Esta ciranda quem me deu foi Lia que mora na ilha de Itamaracá.


O jornal The New York Times a chamou de ‘diva da música negra‘. O francês Le Parisien comparou sua voz à da cabo-verdiana Cesária Évora. No Brasil, críticos de música comparam-na a Clementina de Jesus. No entanto, ainda há quem duvide que a cirandeira Lia de Itamaracá realmente exista.

Para muita gente, trata-se de uma personagem que vive apenas nos versos Essa ciranda quem me deu foi Lia,/que mora na Ilha de Itamaracá, uma música de domínio público gravada pela primeira vez por Teca Calazans, em 1963. Mas Lia é real, tem 59 anos e poderá ser vista num documentário, dirigido pela cineasta carioca Karen Akerman, que dará origem a livro, CD e DVD. ‘Eita! É muita felicidade!’, festeja Lia. ‘Nunca pensei que um dia fosse virar uma estrela de cinema.’

Foto: Pedro Rampazzo/divulgação

Maria Madalena Correia do Nascimento nasceu no dia 12 de janeiro de 1944, na ilha de Itamaracá, Pernambuco.

Sempre morou na Ilha e começou a participar de rodas de ciranda desde os 12 anos de idade. Foi a única de 22 filhos a se dedicar à música. Segundo ela, trata-se de um dom de Deus e uma graça de Iemanjá.

Lia de Itamaracá - foto Soninha Darbilly

Mulher simples, com 1,80m de altura, canta e compõe desde a infância e hoje é considerada a mais famosa cirandeira do Nordeste brasileiro.

“Bonita, essa Lia! Enorme, mulher de metro e oitenta. Os cabelos desarrumados, blusa florida, e calça jeans, pés gigantescos em sandália de couro cru. Não está nada à vontade, devemos ser mais alguns daqueles forasteiros que vêm para tirar fotografias, posar ao lado se possível com um sorriso que por enquanto economiza, como também raciona as palavras…

As cirandas pernambucanas de Lia estão na boca de toda a gente,na alegria das pessoas se dando as mãos, cirandando em volta dela. E na verdade essa mulher de quarenta anos, meiga às vezes, e justamente desconfiada quase sempre, é para muitos apenas uma dessas peças de artesanato urdidas em barro e que vão ornamentar uma estante…”

 Herminio Belo de Carvalho

 Trabalha como merendeira numa escola pública da rede estadual de ensino e, nas horas vagas, dedica-se à musica e à ciranda, além de cantar e compor cocos de roda e maracatus.

Lia - Foto Divulgação do show na Fundição progresso RJ

A compositora Teca Calazans foi uma das primeiras pessoas interessadas na cultura popular nordestina a descobrir o seu talento e acabaram fazendo alguns trabalhos em parceria, como o resgate de músicas em domínio público e composições.

Maria Madalena começou a ficar conhecida como Lia de Itamaracá, nos anos 1960 e é a fonte de um refrão famoso, recolhido pela compositora Teca Calazans: Oh cirandeiro/cirandeiro oh/ a pedra do teu anel brilha mais do que o sol. A estes versos Teca incorporou uma toada informativa, que também teve grande sucesso: Esta ciranda quem me deu foi Lia/ que mora na ilha de Itamaracá.

Foto:Virada Cultural 2011 - SESC Consolação

Em 1977, Lia gravou seu primeiro disco, intitulado A rainha da ciranda,não recebendo, no entanto, nenhum pagamento pelo trabalho.

Mais de duas décadas depois foi redescoberta, quando o produtor musical Beto Hees a levou para participar do festival Abril Pro Rock, realizado no Recife e em Olinda, em 1998, onde fez grande sucesso e tornou-se conhecida em todo o Brasil. Antes ela só era famosa em Pernambuco e entre compositores e estudiosos da cultura popular nordestina.

Em 2000, saiu seu CD Eu Sou Lia, lançado pela Ciranda Records e reeditado pela Rob Digital, cujo repertorio incluía coco de raiz e loas de maracatu, além de cirandas acompanhadas por percussões e saxofone.

O CD acabou sendo distribuído na França por um selo de world music e a voz rascante de Lia chamou a atenção da imprensa internacional, que começou a batizar suas canções de trance music, numa tentativa de explicar o “transe” que o som causava no público.

Mesmo obtendo um sucesso tardio, fez turnês internacionais obtendo muitos elogios. O jornal The New York Times a chamou de “diva da música negra”.

No Brasil, Lia também conquistou mais espaço. Participou com uma faixa no CD Rádio Samba, do grupo Nação Zumbi, teve seu nome citado em versos dos compositores pernambucanos Lenine e Otto.

Foto: Priscila Buhr

As cirandas pernambucanas de Lia são cantadas por muitos.Referencial da cultura pernambucana, Lia de Itamaracá, hoje, é uma das lendas vivas do Estado e continua morando na ilha de Itamaracá.

