A dança que molda a vida

O nascimento, as transformações e a morte das emoções e desejos humanos, vistos sob o mito da criação da vida a partir do barro. Este é o mote do espetáculo “Afar”, da Sete&Oito Companhia de Dança, que estréia neste sábado (03/11) e segue durante os finais de semana do mês de novembro, no Sobrado das Artes, na Travessa Tiradentes, no Recife Antigo.

A iniciativa é fruto de um trabalho de pesquisa realizado pelos bailarinos e arte-educadores Carlla Amaral e Cleisson Barros, que viram no barro um canal ideal para expressar as dúvidas, anseios e conflitos causados pela fome de criação do homem. “A palavra ‘Afar’ vem do hebraico e significa pó, mas com uma conotação que remete aos símbolos do fruto e da reprodução, da criação. E este nascimento é algo que tanto o artista quanto o cidadão comum respiram o tempo todo: Damos luz a sonhos, anseios e medos todos os dias. Alguns canalizam isto em realizações práticas no seu dia-a-dia, outros fazem poesia”, diz Carlla.

O bailarino Cleisson Barros afirma que o espetáculo se apóia na eterna busca do ser humano pelo sentido de sua trajetória. “O homem desenvolve novas formas de se relacionar com o mundo e consigo mesmo, a partir do momento em que se permite questionar. E nós absorvemos conhecimentos, sentimentos e nos adaptamos ao ambiente e às circunstâncias, tal qual a argila é moldada ao gosto de seu criador. Somos um sinônimo ambulante dela, até o nosso corpo possui o mesmo número de elementos químicos presentes nesta poeira vermelha”, conclui.

O espetáculo, que conta com uma estrutura onde os bailarinos se apresentam misturando seus passos em meio à água e à argila, se apóia no caráter sensorial que o elemento barro traz consigo: ele possui cores e cheiros, é mutante como as vontades e os sonhos, as formas e espessuras, ele pode ser frágil, mas também proteger: “Com ele podemos compor as máscaras e armaduras que vestimos todos os dias para lidarmos com o outro. Com este pó somos criadores e ciraturas, a partir dele nos rebelamos, nele ficamos escondidos, conscientes ou não”, afirma Carlla.

“Afar” possui a colaboração de nomes conhecidos do circuito cênico de Pernambuco. A trilha sonora inédita é composta por Adriana Nilet, que entre vários espetáculos, contribuiu musicalmente para a última versão pernambucana de “Beijo no Asfalto”, de Nelson Rodrigues, dirigida por Cláudio Lira em outubro deste ano. A iluminação fica a cargo de Cleison Ramos, que se une à cenografia do artista plástico Antônio Bernardo, responsável pelos personagens retratados na Embaixada dos Bonecos Gigantes no Recife Antigo.

A temporada de “Afar” segue até o dia 25 de novembro, com sessões às 20h (sábados) e 19h (domingos). Os ingressos podem ser adquiridos no local do espetáculo.

Serviço

“Afar”

Onde: Sobrado das Artes – Travessa Tiradentes, S/N – ao lado da Capitania dos Portos, Recife Antigo.

Quando: Sábados e domingos, até o dia 25/11. Estréia no dia 03/11.

Horários: 20h (sábados) e 19h (domingos).

Ingresso: R$ 10,00

Informações: (81) 9216.4249 / 8536.7701 / 9967.6265 ou pelos e-mails carlladoamaral@ig.com.br / companhiaseteoito@gmail.com

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Discos voadores a preços populares

E eis que neste final de semana, os amantes do vinil ganham mais uma festa para engrossar o coro daqueles que acreditam que, assim como Elvis, o bolachão sonoro não morreu. Amanhã (sábado, 27/10), o Casulo, espaço cultural e gastronômico localizado na Rua do Sossego, na Boa Vista, recebe os DJs Rastonauta e Xandonauta, recém-chegados de uma abdução básica (quem nunca, né?). A dupla irá pôr em prática a missão de colonizar terrestres ao som da maravilhosa tecnologia analógica, a partir de um artefato exótico chamado vitrola.

O repertório irá presentear o público com clássicos da música brasileira, sem esquecer os gringos que se tornaram ícones no auge da cultura da bolacha preta. Os visitantes terão à disposição um espaço destinado à venda de vinis, que também serão sorteados ao longo do evento.

A festa conta com um clima de sarau, onde textos e poemas poderão pipocar entre uma música e outra. Os responsáveis pela viagem sonora prometem surpresas na estética a ser adotada pela celebração musical, que começa às 17h e vai até a meia-noite. Os ingressos custam apenas (UAU) R$ 5.

E aí, vamo ou bora??

Serviço

As aventuras de Rastonauta e Xandonauta em: As Bolachas Espaciais

Sábado (27), 17h até 0h

Casulo (Rua do Sossego, 341, Boa Vista)

Quanto?? >>> R$ 5

Informações: (81) 8825 1311 | 8600 8079

Bem vinda, Alice!

