Devoção a São Benedito leva milhares de fiéis a Aparecida

A festa, que completou 104 anos em 2013 é uma das mais importantes do interior de São Paulo e aconteceu de 31 de Março a 8 de abril,

Ê ê irmão vamo cum Deus
E a Virgem Maria
E o nosso reis São Benedito
Reis da nossa companhia

Na tradicional festa de São Benedito, em Aparecida, a fé popular contradiz a ciência: a cor negra gera todas as outras cores. É por causa do santo negro e cozinheiro, que viveu no sul da Itália e morreu em 1589, aos 65 anos, que devotos de várias partes do Brasil e da região se encontram em Aparecida depois da Páscoa.

Foto da Exposição: Benedito das Flores e Antônio de Catagiró - Fonte: http://www.almanaqueurupes.com.br/portal/?p=3318

Foto da Exposição: Benedito das Flores e Antônio de Catagiró – Fonte:
http://www.almanaqueurupes.com.br/portal/?p=3318

“São Benedito
No seu terreiro
Passeio bonito
Pelo mundo inteiro


Chegada bonito
Chegada bonito
Olha a bandeira
Se São Benedito”

Longe de sua terra, os negros adotaram um santo parecido com eles. “Tinham também os africanos a São Benedito por seu patrono, talvez pela particularidade de ser santo de cor preta, e em seu louvor celebravam festas religiosas”, diz Pereira da Costa em Folclore Pernambucano.

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Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Os devotos percorreram ruas da região central de Aparecida tocando, dançando e venerando um dos santos mais populares do país, cuja devoção foi trazida pelos portugueses. Após a missa solene, que durou duas horas, os devotos formaram uma fila imensa ao redor de um quarteirão para ganhar uma bandeja de doces de São Benedito.

Ouça CONGADOS EM CORTEJO (recorded by zejabur)

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Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

A partir dessa festa começamos a conhecer a riqueza do Congado de Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo. Essa é a maior festa de Congado do Brasil, quase 100 grupos e milhares de romeiros vêm a festa anualmente. A festa se inicia 09 dias antes com a novena e tem o seu ápice nos 03 últimas dias, sempre no final de semana após a Páscoa. No sábado chegam as Guardas e ficam até a segunda feira, o grande dia, que começa as 04 da manhã com a Alvorada, o ponto alto da festa para muitos congadeiros e romeiros, e continua até o encerramento do dia e da festa com a procissão final.

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Descendente de escravos etíopes, Benedito era napolitano, embora lenda caipira conte que era branco, quando foi pregar na África e, sendo mal recebido, teria pedido para ficar preto. Trabalhava no arado e, para descansar, inventou os bailados, do congo ou do moçambique. Na festa, as danças variam. A data também. O dia era 4 de abril, data de sua morte. Com a Lei Áurea, passou a 13 de maio em várias regiões. Hoje, também se festeja em agosto, em São Luís (MA); e em dezembro, em Bragança (PA).

Meu São Benedito
Já foi marinheiro
E deixou congada
Para nós congueiro
Na linha do congo
Sou moçambiqueiro

“Deus disse a São Benedito que ele ia ser santo. Respondeu que não queria, por ser preto. Então Deus disse que aquele que abusasse dele seria castigado na hora”, afirmam os devotos.

Benedito das Flores e Antônio de Catagiró Fonte: http://www.almanaqueurupes.com.br/portal/?p=3318#jp-carousel-3321

Benedito das Flores e Antônio de Catagiró
Fonte: http://www.almanaqueurupes.com.br/portal/?p=3318#jp-carousel-3321

Grande importância se dá ao santo no interior paulista, Vale do Paraíba e Minas. O negro se apropriou dos autos populares dos brancos, introduzindo elementos de sua cultura. O rei e sua corte, acompanhados pela cavalaria de São Benedito, desfilam em procissão. Congadas e moçambiques cantam e dançam. O mastro com a bandeira do santo está ligado à fertilização da terra, bom presságio para a colheita. Ao erguê-lo, devotos atiram-lhe pedidos e saquinhos com açúcar, pó de café, arroz, feijão. Pedem: “São Benedito, santo cozinheiro, nunca deixe faltar.”