Eu sou Lia [Ciranda de Lia]

(Paulinho da Viola)

Eu sou Lia da beira do mar
Morena queimada do sal e do sol
Da Ilha de Itamaracá
Quem conhece a Ilha de Itamaracá
Nas noites de lia
Prateando o mar
Eu me chamo Lia e vivo por lá
Cirandando a vida na beira do mar
Cirandando a vida na beira do mar
Vejo o firmamento, vejo o mar sem fim
E a natureza ao redor de mim
Me criei cantando
Entre o céu e o mar
Nas praias da Ilha de Itamaracá
Nas praias da Ilha de Itamaracá

Minha ciranda – Capiba

Minha ciranda não é minha só
Ela é de todos nós
A melodia principal quem
Guia é a primeira voz
Pra se dançar ciranda
Juntamos mão com mão
Formando uma roda
Cantando uma canção

Foto Emiliano Dantas

Lia de Itamaracá foi uma das contempladas como Patrimônio Vivo de Pernambuco, através da Lei estadual nº 12.196 de 2 de maio de 2002.

                                                                            

FONTES CONSULTADAS:

Fundação Joaquim Nabuco – GASPAR, Lúcia Gaspar:  Lia de Itamaracá.

Eu sou Lia” –

Aluizio FalcãoLia de Itamaracá: a estrela brilha em disco raro

Revista Época: Lia de Itamaracá

MPB NetLia de Itamaracá


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A Menina sem nome

O Celophane Cultural no dia de Finados visita o cemitério de Santo Amaro – Recife – PE e vai até o túmulo da menina-sem-nome, enterrada como indigente, em 1970.  Este túmulo é visitado todos os anos  por centenas de pessoas, que atribuem a ela o poder de realizar milagres

Os Santos Católicos Não-Canônicos no Nordeste do Brasil

Há muito tempo, no Nordeste, pode-se observar a devoção das pessoas a diversos santos não-canônicos. Sendo assim, os indivíduos canalizam a sua fé nos poderes sobrenaturais desses santos e, através deles, buscam alcançar a cura para as doenças, a resolução de problemas financeiros e/ou afetivos, entre outros.

Segundo Benjamin (2003), tais devoções “têm sido pouco estudadas no campo da antropologia, do folclore, da psicologia social, das ciências da religião e da comunicação. No entanto, sabe-se que a sua prática envolve processos psico-sociais e de comunicação da maior importância nas sociedades latino-americanas”.

Há algumas décadas, antes da modernização dos meios de comunicação de massa, os santos não-canônicos só conseguiam ser propagados através da história oral. Tais santos e os seus respectivos milagres, porém, vêm se tornando cada vez mais conhecidos, segundo pesquisas mais recentes realizadas na área do folclore.

Sabe-se que, após a ocorrência das graças ou milagres, os devotos costumam deixar, junto a esses santos, alguns objetos que representam, simbolicamente, os pedidos que fizeram. Em outras palavras, junto com os pedidos e orações, os fiéis procuram deixar materializadas as suas contrapartidas pessoais, em retribuição àquilo que foi alcançado. A esses objetos que se encontram depositados em santuários, cemitérios, oratórios domésticos ou locais de romaria, dá-se o nome de ex-votos. De acordo com Camara Cascudo (1974):

 ex-voto é uma voz informadora da cultura coletiva, no tempo e no espaço tão legítima e preciosa como uma parafernália arqueológica. Vale muito mais do que uma coleção de crânios, com suas respectivas e graves medições classificadoras. É um dos mais impressionantes e autênticos documentos da mentalidade popular, do Neolítico aos nossos dias. E sempre contemporâneos, verdadeiros e fiéis.

Dentre os santos católicos não-canônicos, pertencentes ao devocionário nordestino está a Menina-Sem-Nome

A “Menina Sem Nome” foi considerada pelo povo como um anjo, já que o desfecho de sua história foi trágico. O seu túmulo atrai curiosos e devotos. Desse modo a “Menina Sem Nome” passou a ser uma santa-não-canônica devido aos pedidos feitos pelo povo em seu túmulo. Nesse contexto, sob a luz da folkcomunicação os devotos pedem casas, celulares, casamentos, reconciliação amorosa, entre outros. A “Menina sem Nome” pode ser considerada uma “Santa” que consegue atrair uma variedade de fiéis. Em seu túmulo há uma variedade de objetos, feitos como maquetes de papel, para realização de pedidos como, bicicleta, geladeira, carro. Assim, há uma criatividade na forma como o povo faz sua devoção.


Finados resgata lenda urbana Recifense


Imagem: Blenda Souto Maior/DP/D.A.Press


A proximidade do Dia de Finados, 2 de novembro, mais uma vez revigora entre os pernambucanos a história da menina sem nome, lenda urbana do Recife.

