A Arte Popular coletada por LIna Bobardi revive em exposição na Bahia

O Celophane Cultural vem mostrar que Salvador nesta época não tem só Carnaval, uma dica de exposição no pelourinho pra dar uma descansada da folia e conhecer um pouco mais deste Brasil pelo OLhar da arquiteta LIna BO Bardi.

 

peças coletadas no nordeste brasileiro pela arquiteta Lina Bo Bardi

 

ragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

ragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

ragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

O acervo de peças coletadas no nordeste brasileiro pela arquiteta Lina Bo Bardi, que estava guardado desde 1965, é reaberto para o público, no Centro Cultural Solar Ferrão, no Pelourinho, em Salvador.

Foto: Luciano Oliveira

A mostra “Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi” reúne mais de 800 peças entre utensílios de madeira, objetos de barro, pilões, santos e objetos de candomblé que resistiram às mudanças e viagens da coleção original, que chegou a contar 2 mil itens.

 

Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

Lina Bo Bardi (1914-1992), arquiteta italiana que estabeleceu-se no Brasil em 1946 e é conhecida por projetos como o Masp e o Sesc Pompéia, em São Paulo, mudou-se para a Bahia no final dos anos 1950 e começou a pesquisar a arte popular nordestina. “Lina considerou essas peças como algo contemporâneo, como objetos de design, num pensamento livre dos vícios e preconceitos acadêmicos e europeus que reinavam na época”, afirma o diretor de museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, Daniel Rangel.

 

Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

Logo no início do período de ditadura militar (a partir de 1964, depois da deposição do presidente João Goulart), Lina Bo Bardi foi exonerada do cargo de diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia por ter se negado a liberar o foyer do teatro Castro Alves (onde estava temporariamente instalado o MAM) para uma exposição de armamento de guerra. Um ano mais tarde, a exposição “Nordeste do Brasil” (com partes do acervo que será exibido agora em Salvador) foi impedida de estrear na Galeria de Arte Moderna, em Roma.

 

Saiba mais sobre o episódio:

ZEVI, Bruno. A arte dos pobres apavora os generais, Revista da Civilização Brasileira, n.2, maio 1965. Traduzido do L’Espresso de Roma, março 1965 [artigo publicado quando o governo brasileiro impediu a realização da Exposição Nordeste na Galleria d’Arte Moderna em Roma]

 

Após o episódio, recortes da coleção de Lina Bo Bardi chegaram a ser expostos em mostras como “A Mão do Povo Brasileiro”, de 1969, no Museu de Arte de São Paulo, e “Design no Brasil, História e Realidade”, de 1982, no Sesc Pompéia, ambas em São Paulo.

Planta expográfica e conjunto da exposição 'Bahia' realizada no antigo 'Pavilhão Bahia' sob a marquise do Parque do Ibirapuera em São Paulo, 1959 -

 

BAHIA. Exposição no Parque do Ibirapuera, São Paulo, Brasil, 1959. [Bahia]: [s.n.], 1959. Parque do Ibirapuera, São Paulo, 1959. Folheto de Exposição. Textos de Jorge Amado, Lina Bo Bardi e Martim Gonçalves. Arquivo do Núcleo de Museologia do Museu de Arte Moderna da Bahia. In: Habitat, São Paulo, n.56, 1959

“Bahia” é preparada por Lina e Martim Gonçalves em Salvador e trazida para São Paulo durante a V Bienal Internacional.O universo ligado à Bahia torna-se o centro dessa exposição: suas cidades,sua arquitetura,festas,crenças,arte popular,culinária,música,objetos do cotidiano e sua população que vêm representados de diversas formas,seja por fotografias,pela presença dos objetos ou pela recriação de um ambiente que os situam na realidade.

 

Planta do térreo e conjunto da exposição 'Nordeste' realizada no 'Museu de Arte Popular do Unhão' em Salvador, 1963 - acervo Instituto Lina Bo Bardi

 

 

Planta do primeiro pavimento e conjunto da exposição - acervo Instituto Lina Bo Bardi

Planta expográfica e conjunto da exposição 'A mão do povo brasileiro' realizada no 'Museu de Arte de São Paulo', 1969-acervo Instituto Lina Bo Bardi

 

Em “A mão do povo brasileiro” apresenta-se através de um mesmo suporte que é reorganizado diante dos objetos que deve expor, inúmeros elementos do mobiliário, instrumentos, adornos, vestuário, cerâmica, esculturas, figuras religiosas e brinquedos realizados no Brasil. Objetos que são colocados lado a lado e misturados no espaço da exposição, sem uma separação clara, mas mostrados como conjunto.