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

Festa de São Benedito em Aparecida. Foto: Thiago Leon

“Senhor reis, senhor reis
Senhor reis da monarquia
A lua clareia a noite
E o sol clareia o dia
Me dá licença, senhor
Pra nós passar na estrela da guia”

São Benedito – Panacéia Jangada Brasil

Das devoções brasileiras umas das mais interessantes, pelo pitoresco do que sempre vem revestidas suas festas é a de São Benedito. Embora nos nossos dias exista ainda uma série de devoções, antigamente, ou melhor até meados do século XIX sua devoção era imensa em quase todo o Brasil, notadamente no Ceará, Minas Gerais, Alagoas e Rio de Janeiro. Na nossa Minas Colonial raríssimas vezes é que vamos entrar numa igreja em que São Benedito não tenha um altar ou mesmo um quadro pintado numa parede lateral. Segundo suas biografias, era natural da Sicília, mas de origem africana, pois seus pais e avós eram cristãos da Guiné. Seus pais foram escravos e trabalharam durante vários anos na propriedade de Vicente Manasseri, na Sicília. Para que não viessem a ter filhos escravos juraram voto de castidade, mas dado sua bondade seu senhor certa vez disse que se algum dia eles tivessem um filho, este seria livre. Assim em 1525, nasceu Benedito livre.

Tendo a infância no campo, pastoreava rebanhos e tratava habilmente da terra: aos dezoito anos, começou a trabalhar por sua própria conta e o que ganhava distribuía aos pobres. Aos vinte e um anos, estava Benedito no campo, quando um frade eremita Jeronimo di Lenzo o encontrou e o convida para uma visita à sua ermida; fica ele de tal maneira impressionado com a vida do convento que resolveu ingressar naquela ordem, Ordem Superior dos Irmãos Eremitas de São Francisco de Assis. Devido à sua vida cheia de humildade, ao fim de cinco anos ingressava definitivamente nesta ordem.

No Brasil, como dissemos acima, a sua devoção foi muito comum, não só entre os pretos (existindo mesmo confrarias e irmandades de gente de cor, em louvor ao santo) como entre os brancos. No populário e na crendice popular inúmeras superstições estão ligadas a ele, dentre elas a curiosa de se ter na cozinha uma imagem do santo para que nunca faltem empregados na casa. Outro santo de cor, que pelo seu hábito e sua posição lembram São Benedito é São Elesbão, cuja vida muita parecida aparece pintado ou em belas esculturas de madeira com uma braçada de flores no braço, milagre também feito por São Benedito e às vezes por isso, criando uma certa confusão.

Trata-se de uma imagem pernambucana do final do século XVIII começo do século XIX e sua policromia num estado de conservação excelente e rica e artisticamente bem trabalhada. Embora pernambucana de origem foi encontrada na encantadora cidade de Campos, estado do Rio de Janeiro e que em caráter de curiosidade podemos informar que talvez devido ao intercâmbio dos negócios de açúcar pode ter chegado a Campos, grande centro açucareiro com outras peças de igual origem que tive oportunidade de verificar quando lá estive há alguns anos atrás para organizar o seu I Salão Campista de Antiguidades. No estado de São Paulo, na sua capital e no Vale do Paraíba esta devoção é muito comum; na tranquila e tradicional cidade de Lorena, anualmente se realiza uma imponente festa, onde todas as tradições ligadas ao santo, aparecem revestidas de grande brilhantismo, como te-deums, ladainhas, quermesses, que culminam com uma majestosa procissão. No Rio de Janeiro, na histórica Igreja de São Benedito, à rua Uruguaiana, acha-se guardada uma relíquia do santo: um fragmento do osso.

Em Maceió, estado de Alagoas, era comum nos dias de procissões ao santo acompanharem o andor mulheres de cor, vestidas de branco, dançando e cantando versos curiosíssimos e até certo ponto irreverentes, mais dotados de um ingênuo sabor regional. Dentre eles:

Meu São Benedito, santinho de ouro
Meu São Benedito, santinho de ouro
Mas ele é pretinho
Que nem um besouro.

Meu São Benedito, já foi cozinheiro
Meu São Benedito, já foi cozinheiro
Mas hoje ele é santo
De Deus verdadeiro

A estas mulheres alegres e dotadas de grande ingenuidade na sua maneira de festejar o Santo era dado o nome de taieiras. Cantando e dançando durante as procissões, as taieiras, juntavam à sua devoção as irreverentes e ingênuas quadras em louvor ao seu santo predileto.

