O povo nas ruas é lindo, mas…

Em relação ao protesto ocorrido hoje no Recife, que mostrou-se bastante tranquilo, se comparado aos realizados no resto do país, algo me chamou a atenção.

porque

O movimento iniciado pelos estudantes do Passe Livre é legítimo, e até certo ponto, a intenção que eles tinham de não se deixarem influenciar pela participação partidária era até compreensível. “Se esses partidos até hoje se mostram ineficientes, por que razão nós deixaríamos que eles chegassem perto?” A posição do Passe Livre se assemelha ao conceito do preço ético de um jornal, que precisa se equilibrar entre servir de canal para a sociedade, e abrir espaço para anunciantes, o que  também ajudar a pagar as contas de seus funcionários.

Funciona assim, é um círculo de retroalimentação – uma coisa depende da outra: A seriedade com a qual um jornal trata os fatos pode torná-lo referência entre os leitores que buscam por um canal confiável. Isso é credibilidade. Credibilidade também pode ser traduzida em vendas. Que por sua vez atrai empresas que adorariam ver seus produtos estampados nas páginas dos jornais de maior circulação. Há casos em que fica muito feio quando um jornal usa seu espaço para uma publicidade que presta um desserviço à sociedade, como foi o caso da Folha de Pernambuco e o Movimento Pró-Vida (clique aqui para relembrar).

Talvez para ser mantido o respeito e mostrar que estavam ali para serem levados a sério, o Movimento Passe Livre teve a intenção de não se “macular” com diversos partidos, que àquela altura do campeonato, poderiam muito bem ser comparados aos anunciantes, que adorariam ser associados a um grupo tão bem intencionado.

Mas o problema é que o Passe Livre está lidando com um gigantesco conglomerado midiático concentrado na mão de poucos, com interesses diferentes do restante da nação. E estas famílias, detentoras de concessões públicas de rádio e televisão, navegam na maré que lhes for mais conveniente. A maneira como a Globo e outras estão abordando as manifestações ao longo do Brasil é preocupante. O êxtase do povo está sendo inflado de uma maneira que se assemelha à osmose. Antes, éramos arruaceiros. Agora, somos todos uma massa puta com tudo.

Participar de um protesto é extasiante, mas não podemos ser ingênuos de apenas encarar o lado romântico de todo o processo. Ao assumir uma posição “apartidária”, os brasileiros que saíram às ruas podem estar sendo utilizados como bucha de canhão para assinar embaixo de uma narrativa que se aproveite da insatisfação geral acumulada há várias décadas. Situações onde partidos são banidos são como pólvora para quem realmente deseja o fim de um sistema democrático plural, que apesar dos pesares, nos dá condições para sair às ruas como saímos hoje. De outra forma, estaríamos lendo receitas de bolo nas manchetes.

Isso é perigoso. De “arruaceiros” a “incoformados com várias causas”, caminhamos à beira de deixamos o posto de sujeito da ação para nos reduzirmos ao predicado. A quantidade de reivindicações trazidas ao mesmo tempo pode ser utilizada nos jogar numa armadilha que é atraente aos olhos de outra parcela da sociedade, que está doida para colocar tudo num saco só e dizer que a democracia está falida, que o povo não aguenta mais este sistema. Nós estaríamos validando sem saber, a edição que a mídia já está fazendo da realidade, para poder quem sabe, dar espaço a uma tomada oportunista de poder.

Contra o que você se posiciona? Apenas “Contra a corrupção” é bastante generalizador e mostra o quão rasa a discussão pode se tornar. Você sabe para quem dirigir suas pautas? Sabe o que está sendo elaborado na câmara do seu município? Você tem nomes? Aliás, LEMBRA deles? Tudo isso me traz à razão deste texto. Tão geral quanto as motivações que pipocam entre a multidão, está a cobertura jornalística dos protestos. Com a desculpa de temer represálias, empresas de comunicação escondem seus emblemas dos microfones. E ainda reclamam daqueles que cobrem os rostos. Mas por quê esse medo, Globo, se até o Arnaldo Jabor* se posicionou a favor? *(Espaço reservado para o cinismo, é óbvio que ele iria querer ficar bonito na lente)

Este truque do morde e assopra é velho. Mas ainda há quem caia nele. Principalmente quando a Globo assopra de longe, reunindo vários inconformados com tudo, e dando destaque à focos de vandalismo, declarando a falência do atual governo ou do sistema. Ou de ambos. Por que não mostram o protesto de Recife, que da concentração à chegada no Marco Zero da cidade, colecionou belos momentos de cooperação entre manifestantes e a polícia nas poucas vezes em que foram ensaiadas tentativas de confusão?

O pouco destaque do protesto pernambucano frente ao foco na “perda de controle” do eixo central e sudeste do país me parece a transmutação do movimento em massa de perseguição política. Foi assim no golpe militar da década de 1960, foi assim na eleição de 1989 que colocou Collor no poder, e pode muito bem estar sendo assim agora. A enorme quantidade de pessoas na rua pode até ter trazido um efeito bonito, mas corre o risco de ter se tornado uma micareta.

Enquanto isso, no noticiário nacional, fazia tempo que eu não via tantas pessoas se posicionando contra um evento que sempre foi paixão nacional. Fazia tempo que eu não via câmeras perseguindo explosões, tiros e depredação com tamanha paixão. Imagens carregadas de um simbolismo forte, como a tomada do Congresso Nacional pelos jovens, o fogo na Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro… Ataques ao legislativo me lembram o fechamento do Congresso Nacional durante a ditadura. E os pedidos de impeachment da Dilma que já começaram a rolar em algumas redes sociais?

Isso tem cheiro de golpe para derrubar o governo.

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