A música popular brasileira acaba de me provar que talento pode ser herdado de berço. O DNA dos maravilhosos compositores, instrumentistas e cantores é forte o bastante para derrubar a descrença e a acomodação que de tempos em tempos insiste em pintar o cenário musical com cores negras.

Quando eu achava que o borogodó dos meus ídolos se desvaneceriam pelo ar quando eles nos deixassem, eis que chega Alice Caymmi, que acaba de assassinar e enterrar a sete palmos este meu medo. Seu avô Dorival ficaria orgulhoso de ouvir o disco da neta. De alguma forma, eu sei que ele está. Alice conseguiu reter a essência musical da família sem doar datada.

Seu disco de estréia acaba de sair pela Kuarup Discos, com distribuição da Sony, e me chamou a atenção logo pela capa. A foto mostra uma mulher do alto de seus vinte e poucos anos, nos fitando imperativa com a maquiagem completamente escorrida pela água do chuveiro. Na contracapa, ela encontra-se na areia da praia, com a mesma maquiagem escorrida, talvez envolta em devaneios nos quais ela deseja se afogar.

O som que ecoa é a perfeita tradução do que nos foi apresentado aos olhos. a voz de Alice é intensa, tem consistência e muito sentimento, sem soar sentimentalista. Emoção pura, com peso, verdadeira. Eu diria que lembra um pouco uma jovem Nana Caymmi, sua tia. Filha de Danilo, Alice possui uma trajetória parecida com a maioria dos cantores cujos pais tinham o palco como segundo lar. Não será preciso dizer mais nada.

O repertório autoral soa como uma versão revisitada da mitologia cantada por seu avô Dorival, com percussões e toques eletrônicos emoldurando violinos, baixos e piano acústico. A minha preferida é “Arco da Aliança”, uma ciranda que cita as pernambucanas Lia e a Ilha de Itamaracá de uma forma lúdica, que provoca o ouvinte, desafiando-o a ficar parado frente à melodia e letra que mais parecem um mantra convidativo aos sentidos, que pedem areias para os pés e mãos alheias para as nossas, a fim de formarmos uma roda para dançar.

Ouça “Arco da Aliança”:

Aos 22 anos, Alice estuda artes cênicas. Talvez isso explique a sonoridade épica de seu álbum, mas um épico tropical, como se estivéssemos presentes num musical do Teatro de Arena, coisa que nunca vivi, mas que me vem à mente quando ouço a sua voz. O disco possui apenas 10 músicas, sendo duas em parceria com Paulo César Pinheiro, e um cover de Björk. Sim, você leu certo. Ela canta uma versão inspirada de “Unravel”, do álbum “Homogenic” da cantora islandesa, na última faixa do CD.

O design da embalagem e do encarte são um show à parte. Com fotos de Jorge Bispo, Alice Caymmi se apresenta como uma Iemanjá moderna que saiu à noite para enfeitiçar corações desavisados que navegam nas pistas noturnas, tão perdidos no mar quanto ela.

Decididamente, este disco vai para a minha lista daqueles que me remetem ao sol, às cores fortes, às noites quentes e ternas, e ao eterno barulho do mar tão presente nas minhas memórias litorâneas e nordestinas, tão cheias de um Brasil etéreo e utópico. Tão Caymmi.

Ouça “Tudo que for leve”:

Pra conhecer o restante das melodias desta sereia, é só chegar no seu Facebook: Clique aqui!!

Download ‘de grátis’ – Conhece o Qinho?

Quando fazemos um apanhado do cenário atual da música brasileira, é notável a importância dos avanços tecnológicos, que permitiram o surgimento de artistas e bandas apoiados em iniciativas independentes, correndo por fora da enferrujada mídia tradicional.

A internet permitiu o acesso à programas de gravação e edição sonora a um clique de distância, e promoveu uma troca de informações e experiências antes impossíveis alguns anos atrás. E é nesta seara que estão nascendo as melhores produções que o Brasil já escutou.

Este é o caso de Marcos Coutinho, artisticamente batizado de Qinho (sem a letra ‘u’, mesmo), compositor e cantor carioca. Ele vem realizando trabalhos ao lado de gente cujo desejo é fazer da arte algo que ultrapasse  o lugar-comum da apreciação, um canal que propicie inspiração para abraçar o novo e provocar mudanças.

Qinho é um dos idealizadores do projeto Dia da Rua, realizado em 2008 e 2009, onde mais de 30 bandas cariocas se uniram em shows simultâneos e gratuitos nas ruas dos bairros do Leblon e Ipanema, convidando as pessoas a lançar um novo olhar sobre o potencial da relação entre a arte e os espaços urbanos. Estes eventos foram uma oportunidade de mostrar à cidade o quanto está se perdendo ao ficar em casa, consumindo os pasteurizados do Chef Faustão.

