“Cosme e Damião: a arte popular de celebrar os gêmeos”

Nos terreiros eles são Ibeji e Erês. Nos relatos dos povos árabes são Acta e Passio. Para a Igreja Católica atendem por Cosme e Damião.

Esses são alguns dos nomes dos santos gêmeos, que inspiraram a colecionadora Ludmilla Pomerantzeff a viajar por todo o Brasil por quase 20 anos e reunir mais de 1.200 peças sacras sobre o assunto. A coleção pode ser conferida no catálogo “Cosme e Damião: a arte popular de celebrar os gêmeos”.

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A publicação reúne em suas mais de 130 páginas representações detalhadas de imagens dos gêmeos objetos de devoção em todo o país e conta com textos e com a coordenação editorial da curadora da exposição, Maria Lúcia Montes.

Para enriquecer o volume foram convidados os historiadores Cândido da Costa e Silva, professor da Universidade Federal da Bahia, Universidade de São Paulo e Universidade Católica do Salvador, e Jaime Sodré, especialista em Conteúdos e Métodos de Ensino, mestre em História da Arte, doutorando em História Social, professor universitário e designer.

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As peças são de artistas anônimos, reunidas pela curadora e pela colecionadora e proprietária, Ludmilla Pomerantzeff, que após ter iniciado uma pequena coleção de imagens de Santo Antônio, acabou se direcionando para Cosme e Damião, por mero acaso, em Marechal Deodoro, no interior de Alagoas, quando dois meninos pequenos a presentearam com uma imagem dos santos gêmeos.

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Fontes:

O3 Comunicação

O Catálogo foi publicado pela:

Expomus Exposições Museus Projetos Culturais

Vejam a outra matéria do Celophane Cultural:  Cosme Damião ou Ibêji – Salvem as Crianças

Matéria muito bacana do Cocada Preta

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Artesã – Ofício das mulheres que laboram, arrimam e sustentam.

O celophane Cultural sempre teve um respeito e admiração por uma forma de aprendizado chamada “Ofìcio” aquela profissão que se se aprende com a avó, com a mãe, com as irmãs mais velhas. No mês dedicado a elas a Mulher Artesã é homenageada em uma exposição no RJ.

ARTESÃ

O primeiro ‘bem’ registrado como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil foi o Ofício das Paneleiras de Goiabeiras. Ofício feminino, por excelência, como tantos outros espalhados pelo Brasil que são referência cultural em suas regiões.

Paneleiras de Goiabeiras - ES - Foto: Fábio Canhim - http://www.flickr.com/photos/fabiocanhim/

Os barreiros têm características próprias, conhecidas, tratadas e aproveitadas pelas artesãs, que esculpem louças e figuras de diferentes texturas, acabamentos e cores, seja em Goiabeiras (ES) ou em Poxica (SE), em Coqueiros (BA) ou em Campo Alegre (MG).

Foto: Francisco Moreira da Costa CNFCP

Outras artesãs lidam com o capim dourado, o buriti, o fruto da cuieira, fibras e algodão – raspando, fiando e tingindo, cortando e trançando. Geram desde meadas até redes de dormir, de cestas a rendas, manejando pincéis, agulhas, estiletes e bilros.

Carla Aline de Jusus e sua filha, trabalhando na oficina de Dona Tonha, Antonia de Jesus, na Rua das Palmeiras em Coqueiro, Maragogipe, Bahia - Foto Francisco Moreira da costa - CNFCP

Ofícios e artes que aprenderam com suas mães e avós, que redescobriram juntas ou que inventaram, por sua conta e risco. Para inventar, bastou-lhes um tantinho de barro, telas e tintas, retalhos de pano ou mesmo papéis de bala e tiras de plástico. Bastou-lhes corpo hábil e alma caprichosa.

Artes e ofícios das mulheres – laboram a vida, arrimam e sustentam, enfeitam a casa e o mundo. Desde sempre. Aqui e ali.

No Vão do Urucuia: Fios que entrelaçam saberes - foto Francisco Moreira da Costa - CNFCP

A mostra Artesã, que homenageia o Dia Internacional da Mulher, traz a arte da renda de bilro de Canaan, CE; da rede de Limpo Grande, MT; da cerâmica de Campo Alegre, MG; das bonecas de Esperança, PB; e das artistas plásticas Ermelinda, do Rio de Janeiro, RJ, e Efigênia Rolim, de Curitiba, PR.

Foto: Francisco Moreira da Costa CNFCP

Artesanato e Folclore:

Uma forma de sobrevivência e arte misturadas, uma discussão que muitos estudiosos condenam por ser uma produção em massa quase industrial, por ser chamado de “artesanato” de “Folclore”, palavras carregadas de um preconceito severo e pesado, cristalizando assim a criatividade natural do nosso povo mas que sobretudo precisam  imediatamente “sobreviver”.

Segundo Lina Bo Bardi no seu exelente livro: “Tempos de Grossura – O Design do Impasse”:

“…Quando a produção popular se petrifica em folklore as verdadeiras e suculentas raizes culturais de um País secam…”

Mas como resolver o problema destas mulheres e homens que tem o Ofício como única fonte de sobrevivência? como podemos incentivar uma criatividade menos ligada ao prato de comida? de que forma destacamos e incentivamos verdadeiros artistas que estão enfronhados nestes cantos do país?

Serviço

Sala do Artista Popular ARTESÃ

Até 15 de abril de 2012

Exposição e venda:

Terça a sexta-feira, das 11h às 18h

Sábados, domingos e feriados, das 15h às 18h

Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – Rua do Catete, 179, Anexo (ATENÇÂO: acesso pelo Parque do Palácio do Catete)

Fonte:

Release da exposição – Artesã – Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – CNFCP

Ver também os posts sobre o assunto no blog:

Rendeiras, as mulheres que tecem o dia a dia com finos fios.

As Paneleiras de Goiabeiras – Raiz da Cultura Capixaba

Esta ciranda quem me deu foi Lia que mora na ilha de Itamaracá.


O jornal The New York Times a chamou de ‘diva da música negra‘. O francês Le Parisien comparou sua voz à da cabo-verdiana Cesária Évora. No Brasil, críticos de música comparam-na a Clementina de Jesus. No entanto, ainda há quem duvide que a cirandeira Lia de Itamaracá realmente exista.