 

 

Centro de Lazer SESC Fábrica da Pompéia, espelho d'água 'Rio São Francisco', as quatro exposições seguintes são realizadas neste mesmo galpão

Exposição 'Design no Brasil: história e realidade' SESC Pompéia de 1982

Exposição 'Mil brinquedos para a criança brasileira' SESC POmpéia de 1982-3 - acervo Instituto Lina Bo Bardi

 

Exposição 'Caipiras, capiaus: pau-a-pique' de 1984 - Acervo Instituto LIna Bo Bardi

 

Exposição 'Entreato para crianças' de 1985 - fonte Instituto Lina Bo Bardi

 

O DESIGN NO BRASIL: história e realidade. São Paulo: SESC – Fábrica Pompéia, MASP, 1982. Centro de Lazer SESC Fábrica Pompéia, São Paulo, fevereiro a julho 1982. Textos de Pietro Maria Bardi, José Mindlin e Alexandre Wollner. Catálogo de Exposição MIL BRINQUEDOS

PARA A CRIANÇA BRASILEIRA. Lina Bo Bardi et al. montagem. São Paulo: SESC – Fábrica Pompéia, MASP, 1982. Centro de Lazer SESC Fábrica Pompéia, São Paulo, dezembro 1982 a julho 1983. Texto de Pietro Maria Bardi. Catálogo de Exposição.

Design e Mil brinquedos, além de apresentarem os objetos antigos, como nesta exposição A Mão, abrem espaço para a mais recente produção industrial. As quatro exposições do SESC possuem uma particularidade pelo fato de não se realizarem em um contexto de museu,mas sim em um Centro de Cultura e Lazer projetado por Lina, situação que permite uma maior relação entre as exposições aos conceitos presentes na arquitetura da Fábrica da Pompéia.

Nessas duas primeiras exposições é possível dizer que existe uma espécie de separação no espaço entre a produção “antiga-artesanal” e a “recente-industrial”, apesar de uma se encontrar espacialmente ao lado da outra.Na exposição Design, no início estão os objetos artesanais e ao fundo os produtos industrializados e o design gráfico. Assim, como a exposição Mil brinquedos que de um lado apresenta os brinquedos antigos e de outro os industrializados.

Em “Caipiras,capiaus:pau-a-pique” a relação “artesanal”-“industrial” é dada não pela presença simultânea dos elementos artesanais e industriais, como ocorre nas outras exposições, mas sim pela realização de uma exposição que recria os aspectos da vida do interior rural de São Paulo e Minas Gerais inserindo-os no contexto urbano-industrializado do Centro de Lazer em São Paulo. Ai são construídas as casas de pau-a-pique, o forno a lenha e o alambique pelos habitantes dessas regiões que foram trazidos ao SESC para montar a exposição à maneira como organizam sua vida. O interior das casas foi ambientado com seus objetos, assim como a venda, o paiol e a capela.

 

O Centro Cultural Solar do Ferrão

Reaberto em 2008 com o novo conceito de Espaço Cultural, o Centro Cultural Solar do Ferrão uma das mais antigas edificações do Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador (CHS),  é um espaço dedicado a arte, cultura, história e memória da população baiana.

Além da biblioteca, o espaço abriga uma galeria de arte homônima e outras três importantes coleções de arte sacra, africana e popular que possibilitam o dialogo entre os povos que deram origem aos baianos: africanos, indígenas e portugueses.

Saiba mais pouco mais sobre LIna Bo Bardi

 

Lina na sala da Casa de Vidro, 1952 Foto de Fernando Albuquerque

 

Fontes:

Instituto Lina Bobardi

Matéria de 17/03/2009 – UOL – Acervo de arte popular coletado por Lina Bo Bardi é exibido na Bahia

TRabalho final de Graduação da FAU/USP  – Mayra de Camargo Rodrigues – Luciano Migliaccio – Exposições de LIna Bo Bardi

 

Lina na Casa de Vidro, 1952 Foto do arquivo pessoal

 

 

“Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi”

Onde: Centro Cultural Solar Ferrão – r. Gregório de Mattos, 45, Pelourinho, Salvador/BA – tel. (71) 3116-6467
Quando: Exposição de longa duração desde 17 de Março de 2009.

