A “Festa Santa” é matéria da Raiz 11

A Um tempo atrás conheci uma revista que falava de uma forma muito “saborosa” sobre o assunto que mais me dá prazer nesta vida “Cultura Popular” com artigos das verdadeiras feras no assunto.

A convite do Edgard Steffen Junior editor chefe da Revista Raiz tive o prazer de me juntar a estas feras e fazer uma matéria pra edição da Raiz 11

Aqui a matéria na Integra celebrando com vocês este momento tão importante pra mim:

Festa Santa

O povo brasileiro é um povo que tem fé, ele se apropria, se adapta, se transforma, transcende e pronto. Um povo misturado que colocou no mesmo caldeirão as procissões católicas dos europeus, as festas de matriz africanas e a fé em santos não-canônicos. Estes movimentos populares, religiosos ou não, estão espalhados por todo o Brasil.

Foto: Marcelo Feitosa

Mas é no Nordeste que esta fé se revela com mais força como por exemplo os seguidores de Antonio Conselheiro em Canudos e o fenômeno Padre Cícero em Juazeiro.

Um fantástico e ferrenho imaginário de devoção e um relacionamento íntimo, corpo, suor, lágrimas e sangue com o sagrado. As regras são criadas, as formas de expressão são únicas, mas a fé é única e inabalável.

Foto: Marcelo Feitosa

O Fotógrafo, Carioca de nascença e Pernambucano de coração, Marcelo Feitosa,  lançou-se em duas romarias de regiões distintas do Nordeste  – Juazeiro do Norte, sertão do ceará, terra sagrada do líder político/religioso Padre Cícero e o Morro da Conceição, uma procissão da “bandeira” no meio da região metropolitana de Recife. Seu objetivo era conhecer de perto, juntinho enfronhado estas manifestações, trazendo pra nós um retrato, por vezes crítico e profano desta força que move essa gente, desta fé cega e impressionantemente verdadeira expressada nos olhos , mãos e símbolos carregados por estes devotos.

foto: Marcelo Feitosa

A curadora da exposição Andrea Vizzotto destaca: “Tanto no ambiente rural quanto no urbano, observamos práticas religiosas semelhantes, em que tradição e modernidade interagem em hibridismos que buscam novos sentidos para as suas práticas.”

A “Festa Santa” de Feitosa fez parte da exposição do MAP “Caminhos do santo”, em 2010, no Recife. Segundo Marcela Wanderlei curadora e coordenadora do MAP “…a mostra compôs um mapa sobre a temática no nordeste, evidenciando particularidades e expressando diálogos na representação de um universo religioso (re)elaborado.”

foto Marcelo Feitosa

No meio desta “Festa Santa” o fotógrafo nos empresta seu olhar crítico destacando outras manifestações de fé contemporânea onde Xuxa e Michael Jackson desfilam lado a lado com Cícero e Conceição. A Curadora reflete em seu texto de apresentação: “Afinal, é o seu olhar que dessacraliza o ritual de fé dos romeiros ou é o conceito que não consegue explicar a vivência do sagrado e do profano entre esses romeiros?”

Foto: Marcelo Feitosa

A Festa em Madureira:

Agora é a vez de Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, receber esta procissão de fotos, participar desta “Festa Santa”. Os moradores da terra do Samba são pessoas que, de imediato, vão se identificar com o tema. O subúrbio carioca tem como grande parte da população imigrantes nordestinos, desta forma, a identificação destas manifestações típicas das suas regiões, do seu povo, elevam sua identidade a patrimônio cultural da humanidade.

Foto: Marcelo Feitosa

Festas como a de Nossa Senhora da Penha, Iemanjá, São Sebastião e São Jorge, mesmo vindas de tradições europeias misturadas ás tradições dos povos afrodescendentes, mostram esta aproximação, este “(re)conhecimento” de uma fé que não é só do homem do Nordeste e sim das “gentes” brasileiras.

Foto: Marcelo Feitosa

Com a palavra a Curadora:

Procissões e romarias estão entre as mais antigas tradições do Brasil, heranças da nossa colonização portuguesa. Contudo,
o ritual católico encontrou vários obstáculos para se fazer presente em todas as regiões, dificultando sua missão evangelizadora
e criando as condições para que outras práticas populares fossem a ele incorporadas, o que resultou em uma religiosidade
multifacetada. O mesmo espaço de reza e de devoção podia ser também o da festa e o do jogo, pois eram formas não
excludentes de mostrar reconhecimento e agradecimento ao santo de devoção.

