“Nego Fugido” encena e celebra, a céu aberto, a sua liberdade.

O “Nego Fugido” acontece todos os domingos de julho na comunidade de Acupe, um subdistrito do município de Santo Amaro da Purificação no Recôncavo Baiano. O Acupe se transforma,em um imenso palco, com uma encenação fantástica e rica da cultura popular.

Foto: André Felipe R Argôlo

É um verdadeiro espetáculo, transformando as ruas do Acupe em um grande teatro a céu aberto. São apresentações ricas de cultura e dramatização, que contam uma historia de perseguição, captura e libertação dos escravos fujões. O espetáculo tem em média 40 figurantes, que na verdade são pessoas comuns da comunidade, são pescadores, marisqueiras, comerciantes e donas de casa.
Os negros fujões, personagens centrais da apresentação, são chamados de “negas”, e geralmente são dramatizados por crianças. Com os rostos pintados com uma mistura feita de óleo de comida e carvão moído, e na boca com um tom avermelhado, feito com papel crepom, representa o sangue e a dor dos negros escravos. Essa aparência, muitas vezes assusta aqueles que não estão acostumados com esse espetáculo.

(foto: Blog Danças Populares do Brasil)

Tem os caçadores, que são geralmente homens fortes e que conseguem executar os movimentos intensos da encenação. Eles usam saias feitas de palhas de folhas de bananeiras, para ajudar na camuflagem do ritual de captura dos negros nas matas. Nessa encenação, também tem figura do soldado, que representa a proteção do Rei. O Rei simboliza os senhores, donos dos engenhos e dos escravos em um ato dessa peça. Os negros cobram as cartas de alforria ao Rei.

Foto Karla Braga – O Capitaõ do mato com a saia de folhas de bananeira usadas como camuflagem.

A princesa Isabel é representada pela figura da “Fada Madrinha”, Ela vem vestida de branco e trás um lenço branco amarado no punho. A “Fada Madrinha” representa o equilíbrio entre a guerra e a paz dos negros e brancos.Tudo acontece em meio aos ritmos dos atabaques e de cantorias ritmados, com características africanas, e criados especialmente para essas apresentações. As letras anunciam o que vai acontecer nas cenas.
É uma manifestação única, e se mantém desde o século XIX, originados dos escravos africanos e de origem Nagô. Provavelmente logo após a Abolição da Escravatura. Ao ouvir os sons dos atabaques as “Negas” dançam enquanto os caçadores cercam os fujões, girando em torno deles. São disparados vários tiros de espingarda, carregadas de espoletas. Quando as “Negas” são atingidas, eles caem e logo são amarrados pelos caçadores, que os obrigam a percorrerem as ruas do Acupe para pedir dinheiro para comprar suas cartas de alforria. Essa parte da dramatização se repete durante os primeiros domingos do mês de julho.

Foto: VAlfredo ROque PEreira – Crianças representando as “Negas”

O desfecho final ocorre no ultimo domingo do mesmo mês, quando acontece a prisão do Rei. Esse ultimo ato, é travada uma grande batalha entre soldado e negros. Os caçadores se unem aos soldados, até conseguir capturar o Rei. Finalmente o Rei é preso, e obrigado a dar a carta de alforria, que é lida pelo Capitão do Mato. Após a leitura, dá início a uma grande festa de comemoração a abolição da escravatura.

Foto: Fernando Sérgio

Durante o mês de julho podemos apreciar também pelas ruas do Acupe os grupos de “Caretas”, “Mândus”, e “Bombachas”. Essas manifestações não têm uma relação direta com a apresentação do “Nego Fugido”, eles são um espetáculo a parte. O “Nego Fugido” não consta nos livros oficiais da historia do Brasil, mas o “Nego Fugido” é uma verdadeira aula de conhecimento e cultura de uma época tão importante para o povo brasileiro e principalmente para a comunidade do Acupe.
O “Nego Fugido” faz parte da memória cultural de Santo Amaro, e quase foi esquecido, pois ficou um tempo “adormecido”, por não ter recursos para se apresentar. Hoje essa preciosidade é comandada por uma verdadeira guerreira, dona Edna Correia Bulcão, conhecida como dona Santa, a “Fada Madrinha” do “Nego Fugido”. Ela assumiu a responsabilidade já há algumas décadas, quando herdou o amor pelo “Nego Fugido” de sua mãe, que sempre ajudava na festa. Com carinho e dedicação, ela ensina as crianças os segredos desse grandioso espetáculo. As dificuldades ainda existem para manter viva essa tradição, mas os integrantes e dona Santa lutam incansavelmente, pois o “Nego Fugido” é um tesouro, que tem que ser valorizado. Um tesouro que impressiona pela sua riqueza de detalhes.
Referencias:
Evilacio Argôlo
Agnaldo Barreto
Texto de Rosanna Ribeiro
ASSOCIAÇÃO CULTURAL NEGO FUGIDO
Rua Edval Barreto nª 68 Acupe –Santo Amaro- BA

