Cinema vasculha porões da ditadura

O festival Cinema Pela Verdade segue promovendo debates sobre a ditadura ao longo do Brasil até o fim de junho. A mostra é gratuita e aberta ao público, que contará com bate-papos que terão a presença de especialistas e nomes que presenciaram os anos de repressão no país.

Os filmes e as atividades complementares serão realizadas nos auditórios de universidades das 27 capitais do Brasil. Entre os filmes de destaque, estão: “Cidadão Boilsen” (2009) de Chaim Litewski; “Condor” (2007), de Roberto Mader; e “Hercules 56” (2006), de Silvio Da-Rin, e o recente “Uma longa viagem” (2011), de Lucia Murat, eleito o melhor longa-metragem nacional na 39ª edição do Festival de Cinema de Gramado.

A obra, estrelada por Caio Blat, conta a trajetória do jovem Heitor, irmão da cineasta, cujas andanças pelo mundo durante oito anos em meio ao período da diatura foram registradas através de cartas que dão ao espectador uma visão íntima dos efeitos sociais da repressão e do medo da perda de liberdade de espírito em meio a um cenário de transformações ideológicas pelas quais passava o mundo.

Para conferir datas, horários, assim como atividades complementares de última hora, basta seguir a página oficial do evento no facebook, com atualizações em tempo real: www.facebook.com/FestivalCinemaPelaVerdade

.

Anúncios

Febre por insolação criativa

E está chegando o momento de “Febre do Rato”, de Cláudio Assis, chegar aos cinemas. Depois de ter sido devidamente apresentado nos principais festivais do país, o filme será distribuído pela Imovision, com estréia marcada para 22 de junho.

Esta película toma emprestado para seu título uma expressão bastante popular na capital pernambucana, uma corruptela para as mentes inquietas ou para aqueles que estão em estado lisérgico recreativo, lícito ou não.

A obra retrata o Recife a partir de uma estética monocromática, mas que não consegue esconder o turbilhão de cores poéticas impregnadas na história de Zizo, um poeta marginal e anarquista que distribui um fanzine que dá voz aos inconformados com a imposição dos interesses das classes dominantes. O poeta vê a realidade como um imenso preto-e-branco que será colorido com as cores de suas convicções acerca da liberdade das pessoas poderem ser o que quiserem. As cores estão na ideologia do personagem, que desafia o tédio preto-e-branco das convenções.

O mote do filme se dá a partir do conflito gerado entre os ideais perseguidos por Zizo, interpretado por Irandhir Santos, que encara as consequências da adoção de sua postura: ao defender a liberdade plena das vontades de cada um, o poeta se dá conta que divergências podem surgir entre o desejo unitário e o coletivo, ao encontrar a bela Eneida, interpretada por Nanda Costa.


Febre do Rato levou o prêmio de melhor filme do Festival de Cinema de Paulínia em 2011.

4ª edição do Animage abre inscrições

A Mostra Competitiva do ANIMAGE – IV Festival Internacional de Animação de Pernambuco está com inscrições abertas até 31 de junho. Podem participar obras de todo o país realizadas a partir de janeiro de 2011 com a duração máxima de 30 minutos. A premiação é dividida em quatro categorias, como melhor Melhor Curta, Melhor Curta Infantil, Melhor Curta Brasileiro e Melhor Curta (escolha do público).

Para quem estuda e desenvolve projetos em animação, esta é a chance de mostrar seu trabalho para um público de cerca de 10 mil pessoas, de acordo com a estimativa da última edição. O evento é gratito e ainda conta com oficinas (corram, que as vagas são limitadas!) e seminários.

Mais informações no site do evento: http://www.animagefestival.com/

Deve ser chato ser Clarice.

Hoje eu acordei com vontade de escrever. Fazia já algum tempo que eu sentia a necessidade de voltar a escoar as letras que se acumulavam dentro de mim. Estava satisfeito em tecer crônicas mentais e preservar a minha intimidade, mas agora sei que as esqueço e não aproveito as conclusões que retiro das situações, se eu não as deixar gravadas para que me acompanhem e puxem minhas orelhas a cada tentativa de repetição de erros às quais eu possa me expor inconscientemente.

Devia ser chato ser Clarice. Acordei com isso na cabeça. Será que a tão cultuada escritora tinha consciência do personagem que ela se tornou? Ou que a tornaram? Duvido que Clarice fosse Lispector o tempo inteiro. Será que a mulher do olhar blasé, gestos elegantes e repostas certas para qualquer tipo de pergunta era assim o tempo inteiro? Ou esta era a porta de entrada para a sua alma, que falava com os outros aqui fora a partir de um interfone, para se preservar? O que parecia íntimo talvez se utilizasse da fluidez das palavras para que outros dessem formas a sentimentos implícitos nelas. Dessa forma, poderiam compartilhar suas visões de mundo.

Clarice deveria ser inteligente demais para cair no lugar comum dos estereótipos que os outros construíam a partir dela. Ou talvez ela fosse assim o tempo inteiro por que gostasse de contemplar as coisas que a rodeavam. Ou talvez se eu fosse ela, acharia uma boa pular uns três livros na estante e ir tomar cerveja com a Hilda Hilst.