Para muita gente, trata-se de uma personagem que vive apenas nos versos Essa ciranda quem me deu foi Lia,/que mora na Ilha de Itamaracá, uma música de domínio público gravada pela primeira vez por Teca Calazans, em 1963. Mas Lia é real, tem 59 anos e poderá ser vista num documentário, dirigido pela cineasta carioca Karen Akerman, que dará origem a livro, CD e DVD. ‘Eita! É muita felicidade!’, festeja Lia. ‘Nunca pensei que um dia fosse virar uma estrela de cinema.’

Foto: Pedro Rampazzo/divulgação

Maria Madalena Correia do Nascimento nasceu no dia 12 de janeiro de 1944, na ilha de Itamaracá, Pernambuco.

Sempre morou na Ilha e começou a participar de rodas de ciranda desde os 12 anos de idade. Foi a única de 22 filhos a se dedicar à música. Segundo ela, trata-se de um dom de Deus e uma graça de Iemanjá.

Lia de Itamaracá - foto Soninha Darbilly

Mulher simples, com 1,80m de altura, canta e compõe desde a infância e hoje é considerada a mais famosa cirandeira do Nordeste brasileiro.

“Bonita, essa Lia! Enorme, mulher de metro e oitenta. Os cabelos desarrumados, blusa florida, e calça jeans, pés gigantescos em sandália de couro cru. Não está nada à vontade, devemos ser mais alguns daqueles forasteiros que vêm para tirar fotografias, posar ao lado se possível com um sorriso que por enquanto economiza, como também raciona as palavras…

As cirandas pernambucanas de Lia estão na boca de toda a gente,na alegria das pessoas se dando as mãos, cirandando em volta dela. E na verdade essa mulher de quarenta anos, meiga às vezes, e justamente desconfiada quase sempre, é para muitos apenas uma dessas peças de artesanato urdidas em barro e que vão ornamentar uma estante…”

 Herminio Belo de Carvalho

 Trabalha como merendeira numa escola pública da rede estadual de ensino e, nas horas vagas, dedica-se à musica e à ciranda, além de cantar e compor cocos de roda e maracatus.

Lia - Foto Divulgação do show na Fundição progresso RJ

A compositora Teca Calazans foi uma das primeiras pessoas interessadas na cultura popular nordestina a descobrir o seu talento e acabaram fazendo alguns trabalhos em parceria, como o resgate de músicas em domínio público e composições.

Maria Madalena começou a ficar conhecida como Lia de Itamaracá, nos anos 1960 e é a fonte de um refrão famoso, recolhido pela compositora Teca Calazans: Oh cirandeiro/cirandeiro oh/ a pedra do teu anel brilha mais do que o sol. A estes versos Teca incorporou uma toada informativa, que também teve grande sucesso: Esta ciranda quem me deu foi Lia/ que mora na ilha de Itamaracá.

Foto:Virada Cultural 2011 - SESC Consolação

Em 1977, Lia gravou seu primeiro disco, intitulado A rainha da ciranda,não recebendo, no entanto, nenhum pagamento pelo trabalho.

Mais de duas décadas depois foi redescoberta, quando o produtor musical Beto Hees a levou para participar do festival Abril Pro Rock, realizado no Recife e em Olinda, em 1998, onde fez grande sucesso e tornou-se conhecida em todo o Brasil. Antes ela só era famosa em Pernambuco e entre compositores e estudiosos da cultura popular nordestina.

Em 2000, saiu seu CD Eu Sou Lia, lançado pela Ciranda Records e reeditado pela Rob Digital, cujo repertorio incluía coco de raiz e loas de maracatu, além de cirandas acompanhadas por percussões e saxofone.

O CD acabou sendo distribuído na França por um selo de world music e a voz rascante de Lia chamou a atenção da imprensa internacional, que começou a batizar suas canções de trance music, numa tentativa de explicar o “transe” que o som causava no público.

Mesmo obtendo um sucesso tardio, fez turnês internacionais obtendo muitos elogios. O jornal The New York Times a chamou de “diva da música negra”.

No Brasil, Lia também conquistou mais espaço. Participou com uma faixa no CD Rádio Samba, do grupo Nação Zumbi, teve seu nome citado em versos dos compositores pernambucanos Lenine e Otto.

Foto: Priscila Buhr

As cirandas pernambucanas de Lia são cantadas por muitos.Referencial da cultura pernambucana, Lia de Itamaracá, hoje, é uma das lendas vivas do Estado e continua morando na ilha de Itamaracá.

Eu sou Lia [Ciranda de Lia]

(Paulinho da Viola)

Eu sou Lia da beira do mar
Morena queimada do sal e do sol
Da Ilha de Itamaracá
Quem conhece a Ilha de Itamaracá
Nas noites de lia
Prateando o mar
Eu me chamo Lia e vivo por lá
Cirandando a vida na beira do mar
Cirandando a vida na beira do mar
Vejo o firmamento, vejo o mar sem fim
E a natureza ao redor de mim
Me criei cantando
Entre o céu e o mar
Nas praias da Ilha de Itamaracá
Nas praias da Ilha de Itamaracá

Minha ciranda – Capiba

Minha ciranda não é minha só
Ela é de todos nós
A melodia principal quem
Guia é a primeira voz
Pra se dançar ciranda
Juntamos mão com mão
Formando uma roda
Cantando uma canção

Foto Emiliano Dantas

Lia de Itamaracá foi uma das contempladas como Patrimônio Vivo de Pernambuco, através da Lei estadual nº 12.196 de 2 de maio de 2002.

                                                                            

FONTES CONSULTADAS:

Fundação Joaquim Nabuco – GASPAR, Lúcia Gaspar:  Lia de Itamaracá.

Eu sou Lia” –

Aluizio FalcãoLia de Itamaracá: a estrela brilha em disco raro

Revista Época: Lia de Itamaracá

MPB NetLia de Itamaracá


Gilberto Freyre e construção da imagem do Homem do Nordeste

A alguns anos atrás, quando fazia a itinerãncia da Exposição “O Chão de Graciliano”  em Recife, na Fundação Joaquim Nabuco eu conheci o Museu do Homem do Nordeste e foi amor a primeira vista, um conteudo muito interessante e um Museu acolhedor, principalmente pelo carinho e da recepção das pessoas, algumas hoje amigas. E sempre que vou á cidade dou uma passada pra rever e absorver o que este homem nordestino tem pra nos ensinar.