contato: monysanto2011@hotmail.com

SÃO PAULO RECEBE “NEGO FUGIDO” E “SAMBA DE RODA RAÍZES” DE ACUPE (BA)

Apresentações com entrada franca, em diversos pontos de São Paulo, marcam Mês da Consciência Negra

Em novembro de 2012 o Projeto Grandes Temas – Edição Batuques da Associação Cultural Cachuera recebe dois grupos que mantêm tradições de cultura popular de Acupe, distrito de Santo Amaro da Purificação (BA): o Nego Fugido e o Samba de Roda Chula Raízes de Acupe.

A vinda de ambos os grupos é, a um só tempo, convite e oportunidade para o público de São Paulo conhecer a tradição do Nego Fugido, que relembra anualmente o período da escravidão do Recôncavo Baiano através de uma vigorosa encenação de rua, e o Samba de Roda Chula, que mantém características locais bem demarcadas.

No período também será lançada uma grande campanha de arrecadação de recursos, via financiamento coletivo, para a construção da Casa Nego Fugido – Centro de Estudos e Práticas Afro-Brasileiras, em Acupe.

NEGO FUGIDO E SAMBA DE RODA CHULA RAÍZES DE ACUPE
Programação completa de apresentações na cidade de São Paulo . 10 a 15/11/12

10/11 (sábado)
Nego Fugido no Espaço Cachuera!
Projeto Grandes Temas – Edição Batuques

16h . Apresentação em ruas próximas ao Cachuera!
18h . Roda de conversa
19h . Samba de Roda Chula com o grupo Raízes de Acupe

Rua Monte Alegre, 1.094 . Perdizes . São Paulo
(11) 3872 8113 . 3875 5563 . cachuera@cachuera.org.br . http://www.cachuera.org.br

Entrada franca

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11/11 (domingo) | 14h
Nego Fugido no Parque da Luz

Praça da Luz, 2 . Bom Retiro . São Paulo
(11) 3324 0942 . educainclusiva@pinacoteca.org.br . http://www.pinacoteca.org.br

Entrada franca

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13/11 (terça-feira) | a partir das 18h
Samba de Roda Raízes de Acupe + exibição de documentários da Cachuera! + exposição – arte em tela de 38 tatuadores de vários países + DJs Zinco e Soares
na Matilha Cultural

Rua Rego Freitas, 542 . Centro . São Paulo
(11) 3256 2636 . http://www.matilhacultural.com.br

Entrada franca
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14/11 (quarta-feira) | a partir das 20h
Noite do Samba de Roda no Espaço Cachuera!
A renda do evento será revertida para a campanha de arrecadação de recursos – construção da Casa Nego Fugido, em Acupe (BA)

Participação especial dos grupos de Samba de Roda:

Garoa do Recôncavo e Mestre Ananias
Nega Duda
Raízes de Acupe
Samba de Dois . Santo Amaro – Mestre Robinho e Andréia

Rua Monte Alegre, 1.094 – Perdizes . São Paulo

Ingresso: pague o quanto vale (sugestão: a partir de R$ 10)

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15/11 (quinta-feira)
Nego Fugido no Instituto Pombas Urbanas

15h . Apresentação em ruas próximas ao Centro Cultural
17h . Roda de conversa com representantes de grupos de teatro de rua e movimentos sociais

Centro Cultural Arte em Construção
Av. dos Metalúrgicos, 2.100 . Cidade Tiradentes . São Paulo
(11) 2285 5962 . contato@pombasurbanas.org.br . http://www.pombasurbanas.org.br

Entrada franca

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