Devoção a São Benedito leva milhares de fiéis a Aparecida

A festa, que completou 104 anos em 2013 é uma das mais importantes do interior de São Paulo e aconteceu de 31 de Março a 8 de abril,

Ê ê irmão vamo cum Deus
E a Virgem Maria
E o nosso reis São Benedito
Reis da nossa companhia

Na tradicional festa de São Benedito, em Aparecida, a fé popular contradiz a ciência: a cor negra gera todas as outras cores. É por causa do santo negro e cozinheiro, que viveu no sul da Itália e morreu em 1589, aos 65 anos, que devotos de várias partes do Brasil e da região se encontram em Aparecida depois da Páscoa.

Foto da Exposição: Benedito das Flores e Antônio de Catagiró - Fonte: http://www.almanaqueurupes.com.br/portal/?p=3318

Foto da Exposição: Benedito das Flores e Antônio de Catagiró – Fonte:
http://www.almanaqueurupes.com.br/portal/?p=3318

“São Benedito
No seu terreiro
Passeio bonito
Pelo mundo inteiro


Chegada bonito
Chegada bonito
Olha a bandeira
Se São Benedito”

Longe de sua terra, os negros adotaram um santo parecido com eles. “Tinham também os africanos a São Benedito por seu patrono, talvez pela particularidade de ser santo de cor preta, e em seu louvor celebravam festas religiosas”, diz Pereira da Costa em Folclore Pernambucano.

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Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Os devotos percorreram ruas da região central de Aparecida tocando, dançando e venerando um dos santos mais populares do país, cuja devoção foi trazida pelos portugueses. Após a missa solene, que durou duas horas, os devotos formaram uma fila imensa ao redor de um quarteirão para ganhar uma bandeja de doces de São Benedito.

Ouça CONGADOS EM CORTEJO (recorded by zejabur)

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Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

A partir dessa festa começamos a conhecer a riqueza do Congado de Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo. Essa é a maior festa de Congado do Brasil, quase 100 grupos e milhares de romeiros vêm a festa anualmente. A festa se inicia 09 dias antes com a novena e tem o seu ápice nos 03 últimas dias, sempre no final de semana após a Páscoa. No sábado chegam as Guardas e ficam até a segunda feira, o grande dia, que começa as 04 da manhã com a Alvorada, o ponto alto da festa para muitos congadeiros e romeiros, e continua até o encerramento do dia e da festa com a procissão final.

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Descendente de escravos etíopes, Benedito era napolitano, embora lenda caipira conte que era branco, quando foi pregar na África e, sendo mal recebido, teria pedido para ficar preto. Trabalhava no arado e, para descansar, inventou os bailados, do congo ou do moçambique. Na festa, as danças variam. A data também. O dia era 4 de abril, data de sua morte. Com a Lei Áurea, passou a 13 de maio em várias regiões. Hoje, também se festeja em agosto, em São Luís (MA); e em dezembro, em Bragança (PA).

Meu São Benedito
Já foi marinheiro
E deixou congada
Para nós congueiro
Na linha do congo
Sou moçambiqueiro

“Deus disse a São Benedito que ele ia ser santo. Respondeu que não queria, por ser preto. Então Deus disse que aquele que abusasse dele seria castigado na hora”, afirmam os devotos.

Benedito das Flores e Antônio de Catagiró Fonte: http://www.almanaqueurupes.com.br/portal/?p=3318#jp-carousel-3321

Benedito das Flores e Antônio de Catagiró
Fonte: http://www.almanaqueurupes.com.br/portal/?p=3318#jp-carousel-3321

Grande importância se dá ao santo no interior paulista, Vale do Paraíba e Minas. O negro se apropriou dos autos populares dos brancos, introduzindo elementos de sua cultura. O rei e sua corte, acompanhados pela cavalaria de São Benedito, desfilam em procissão. Congadas e moçambiques cantam e dançam. O mastro com a bandeira do santo está ligado à fertilização da terra, bom presságio para a colheita. Ao erguê-lo, devotos atiram-lhe pedidos e saquinhos com açúcar, pó de café, arroz, feijão. Pedem: “São Benedito, santo cozinheiro, nunca deixe faltar.”

