Deve ser chato ser Clarice.

Hoje eu acordei com vontade de escrever. Fazia já algum tempo que eu sentia a necessidade de voltar a escoar as letras que se acumulavam dentro de mim. Estava satisfeito em tecer crônicas mentais e preservar a minha intimidade, mas agora sei que as esqueço e não aproveito as conclusões que retiro das situações, se eu não as deixar gravadas para que me acompanhem e puxem minhas orelhas a cada tentativa de repetição de erros às quais eu possa me expor inconscientemente.

Devia ser chato ser Clarice. Acordei com isso na cabeça. Será que a tão cultuada escritora tinha consciência do personagem que ela se tornou? Ou que a tornaram? Duvido que Clarice fosse Lispector o tempo inteiro. Será que a mulher do olhar blasé, gestos elegantes e repostas certas para qualquer tipo de pergunta era assim o tempo inteiro? Ou esta era a porta de entrada para a sua alma, que falava com os outros aqui fora a partir de um interfone, para se preservar? O que parecia íntimo talvez se utilizasse da fluidez das palavras para que outros dessem formas a sentimentos implícitos nelas. Dessa forma, poderiam compartilhar suas visões de mundo.

Clarice deveria ser inteligente demais para cair no lugar comum dos estereótipos que os outros construíam a partir dela. Ou talvez ela fosse assim o tempo inteiro por que gostasse de contemplar as coisas que a rodeavam. Ou talvez se eu fosse ela, acharia uma boa pular uns três livros na estante e ir tomar cerveja com a Hilda Hilst.

Caio, então, nem se fala. Será que ele apreciaria todo o culto em volta do mar revolto do qual ele se cercava? Não que ele não mereça toda a apreciação em torno de sua pessoa e sua obra. Mas será que algum dia ele se perguntaria se era apenas isso que as pessoas esperariam dele? A melancolia? A fragmentação? E se um dia ele acordasse com uma boa dose de ansiolítico na alma? Ele se esforçaria para ser o Caio que as pessoas estavam acostumadas a ler?

É disso que tenho medo. Sei da minha natureza. Na maioria dos casos, ela sempre encontra espaço para tentar fazer as coisas parecerem mais leves do que são, deve ser uma defesa minha para extrair energia e seguir o percurso que eu estou trilhando. Mas tem horas que o saco de piadas se esvazia e os outros podem não me compreender.

É disso que falo agora. Nunca seremos cem por cento isso ou aquilo. E muitas vezes, temos medo de usar outras tintas em nossas telas, medo de não receber mais elogios pelo que pintamos. Nos tornamos uma galeria que aposta em fórmulas de sucesso fácil de público, que cai na tentação cômoda de nunca se renovar, ou pelo menos nunca deixar que outras cores quebrem a harmonia e convivam no mesmo quadro.

Devia ser chato ser Clarice, às vezes. E também o Caio deveria gostar de ter momentos apenas seus, de mais ninguém, descansando o Fernando Abreu em algum cabide no guarda-roupa.

Gosto muito do que sou, mas aprecio muito mais aquilo que geralmente eu não sou. É quando me sinto mais verdadeiro e honesto comigo mesmo. E acreditem, não é fácil pra ninguém sair da comodidade da familiarização de um consigo mesmo que também é talhado lá fora da pele.

Mas quando você se permite fazer isso, é liberdade na certa. Este é um exercício que tento fazer sempre. Sorrir só quando tenho vontade.

Não estou sorrindo agora. Mas me sinto muito feliz por isso.

Texto de Juliano da Hora

Foto de Claudia Andujar

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