para Belém, onde são expostos nas praças ou comercializados em girândolas.

Boneca Esperança

“Sou uma boneca artesanal, de pano, trapos, fios, linhas, fitas, rendas e muitos enfeites. Costurada ponto a ponto, uma parte de cada vez. Sou loira, morena, ruiva, como a gente do meu país. Pequena alta, gorda ou magra.

Boneca esperança - fonte: Arte Sol

A Boneca Esperança foi criada pelas mãos talentosas de Socorro da Conceição, que desde os 7 anos fazia bonecas no Sítio de Riacho Fundo, na cidade de Esperança do estado da Paraíba.

Mandala de bonecas esperança: Foto Babel das artes

Socorro e sua irmã Derita continuaram no ofício de produzir bonecas e ficaram conhecidas na região e no estado.  No ano 2000 foram procuradas pelo  Programa de Artesanato Solidário e incentivadas a  formarem um grupo. Hoje são 40 mulheres e uma sede, a Casa da Boneca Esperança, produzindo bonecas que tornaram-se famosas tanto no Brasil quanto no Exterior.

MAMULENGO

O “Mão Molenga”  é a forma mais primitiva e popular de teatro de bonecos. Muito popular em Pernambuco, onde era representado em praças, feiras e ruas, com uma linha de ação dramática muito simples, inspirada diretamente nos fatos do cotidiano e interagindo com o público que construía a trama. Os personagens sempre eram os mesmos: a Quitéria, o Cabo, o Coronel, o Simão, o Cangaceiro, o Padre, o diabo e as almas penadas. A linguagem era, e é ainda, muito provocativa, debochada e irreverente.

Mamulengo - Museu do mamulengo - Olinda - PE - foto: Jefferson Duarte

Os bonecos são talhados em mulungu, cortiça ou feitos em papel marché, com aproveitamento de sucata. O mamulengo, como o fantoche tradicional, tem cabeça e braços ocos e é manipulado pelos dedos indicador, médio e polegar dos mamulengueiros ou artesãos.

Mula manca

Mula Manca - foto: artesanato Menino Deus

A mula manca é um brinquedo confeccionado em madeira leve, com as características de uma burrinha, com os membros (pernas, pescoço e cauda). É colocada sobre uma base e tencionado por meio de fios ligados a uma espécie de mola localizada na base que quando é pressionada pelos dedos a burrinha movimenta-se para todos os lados.

Pião ou pinhão

Segundo Câmara Cascudo, no seu Dicionário de folclore brasileiro, a brincadeira do pião existe desde os tempos remotos. Na Grécia, era conhecido como strombo e em Roma como turba. No Brasil, o pião é um pequeno objeto feito de madeira, ou metal, tendo na ponta um prego ou ferrão. Com um cordão ou ponteira enrola-se da ponta ao corpo do pião e impulsiona-o para o chão e este ao desenrolar-se do impulso, fica a rodopiar.

Pião de madeira - Foto: Denize Pereira

O jogador apara o pião em movimento, usando os dedos indicador e médio em forma de tesoura e deixa-o rodar na palma da mão, onde ele gira e ou ronca até parar.

Ratinho

O ratinho é confeccionado sobre um molde de barro cru, usando uma mistura de água, goma e papel. O artesão modela o brinquedo, coloca um carretel de barro cru embaixo do brinquedo tensionado por borracha, puxado por uma linha, põe rabo, orelha de borracha de pneu e pinta o corpo do bichinho com cores fortes primárias.

Rato - foto Artesol

Xipoca

A xipoca é feita de um canudo de taquera de mais ou menos trinta centímetros de comprimento e um êmbolo feito de madeira resistente e pouco maior do que o tamanho do tubo, que deve correr, dentro do canudo não muito folgado. A munição é feita de pedaços de papel jornal molhado e amassado em forma de bolinhas e colocada no tubo com a vareta até atingir a extremidade e depois disparar. Este brinquedo é utilizado na “guerra”, entre dois grupos de meninos distantes um do outro cerca de cinco a oito metros. Quanto maior a pressão mais distante é lançado o projétil.

Um Brinquedo de Vinte séculos:

“Há dias parei na esquina da Juvino Barreto vendo uns garotos brincando o “jogo da pedrinha”. Não me julguem desocupado em deter andadura para examinar brincadeira de menino. A brincadeira, o jogo infantil, é um elemento precioso de informação. Mais, cheio de notícias do passado, que um num livro de histórias. Ninguém admira como esses processos de divertir uma criança tenham atravessado séculos, utilizados por milhares de criaturas humanas, transmitidos oralmente, mecanicamente, de geração a geração… ”

Câmra Cascudo – “O Livro das velhas figuras”

Fontes:

Fonte: MACHADO, Regina Coeli Vieira. Brinquedos populares. Pesquisa Escolar On-Line, Fundação Joaquim Nabuco, Recife.


Instituto Brinquedo Vivo

FEIRA-ATIVIDADE: brinquedos e brincadeiras populares: uma experiência no Museu do Homem do Nordeste. Recife: Fundaj, Ed. Massangana, 1992. 44 p.

SILVA, José Nilton da. Brinquedos populares: subsídios para o professor de educação do 1º grau. João Pessoa: Secretaria de Educação e Cultura, 1982. 59 p.

RIBEIRO, Paula Simon; SANCHOTENE, Rogério Fossari. Brincadeiras infantis: origem-desenvolvimento-sugestões. 2. ed. Porto Alegre: Sulina, 1990. 75 p.

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8 comentários sobre “O Brinquedo Artesanal Popular Brasileiro

  1. Nossa, quantas lembranças felizes de minha infância!!!
    Minhas lindas bonecas de panos que minha saudosa mãezinha amada, levava horas a fazer cantarolando,sempre!
    As baladeiras, carrinhos inventados de madeirinhas….e piões de meus irmãos!
    Parabéns pelo belo trabalho, especialmente por nos trazer as lembranças felizes da infância!
    abração e muita luz,
    Marly Cuesta

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