(Machado, Paulo Afonso de Carvalho. “São Benedito”. O Jornal. Rio de Janeiro, 1966)

Fontes:

O Vale

Almanaque Brasil

Versos da Toada de Moçambique – Jangada Brasil

Ibirá Flora – O parque tecido à mão

o Pavilhão das Culturas Brasileiras apresenta a exposição IBIRÁ-FLORA, com curadoria do designer e tecelão RENATO IMBROISI.

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Entrada da exposição
Foto: Jefferson Duarte

A mostra, que retrata a flora do Parque do Ibirapuera é toda estruturada com 1800 metros de tecidos feitos à mão no bairro rural do Muquém, município e Carvalhos, Sul de Minas Gerais (380 Km de Belo Horizonte). Foi lá que o designer iniciou, em 1985, sua trajetória de muitas parcerias com comunidades de artesãos de todas as regiões do Brasil e em outros países (Japão, Itália, Moçambique, São Tomé e Príncipe).

AS arvores lindamente esculpidas com tecidos de fibras naturais.
Foto: Jefferson Duarte

os tecidos feitos à mão pelas artesãs
foto Jefferson Duarte

Para montar a representação do Parque do Ibirapuera, com suas árvores, lagos, bosques, dentro do Pavilhão das Culturas Brasileiras, Renato Imbroisi e a designer têxtil Liana Bloisi foram para o Muquém, onde criaram e desenvolveram tecidos junto com a mestre tecelã Eva Maciel da Cunha. Foi ela que, com sua irmã Noeme (já falecida), acolheu e partilhou as idéias inovadoras trazidas por Imbroisi em 1985, iniciando uma produção de peças de tecelagem e outras técnicas têxteis dentro da comunidade do Muquém, que se mantém até hoje (o designer divulga e encaminha a comercialização desta produção, que gera renda para as famílias destes artesãos deste lugar isolado num vale da Serra da Mantiqueira, onde a eletricidade só chegou no ano 2000).

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A partir das criações de Imbroisi, Liana e Eva, junto com os outros tecelões (que também participaram do processo de desenvolvimento dos tecidos para a exposição), os tecelões fizeram à mão1800 metros de tecido, utilizando fios de algodão como base (urdume) para fazer a trama com 8 tipos de fibras naturais, coletadas por eles: avenca, bambu, bananeira, eucalipto, junco, leiteirinha, milho e taboa. Algumas delas também são encontradas na flora do Parque do Ibirapuera.

 

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A mostra apresenta o vídeo Ibirá-Muquém, produzido em Muquém, que revela, com delicadeza, o processo de produção desta exposição e um pouco da vida destes artesãos, parceiros de Renato Imbroisi, no vale verde cercado pela Serra da Mantiqueira. A direção é do próprio Imbroisi, com captação de imagens de Lucas Moura e montagem de Maria Kubrusly.

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IBIRÁ-FLORA marca a primeira etapa do Projeto IBIRÁ, que tem como tema o Parque do Ibirapuera em três aspectos: Flora, Fauna e Gente. Cada tema será apresentado em exposições específicas, sempre valorizando o artesanato, sua tradição e inovações trazidas por meio de parcerias com Renato Imbrosi e sua equipe de colaboradores. Nesta primeira (flora), é apresentada a técnica da tecelagem manual, por sua importância histórica, ancestralidade e amplitude de possibilidades que oferece para o trabalho com fibras, e também por representar o início da história profissional do designer.


Durante a permanência da exposição, serão realizadas oficinas, com curadoria da artista plástica e designer têxtil Liana Bloisi, nas quais serão produzidas, por mestres e alunos, partes integrantes da exposição.

Veja mais fotos

 

Fonte:

Pavilhão das Culturas

O Parque Tecido à Mão

Quando:
de 25/01 a 29/07 – Terças, Quartas, Quintas, Sextas, Sábados e Domingos das 09:00 às 17:00

Rua Pedro Álvares Cabral, s/nº – Parque Ibirapuera
Ibirapuera – Sul
(11) 5083-0199

 

Umbanda, mais brasileira impossivel

Umbanda

A origem de uma religião 100% brasileira.