Visitação de terça a sexta, das 10h às 18h; finais de semana e feriados, das 13h às 17h
Quanto: Grátis

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Batuque na cozinha sinhá num qué… samba com feijoada.

O Celophane Cultural continuando em rítmo de samba, vai buscar na culinária a mistura mais perfeita que existe: Samba e Feijoada.

O Artigo foi retirado da Revista Continuum

do Itaú Cultural de Janeiro de 2010

“Muito já se falou sobre o samba nas letras das canções. Que ele é branco na poesia e negro demais no coração;
que ele é pai do prazer e filho da dor; que ele é o grande poder transformador; que quem não gosta de
samba bom sujeito não é; que o samba da minha terra deixa a gente mole; que o morro foi feito de samba;
que um samba quente, harmonioso e buliçoso mexe com a gente e dá vontade de viver… Muito também já
se refletiu (e com certeza vai se refletir) sobre o samba em teses, artigos, debates.

Para dar sua contribuição ao tema, nesta edição a Continuum se concentrou em alguns dos aspectos que ajudaram a construir o imaginário do samba ao longo dos séculos”

Samba de Mesa Posta

Reportagem  por  Maria Lutterbach

Em poucas horas, o salão e a calçada do bar ficarão lotados de gente alegre dançando. Por enquanto, o barulho vem das tampas de panela e da faca ligeira sobre a tábua de carne. Quem orquestra a pequena equipe durante a feitura da feijoada no bar Você Vai se Quiser, na Praça Roosevelt, em São Paulo, é dona Maria Inês, a Tia Inês, ex-porta-bandeira da escola de samba paulistana Nenê de Vila Matilde. Com a ajuda dela, em cinco anos o caldeirão dobrou de tamanho e mais uma roda de samba se levantou em torno do prato que é preferência nacional.

Tia Inês e sua sobrinha, a cantora Graça, na cozinha do Você Vai se Quiser - foto: Revista Continuum

 

Quando a feijoada desliza do balcão pelas mesas, o bumbo soa no salão, onde a anfitriã é outra mulher da família.”Costumava sair da cozinha e correr para cantar no palco”, lembra a cantora Graça Braga, que hoje cuida só do microfone, mandando clássicos como o samba-enredo da Mangueira que rima acarajé com samba no pé. À base de muita cantoria e cerveja, a temperatura do lugar sobe e a celebração segue noite afora.

 

 

Esse clima de banquete ritmado que a Roosevelt experimenta todo sábado é ressonância de uma antiga conexão entre samba e comida. Nas senzalas, as festas de oferendas aos santos já anunciavam os primeiros passos do samba de roda, que serviria de base para outras variações do gênero – como o samba carioca. Uma das heranças das noites afro-baianas é o prazer em reunir família e amigos para saborear pratos suculentos em longas jornadas de batucada.

 

Professora dessa arte no Sudeste, a lendária Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida), nascida em 1854, se mudou jovem da Bahia para o Rio de Janeiro. Na cidade, a quituteira continuou a dar as festas pelas quais havia sofrido perseguição policial em Salvador. As noites musicais oferecidas na casa dessa filha de Oxum, na Praça Onze, no Rio, renderam o primeiro samba gravado em disco, “Pelo Telefone”, assinado por Donga e Mauro de Almeida em 1917.

 

 

 

“Baixou fariseu na jogada”

O legado de Tia Ciata contagiou as gerações seguintes e, ainda hoje, seu espírito festivo paira sobre o Rio. Não deixa de ter o dedo da mestra baiana, por exemplo, o surgimento do restaurante Zicartola, na década de 1960. Durante anos, ele foi um templo do samba, embalado pelo bom papo de Cartola e pelo tempero de Dona Zica, mitológico no Morro da Mangueira. O lugar, na Rua da Carioca, centro do Rio, começou a perder o charme ao ser invadido por uma clientela que não acompanhava a cadência dos bambas. “Baixou fariseu na jogada. Em lugar do cheirinho gostoso das cocadas no repinicado do samba quente, havia perfume francês e uísque”, escreve o jornalista João Antônio Ferreira Filho no livro Zicartola – E que Tudo Mais Vá pro Inferno! (Scipione, 1991).