Foto: Jefferson Duarte

São Calungas, Reis do Maracatu, Caboclos, Boiadeiros, demonstrações de fé e sincretismo religioso, santeiros do barro e da madeira, ex-votos e batuques. Um verdadeiro “Caldeirão Cultural” que se mantém vivo até os dias de hoje no Homem Nordestino. Portanto não é um Museu de coisas mortas, visitas ao passado e sim de pura e pulsante manifestação de uma cultura que se nega a morrer. Continuar lendo

A loucura esculpida na madeira

O Celophane Cultural convida você a conhecer o fantástico universo de um dos maiores artistas populares brasileiros do século XX, um mestre de visão única que mudou a vida de pessoas ao seu redor, apenas por insistir em fazer aquilo que amava e sentia.

Esculpir a madeira

Esculpir em madeira remonta a uma das técnicas mais antigas do homem. Foi esculpindo que a humanidade criou lanças, varas, rodas, abrigo e arte, da pré-história aos dias de hoje.

E foi esculpindo cachimbos cada vez maiores, até que fumar neles tornou-se supérfluo e impossível, Boaventura, um barbeiro de Cachoeira na Bahia, encontrou sua própria arte.

“Enquanto tiver madeira no mundo eu não páro de trabalhar. Não me falta trabalho. (…) Tem dia que trabalho tanto que meu sangue parece que virou água. De noite nem chega sono. Uma noite dessa, eu tive uma inspiração: via o povo naquele século, tudo nu. Jaá mandei cortar a prancha de madeira. Estou louco pra acabar esse Cristo e começar esta outra peça.”

Boaventura, se aventurando, tornou-se o grande Mestre de sua cidade, que já era um marco cultural no Recôncavo Baiano, e graças a este filho, tornou-se também uma terra de escultores, e um filão para admiradores.

Autodidata, Boaventura, mais conhecido pelo nome artístico de Louco, criou uma estética peculiar, unindo elementos que fazem parte da história artística, cultural e religiosa do Brasil e do mundo, sem educação formal em arte e em uma pequena cidade nordestina. Continuar lendo

A arte sacra popular invade o museu erudito.

Uma Exposição inédita: O Museu de Arte Sacra de São Paulo pela primeira vez abre suas portas para a Arte Popular, um marco no respeito e valorização desta tão rica representação da religiosidade de um povo. A parceria é da Curadora Edna Matosinho de Pontes da respeitada Galeria Pontes.

Obra de Dalton Costa - Foto Divulgação

O Contraponto do Despojamento

Esta é a primeira vez que o Museu de Arte Sacra abre as suas portas para uma exposição de arte popular. Isto é muito significativo pelo reconhecimento da sua importância. Ela não é, como alguns pensam, uma arte menor. Apenas se exprime através de diferentes vias, tem um caminho próprio.

Convite para a EXposição - (Divulgação)

A arte popular é a viva expressão da criatividade do nosso povo. Através da sua fantasia o artista reinventa a realidade, estabelecendo intima relação entre o real e o simbólico. Ao contrário da arte erudita a arte popular é uma produção espontânea, na qual não sobra espaço para a educação formal ou acadêmica. Quando algum tipo de transmissão de conhecimento existe, ocorre no máximo informalmente com outro artista/ artesão que funciona como iniciador. Na arte popular há muito mais espaço para a inventividade e para o saber fazer pessoal do que na arte erudita.

Escultura do pernambucano José Bezerra (Foto: Divulgação)

A imaginação é muito mais livre tanto na forma final do trabalho como nos meios que ele inventa para resolver os problemas de como fazê-lo. Como afirma J. A. Nemer “há um alto grau de desafio aos cânones tradicionais da atividade plástica” já que esses cânones são conhecidos “senão através de observação superficial”. Assim, a carência de informação aliada a uma curiosidade fértil abre caminho para a criação. No caso da arte popular de cunho sacro ela expressa, além disso, a devoção religiosa de quem produz ou de quem encomenda o objeto. Dois significativos exemplos disso são as imagens denominadas “Paulistinhas” e os “ex-votos”. Paulistinhas são imagens simples, de barro ou gesso, desenvolvidas em São Paulo no século XIX, que as pessoas do povo costumavam ter em suas casas para devoção.

A imagem da esquerda não tem autor conhecido. A da direita é do artista Bento, da Paraíba (Foto: Divulgação)

Os ex-votos são representações de partes do corpo humano – pés, mãos, cabeça, etc – usados como forma de veicular um pedido ou um agradecimento de um milagre. Outras peças que integram esta exposição tendem a exprimir de diferentes modos estas características da arte popular em geral.

Autor: Fé Córdula; Título: “Natividade”; Ano: S/d; Técnica: Óleo s/ tela. (Foto divulgação)

 

A imagem com a beleza rústica da Virgem com o coração trespassado de setas de Antonio de Dedé nos remete ao ambiente tosco que ele vive e aos poucos recursos que dispõe para criar uma figura tão encantadora como essa.

Autor: Antonio de Dede - Foto: Divulgação

Mestre Dezinho, criador do São Pedro e do São Francisco, tem o talhe na madeira elegante e inconfundível e influenciou toda uma geração de santeiros no Piauí.

Em Bento, outro escultor em madeira, vemos uma leitura bastante diferente para o seu São Francisco, assim como para a Virgem, mas igualmente bela.

A procissão de Maria do Socorro ilustra com a delicadeza da costura e do bordado uma das mais profundas tradições do nosso povo.

Obra de maria do Socorro - Foto Divulgação

Os presépios têm um inconfundível toque de brasilidade seja ele feito de barro (João das Alagoas), de madeira (Artur Pereira, Miramar e Adão) ou de pintura (Fé Córdula).

Antônio Poteiro foi um mestre na arte da modelagem do barro e na pintura. Aqui revela através da Virgem moldada no seu estilo característico e na sua forte e vibrante Última Ceia a sua devoção.

A "Visgem" de Poteiro - Foto divulgação

O grande e renomado artista José Antônio da Silva, autor desta magnífica Via Sacra, dedicou muitas de suas pinturas à Arte Sacra. O escultor Higino, nos seus anjos e na virgem policromados, faz uma interessante releitura do barroco mineiro. Tota com suas figuras de cerâmica ao mesmo tempo fortes e delicadas criou toda uma série de santos que remetem ao expressionismo.

Willi de Carvalho, o mestre das figuras em miniatura, expressa o espírito de religiosidade e poesia ao mesmo tempo. José Bezerra vive em contato com a natureza, isolado no Vale do Catimbó – PE, de onde retira a madeira para as suas esculturas. Odon Nogueira segue a tradição de Poteiro ao escolher trabalhar com cerâmica criando, porem, um estilo próprio.