Não tem jeito quando pensamos em um brasileiro direto imaginamos um ser misturado, são muitas influências culturais absorvidas e colocadas num caldeirão. Dia 15 de Novembro foi instituido o Dia da Umbanda, religião mais BRASILEIRA não existe. O Celophane Cultural vem trazer “um pouco” deste universo pra homenagear esta ilustre e maravilhosa mistura que representa um “tantão”  da Fé brasileira espalhada por este pais de Nosso senhor ou de Oxalá, protegido por S. Jorge, Por Cosme e Damião, banhado pelas águas de Yemanja e com as matas Cabôclas mais lindas do mundo. 


Não se pode negar que a Religião de Umbanda nasceu da mistura de diversas crenças, vindas de outras religiões. Talvez por isso a Umbanda seja a religião que recebe a todos, sem discriminações, principalmente de credo religioso, muito ao contrário do que acontece com o umbandista quando este é recebido por outras religiões, mas não vamos falar disso aqui.

Altar de umbanda Foto Klaus D. Günther
fonte: http://www.flickriver.com/photos/klausdgrio/2536911620/



O importante mesmo é termos total consciência de que a Umbanda veio da cultura afro, somada aos costumes indígenas tupiniquins, além é claro do sincretismo católico, este último uma mistura de amor e imposição. Claro que ainda existem influências orientais, cardecistas, místicas, uma verdadeira miscelânea de culturas.

A mais forte destas influências é do Candomblé, pois apesar de a Umbanda ter nascido a pouco mais de 100 anos (primeiro registro oficial), sua raiz africada é milenar, os pés são fincados no solo povoado por milhares de negros que pra cá vieram.

Yaôs na África – Pierre Verger

Pai Zélio Fernandino de Moraes foi quem registrou em cartório a primeira tenda Umbandista em 1908, sua casa, a Tenda de Umbanda Nossa Senhora da Piedade, não tocava atabaques, mas estes instrumentos do Candomblé foram incorporados a religião e hoje é difícil encontrar terreiro de Umbanda que não os possua em seus rituais. De onde veio isso?

Foto e texto: Zélio Fernandino de Moraes:
http://www.falandodeaxe.com/entrevistados-da-revista/zelio-fernandino-de-moraes-saudoso-/
“Falta uma flor nesta mesa; vou buscá-la”. E, apesar da advertência de que não me poderia afastar, levantei-me, fui ao jardim e voltei com uma flor que coloquei no centro da mesa. Serenado o ambiente e iniciado os trabalhos, verifiquei que os espíritos que se apresentavam aos videntes como índios e pretos, eram convidados a se afastar. Foi então que, impelido por uma força estranha, levantei-me outra vez e perguntei porque não se podiam manifestar esses espíritos que, embora de aspecto humilde, eram trabalhadores.

Com certeza, esta influência veio de nossos queridos Pretos Velhos, entidades que se manifestam na Umbanda e que foram em vida, escravos de tempos antigos em nosso País.

Preto velho – http://felliperocha.wordpress.com/2010/03/20/pretos-velhos-humildade-e-sabedoria/
Pretos-velhos são espíritos que se apresentam em corpo fluídico de velhos africanos que viveram nas senzalas, majoritariamente como escravos que morreram no tronco ou de velhice, e que adoram contar as histórias do tempo do cativeiro. Sábios, ternos e pacientes, dão o amor, a fé e a esperança aos “seus filhos”. São entidades desencarnadas que tiveram pela sua idade avançada, o poder e o segredo de viver longamente através da sua sabedoria, apesar da rudeza do cativeiro demonstram fé para suportar as amarguras da vida, consequentemente são espíritos guias de elevada sabedoria geralmente ligados à Confraria da Estrela Azulada dentro da Doutrina Umbandista do Tríplice Caminho (AUMBANDHAM – alegria e pureza + fortaleza e atividade + sabedoria e humildade)

Estes negros escravos, trazidos da África eram adeptos do Candomblé, de diversas nações diferentes, e a Umbanda, ainda sem um código específico e singular, administra seus templos individualmente através das orientações de seus guias patronos, ou seja, quem determina certos fundamentos em uma casa de umbanda é o guia espiritual chefe desta casa, daí a forte influencia dos rituais de nação trazidos por nossos queridos Pretos Velhos.

Outra prova desta forte influencia e que também explica a entrada da cultura européia através da romana religião Católica, é o sincretismo dos Orixás (que vieram da África) com os santos católicos. Isso acontece simplesmente porque nossos antepassados negros, enquanto escravos, não podiam adorar Orixás e portanto adoravam santos católicos para não contrariar seus senhores, mas na verdade, quando um negro rezava para São Gerônimo por exemplo, estava em seu íntimo louvando a Xangô.