As fotos que vemos na exposição Festa Santa não são apenas uma afirmação da fé dos romeiros. Ao se lançar em duas romarias
de regiões distintas do Nordeste brasileiro – Juazeiro do Norte, no sertão do Ceará, e Morro da Conceição, na região metropolitana
de Recife –, o fotógrafo Marcelo Feitosa tinha como objetivo conhecer as manifestações culturais presentes nesses espaços, para
além do estrito caráter devocional. O resultado disso é uma coletânea de imagens que mostram o sagrado e o profano convivendo
no mesmo espaço sem constrangimentos. Tanto no ambiente rural quanto no urbano, observamos práticas religiosas semelhantes,
em que tradição e modernidade interagem em hibridismos que buscam novos sentidos para as suas práticas.

Se atualmente desconfiamos da fotografia documental como apenas um registro do real, pois se trata também de uma construção,
o olhar aparentemente herético do fotógrafo constitui-se em um excelente convite à reflexão sobre como é vista e pensada a fé no
mundo contemporâneo. Afinal, é o seu olhar que dessacraliza o ritual de fé dos romeiros ou é o conceito que não consegue explicar
a vivência do sagrado e do profano entre esses romeiros?

Andrea Vizzotto
Curadora

“Festa Santa” – Fotografias de Marcelo Feitosa

Curadoria – Andrea Vizzotto

SESC Madureira – Março e abril 2012

www.sescrio.org.br

Curriculo:

Marcelo Feitosa nasceu no Rio de Janeiro (RJ), onde vive atualmente após um período morando em Recife (PE). Começou a fotografar ainda jovem, nos anos 1980. Fotógrafo independente, trabalha com jornalismo e é repórter fotográfico associado à FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas). A partir de 2007 passou a trabalhar exclusivamente com fotografia digital, tornando-se especialista em pós-produção e tratamento digital de imagens. Nesse mesmo ano começou a desenvolver vários projetos autorais, sempre utilizando a fotografia como forma de expressão. Seus trabalhos começaram a se destacar a partir de 2008, sendo premiado em vários concursos. Entre os prêmios que recebeu, destacam-se o Prêmio SENAD de fotografia 2009, em Brasília, e o IV Prêmio Pernambuco Nação Cultural 2010. Participou de todas as edições da Mostra Recife de Fotografia e também de outras mostras de arte, tais como a I Mostra de Videoarte do Memorial Chico Science, dentro da programação do SPA das Artes 2009, e a Semana de Artes Visuais do SESC Santa Rita (Recife). Ainda em 2009, participou da exposição “Caminhos do Santo”, realizada pelo Museu de Arte Popular da cidade do Recife (MAP), em 2010, participou da exposição “Além da Imaginação”, realizada pelo Centro Europeu de Curitiba (PR), em 2011 foi finalista do concurso internacional Prix Photo Web, promovido pela Aliança Francesa e em 2012 realiza sua primeira exposição individual, no SESC Madureira – RJ, com o projeto Festa Santa. Possui imagens no acervo dos Museus Oscar Niemayer (MON), em Curitiba, e na Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE). Atualmente trabalha na cobertura jornalística de eventos para diversas agências de notícia e é professor da escola de fotografia Beco Limon Fotografia.

Na REvista Raiz 11

A Matéria chama “Festa Santa” é logo a primeira matéria da coluna Acontece.
A revista Raiz 11 pode ser comprada pelo site ou em breve na Livraria Cultura da sua cidade.
Revista Raiz 11

Confira e compartilhe comigo este prêmio.

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Artesã – Ofício das mulheres que laboram, arrimam e sustentam.

O celophane Cultural sempre teve um respeito e admiração por uma forma de aprendizado chamada “Ofìcio” aquela profissão que se se aprende com a avó, com a mãe, com as irmãs mais velhas. No mês dedicado a elas a Mulher Artesã é homenageada em uma exposição no RJ.

ARTESÃ

O primeiro ‘bem’ registrado como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil foi o Ofício das Paneleiras de Goiabeiras. Ofício feminino, por excelência, como tantos outros espalhados pelo Brasil que são referência cultural em suas regiões.

Paneleiras de Goiabeiras - ES - Foto: Fábio Canhim - http://www.flickr.com/photos/fabiocanhim/

Os barreiros têm características próprias, conhecidas, tratadas e aproveitadas pelas artesãs, que esculpem louças e figuras de diferentes texturas, acabamentos e cores, seja em Goiabeiras (ES) ou em Poxica (SE), em Coqueiros (BA) ou em Campo Alegre (MG).

Foto: Francisco Moreira da Costa CNFCP

Outras artesãs lidam com o capim dourado, o buriti, o fruto da cuieira, fibras e algodão – raspando, fiando e tingindo, cortando e trançando. Geram desde meadas até redes de dormir, de cestas a rendas, manejando pincéis, agulhas, estiletes e bilros.