Costinha segue a tradição dos escultores em madeira iniciada com Mestre Dezinho mantendo a mesma elegância no entalhe.

Autor: Costinha - Foto Divulgação

Finalmente, Naninho esculpe na madeira uma das mais lindas representações religiosas, o Espírito Santo.

Esta mostra no Museu de Arte Sacra é composta autenticas manifestações da criatividade e da religiosidade do povo brasileiro.

Texto: Edna Matosinho de Pontes Galeria Pontes – Curadora da exposição

 

Artur Pereira - Foto Divulgação


O Museu

O Museu de Arte Sacra de São Paulo está voltado à preservação, à pesquisa, e à exposição de objetos relacionados à arte sacra.
A formação do acervo do Museu de Arte Sacra de São Paulo teve início com Dom Duarte Leopoldo e Silva, primeiro arcebispo de São Paulo.

A partir de 1907, começou a recolher imagens sacras de igrejas e pequenas capelas de fazendas que sistematicamente eram demolidas após a proclamação da República e deu início ao Museu do Cabido Metropolitano de São Paulo. No final da década de 1960, um convênio entre o Governo do Estado de São Paulo e a Mitra Arquidiocesana possibilitou a criação do Museu de Arte Sacra de São Paulo. A partir de então, iniciou-se uma política de aquisições, que resultou na ampliação significativa da coleção inicial.

Abrangendo o período que vai desde o século XVI até o XX, o acervo atual é composto por retábulos, altares, oratórios, imagens sacras, livros raros, prataria, ourivesaria, mobiliário, telas, objetos e vestimentas litúrgicas. Também inclui uma coleção de presépios com mais de 130 conjuntos produzidos com as mais diversas técnicas e oriundos de diferentes países e regiões do Brasil. O museu possui ainda uma importante coleção de numismática composta por moedas e medalhas pontifícias.

Fontes:

Galeria Pontes


Site do Museu de Artes sacra

Montagem da Exposição

Período: De 8 de junho a 7 de agosto de 2011 –

De terça a domingo, das 10 às 18 horas (bilheteria até as 17:30 horas).

Local: Museu de Arte Sacra de São Paulo – Av. Tiradentes, 676 – Luz – São Paulo
Telefone: (11) 5627-5393

Sugestão sustentável: Vá de Metrô – Estação Tiradentes do Metrô

Ex-votos, a Fé que não costuma faiá.

Sou um devoto declarado da fé brasileira e sigo seus símbolos e tradições sempre que posso, para entender esta força que move milhares de Brasileiros a pedir e receber a graça. Esta fé não costuma “faiá” porque ela é verdadeira e pura. De norte a sul do país, os ex-votos continuam dando testemunho de milagres e renovando a crença dos brasileiros.
A fé tem a cara do nosso povo.

Ex-votos do Museu do Homem do Nordeste - foto Jefferson Duarte

Mas o que é um Ex-voto???

O ex-voto é a designação erudita latina de ex-voto suscepto (“o voto realizado”), onde podem ser enquadrados nossos milagres e promessas. São oferendas feitas aos santos de particular devoção ou especialmente indicados por alguém que obteve uma graça ou milagre implorados, como um testemunho público de gratidão.

Juazeiro do Norte - Foto Jefferson Duarte

As motivações do presente votivo são muitas: cura de doenças, recuperação em virtude de sofrimentos amorosos, acidentes e dificuldades financeiras. O voto feito aos santos, por sua vez, também adquire formas muito diversas: placa, maquete ou pintura descrevendo os motivos da promessa, ou pequenas réplicas (de barro, madeira ou cera) das partes do corpo afetadas por moléstias (perna, cabeça, mão, coração etc.), chamadas por alguns de “ex-votos anatômicos”. Designam-se “ex-votos marinhos” aqueles em forma de barcos, realizados em regiões litorâneas. Colocados em locais públicos – capelas ou sala de milagres -, os painéis ou presentes votivos trazem freqüentemente a inscrição “ex-voto” ou “milagre feito”.

Juazeiro do Norte - Foto Jefferson Duarte

Segundo Luiz da Câmara Cascudo:
“O Milagre é a representação do orgão ou parte do corpo humano curado pela intervenção divina e oferecido ao santuário em testemunho material de gratidão.
Nos lugares de romaria, há sempre a Casa dos Milagres, destinada a recolher estas ofertas.”
Ao se popularizar, o ex-voto diversifica a forma, ficando a cargo de artesãos e artífices, em geral anônimos, instalados perto dos santuários ou de lugares de peregrinação, a quem as peças são encomendadas. Muitos destes artesões se tornaram “Santeiros” hoje famosos internacionalmente como no caso do Mestre Noza em Juazeiro do Norte – CE.

Museu do Homem do Nordeste - Foto Jefferson Duarte

Segundo Mário de Andrade:
“Do fundo das imperfeições de tudo quanto o povo faz vem uma força, uma necessidade que, em arte, equivale ao que é a fé em religião. Isso é que pode mudar o pouso das montanhas.”

Juazeiro do Norte - CE - Foto Jefferson Duarte

Estas fotos foram feitas na minha visita à Casa dos Milagres de Juazeiro do Norte – CE na Serra do Horto, onde fica a famosa estátua gigante do Padre Cícero, palco de muita fé, de luta e de milhares de milagres alcançados e com seus ex-votos oferecidos em gratidão pelos romeiros.

MUseu do Homem do Nordeste - Album de fotos de Jefferson Duarte

Em Pernambuco, o Museu do Homem do Nordeste possui um rico acervo que serve como ponte para o estudo e apreciação desta particularidade da fé brasileira. Visita altamente recomendada para quem procura o enlace perfeito onde a fé e a religiosidade se encontram com as expressões populares.
Quer saber mais sobre os Ex-votos? Visite os links indicados:

O Bonde do Getulio não vai mais sair dos trilhos

O Celophane Cultural sobe, de bonde, o morro de Santa Tereza a fim de visitar um ponto turístico do Rio de Janeiro o “Bonde do Getúlio”.

Lá trabalha o artesão Getulio Damano reconhecido artista popular que recebeu uma ordem  da Prefeitura para tirar o seu inusitado Bonde Oficina das ruas. A mobilização popular, os amigos de Getulio que enviaram mails, Artistas de rua, blogueiros e o Facebook intercederam na decisão e hoje ele e seu Bonde estão devidamente seguros.