São Jerônimo – Caravaggio – Sincretizado com Xangô.

A religião de Pai Zélio, que completou 100 anos em 2008 é uma mistura de crenças, ainda em formação, e tomara que continue assim, pois a evolução humana não deve parar nunca, nunca devemos dizer que já sabemos de tudo e que isso é assim e assado. Tomara que a Umbanda continue evoluindo ainda mais e continue acima de tudo, uma religião eclética, sem preconceitos.

“Foto: Pomba-gira – Laroiê Exu: o Rito de Curiação do Orixá. Terreiro Ilê Axé Xango Agodô – João Pessoa/PB. Por Frido Claudino”

A caridade é o principal fundamento.

A ritualística de Umbanda é bastante vasta, vem sendo passada de pai para filho dentro da religião mas principalmente, vem sendo moldada pela orientação de nossos mentores espirituais, mas o principal objetivo é sem dúvida a caridade através dos atendimentos realizados por estes mesmos mentores.

Cabôclo influência Indígena misturado á Oxóssi caçador sincretizado com São Sebastião.
http://extra.globo.com/noticias/religiao-e-fe/pai-paulo-de-oxala/oxossi-te-deixara-objetivo-ajudara-em-reunioes-3680027.html#axzz2CBzQwMEp

Através da incorporação mediúnica, entidades espirituais muito mais evoluidas do que nós encarnados, vem prestar uma espécie de socorro as pessoas que recorrem aos diversos centros de Umbanda espalhados pelo País.

Festa de São Jorge em Vespasiano, MG. A guarda de Marinheiro de São Jorge recebe os convidados. 25/04/2010. FOTO ÉLCIO PARAÍSO/BENDITA

A forma que se realizam estes rituais difere um pouco de um templo para outro, justamente pelo fato de que cada casa possui seus fundamentos próprios, passados pelos seus mentores espirituais, mas em síntese ocorrem os mesmos preceitos.

Em cada estado brasileiro, as manifestações se misturam aos costumes do lugar: como em belem do pará:  Os marinheiros http://barracaodoze.blogspot.com.br/2011/05/umbanda-em-belem-pa.html
Outro fator interessante na Umbanda do Pará é a presença
dos”Encantados”, entidades que já passaram pelo
plano terreno e que não desencarnaram, simplesmente
“se encantaram”. Os encantados se apresentam na forma de
caboclos, boiadeiros, príncipes e princesas, ou ainda
em forma de elementos ligados à natureza. Dessa forma,
pôde-se ver nas Casas de Umbanda de Belém entidades
como Dona Mariana, Seu Zé Raimundo, Marinheiro Fernando, entre outras entidades de muita força e muita luz.

O Terreiro é dividido em duas partes, o congá onde ficam os médiuns que irão trabalhar incorporados juntamente com os que irão auxiliar como cambonos e a assistência, onde se acomodam as pessoas que vem em busca deste atendimento.

A ritualística de abertura de uma Gira de Umbanda basicamente é composta de danças para os Orixás, cantos de melodias chamadas por nós de pontos cantados, defumações com ervas especiais e orações, inclusive as orações cristãs, como o Pai Nosso e a Ave Maria.

A Mitica figura do “Boiadeiro do Sertão” é representada por uma entidade:
Capa do CD – Umanda força e magia do Boiadeiro.
http://acervoayom.blogspot.com.br/2009/05/umbanda-forca-e-magia-boiadeiro.html

Ou seja, dentro da ritualística umbandista também se vê com clareza a mistura que compõem esta maravilhosa religião. Os atabaques e outros instrumentos comuns nos cultos aos Orixás se somam a práticas mais familiares aos cultos católicos, mas o culto aos Orixás sempre predomina, em muitos casos o Padê para o Orixá Exú, precede todas as giras, e isso é fundamento herdado do Candomblé que tem efeito prático no resultado das seções.

Este Padê consiste em cantar pontos para Exú e em seguida levar uma oferenda (ebó) até a canjira, que é o assentamento do Orixá na casa e fica do lado de fora do terreiro. Na prática, este ritual é um pedido para que Exú cuide da porteira e evite assim intromissões de espíritos menos evoluídos no trabalho, o chamado “descarrego”.