Zicartola - Fonte Almanaque Brasil - Matéria: Fogão + violão x Zicartola = Renascença do Samba

 

Lá pelos lados da Portela, a comilança em volta do pandeiro sempre foi liberada para todos e continua sendo atração na escola. Palmas para as pastoras da Velha Guarda, catequizadas pela saudosa Tia Vicentina – aquela do feijão divino cantado por Paulinho da Viola. No início feita com dinheiro do bolso das sambistas, a feijoada das tias Surica, Doca, Eunice e Áurea virou instituição.

 

Tia Surica na "Feijoada da Família Portelense" Foto de Divulgação: Luis Clever

 

“Eu também fazia peixada, galinha com quiabo e rabada, mas casa cheia mesmo era com feijoada”, conta Tia Surica, que criou depois a ala Feijão da Tia Vicentina, formada pela turma da cozinha. O festim no “cafofo da Tia Surica” cresceu tanto que foi assumido pela diretoria da Portela e hoje ocupa a quadra da agremiação. A iguaria continua sendo preparada pela cantora, mas agora é servida num almoço promovido no tradicional Teatro Rival, no fim de cada mês.

Outros episódios sobre as damas da Portela aparecem no livro Batuque na Cozinha, de Alexandre Medeiros (Casa da Palavra, 2004), e no curta homônimo lançado pela diretora Anna Azevedo no mesmo ano. “O samba nasceu e cresceu no quintal dessas tias. Ali, a gente passava a noite toda cozinhando e dançando”, diz Eunice no vídeo. Do fogão de Doca, que morreu neste ano, ficou a lembrança de sua concorrida sopa de ervilha. Depois de se separar do marido, a sambista passou a ganhar a vida realizando o popular pagode da Tia Doca, onde se criaram sambistas como Zeca Pagodinho.

 

 

Cantina adentro

Longe dos morros e debaixo da garoa, Adoniran Barbosa e seus comparsas também brilharam ao combinar samba e sabor. Com lugar cativo no extinto restaurante Parreirinha, em Santa Cecília, São Paulo, o compositor, descendente de italianos, fez parte da patota que se encontrava para beber, comer e fazer samba. Não muito longe dali, em outro reduto de artistas, no bar Mutamba, ele compôs “Torresmo à Milanesa”, em 1979.

 

 

Parceria com Carlinhos Vergueiro, a letra fala sobre a refeição levada na marmita pelos operários.”Chamava-se originalmente ‘Bife à Milanesa’, mas o Adoniran falou para trocar por ‘Torresmo à Milanesa’ porque era mais triste”, afirma o biógrafo do sambista, Celso Campos Jr., autor de Adoniran – Uma Biografia (Globo, 2004).

Mesmo tendo morado pouco tempo no Bixiga, Adoniran ficou associado ao bairro italiano por músicas como “Um Samba no Bixiga”, de 1956. Com os versos “Saiu uma baita duma briga/era só pizza que avoava junto com as brachola”, ele ambientou o samba nas cantinas, até hoje frequentadas por amantes do estilo. “Aqui em São Paulo, todo mundo sai do pagode e vai para a cantina comer espaguete, pizza e continuar tomando cerveja”, diz o compositor Paquera Miranda, presidente do Samba da Vela, reunião de sambistas realizada em Santo Amaro.

 

 

Para aguentar firme as horas de cantoria e remelexo, o público do Samba da Vela se abastece com uma sopa servida em diferentes versões a cada semana. Uma das receitas é o peixe-galo, que leva camarão seco ao azeite de dendê e um toque de coentro e cebolinha verde. Fundado há nove anos, o culto musical e gastronômico agrega cantores, músicos e simpatizantes em volta da vela acesa. Quando a chama finalmente se apaga e os pés pedem descanso, o ritual continua no paladar.

 

 

Se deu fome:

Receita de Feijoada

Bom apetite e não esquece de chamar o pessoal do samba.