MENOS É MAIS

Na ativa desde 2004, com a banda Vulgo Qinho e Os Cara, além de mais três outros projetos paralelos, lançou em 2009 o seu primeiro disco solo. O trabalho possui composições próprias que falam de amor, sem cair na pieguiçe. “Canduras” foi gravado em casa, com recursos mínimos como por exemplo, microfones de computador, o que resultou num clima intimista, acompanhado de percussão, instrumentos de sopro e baixo acústico, em arranjos simples.

BAIXE O DISCO:

Chega de apresentações, não é mesmo? Pra baixar o disco, é só clicar na capa dele aí embaixo, e digitar o seu login e a sua senha do Facebook, ou do Twitter. Saiba mais neste link: (Como baixar música no blog).

PROJETO NOVO

Este ano, o Qinho lançou seu novo disco, chamado “O Tempo Soa”, com uma sonoridade mais encorpada, pela presença de uma banda composta por integrantes da Abayomy Afrobeat Orquestra, além de participações de nomes como Mart’nália, Elba Ramalho e Amora Pera (filha de Gonzaguinha e integrante das Chicas).

As músicas mantêm um retrato sensível das idas e vindas sentimentais, agora sob um tempero mais dançante e quente, sinceramente brasileiro e black, bebendo da fonte de nomes como Jorge Benjor, Banda Black Rio e Hyldon, como em “Irmã Forte”, dueto com Amora Pera:

Nós incentivamos fortemente que você procure “O Tempo Soa” nas melhores lojas, por quatro motivos:

1 – Qinho só liberou online o seu primeiro trabalho solo.

2 – “O Tempo Soa” acabou de ser lançado e nem é tão caro. Sem falar que o disco em si é praticamente um exemplar de colecionador, pelo cuidado com a apresentação visual. Confira como ficou o design da embalagem clicando aqui.

3 – Apesar de estarmos inseridos numa cultura amplamente digital, a gente curte dar uma força ao trabalho do artista. Sem falar que a qualidade do som na versão física é infinitamente superior ao MP3.

4 -Nós gostamos muito de música para ouvi-la com amplitude, não compactada. Sorry, arquivos digitais, mas é verdade. Vocês são apenas práticos e são ótimos cartões de visitas dos artistas.

Beijos, nos liguem.

Lookbook Hellcife

Quem disse que cajumanga também não é moda? Aqui tem moda, sim senhor e sim senhora, mas sinceramente, quem em sã consciência vai querer usar haute couture no calor de 30° de Hellcife?

Em uma cidade em que você sai arrasando de casa, para daqui a dez minutos chegar na parada de ônibus mais acabado que Amy Winehouse em fim de balada, a pedida é ser o mais confortável possível. Mas como a gente não pode andar com a roupa que dormimos, a parada é aliar peças básicas pra ganhar tempo e enfrentar o ruge-ruge de todos os dias.

O alagoano de nascimento e pernambucano por opção Lucas Mello, já sacou a vibe da cidade e não dispensa cinco itens: Um par de Converse All Star, bermuda leve, camiseta básica, mochila para carregar suas barras de cereais, água e apetrechos de trabalho, e claro, fones de ouvido, por que ninguém é obrigado a aturar a parada de sucessos (not) do busão, com disputa de celulares e MP3 Players dos passageiros.

Ah! Não esqueça de proteger seus olhos com os indefectíveis óculos escuros. E não, não compre do camelô, se você tiver amor à sua saúde ocular.

Dá licença, moço???

Dá licença, moço? Eu alcancei um ponto do percurso que me deu uma visão panorâmica e crítica a respeito do que me foi apresentado ao longo do caminho. Dá licença, por favor? É que eu me sinto mais seguro que ontem, e estarei bem mais amanhã. Faça o favor de guardar a sua presunção, que mais parece um reboco na alma. Não precisamos disso. É pesado. É inútil. É enfadonho.

Dá licença, que eu prefiro cumprimentar e fazer a minha parte para enxergar melhor as pessoas. É difícil, por que existem muitas com as quais eu não concordo, mas ainda que as coloquemos um rótulo, não custa nada dizer “bom dia”. Uma porta se abre a partir disso, e quando temos duas casas abertas, o muro das idéias pré-concebidas se torna menos turvo.

Dá licença, que eu não preciso parecer legal, ou antenado, ou qualquer outra palavra e atitude da moda. Um passinho adiante, por favor, que tem mais gente vindo aí e eu não vim pra empacar o caminho de ninguém. Muito pelo contrário, quero é estrada cheia como a minha casa, e fluida como uma corredeira que a gente desce rio abaixo, sorrindo com os amigos. Não quero chegar primeiro, por que os primeiros sempre chegam sozinhos. Quero chegar junto.

Olha a gentileza, moço. Essa mesma que lhe lembraram de esquecer. Viu como ela é gente boa? Ao contrário do que muitos pensam, ela não te subtrai em nada. Muito pelo contrário. Ela te adiciona ganhos, companhia e respeito.

Por isso que eu peço licença.