A ordem de desocupação da Prefeitura - foto Bia Hetzel

Ilustre Passageiro- Bondes de Getúlio Damado

Getúlio Damado, mineiro de descendência italiana, acredita que de sua família materna de oleiros e marceneiros, herdou seu dom de artesão, escolheu o bairro de Santa Teresa para estabelecer a sua banca- oficina de conserto de panelas.

Getulio em frente ao seu Bonde/oficina - foto de Bia Hetzel

De seu posto, via passar o bonde, ladeira acima, ladeira abaixo, observando-o em câmera lenta, de frente e de costas, vazio nas horas prioritariamente domésticas, lotado pela manhã, na hora do almoço e no final da tarde. A imagem dos bondinhos amarelos com corações vermelhos, Getúlio deseja reproduzi-los.

Os bondinhos feitos de resíduos sólidos á venda - foto Sérgio Araujo Pereira

Considerando-se péssimo desenhista decide construí-lo em sucata, brinquedo ou enfeite, meio de transporte, em escala reduzida, para seus sonhos, para sua carreira artística. Entre a colocação da alça numa chaleira e o conserto do fundo de uma panela, o primeiro bonde sai rústico, algumas tentativas adiante, seus bondes passam a despertar a atenção dos moradores, e Getúlio começa a receber propostas de compra. Foi o quanto bastou para ele liberar de vez o artista que aguardava para ganhar mundo.

Os bondes de Santa Tereza são pintados de amarelo com corações vermelhos - Foto Sérgio Araujo Pereira

Com a prática, Getúlio passou a experimentar escalas maiores, mas pequenos ou grandes, são sempre feitos com aproveitamento de material que encontra pelas ruas, caixotes, sobras várias que os amigos levam até sua banca, brinquedos, objetos e guarda-chuvas quebrados, em fim, sucata. Comprados, mesmo, só tinta e pregos.Getúlio ampliou sua a produção: carros, caminhões, casinhas mobiliadas de boneca começaram a aparecer, além dos bonecos, todos batizados segundo sua inspiração ao término da confecção.

O Bonde Oficina de Getulio - foto de Sérgio Araujo Pereira

Por essas figuras, que muitas vezes coloca nos estribos dos bondes, ele tem um carinho especial, admirando-lhes a utilidade, pois usa os bonecos também como sinaleiros, idéia que lhe ocorreu por acaso. Na banca de Getúlio, encostada em uma árvore, na rua Leopoldo Fróes, uma ladeira, paralela à Almirante Alexandrino, fica seu material e instrumental de trabalho, composto tanto de ferramentas usuais, como alicate, martelo, tesoura de cortar folha-de-flandres , quanto outras, improvisadas, como um pedaço de trilho de bonde para bater ferro, uma engenhoca para funilaria, facas velhas, facões entre outras ferramentas inventadas.

A decoração do bonde com personagens feitos de sucata - Foto: SErgio Araujo Pereira

Getúlio, nos seus 50 e poucos anos orgulha-se de ter feito com amor, tudo o que lhe foi possível; e confia nos valores e padrões que ainda repassa aos filhos. Artisticamente sente-se realizado, embora em processo contínuo de aperfeiçoamento e busca de complementação de sua obra.

(Texto extraído da publicação do Museu do Folclore Edison Carneiro, ano 2000.”Veja, Ilustre Passageiro- Bondes de Getúlio Damado”)

TORRES, Maria Helena (pesquisa e texto). VEJA, ilustre passageiro: bondes de Getúlio Damado. Rio de Janeiro: FUNARTE/CNFCP, 2000

Bonde que faz parte do acervo do Museu do Folclore Edson Cordeiro

Saiba mais: Eletrificação dos bondes de Santa Teresa

O bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, possui a única linha urbana remanescente de bondes do Brasil. Seus serviços nunca foram interrompidos, apesar de grande pressão nesse sentido ao longo de muitas décadas. A Companhia Ferro-Carril Carioca, que introduziu o serviço de bondes no bairro na década de 1870, eletrificou as linhas em 1896, sendo um dos feitos mais notáveis o aproveitamento do antigo aqueoduto colonial como via de acesso ao bairro. O aqueoduto – conhecido atualmente como “Os Arcos da Lapa” – também é responsável pela bitola especial dos bondes de S. Teresa: 1,10m.

Arqueduto de Santa Tereza ou os arcos da lapa - fonte: O Rio de Antigamente

Fonte: O Rio de antigamente

A sustentabilidade nas obras do Getulio

Falando de sustentabilidade: os bondes são feitos de material reciclável, caixas de madeira, plásticos, metais, transformando lixo em arte. Por meio do seu trabalho artístico Getulio gostaria de provocar uma melhoria no despejo de resíduos sólidos na sua comunidade e uma maior preservação aos bondes de Santa Teresa que deveriam se tornar patrimônio hsitórico.

Informações coletadas pela Associação Santa Sucata Projetos Culturais e Sócio-ambientais.

Vejam o ensaio fotográfico completo: Sergio Araújo Pereira

Vejam também as fotos de Bia Hetzel que denunciou pelo Facebook o que estava acontecendo

Assistam ao exelente Vídeo “Ordem Urbana” – Por Leonardo Holanda


Video filmado no Dia em que o Artista Getulio conseguiu a liberação para permanecer em seu bonde – Bonzolandia.

Adorável depoimento sobre o Mestre Messias. Filmagem Viviane Rangel. Reparem a devoção de getulio em São Jorge vestindo uma camiseta com a imagem do Santo Guerreiro.


Ontem dia 09 a Prefeitura enviou uma carta a Getulio avisando que ele não será mais despejado o a saga do “Bonde do Getulio” contra o “Dragão da Maldade” chega ao final. Segundo Bia Hetzel “ele está mais feliz do que quando o Brasil ganhou uam copa do mundo.”

O "Nada a opor" entregue pela prefeitura do Rio ao querido artista Getulio: Fonte Bia Hetzel

UM abraço cultural Getulio.

O agradecimento do Mestre Getulio - Foto Bia Hetzel


A religiosidade popular em debate e a fé em “Jorge”

O Celophane Cultural iniciando uma série de matérias sobre  o – Venerado Guerreiro: São Jorge – divulga um evento que está acontecendo na UERJ com uma exposição bem bacana sobre o amado “Jorge”

O Departamento Cultural da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) realiza a Semana de Cultura Popular que acontece de de 4 a 7 de abril, em sua  12ª edição.