Quem não chora não mama, 9 décadas do Bola Preta

O Celophane Cultural inicia seus trabalhos já em rítmo de Carnaval.

À 9 décadas nascia um dos mais importantes pilares do Carnaval Carioca O Cordão do Bola Preta, hoje Patrimônio Cultural do Povo do Rio de Janeiro. Neste ano O Bola dá a largada na recuperação de seu importante acervo. Reproduções de parte desse tesouro podem ser vistas em mostra ao ar livre, no Largo da Carioca durante o mês de Fevereiro.

“Quem não chora, não mama / Segura meu bem, a chupeta
Lugar quente é na cama / Ou então, no Bola Preta.
Vem pro Bola, meu bem / Com alegria infernal
Todos são de coração / Todos são de coração
Foliões do Carnaval / Sensacional!”

(Nelson Barbosa / Vicente Paiva – 1962)

Com 90 anos de história, o Cordão da Bola Preta é o mais antigo cordão carnavalesco em atividade no Rio de Janeiro. Se reuniu, pela primeira vez, no Revéillon de 1918. Hoje é patrônio cultural da cidade do Rio de Janeiro, e é ele que, ironicamente, surgiu como um protesto contra as autoridades, abre oficialmente o carnaval carioca.

Enquanto o Bola não desfila, o carnaval não começa!

Simples assim!!!

Estudiosos garantem que cordão (cuja primeira citação na imprensa aparece em 1886) surge como uma sátira popular, desabafo anônimo e coletivo contra o estabelecimento de fatos que desagradem ou prejudiquem o povo. No caso da origem, foram o vice-reinado português e depois o próprio D. João VI e sua corte, os alvos das brincadeiras dos cordões.
Saiba mais: Crônica de João do Rio sobre os Cordões – A Alma Encantadora das ruasSecretaria Municipal de Cultura, 1987. Biblioteca Carioca, 4 – Fonte:  Jangada Brasil

Dentro dessa filosofia, surgiu o que viria a ser o mais famoso deles, o Cordão da Bola Preta. Álvaro de Oliveira era o que se chamava na época — final dos anos 20 — de um folião de quatro costados. Soube pelos jornais que o chefe de polícia, Dr. Aurelino Leal (o mesmo que com sua ordem contra os cassinos clandestinos, em 1916, dera origem ao samba Pelo telefone), baixara uma portaria determinando que “os grupos e cordões que perturbarem a ordem pública terão suas licenças cassadas, sendo os perturbadores presos e processados, na forma da lei.

Chico Brício, um dos fundadores do cordão, em comemoração aos 50 anos do Bola Preta. Fonte: Cifra Antiga

Foi o que bastou para que o corajoso K. Veirinha (apelido de Álvaro, também conhecido como Trinca Espinha) se dispusesse a topar a parada contra o chefão. Reuniu os amigos de sempre — Chico Brício, Vaselina, Pato Rebolão, Fala Baixo, Porrete e outros, a turma do chope —, nos bares da Galeria Cruzeiro, e planejaram a desobediência ao mandachuva. Alugaram a sede do Clube dos Políticos, na rua do Passeio, e no reveillon de 1918, com um “maxixético e rebolativo baile”, como explicitava o convite, consumaram a provocação.”

O Cordão - Fonte Cifra Antiga

A Exposição

O  Bola ganha no mês carnavalesco uma homenagem em forma de exposição em pleno Largo da Carioca, próximo ao local das primeiras reuniões dos fundadores, a antiga Galeria Cruzeiro, que hoje é o Edifício Avenida Central.

 

Foto do Hotel Avenida sobre a Galeria Cruzeiro, primeira sede do Cordão do Bola preta fonte: Galeria Meu Bairro meu país Flickr http://www.flickr.com/photos/quadro/

 

Ao longo de fevereiro, alguns dos destaques do acervo histórico do Bola Preta estarão expostos no Largo da Carioca, em estrutura tubular montadas pela Mills (andaimes), ao ar livre, reproduzidos em plotagens de grande formato. No ambiente da mostra, montado em um espaço de 7,5m x 10m, com 5 m de altura, estarão expostas cerca de trinta dessas lembranças coloridas da glória quase secular do Cordão. Garimpadas no acervo, cujo processo de restauração está a pleno vapor, poderão ser vistas diversas   preciosidades entre imagens e documentos.