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

“Senhor reis, senhor reis
Senhor reis da monarquia
A lua clareia a noite
E o sol clareia o dia
Me dá licença, senhor
Pra nós passar na estrela da guia”

São Benedito – Panacéia Jangada Brasil

Das devoções brasileiras umas das mais interessantes, pelo pitoresco do que sempre vem revestidas suas festas é a de São Benedito. Embora nos nossos dias exista ainda uma série de devoções, antigamente, ou melhor até meados do século XIX sua devoção era imensa em quase todo o Brasil, notadamente no Ceará, Minas Gerais, Alagoas e Rio de Janeiro. Na nossa Minas Colonial raríssimas vezes é que vamos entrar numa igreja em que São Benedito não tenha um altar ou mesmo um quadro pintado numa parede lateral. Segundo suas biografias, era natural da Sicília, mas de origem africana, pois seus pais e avós eram cristãos da Guiné. Seus pais foram escravos e trabalharam durante vários anos na propriedade de Vicente Manasseri, na Sicília. Para que não viessem a ter filhos escravos juraram voto de castidade, mas dado sua bondade seu senhor certa vez disse que se algum dia eles tivessem um filho, este seria livre. Assim em 1525, nasceu Benedito livre.

Tendo a infância no campo, pastoreava rebanhos e tratava habilmente da terra: aos dezoito anos, começou a trabalhar por sua própria conta e o que ganhava distribuía aos pobres. Aos vinte e um anos, estava Benedito no campo, quando um frade eremita Jeronimo di Lenzo o encontrou e o convida para uma visita à sua ermida; fica ele de tal maneira impressionado com a vida do convento que resolveu ingressar naquela ordem, Ordem Superior dos Irmãos Eremitas de São Francisco de Assis. Devido à sua vida cheia de humildade, ao fim de cinco anos ingressava definitivamente nesta ordem.

No Brasil, como dissemos acima, a sua devoção foi muito comum, não só entre os pretos (existindo mesmo confrarias e irmandades de gente de cor, em louvor ao santo) como entre os brancos. No populário e na crendice popular inúmeras superstições estão ligadas a ele, dentre elas a curiosa de se ter na cozinha uma imagem do santo para que nunca faltem empregados na casa. Outro santo de cor, que pelo seu hábito e sua posição lembram São Benedito é São Elesbão, cuja vida muita parecida aparece pintado ou em belas esculturas de madeira com uma braçada de flores no braço, milagre também feito por São Benedito e às vezes por isso, criando uma certa confusão.

Trata-se de uma imagem pernambucana do final do século XVIII começo do século XIX e sua policromia num estado de conservação excelente e rica e artisticamente bem trabalhada. Embora pernambucana de origem foi encontrada na encantadora cidade de Campos, estado do Rio de Janeiro e que em caráter de curiosidade podemos informar que talvez devido ao intercâmbio dos negócios de açúcar pode ter chegado a Campos, grande centro açucareiro com outras peças de igual origem que tive oportunidade de verificar quando lá estive há alguns anos atrás para organizar o seu I Salão Campista de Antiguidades. No estado de São Paulo, na sua capital e no Vale do Paraíba esta devoção é muito comum; na tranquila e tradicional cidade de Lorena, anualmente se realiza uma imponente festa, onde todas as tradições ligadas ao santo, aparecem revestidas de grande brilhantismo, como te-deums, ladainhas, quermesses, que culminam com uma majestosa procissão. No Rio de Janeiro, na histórica Igreja de São Benedito, à rua Uruguaiana, acha-se guardada uma relíquia do santo: um fragmento do osso.

Em Maceió, estado de Alagoas, era comum nos dias de procissões ao santo acompanharem o andor mulheres de cor, vestidas de branco, dançando e cantando versos curiosíssimos e até certo ponto irreverentes, mais dotados de um ingênuo sabor regional. Dentre eles:

Meu São Benedito, santinho de ouro
Meu São Benedito, santinho de ouro
Mas ele é pretinho
Que nem um besouro.

Meu São Benedito, já foi cozinheiro
Meu São Benedito, já foi cozinheiro
Mas hoje ele é santo
De Deus verdadeiro

A estas mulheres alegres e dotadas de grande ingenuidade na sua maneira de festejar o Santo era dado o nome de taieiras. Cantando e dançando durante as procissões, as taieiras, juntavam à sua devoção as irreverentes e ingênuas quadras em louvor ao seu santo predileto.

(Machado, Paulo Afonso de Carvalho. “São Benedito”. O Jornal. Rio de Janeiro, 1966)

Fontes:

O Vale

Almanaque Brasil

Versos da Toada de Moçambique – Jangada Brasil

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Ibirá Flora – O parque tecido à mão

o Pavilhão das Culturas Brasileiras apresenta a exposição IBIRÁ-FLORA, com curadoria do designer e tecelão RENATO IMBROISI.