O evento tem como objetivo apresentar trabalhos relacionados à cultura popular e debates sobre o assunto, explorando o tema central desta edição: religiosidade popular. A exposição“Jorge”, em homenagem a São Jorge, abre a semana, no dia 4 de abril, segunda-feira, às 18h30, na galeria Cândido Portinari da universidade. Na mostra, o fotógrafo Vanor Correia apresenta fotografias realizadas no Rio de Janeiro, no dia 23 de abril, dia dos festejos de São Jorge, dos anos de 2007, 2008 e 2009. Além disso, esculturas de artistas populares que veem o santo como fonte de inspiração também serão expostas no espaço da galeria.

Já nos dias 5, 6 e 7 de abril, a Semana de Cultura Popular 2011 terá mesas-redondas com convidados de diversas instituições debatendo assuntos  pertinentes à cultura popular.

No dia 5, das 9h às 12h, haverá a mesa-redonda “Mestiçagens e novos saberes: reflexões sobre o mundo religioso”, com Zeca Ligeiro (UNIRIO), Alberto Ikeda (UNESP) e Aureanice Corrêa (UERJ) – mediadora. Das 19h às 21h, “Arte e religião: objetos sagrados de produção popular”, com Andréa Paiva (Antropóloga), Tadeu Mourão (UFRJ) e Isabela.

No dia 6, das 9h às 12h, o tema “Formas contemporâneas de religiosidade popular” será debatido por Cristiane Carvalho (Igreja Contemporânea), Maria Clara Rebel (UNESA) e Gustavo Corrêa (UERJ) – mediador. Das 19h às 21h30, “O saber do viver: reflexões de uma prática” terá a participação de Vanor Correia (Fotógrafo), Maritônio (Artista Popular), Eurico Ramos (Babalorixá da nação Ketu) e Cáscia Frade (UERJ)  – mediadora.

No dia 7, das 18h às 20h, haverá a exibição do documentário “Fé”, seguido de debate com o Padre Sérgio, na Midiateca Arte e Cultura (Centro Cultural da UERJ).

Exposição “Jorge”

Em homenagem ao São Jorge, um dos santos mais populares do Rio de Janeiro, o fotógrafo Vanor Correia apresenta fotografias realizadas no Rio de Janeiro, no dia 23 de abril, dia dos festejos de São Jorge, dos anos de 2007, 2008 e 2009. Além disso, esculturas de diversos artistas populares inspiradas no santo estarão expostas na galeria.

A popularidade de São Jorge, no Rio de Janeiro e no mundo, justifica a grande mobilização de fiéis na data de comemoração do seu dia. No Rio, 23 de abril é feriado, o que contribui para que as comemorações fiquem lotadas. O santo também é padroeiro da Inglaterra, de Portugal e da Catalunha, e venerado em canções de Jorge Ben Jor, Caetano Veloso e Fernanda Abreu.

A lenda mais conhecida que envolve o santo, nascido na Capadócia e militar do Império Romano, conta que São Jorge enfrentou um dragão que saía das profundezas de um lago e atirava fogo contra os muros de uma cidade, provocando mortes. Para não destruir a cidade, o dragão exigia que lhe entregassem jovens mulheres para serem devoradas.  Quando a filha do Rei teve de ser oferecida como comida ao dragão, São Jorge, montado num cavalo branco e com sua espada, enfrentou o monstro, vencendo-o e libertando a cidade.

Local: Galeria Cândido Portinari
Rua São Francisco Xavier, 524 – Maracanã
Tel.: (21) 2334-0728 / 0114
Visitação: até 20 de maio de 2011.
De: segunda a sexta, das 9h às 20h

Fontes:

rets.org.br

Uerj

A Cabaça, o fruto da diversidade brasileira

A riqueza da fauna brasileira e a criatividade popular encontram neste fruto, com formas tão originais, uma de suas expressões mais fascinantes. Como objeto do cotidiano, suporte de várias artes ou cheio de fundamentos religiosos, pode nos surpreender e emocionar com seus multiplos usos e sentidos, seja no artesanato, na musica, na cozinha, na religião ou nos brinquedos.

O Celophane Cultural convida você a conhecer o enorme universo da “Cabaça”

Úteis em casa e no trabalho, mágicos nos rituais, próprios pra fazer música e arte, prontos pra brincar, estes frutos são também bons pra pensar. Bons pra pensar o Brasil, as relações dos homens com os meios em que vivem, com os mundos que veem e representam, e os encontros e desencontros destes homens.

A divresidade de formas das cabaças secando no girau - foto: Pedro Martinelli

É o que se pretendo mostrar aqui, textos e imagens relacionadas à presença das cabaças no cotidiano de donas de casa, trabalhadores, músicos, artesãos, religiosos e brincantes – que, remetendo a um universo muito mais amplo de práticas e tradições culturais, convida ao entendimento da pluralidade cultural dos grupos sociais que vivem em solo brasileiro.

Conhecidos desde tempos ancestrais pelos nomes de cabaça, cuia, porongo, coité ou cuité, os frutos de espécies vegetais distintas, mas assemelhadas nos sistemas de pensamento e classificação populares, têm recebido múltiplos usos e sentidos ao longo dos séculos nas cinco regiões brasileiras, perdendo-se na história referências à época e ao local de origem dos cabaceiros (Crescentia lagenaria), porongos (Lagenaria vulgaris) e das cuieiras (Crescentia cujete) no país.

Pé de cabaça - Foto: Isabela Moura

No cenário cotidiano, como instrumento de trabalho e recipiente para líquidos e alimentos, na música, nos rituais, nas festas e brincadeiras, no artesanato tradicional e nas recriações de artesãos urbanos, entrecascas desses frutos multiformes constituem tanto objetos de uso corriqueiro quanto suportes de expressões que distinguem e identificam indivíduos e grupos da sociedade brasileira, num universo misto de referências culturais. Além disso, dão nomes a cidades, rios, praias, serras e lagoas de Norte a Sul, e estão amplamente presentes na tradição oral no Brasil.

A Influência Indigena

Os Indios tem uma grande influencia no uso da cabaça, como recipiente para água, cuia para servir ou guardar alimentos preparados, pequenas taças de uso ritual e na confecção de alguns instrumentos sonoros: a cabacinha com quatro furos; a buzina, na qual completa o gomo de taquara; no cinto de algodão, sob a forma de sininhos sem badalos que se chocam uns contra os outros, usado na cintura por corredores, amarrado abaixo do joelho ou socado contra o chão pelos cantores.