O Projeto tem patrocínio da Oi através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, do Rio de Janeiro e apoio da Mills.

A realização é da Arco Cultura, coordenada pela arquiteta Heloisa Alves, que também está iniciando a catalogação e digitalização do acervo da associação. “Estamos buscando recursos para dar continuidade a esse trabalho de recuperação e, assim, disponibilizar ao público as imagens e documentos que resgatam a memória não só do Bola, mas de boa parte do carnaval carioca”, diz a arquiteta.

Foto dos membros do CBP em seus uniformes de gala. Inclui Chico Brício e Caveirinha. 1930 - Fonte Acervo do Bola (divulgação)

“É uma alegria para todos nós que o Bola continue a ser reconhecido, com justiça, como um pilar da cultura carnavalesca carioca”, diz o presidente da instituição, Pedro Ernesto Araújo Marinho, um dos grandes responsáveis pela renovação do Bola nos últimos anos, tanto nas questões administrativas quanto na manutenção do espírito singular e carioquíssimo do Cordão. “O Cordão da Bola Preta é alegria, paz, samba, carnaval… E, acima de tudo, é Marca Positiva da Cidade Maravilhosa”, conclui Pedro Ernesto atual presidente do Bola.

A restauração do riquíssimo acervo guardado no  Bola Preta  abriu espaço para apresentar as origens do próprio Carnaval Carioca. Estarão à vista reportagens de jornais de época, programas, ingressos, liberação de material pelos censores (carimbos da policia nos estandartes eram necessários na Era Vargas, por exemplo); descrição dos rituais de iniciação dos novos sócios. Entre as imagens, uma série de ilustrações assinadas por Potoca (o nome verdadeiro do artista aparece em raras referencias como Palhares, mas a equipe está buscando quem possa dar maiores informações).

Ilustração para o livro de Ouro do CBP, feita pelo artista "Potoca", 1948 - Acervo do Bola Preta

O grupo de fundadores do Cordão (veja reportagem de época transcrita abaixo) era composto por vários remadores medalhistas do Botafogo (por isso a semelhança do escudo/marca), e seus integrantes, ao longo das décadas, trabalhadores, pais de família e alguns notáveis. Segundo o estatuto inicial do Cordão (original resgatado entre os documentos do acervo), os requisitos para que um folião fosse admitido eram:

Ilustração para o livro de Ouro do CBP, feita pelo artista "Potoca", 1945. Acervo do CBP

a) Ser bom copo: o candidato tinha que ser testado em uma chopada;
b) Ser alegre: era condição sine-qua-non, tinha que ser realmente carnavalesco;
c) Ser maior de 21 anos;
d) Apresentar provas de que trabalhava; isto era absolutamente necessário, pois todos os integrantes fundadores eram empregados, comerciantes ou industriais, e não se admitiam vagabundos no seio do Cordão.

Reprodução (mantida a grafia original) de um texto publicado pelo jornal “A Pátria” em 23 de Janeiro de 1930. Obs.: Chico Brício era parceiro de “Caveirinha”, e um dos fundadores do Cordão da Bola Preta.

_Então ouve, para melhor contares: A Bola Preta nasceu de uma scena amorosa entre uma colombina de branco e preto, isto é, de branco e de bolas pretas, com um rapaz de sport, aliás remador do C. R. Botafogo e um dos meus melhores amigos. Esse rapaz era o “Caveirinha”. A colombina é que não conheci. Sei, porém, que a scena ocorreu na Gloria, durante o Carnaval de 1919, quando ambos esses personagens, na expansão natural daquelle dia conseguiram falar-se. “Caveirinha” enamorou-se da colombina. E mergulhado nesse namoro sahiram ambos em colloquio, no meio da multidão. Isto foi visto e seguido por um primo de “Caveirinha”, que os acompanhou de longe. Mas houve um instante que o rapaz perdeu de vista os namorados, e, quando o “Caveirinha” reapareceu foi para indagar:

_Onde está a Colombina?
_Estava comtigo, respondeu o primo surpreso.
_A miseravel fugiu!…
_Como?
_Depois de ter-me dado…
_Um tabefe?
_Não.
_Então o que deu ella para fugir assim!
_Um beijo.
_E depois?
_Desapareceu.