Enterrada como indigente no Cemitério de Santo Amaro, área central da cidade, em 22 de junho de 1970, a garota nunca foi identificada. Desde então, devotos atribuem à criança o poder de realizar milagres e o túmulo dela é um dos mais visitados do cemitério no dia dedicado aos mortos.

Foto do filme "Menina sem nome" Roteiro e direção: Adriano Portela

Relatos da época informam que a menina aparentava dez anos de idade quando apareceu morta na Praia do Pina, Zona Sul do Recife, com indícios de violência sexual. E isso é tudo o que se sabe dela. Apesar de o corpo nunca ter sido procurado por parentes, o túmulo está sempre limpo, decorado com flores e brinquedos. De acordo com funcionários do cemitério, o jazigo é mantido pelo povo.

Filme: Fé sem nome de Alan Oliveira

Realizado como produto do Departamento de Comunicação da UFPE, “Fé Sem Nome” é um belo registro da manifestação popular de fé, que privilegia a força das imagens e do som ambiente em detrimento das entrevistas – sinal da fé de seu realizador no impacto subjetivo desses elementos.

Túmulo da Menina-sem-nome, Cemitério de Santo Amaro, Recife-PE (31/07/2008) - Foto: Luís Américo Silva Bonfim

Na Série Dialogos promovido pelo MUseu de Arte Popular do Recife, o Diretor fala um pouco sobre o filme:

 Por que o interesse em documentar o caso da “Menina Sem Nome” e qual a estética trabalhada?

Tudo surgiu a partir de um grupo de pesquisa montado com o incentivo do professor Eduardo Duarte com alunos do curso de comunicação, voltado a pesquisar o documentário. Porém, estávamos tão sedentos em realizar algo que acabamos por nos lançar já dentro de um processo de pesquisa pra um documentário. No início levantamos vários possíveis temas, mas quando foi colocado na mesa a “Menina Sem Nome” quase todos concordaram que esse seria um bom tema e foi assim que começamos. Eu, particularmente, já tinha uma relação bem antiga com o tema. Meus avós moram na Rua do Sossego próximo ao cemitério e me acostumei quando criança entrar no cemitério enquanto andava de bicicleta e, assim, conheci a história que sempre me impressionou.

Quanto à estética do filme, creio que o filme no diálogo entre estética  e conteúdo tenha seu maior valor no conteúdo.  Acho o filme relativamente simples e centrado nos depoimentos dos fieis, não tem grandes experiências estilísticas ou coisas assim. Claro que o filme tenta em alguns momentos trabalhar o vazio e a montagem em algum momento brinca com a quebra da expectativa como na cena do extintor, mas não acho que isso torne um filme “estético”.

Creio que quanto à forma o maior valor do filme está em não adotar uma postura jornalística, nem embarcar por um viés policial na história. Acho que dar toda voz aos fies e deixar que eles façam o inventário do mito é a grande sacada do filme, o filme não tenta ser conclusivo, nem dizer como a menina morreu e etc, prefere o burburinho da boca do povo, a cacofonia da boca do povo.

Foto Alan Oliveira

Quais outros trabalhos artísticos (Fotografia, vídeo, literatura, teatro, dança e outros) você indicaria como trabalhos que dialogam com o seu documentário?

Bom, tem três trabalhos que podem de alguma maneira dialogar com o meu. Tem um artigo muito bom de um cara chamado José Chavier dos Santos, ele escreveu um artigo que está na internet pra baixar e que li durante as pesquisas pro filme, o artigo chama-se, “A Menina Sem Nome: um Espaço de Comunicação Folk”. Foi muito importante ter lido esse trabalho e perceber toda simbologia dos ex-votos e etc. Os outros dois trabalhos não fazem relação direta, mais articulam, de diferentes maneiras, aspectos da devoção no nordeste. O primeiro trabalho que cito é o de Camilo Cavalcante em seu último filme, que tive prazer de trabalhar como assistente de direção, “Ave Maria, Mãe dos Sertanejos”. Nele existe uma tentativa de lançar um olhar sobre a devoção e o rito da oração das 6h da noite no sertão Pernambucano e ao mesmo tempo como tem ocorrido esse embate entre a tradição da “Ave Maria Sertaneja” cantada por Luís Gonzaga e executada por algumas rádios no horário da oração e a TV que, no mesmo horário, exibi o desenho do Pica-Pau: enquanto uma senhora ora e acende velas, crianças hipnotizadas vêem o famigerado passarinho. O outro trabalho que cito é Morro” de Gabriel Mascaro, um grande trabalho, tanto esteticamente quanto no conteúdo.

Fontes:

Fundaj – Santos não canônicos no Nordeste Brasileiro-Semira Adler Vainsencher e Rúbia Lóssio – Pesquisadoras da Fundação Joaquim Nabuco.

Série “Dialogos” promovido pelo Museu de Arte Popular do Recife