Mulher Tupinambá com criança, 1641-44 Albert Eckhout, Flandres (1610-1666) Óleo sobre madeira, 265 x 157 cm Museu Nacional da Dinamarca

Bons pra comer, beber e trabalhar

O que é que o homem faz e Deus não fez? A cuia, Deus só fez a cabaça.

Em casas ribeirinhas, indígenas e quilombolas do Brasil, os frutos dos cabaceiros, das cuieiras e dos porongos costumam ser partidos em vários formatos, esvaziados do miolo, polidos e, quem sabe, até tingidos e decorados com incisões de exímia precisão, para servir como baldes, coiós, bacias, copos, tigelas; ou como cuias de tomar água, tacacá, chibé e mingau, no Norte, ou chimarrão e teréré, no Sul e no Centro-Oeste. Desses mesmos frutos que são transformados em objetos para comer e beber, também se fazem instrumentos de trabalho de pescadores, seringueiros e produtores de farinha de mandioca, que partem suas bandas de cuia para levá-las aos rios, às florestas e casas de forno.

No Nordeste, das mesmas cabaças que armazenam e transportam água pelo sertão, cortam-se cuias que são usadas nas feiras como unidade de medida para pesar, comprar e vender itens como farinha e tapioca, além de líquidos. Nelas também se guardam as sementes do replantio, a nata pra fazer manteiga, mel e até peças de roupa.

NO Sul e no Centro Oeste do Brasil, é o fruto do porongo objeto de cuidados especiais e a grande atração das rodas de chimarrão e de tereré. Na forma do numero oito, cortados na parte de cima, furados e polidos com cera, prontos pra receber a erva mate com água morna ou fria, deles se fazem cuias que passam de mão em mão, sempre à direita, como manda o antigo ritual de sociabilidade dos mateadores.

Gaucho tomando chimarrão na tradicional cuia feita de cabaça - foto: http://zerguishow.blogspot.com/

O fruto que cura:

Além dos usos das cuias e cabaças como recipientes, registram-se vários outros, de carater medicinal. Desses frutos tudo se aproveita: da casca, preparam-se extratos contra os males do fígado; do miolo, que também serve como ração para o gado, fazem-se xaropes, usados como purgativo, expectorante e antitérmico, ou cataplasmas indicadas contra dores de cabeça.

Miolo do fruto que serve como medicamento - Foto: Francisco Moreira da Costa

A música que sai da cabaça:

Eu vou ler o B-A-BA /
O B-A-BA do berimbau /
A cabaça e o caxixi /
E um pedaço de pau /
A moeda e o arame, colega velho /
Está aí um berimbau
(ladainha de capoeira, de Mestre Pastinha)

De vários tamanhos e formatos, as cabaças e cuias prestam-se sobremodo à confecção de instrumentos de percussão, corda e sopro, tradicionais e ‘inventados’, como os chamam alguns artesãos contemporâneos. Atabaques, cuícas, bongôs, maracás, chocalhos, xequerês, djembês, calimbas, rabecas, cavaquinhos, violas, harpas, flautas, apitos, além de marimbas e berimbaus, são algumas das possibilidades de criação exploradas em diferentes expressões musicais brasileiras a partir desses frutos, cuja sonoridade marca também celebrações religiosas e profanas.

Berimbau instrumento que usa a cabaça na sua confecção - foto: Capoeira-berimbau-pandeiro _ ridim-br.mus.ufba.br

Frutos bons pra brincar:

Ô minha gente venha ver como é que é/
Coisa bem original da cidade de Abaeté/
Temos a cuia que se manda preparar/
Cana que se faz cachaça pra na cuia se tomar
(Dança da cuia, Nina Abreu).

Embora sejam objetos de amplo uso e de grande serventia cotidiana, as cuias e cabaças também viram brinquedos em vários lugares e são festejadas em diferentes celebrações populares: na dança da cuia, em Abaetetuba, e nos festejos do Çairé, em Santarém, no Pará; no bumba-meu-boi e no reisado de caretas, no Maranhão; nos bonecos do artesão Laurentino Rosa dos Santos, do Paraná; nos mamulengos de Pernambuco e do Ceará.

Bate, bate na cumbuca /
Que o congo vem aí /
É congo de Angola /
Quem manda é Pai Joaquim
(ponto de chamada do preto velho Pai Joaquim)

A cabaça como objeto ritual

Consideradas por diversos grupos humanos como elementos dotados de poderes especiais, as cuias e cabaças estão presentes num vasto conjunto de práticas rituais e tradições religiosas, de matrizes indígenas e africanas em especial, amplamente difundidas no Brasil. Inteiras ou cortadas em partes, ocas, preenchidas ou envoltas em palhas e contas, lisas ou decoradas com incisões, todas têm seus donos na Terra e nos outros mundos, e constituem objetos prenhes de significados ritualísticos que só podem ser integralmente compartilhados por iniciados que conhecem ‘o fundo da cabaça’. Entre o povo de santo, assim como entre povos indigenas, aqueles frutos chocalham sons que afastam espíritos e influências negativas, quando balançados por determinados agentes rituais, conhecedores das palavras e cânticos apropriados. Nas religiões afro brasileiras, a cabaça é igba, na terminologia nagô, que representa o universo, o masculino e o feminino; o simbolo da união de Obatalá e Oduduwá, o Céu e a Terra; o invólucro mágico das folhas curativas de Ossain, presentes nos assentamentos desse orixá; um item poderoso do azé de Omulu; o recipiente sagrado dos panos da costa, também conhecidos como panos de cuia, das oferendas, como o padê (farofa) de Exu, e de beberagens devotadas a entidades que ligam a terra dos homens ao mundo dos deuses. Em rituais caseiros, as cuias pitingas são preparadas especialmente para os banhos de cheiro, à base de ervas escolhidas por suas virtudes benfazejas, pra “fechar o corpo”  e “abrir os caminhos”.

Cerimônia do Ipadê de Exu onde a cabaça é um elemento essencial - Aquarela de Carybé

Vinho velho em garrafa nova, vinho novo em garrafa velha.