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Entrada da exposição
Foto: Jefferson Duarte

A mostra, que retrata a flora do Parque do Ibirapuera é toda estruturada com 1800 metros de tecidos feitos à mão no bairro rural do Muquém, município e Carvalhos, Sul de Minas Gerais (380 Km de Belo Horizonte). Foi lá que o designer iniciou, em 1985, sua trajetória de muitas parcerias com comunidades de artesãos de todas as regiões do Brasil e em outros países (Japão, Itália, Moçambique, São Tomé e Príncipe).

AS arvores lindamente esculpidas com tecidos de fibras naturais.
Foto: Jefferson Duarte

os tecidos feitos à mão pelas artesãs
foto Jefferson Duarte

Para montar a representação do Parque do Ibirapuera, com suas árvores, lagos, bosques, dentro do Pavilhão das Culturas Brasileiras, Renato Imbroisi e a designer têxtil Liana Bloisi foram para o Muquém, onde criaram e desenvolveram tecidos junto com a mestre tecelã Eva Maciel da Cunha. Foi ela que, com sua irmã Noeme (já falecida), acolheu e partilhou as idéias inovadoras trazidas por Imbroisi em 1985, iniciando uma produção de peças de tecelagem e outras técnicas têxteis dentro da comunidade do Muquém, que se mantém até hoje (o designer divulga e encaminha a comercialização desta produção, que gera renda para as famílias destes artesãos deste lugar isolado num vale da Serra da Mantiqueira, onde a eletricidade só chegou no ano 2000).

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A partir das criações de Imbroisi, Liana e Eva, junto com os outros tecelões (que também participaram do processo de desenvolvimento dos tecidos para a exposição), os tecelões fizeram à mão1800 metros de tecido, utilizando fios de algodão como base (urdume) para fazer a trama com 8 tipos de fibras naturais, coletadas por eles: avenca, bambu, bananeira, eucalipto, junco, leiteirinha, milho e taboa. Algumas delas também são encontradas na flora do Parque do Ibirapuera.

 

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A mostra apresenta o vídeo Ibirá-Muquém, produzido em Muquém, que revela, com delicadeza, o processo de produção desta exposição e um pouco da vida destes artesãos, parceiros de Renato Imbroisi, no vale verde cercado pela Serra da Mantiqueira. A direção é do próprio Imbroisi, com captação de imagens de Lucas Moura e montagem de Maria Kubrusly.

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IBIRÁ-FLORA marca a primeira etapa do Projeto IBIRÁ, que tem como tema o Parque do Ibirapuera em três aspectos: Flora, Fauna e Gente. Cada tema será apresentado em exposições específicas, sempre valorizando o artesanato, sua tradição e inovações trazidas por meio de parcerias com Renato Imbrosi e sua equipe de colaboradores. Nesta primeira (flora), é apresentada a técnica da tecelagem manual, por sua importância histórica, ancestralidade e amplitude de possibilidades que oferece para o trabalho com fibras, e também por representar o início da história profissional do designer.


Durante a permanência da exposição, serão realizadas oficinas, com curadoria da artista plástica e designer têxtil Liana Bloisi, nas quais serão produzidas, por mestres e alunos, partes integrantes da exposição.

Veja mais fotos

 

Fonte:

Pavilhão das Culturas

O Parque Tecido à Mão

Quando:
de 25/01 a 29/07 – Terças, Quartas, Quintas, Sextas, Sábados e Domingos das 09:00 às 17:00

Rua Pedro Álvares Cabral, s/nº – Parque Ibirapuera
Ibirapuera – Sul
(11) 5083-0199

 

Vendendo gato por lebre

Entender o circuito de distribuidores cinematográficos no Brasil é um desafio. Por muitas vezes, deixamos de conhecer ótimas produções, por decisões baseadas em tendências de mercado que subestimam os espectadores. Ou às vezes, é falta de talento para vender o peixe, mesmo. Mas, em se tratando de uma sociedade onde o apelo para o consumo se arma com estratégias cada vez mais elaboradas, fica difícil saber até onde estamos vendo algo concreto ou extremamente planejado.
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the-joneses-movie-poster1Veja ampliado: Poster ironiza com os clichês dos catálogos de vendas
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Pois o filme “The Joneses”, lançado em dezembro do ano passado nos Estados Unidos, e estrelado por David Duchovny (Arquivo X, Californication) e Demi Moore (Ghost) é um daqueles paradoxos de marketing: Ele pertence a um gênero, mas é vendido como outro mais amigável ao grande público. Em outras palavras, é como se a apresentação de uma orquestra sinfônica com a participação de um grupo percussivo fosse vendido como o novo show da atual sensação do axé. E não é que funciona? Continuar lendo