Caio, então, nem se fala. Será que ele apreciaria todo o culto em volta do mar revolto do qual ele se cercava? Não que ele não mereça toda a apreciação em torno de sua pessoa e sua obra. Mas será que algum dia ele se perguntaria se era apenas isso que as pessoas esperariam dele? A melancolia? A fragmentação? E se um dia ele acordasse com uma boa dose de ansiolítico na alma? Ele se esforçaria para ser o Caio que as pessoas estavam acostumadas a ler?

É disso que tenho medo. Sei da minha natureza. Na maioria dos casos, ela sempre encontra espaço para tentar fazer as coisas parecerem mais leves do que são, deve ser uma defesa minha para extrair energia e seguir o percurso que eu estou trilhando. Mas tem horas que o saco de piadas se esvazia e os outros podem não me compreender.

É disso que falo agora. Nunca seremos cem por cento isso ou aquilo. E muitas vezes, temos medo de usar outras tintas em nossas telas, medo de não receber mais elogios pelo que pintamos. Nos tornamos uma galeria que aposta em fórmulas de sucesso fácil de público, que cai na tentação cômoda de nunca se renovar, ou pelo menos nunca deixar que outras cores quebrem a harmonia e convivam no mesmo quadro.

Devia ser chato ser Clarice, às vezes. E também o Caio deveria gostar de ter momentos apenas seus, de mais ninguém, descansando o Fernando Abreu em algum cabide no guarda-roupa.

Gosto muito do que sou, mas aprecio muito mais aquilo que geralmente eu não sou. É quando me sinto mais verdadeiro e honesto comigo mesmo. E acreditem, não é fácil pra ninguém sair da comodidade da familiarização de um consigo mesmo que também é talhado lá fora da pele.

Mas quando você se permite fazer isso, é liberdade na certa. Este é um exercício que tento fazer sempre. Sorrir só quando tenho vontade.

Não estou sorrindo agora. Mas me sinto muito feliz por isso.

Texto de Juliano da Hora

Foto de Claudia Andujar

A “Festa Santa” é matéria da Raiz 11

A Um tempo atrás conheci uma revista que falava de uma forma muito “saborosa” sobre o assunto que mais me dá prazer nesta vida “Cultura Popular” com artigos das verdadeiras feras no assunto.

A convite do Edgard Steffen Junior editor chefe da Revista Raiz tive o prazer de me juntar a estas feras e fazer uma matéria pra edição da Raiz 11

Aqui a matéria na Integra celebrando com vocês este momento tão importante pra mim:

Festa Santa

O povo brasileiro é um povo que tem fé, ele se apropria, se adapta, se transforma, transcende e pronto. Um povo misturado que colocou no mesmo caldeirão as procissões católicas dos europeus, as festas de matriz africanas e a fé em santos não-canônicos. Estes movimentos populares, religiosos ou não, estão espalhados por todo o Brasil.

Foto: Marcelo Feitosa

Mas é no Nordeste que esta fé se revela com mais força como por exemplo os seguidores de Antonio Conselheiro em Canudos e o fenômeno Padre Cícero em Juazeiro.

Um fantástico e ferrenho imaginário de devoção e um relacionamento íntimo, corpo, suor, lágrimas e sangue com o sagrado. As regras são criadas, as formas de expressão são únicas, mas a fé é única e inabalável.

Foto: Marcelo Feitosa

O Fotógrafo, Carioca de nascença e Pernambucano de coração, Marcelo Feitosa,  lançou-se em duas romarias de regiões distintas do Nordeste  – Juazeiro do Norte, sertão do ceará, terra sagrada do líder político/religioso Padre Cícero e o Morro da Conceição, uma procissão da “bandeira” no meio da região metropolitana de Recife. Seu objetivo era conhecer de perto, juntinho enfronhado estas manifestações, trazendo pra nós um retrato, por vezes crítico e profano desta força que move essa gente, desta fé cega e impressionantemente verdadeira expressada nos olhos , mãos e símbolos carregados por estes devotos.

foto: Marcelo Feitosa

A curadora da exposição Andrea Vizzotto destaca: “Tanto no ambiente rural quanto no urbano, observamos práticas religiosas semelhantes, em que tradição e modernidade interagem em hibridismos que buscam novos sentidos para as suas práticas.”

A “Festa Santa” de Feitosa fez parte da exposição do MAP “Caminhos do santo”, em 2010, no Recife. Segundo Marcela Wanderlei curadora e coordenadora do MAP “…a mostra compôs um mapa sobre a temática no nordeste, evidenciando particularidades e expressando diálogos na representação de um universo religioso (re)elaborado.”

foto Marcelo Feitosa

No meio desta “Festa Santa” o fotógrafo nos empresta seu olhar crítico destacando outras manifestações de fé contemporânea onde Xuxa e Michael Jackson desfilam lado a lado com Cícero e Conceição. A Curadora reflete em seu texto de apresentação: “Afinal, é o seu olhar que dessacraliza o ritual de fé dos romeiros ou é o conceito que não consegue explicar a vivência do sagrado e do profano entre esses romeiros?”