Substituíssemos garrafa por cabaça, e teríamos uma perfeita metáfora para a profusão de objetos criados no Brasil a partir desses frutos, tanto em comunidades artesanais tradicionais quanto por artistas plásticos urbanos. Assinalando a circularidade de elementos culturais que, sendo encontrados preferencialmente nas camadas populares, acabam ganhando espaço junto a outros segmentos sociais, a expressão é sugestiva da mobilidade de velhas tradições em novos espaços, bem como das novas criações em suportes antigos, como os frutos em questão.

poster do artista Robert Rivera para a exposição de seus trabalhos no México que mostra a diversidade de técnicas e formas que podem ser dadas á cabaças ou porongos - fonte: http://www.virginiacosta.com/

Cuias de Santarém – PA

Artesanato típico de Santarém e um dos ícones da identidade cultural do Pará, as cuias pintadas de Santarém passaram do anonimato a patrimônio cultural do Pará. Bonitas e coloridas, são feitas geralmente por mulheres. A participação dos homens acontece principalmente no processo de retirada do miolo do fruto.

Como toda cultura tem seu berço, o das cuias pintadas é a comunidade de Aritapera, situada às margens do rio Amazonas, em Santarém, Oeste do Pará. É na comunidade que, pelas mãos habilidosas de um grupo de mulheres, nascem peças do artesanato, nacionalmente conhecido como “cuias pintadas”.

Cuias pintadas e decoradas fonte: Museu do Folclore Edson Cordeiro - RJ

Velha conhecida dos índios amazônicos que a utilizam para beber água, tomar banho no rio e até como prato, a cuia, fruto da cuieira (Crescentia cujete) ou Kuimbúka em Tupi, significa cabaça ou concha de tirar água do pote. É da casca desse fruto que há séculos índios e caboclos de Santarém fazem nascer o que hoje se conhece como artesanato das cuias pintadas. Atualmente, além da função utilitária, as cuias têm papel decorativo, tanto no Brasil quanto no exterior.

As cuias podem receber decorações gravadas, pintadas ou incisas, com formas que remetem às culturas indígenas presentes em toda a região amazônica. Hoje, por iniciativa dos próprios artesãos, o emprego das cuias também se estende a brinquedos, instrumentos musicais, máscaras, roupa de banho e acessórios, como bolsas, brincos, pulseiras. Nas barracas de venda de tacacá, elas se destacam, pois essa iguaria típica da culinária paraense é servida exclusivamente em cuias pintadas.

Tradições indígenas mantidas no processo de produção

Mas qual o processo de produção das cuias pintadas? Após a retirada da árvore, passa pela limpeza (retirado o miolo), secagem e eliminação das imperfeições (geralmente com lixa natural feita de escamas de pirarucu). Depois a cuia é tingida com o “cumatê”, tinta natural vermelho-escuro, extraída da casca da árvore conhecida como axuazeiro.

Em seguida as peças, já com a cor preta, são postas para secar sobre jiraus, onde ocorre a fixação da tinta. Nesta fase da produção entra a parte mais interessante, pois as cuias são tratadas com urina, o que permite uma aderência ainda maior da tinta nas peças. Só então as cuias ficam prontas para receber os desenhos pelas artesãs.

Mão da artesã trabalhando sobre a cuia virgem - foto: Francisco Moreira da Costa

Engana-se quem imagina que as cuias são lavadas com urina. Um forro de palha impede qualquer contato direto das cuias com a urina, da qual apenas se extrai a amônia. Numa reação química já conhecida pelas índias há pelo menos quatro séculos, desde quando se tem notícia do fabrico artesanal das cuias pretas de Santarém. A amônia atua sobre a tintura do cumatê, enegrecendo-a por inteiro. Depois de bem lavadas e enxutas, as cuias perdem qualquer resíduo de odor de urina que possa ter ficado durante o processo e já estão prontas para serem pintadas ou para uso absolutamente higiênico.

Tacacá

Um tradicional prato da Culinária da região Amazônica está diretamente ligado á confecção das cuias é o Tacacá.

O tacacá, um prato à bace de mandioca brava (Manihot esculenta), consumido nas ruas de diversas cidades amazônicas é considerado tradicional e classificado pela população local como sendo “típico daqui”. Para numerosos paraenses (habitantes do Estado do Pará, cuja capital é Belém), o tacacá é preparado por especialistas (as tacacazeiras), consumido de preferência no cotidiano, em lugares e momentos bem específicos. Mais recentemente, foi incluído na lista dos produtos selecionados e inventariados pelo “Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional” (IPHAN). Reconhecido como sendo um “alimento típico”, participa do processo de construção de uma identidade paraense, e mesmo amazônica .

No trabalho intitulado “ Historia da alimentação no Brasil” (1967), Câmara Cascudo indica que o tacacáprovém do mani poi, que é constituído por uma mistura de tucupi,de beiju de mandioca esmigalhada e de suco de frutas, saboreado quente. A receita, escreve o folclorista, foi mencionada no século XVI pelo padre capuchinho Abbeville em sua descrição das práticas alimentares indígenas (Câmara Cascudo, 2004 : 135). A palavra tacacá provém certamente do nheengatu ou língua geral, o tupi veicular da Amazônia, falado em Belém até o fim do século XIX

Tacacá servido tradicionalmente em cuia feita de cabaça - Belem PA - foto: Ministério do turismo

«A língua adormece e o lábio treme levemente. É desta forma que a velha receita indígena manifesta a sua magia: entorpecendo o céu da boca. Faça a experiência de qualquer uma das especialidades culinárias famosas do Pará e você vai ver que a comida é comida de índio»

Saiba mais em: A hora do tacacá

Receita de Tacacá – Receitas de mãe

Bem foi bom viajar com voce neste fantástico universo das cabaças.

Fontes:

Catálogo da Exposição: “da cabaça o Brasil: natureza, cultura e diversidade” – Ministério da CUltura – Centro Nacional de Folclore e Cultura POpular – Museu do Folclore Edson Cordeiro – RJ e Museu de artes e Ofícios – BH – 2007: fotos da exposição

Em tempo: Após sete meses em que esteve fechada para reformas de seus espaços, a exposição de longa duração do Museu de Folclore Edison Carneiro reabriu à visitação nesta quarta-feira, 19. Situado na Rua do Catete, 181

Exposição “Cuias de Santarém”www.defender.org.br
por Silvana Losekann – Local da Exposição em 2009: Centro Cultural João Fona (Museu de Santarém)

Povos Indigenas no BrasilSite

Arte em cabaças transformadas em plena cidade grande: www.cabaca.com.br

Anthropology of food