Carla Aline de Jusus e sua filha, trabalhando na oficina de Dona Tonha, Antonia de Jesus, na Rua das Palmeiras em Coqueiro, Maragogipe, Bahia - Foto Francisco Moreira da costa - CNFCP

Ofícios e artes que aprenderam com suas mães e avós, que redescobriram juntas ou que inventaram, por sua conta e risco. Para inventar, bastou-lhes um tantinho de barro, telas e tintas, retalhos de pano ou mesmo papéis de bala e tiras de plástico. Bastou-lhes corpo hábil e alma caprichosa.

Artes e ofícios das mulheres – laboram a vida, arrimam e sustentam, enfeitam a casa e o mundo. Desde sempre. Aqui e ali.

No Vão do Urucuia: Fios que entrelaçam saberes - foto Francisco Moreira da Costa - CNFCP

A mostra Artesã, que homenageia o Dia Internacional da Mulher, traz a arte da renda de bilro de Canaan, CE; da rede de Limpo Grande, MT; da cerâmica de Campo Alegre, MG; das bonecas de Esperança, PB; e das artistas plásticas Ermelinda, do Rio de Janeiro, RJ, e Efigênia Rolim, de Curitiba, PR.

Foto: Francisco Moreira da Costa CNFCP

Artesanato e Folclore:

Uma forma de sobrevivência e arte misturadas, uma discussão que muitos estudiosos condenam por ser uma produção em massa quase industrial, por ser chamado de “artesanato” de “Folclore”, palavras carregadas de um preconceito severo e pesado, cristalizando assim a criatividade natural do nosso povo mas que sobretudo precisam  imediatamente “sobreviver”.

Segundo Lina Bo Bardi no seu exelente livro: “Tempos de Grossura – O Design do Impasse”:

“…Quando a produção popular se petrifica em folklore as verdadeiras e suculentas raizes culturais de um País secam…”

Mas como resolver o problema destas mulheres e homens que tem o Ofício como única fonte de sobrevivência? como podemos incentivar uma criatividade menos ligada ao prato de comida? de que forma destacamos e incentivamos verdadeiros artistas que estão enfronhados nestes cantos do país?

Serviço

Sala do Artista Popular ARTESÃ

Até 15 de abril de 2012

Exposição e venda:

Terça a sexta-feira, das 11h às 18h

Sábados, domingos e feriados, das 15h às 18h

Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – Rua do Catete, 179, Anexo (ATENÇÂO: acesso pelo Parque do Palácio do Catete)

Fonte:

Release da exposição – Artesã – Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – CNFCP

Ver também os posts sobre o assunto no blog:

Rendeiras, as mulheres que tecem o dia a dia com finos fios.

As Paneleiras de Goiabeiras – Raiz da Cultura Capixaba

Gilberto Freyre e construção da imagem do Homem do Nordeste

A alguns anos atrás, quando fazia a itinerãncia da Exposição “O Chão de Graciliano”  em Recife, na Fundação Joaquim Nabuco eu conheci o Museu do Homem do Nordeste e foi amor a primeira vista, um conteudo muito interessante e um Museu acolhedor, principalmente pelo carinho e da recepção das pessoas, algumas hoje amigas. E sempre que vou á cidade dou uma passada pra rever e absorver o que este homem nordestino tem pra nos ensinar.

Foto: Jefferson Duarte

São Calungas, Reis do Maracatu, Caboclos, Boiadeiros, demonstrações de fé e sincretismo religioso, santeiros do barro e da madeira, ex-votos e batuques. Um verdadeiro “Caldeirão Cultural” que se mantém vivo até os dias de hoje no Homem Nordestino. Portanto não é um Museu de coisas mortas, visitas ao passado e sim de pura e pulsante manifestação de uma cultura que se nega a morrer. Continuar lendo

Krajberg, o senhor da Floresta

 

O Museu Afro-Brasil, instituição da Secretaria de Estado da Cultura, recebe a mostra Krajcberg, o Homem e a Natureza no Ano Internacional das Florestas, do artista plástico Frans Krajcberg que, uma vez mais ergue sua voz em defesa da Natureza do país que adotou. Com curadoria de Emanoel Araújo, a exposição composta por 31 obras conta com esculturas em grandes dimensões, relevos, back-light e fotografias.

Convite da Exposição- fonte: Divulgação

Suas obras, relevos e esculturas são feitos com sobras das matas queimadas que o próprio artista recolhe em suas peregrinações solitárias. As sobras, em verdade, são mais que simples restos. “São o que resulta das atrocidades praticadas contra a natureza do Brasil”, diz seu curador, Emanoel Araújo. Mas nas mãos abilidosas de Frans Krajcberg, que acredita no ideal pelo qual luta há tantos anos, pedaços de madeira carbonizada transformam-se em peças harmônicas e delicadas, que, com toques de cor, unem-se silenciosamente em um protesto contra a devastação. Continuar lendo