Bem vinda, Alice!

A música popular brasileira acaba de me provar que talento pode ser herdado de berço. O DNA dos maravilhosos compositores, instrumentistas e cantores é forte o bastante para derrubar a descrença e a acomodação que de tempos em tempos insiste em pintar o cenário musical com cores negras.

Quando eu achava que o borogodó dos meus ídolos se desvaneceriam pelo ar quando eles nos deixassem, eis que chega Alice Caymmi, que acaba de assassinar e enterrar a sete palmos este meu medo. Seu avô Dorival ficaria orgulhoso de ouvir o disco da neta. De alguma forma, eu sei que ele está. Alice conseguiu reter a essência musical da família sem doar datada.

Seu disco de estréia acaba de sair pela Kuarup Discos, com distribuição da Sony, e me chamou a atenção logo pela capa. A foto mostra uma mulher do alto de seus vinte e poucos anos, nos fitando imperativa com a maquiagem completamente escorrida pela água do chuveiro. Na contracapa, ela encontra-se na areia da praia, com a mesma maquiagem escorrida, talvez envolta em devaneios nos quais ela deseja se afogar.

O som que ecoa é a perfeita tradução do que nos foi apresentado aos olhos. a voz de Alice é intensa, tem consistência e muito sentimento, sem soar sentimentalista. Emoção pura, com peso, verdadeira. Eu diria que lembra um pouco uma jovem Nana Caymmi, sua tia. Filha de Danilo, Alice possui uma trajetória parecida com a maioria dos cantores cujos pais tinham o palco como segundo lar. Não será preciso dizer mais nada.

O repertório autoral soa como uma versão revisitada da mitologia cantada por seu avô Dorival, com percussões e toques eletrônicos emoldurando violinos, baixos e piano acústico. A minha preferida é “Arco da Aliança”, uma ciranda que cita as pernambucanas Lia e a Ilha de Itamaracá de uma forma lúdica, que provoca o ouvinte, desafiando-o a ficar parado frente à melodia e letra que mais parecem um mantra convidativo aos sentidos, que pedem areias para os pés e mãos alheias para as nossas, a fim de formarmos uma roda para dançar.

Ouça “Arco da Aliança”:

Aos 22 anos, Alice estuda artes cênicas. Talvez isso explique a sonoridade épica de seu álbum, mas um épico tropical, como se estivéssemos presentes num musical do Teatro de Arena, coisa que nunca vivi, mas que me vem à mente quando ouço a sua voz. O disco possui apenas 10 músicas, sendo duas em parceria com Paulo César Pinheiro, e um cover de Björk. Sim, você leu certo. Ela canta uma versão inspirada de “Unravel”, do álbum “Homogenic” da cantora islandesa, na última faixa do CD.

O design da embalagem e do encarte são um show à parte. Com fotos de Jorge Bispo, Alice Caymmi se apresenta como uma Iemanjá moderna que saiu à noite para enfeitiçar corações desavisados que navegam nas pistas noturnas, tão perdidos no mar quanto ela.

Decididamente, este disco vai para a minha lista daqueles que me remetem ao sol, às cores fortes, às noites quentes e ternas, e ao eterno barulho do mar tão presente nas minhas memórias litorâneas e nordestinas, tão cheias de um Brasil etéreo e utópico. Tão Caymmi.

Ouça “Tudo que for leve”:

Pra conhecer o restante das melodias desta sereia, é só chegar no seu Facebook: Clique aqui!!

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