Metade amputada de mim

Se há um paradoxo insuportável na indústria cultural é o fato recorrente de bons filmes, discos e livros serem trancados nos porões das distribuidoras, gravadoras e editoras, sem prazo para visitarem as prateleiras das lojas e o público, depois que as primeiras tiragens se esgotam. A internet vem na contramão ao permitir que usuários detentores de uma cópia destas obras a disponibilizem online, para que outras pessoas tenham acesso a este conteúdo e enriqueçam a sua bagagem cultural.

E foi justamente um desses links que me apresentaram a história de Weronika e Véronique. Duas garotas idênticas na aparência que dividem uma dinâmica semelhante na vida, com consequências que afetam diretamente seus dias, sem nunca terem se conhecido. Assim poderia ser resumido o argumento para o roteiro de “A Dupla Vida de Véronique”, filme do diretor polonês Krzysztof Kieslowski, mais conhecido pela sua trilogia das cores (A liberdade é azul, A Igualdade é Branca e A Fraternidade é Vermelha).

Véronique vive na França, e é professora de música, ofício escolhido por razões que desconhece, mas que têm a ver com sua contraparte polonesa, Weronika, que faz parte de uma orquestra sinfônica como cantora. O cotidiano destas mulheres interpretadas pela atriz Iréne Jacob se desenrola como duas linhas paralelas compostas de fragmentos que poderiam muito bem se completar para formar uma única história. Por exemplo: a vida levada por Weronika em Cracóvia é temperada com uma relação afetuosa com sua tia e seu amado Antek, compondo uma peça que falta à Véronique, apresentada à história durante um ato sexual sem maiores sentimentos.

Os destinos destas duas se cruzam durante uma viagem de Véronique à Polônia, que fotografa ao acaso Weronika, surpreendida por ver a si mesma durante uma manifestação no centro da capital. Este encontro irá desencadear no espectador um convite a abandonar qualquer esforço para seguir um raciocínio lógico a respeito destas vidas. Ambas partilham da falta de algo que desconhecem, como se fossem metades de uma mesma alma que busca se completar. A morte de uma irá explicar as decisões e presságios da outra, como um quebra-cabeças que ora se completa, e ora revela lacunas a serem fechadas pelo próprio espectador. Este é o mote de Kieslowski: O filme é uma porta aberta ao encanto do acaso, sem os clichês das fantasias do cinema norte-americano. O seu universo lúdico provoca a reflexão e afrouxa a sizuda linha racional que insiste em cercar nossa imaginação.

“A Dupla Vida de Veronique” brinca com o sonho de possuirmos uma parte que nos completa, que nos faça vislumbrar como seríamos em circunstâncias diferentes das que estamos vivendo. O diretor fez um filme para ser sentido. Isto é percebido em todos os aspectos, desde a fotografia com iluminação e cores quentes, que dão uma atmosfera de sonho, até as locações, que se tornam personagens secundários da trama. A música de Zbigniew Preisner é um caso a parte: como o filme se apóia mais no sensorial que nos diálogos, as melodias colaboram com a narrativa fragmentada, imprimindo um clima de beleza melancólica que emoldura a história como recortes de lembranças.

Lançada em 1991, esta trama nos relembra que a sétima arte também pode ser um exercício de delicadeza, provocação e celebração do ato de imaginar outras possibilidades de contar histórias e cativar mentes e corações. “Véronique” reside na atemporalidade das obras-primas.

Assista ao trailer:

Para quem ficou curioso, basta dar um Google para baixar o filme. A gente não dá os peixes, mas ensina a pescar. Clique Aqui.

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