Foto: Marcelo Feitosa

A Festa em Madureira:

Agora é a vez de Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, receber esta procissão de fotos, participar desta “Festa Santa”. Os moradores da terra do Samba são pessoas que, de imediato, vão se identificar com o tema. O subúrbio carioca tem como grande parte da população imigrantes nordestinos, desta forma, a identificação destas manifestações típicas das suas regiões, do seu povo, elevam sua identidade a patrimônio cultural da humanidade.

Foto: Marcelo Feitosa

Festas como a de Nossa Senhora da Penha, Iemanjá, São Sebastião e São Jorge, mesmo vindas de tradições europeias misturadas ás tradições dos povos afrodescendentes, mostram esta aproximação, este “(re)conhecimento” de uma fé que não é só do homem do Nordeste e sim das “gentes” brasileiras.

Foto: Marcelo Feitosa

Com a palavra a Curadora:

Procissões e romarias estão entre as mais antigas tradições do Brasil, heranças da nossa colonização portuguesa. Contudo,
o ritual católico encontrou vários obstáculos para se fazer presente em todas as regiões, dificultando sua missão evangelizadora
e criando as condições para que outras práticas populares fossem a ele incorporadas, o que resultou em uma religiosidade
multifacetada. O mesmo espaço de reza e de devoção podia ser também o da festa e o do jogo, pois eram formas não
excludentes de mostrar reconhecimento e agradecimento ao santo de devoção.

As fotos que vemos na exposição Festa Santa não são apenas uma afirmação da fé dos romeiros. Ao se lançar em duas romarias
de regiões distintas do Nordeste brasileiro – Juazeiro do Norte, no sertão do Ceará, e Morro da Conceição, na região metropolitana
de Recife –, o fotógrafo Marcelo Feitosa tinha como objetivo conhecer as manifestações culturais presentes nesses espaços, para
além do estrito caráter devocional. O resultado disso é uma coletânea de imagens que mostram o sagrado e o profano convivendo
no mesmo espaço sem constrangimentos. Tanto no ambiente rural quanto no urbano, observamos práticas religiosas semelhantes,
em que tradição e modernidade interagem em hibridismos que buscam novos sentidos para as suas práticas.

Se atualmente desconfiamos da fotografia documental como apenas um registro do real, pois se trata também de uma construção,
o olhar aparentemente herético do fotógrafo constitui-se em um excelente convite à reflexão sobre como é vista e pensada a fé no
mundo contemporâneo. Afinal, é o seu olhar que dessacraliza o ritual de fé dos romeiros ou é o conceito que não consegue explicar
a vivência do sagrado e do profano entre esses romeiros?

Andrea Vizzotto
Curadora

“Festa Santa” – Fotografias de Marcelo Feitosa

Curadoria – Andrea Vizzotto

SESC Madureira – Março e abril 2012

www.sescrio.org.br

Curriculo:

Marcelo Feitosa nasceu no Rio de Janeiro (RJ), onde vive atualmente após um período morando em Recife (PE). Começou a fotografar ainda jovem, nos anos 1980. Fotógrafo independente, trabalha com jornalismo e é repórter fotográfico associado à FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas). A partir de 2007 passou a trabalhar exclusivamente com fotografia digital, tornando-se especialista em pós-produção e tratamento digital de imagens. Nesse mesmo ano começou a desenvolver vários projetos autorais, sempre utilizando a fotografia como forma de expressão. Seus trabalhos começaram a se destacar a partir de 2008, sendo premiado em vários concursos. Entre os prêmios que recebeu, destacam-se o Prêmio SENAD de fotografia 2009, em Brasília, e o IV Prêmio Pernambuco Nação Cultural 2010. Participou de todas as edições da Mostra Recife de Fotografia e também de outras mostras de arte, tais como a I Mostra de Videoarte do Memorial Chico Science, dentro da programação do SPA das Artes 2009, e a Semana de Artes Visuais do SESC Santa Rita (Recife). Ainda em 2009, participou da exposição “Caminhos do Santo”, realizada pelo Museu de Arte Popular da cidade do Recife (MAP), em 2010, participou da exposição “Além da Imaginação”, realizada pelo Centro Europeu de Curitiba (PR), em 2011 foi finalista do concurso internacional Prix Photo Web, promovido pela Aliança Francesa e em 2012 realiza sua primeira exposição individual, no SESC Madureira – RJ, com o projeto Festa Santa. Possui imagens no acervo dos Museus Oscar Niemayer (MON), em Curitiba, e na Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE). Atualmente trabalha na cobertura jornalística de eventos para diversas agências de notícia e é professor da escola de fotografia Beco Limon Fotografia.

Na REvista Raiz 11

A Matéria chama “Festa Santa” é logo a primeira matéria da coluna Acontece.
A revista Raiz 11 pode ser comprada pelo site ou em breve na Livraria Cultura da sua cidade.
Revista Raiz 11

Confira e compartilhe comigo este prêmio.