Por que você ainda compra discos?

Sempre me perguntam por que eu ainda compro discos. A resposta é simples: por que eu não sei fazer minhas refeições andando. E apressado come cru. Sempre me senti estranho ao som que você carrega consigo e não divide com ninguém. A música, alimento da alma que por si só tem um forte caráter agregador, agora encontra-se presa em fones de ouvido que por sua vez prendem seus ouvintes. E aí cada um permanece no seu mundo, trancado.

Eu ainda pude presenciar amizades e paqueras que começaram com uma simples pergunta a respeito da voz que saía da caixa de som alheia. Aquelas melodias seriam a cola que uniria e acenderia outras afinidades. Sempre gostei dos discos por que eles eram mais que um balaio de arquivos numa caixinha eletrônica. Cada álbum possuía um conceito, um cuidado em seguir uma sequência harmoniosa e uma moldura visual caprichada que fosse uma extensão da obra.

Agora? Vejo muita coisa disposta como background do caminho pro trabalho, da volta pra casa, da malhação na academia, do esquente pré-balada. Muitas vezes baixamos uma música que achamos legal, sem nem saber o nome do artista. Pra quê serve isso mesmo? A velocidade crescente da informação jogada por aí nos põe numa overdose que nos rouba o tempo necessário para apreciar -e não consumir- a arte musical. Álbuns são a la carte, MP3 são bandeijões.

Da mesma forma que o tempero decai pela pressa do self-service, a qualidade sonora das músicas no formato MP3 também soa indigesta, comprimida e achatada aos meus ouvidos. Por apreciar a vibração das caixas do estéreo da sala de estar desde os três anos de idade, desenvolvi um gosto por contemplar a música, o efeito acústico do estúdio na voz do cantor, os detalhes do instrumento que quase ninguém percebe, ali, escondidinho entre a segunda estrofe e o refrão, tão importante pra mim, que aos meus ouvidos, a música seria nada mais que um corpo amputado de seus membros.

E a capa, e os encartes? E a lista de agradecimentos? Aquilo tudo me enche de satisfação, por estar registrado o amor e o suor empregado por um monte de pessoas que tiraram seus sonhos da folha de partitura para transformá-los em realidade aos nossos ouvidos. As datas de gravação, os estúdios utilizados, tudo isto me faz imaginar como são esses lugares por dentro, como foi a rotina de trabalho, se houve diversão, se houve conflito, se houveram noites em claro para deixar a canção da forma que imaginaram, as parcerias, os copos de bebidas, as saídas para buscar inspiração… Toda esta maravilha da coletividade criativa e emocional das relações humanas está presente naquelas obras que podem afirmar com orgulho: EU SOU UM DISCO! Eu nasci entre uma batucada na mesa e um piano no final da noite! Eu fui gerado por um grupo de pessoas, tão heterogêneas quanto uma colcha de retalhos, e tão harmoniosas quanto uma amizade que se entende com o olhar.

Perceber que por trás de cada canção há um conjunto de pessoas que assim como eu, possuem uma bagagem cheia de referências, lembranças e curiosidade, é como estabelecer um vínculo horizontal com os músicos. Nós os admiramos por que no fundo sabemos que eles são iguais a nós, que possuem a mesma fome. Isto talvez explique a relação sem contenção entre os artistas e seus fãs.

É por isso que apesar de toda a tecnologia que facilita a descoberta de novas canções, eu ainda compro discos. A enxurrada digital nunca irá mudar o processo de criação, que é intrinsecamente emoção.

Discos ainda são necessários.

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