E os dois ficaram um momento absortos. Afinal, “Caveirinha” na esperança de reencontrar a misteriosa colombina tomou uma iniciativa:

E os dois sahiram a procurar a endiabrada mascarada, soltando de vez em quando para se orientarem esta phrase: Tem “Bola Preta”?

Excusado é dizer que a colombina não apareceu mais até hoje. Entretanto ficou no espirito do “Caveirinha” a lembrança indelevel da “Bola Preta”.

E o diabo do avatar da “Bola Preta” não sahiu nunca mais do seu pensamento.

Assim é que no ultimo dia desse Carnaval, “Caveirinha” entrando em uma bagatella que estava installada num chopp que existia na Gloria onde entrou para espantar suas maguas, deu com uma bola preta. Sempre a bola preta! Ora, nessa mesma noite o bhoemio e incorrigível carnavalesco deliberou de vez prender a bola preta à sua vida foliona e com seus companheiros dessa ocasião, que eram o Fala Baixo, este que aqui está – o Brandão velhinho e o seu “Pendura” fundarem o hoje famoso e tradicional “Cordão da Bola Preta”.

camiseta oficial do carnaval 2009 comemorativa aos 90 anos, assinada por Miguel Paiva

Confiram as fotos da Exposição no ultimo dia 10 de Fev inauguração do evento:

 

A tradicional banda do Bola Preta pára o Largo da Carioca para fazer a abertura da exposição. Ao fundo a estrutura montada como suporte das fotos e curiosidades sobre as 9 décads do Bola Brata.

 

Interno da Exposição no coração do Rio de Janeiro.

 

muitos interessados páram para ler o conteúdo da exposição, se identificam, se emocionam com a história que se mistura á história do Carnaval carioca.

 

A Primeira mulher a ser rainha do Bola, pois antes as rainhas eram homens travestidos, Maura Possas orgulhosa ao lado de Heloisa Alves Produtora da Arco que montou a Exposição.

 

CORDÃO DA BOLA PRETA: nove décadas animando o Carnaval Carioca

Realização: Arco Cultura
Coordenação geral e projeto arquitetônico: Heloisa Alves
Coordenação da catalogação e digitalização do acervo: Elke Gibson
Produção geral: Sergio Murilo Carvalho
Museólogo responsável: Claudio Lacerda
Reprodução digital do acervo: Paulo Rodrigues
Programação visual: Hoton Ventura

De 2 de fevereiro a 29 de fevereiro de 2012
Largo da Carioca
Entrada franca

INAUGURAÇÃO: 1º de fevereiro de 2012, às 18h, com apresentação da Banda do Cordão da Bola Preta

Fontes:

Cifra Antiga

Ruas e Praças

Acessoria de Imprensa da Exposição: CORDÃO DA BOLA PRETA: nove décadas animando o Carnaval Carioca

Saiba Mais:

História do Samba – Editora Globo.

Os números de 2011 para celebrar 2012 com toda força.

 

 

Pra começar 2012, os  amigos WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 sobre o blog Celophane Cultural, que gostaria de compartilhar e celebrar com voces.

 

Aqui está um resumo:

A sala de concertos da Ópera de Sydney tem uma capacidade de 2.700 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 41.000 vezes em 2011. Se fosse a sala de concertos, eram precisos 15 concertos egostados para sentar essas pessoas todas.

Em 2011 foram publicados 36 novos artigos, aumentando o arquivo total para 62 artigos. Foram carregadas 341 imagens, ocupando um total de 115mb. É cerca de 7 imagens por semana.

O dia com mais tráfego foi 27 de setembro, com 635 visitas. O artigo mais popular nesse dia foi Cosme Damião ou Ibêji… salvem as crianças..

Estes foram os artigos mais visitados em 2011.

Os sites que mais o mencionaram em 2011 foram:

Alguns visitantes vieram à procura, sobretudo por Monteiro Lobato, Xilogravura, Raloin e literatura de cordel.

 

Meu muito obrigado a voces que me leram em 2011 mostrando que o esforço que faço não é em vão. que venha muita Cultura Popular neste ano que entra.

Clique aqui para ver o relatório completo

 

Jefferson Duarte