Após estas louvações, rezas e pedidos, se chama em terra a entidade chefe do terreiro que irá incorporar no Zelador de Santo, o dirigente do terreiro, para tanto são entoadas cantigas especiais e próprias da entidade que virá trabalhar neste dia.

Juremeiro: http://www.xamanismo.com.br/Poder/SubPoder1189634475It008
Jurema sagrada como tradição “mágica” religiosa, ainda é um assunto pouco estudado. É uma tradição nordestina que se iniciou com o uso desta planta pelos indígenas da região norte e nordeste do Brasil, mas que, atualmente possui influências as mais variadas, e que vão desde a feitiçaria européia até a pajelança, xamanismo indígena, passando pelas religiões africanas, pelo catolicismo popular, e até mesmo pelo esoterismo moderno, psicoterapia psicodélica e pelo cristianismo esotérico. No contexto do sincretismo brasileiro afro-ameríndio, a presença ou não da jurema como elemento sagrado do culto vem estabelecer a diferença principal entre as práticas de umbanda e do catimbó.
Índice

O guia chefe, depois de realizar os rituais de segurança da Gira, chama os médiuns já desenvolvidos que irão formar uma roda no centro do terreiro para receberem as entidades que irão prestar o atendimento a assistência.
Este atendimento é feito individualmente, os Guias de Luz passam orientações, receitas de banhos com ervas, dão o tradicional “passe mediúnico” que é o momento onde as entidades realizam as magias que resolvem os problemas daquela pessoa assistida.
São realizados diversos rituais nesta hora, mas acima de tudo estas entidades confortam as pessoas com seu modo carinhoso e humilde.

Hoje temos várias religiões com o nome “Umbanda” (Linhas Doutrinárias) que guardam raízes muito fortes das bases iniciais, e outras, que se absorveram características de outras religiões, mas que mantém a mesma essência nos objetivos de prestar a caridade, com humildade, respeito e fé.

Alguns exemplos dessas ramificações são:

  • Umbanda tradicional – Oriunda de Zélio Fernandino de Moraes;
  • Umbanda Branca e/ou de Mesa – Nesse tipo de Umbanda, em grande parte, não encontramos elementos Africanos – Orixás -, nem o trabalho dos Exus e Pomba-giras, ou a utilização de elementos como atabaques, fumo, imagens e bebidas. Essa linha doutrinária se prende mais ao trabalho de guias como caboclos, pretos-velhos e crianças. Também podemos encontrar a utilização de livros espíritas como fonte doutrinária;
  • Omolokô – Trazida da África pelo Tatá Tancredo da Silva Pinto. Onde encontramos um misto entre o culto dos Orixás e o trabalho direcionado dos Guias;
  • Umbanda Traçada ou Umbandomblé – Onde existe uma diferenciação entre Umbanda e Candomblé, mas o mesmo sacerdote ora vira para a Umbanda, ora vira para o candomblé em sessões diferenciadas. Não é feito tudo ao mesmo tempo. As sessões são feitas em dias e horários diferentes;
  • Umbanda Esotérica – É diferenciada entre alguns segmentos oriundos de Oliveira Magno, Emanuel Zespo e o W. W. da Matta (Mestre Yapacany), em que intitulam a Umbanda como a Aumbhandan: “conjunto de leis divinas”;
  • Umbanda Iniciática – É derivada da Umbanda Esotérica e foi fundamentada pelo Mestre Rivas Neto (Escola de Síntese conduzida por Yamunisiddha Arhapiagha), onde há a busca de uma convergência doutrinária (sete ritos), e o alcance do Ombhandhum, o Ponto de Convergência e Síntese. Existe uma grande influência Oriental, principalmente em termos de mantras indianos e utilização do sânscrito.

foto terreiro maranhense por: Márcio Vasconcelos

Na verdade o que buscamos é “Luz” seja ela de onde venha ou no que acreditamos. Axé

Fontes: http://www.girasdeumbanda.com.br/2010/a-umbanda.php

“Nego Fugido” encena e celebra, a céu aberto, a sua liberdade.

O “Nego Fugido” acontece todos os domingos de julho na comunidade de Acupe, um subdistrito do município de Santo Amaro da Purificação no Recôncavo Baiano. O Acupe se transforma,em um imenso palco, com uma encenação fantástica e rica da cultura popular.

Foto: André Felipe R Argôlo

É um verdadeiro espetáculo, transformando as ruas do Acupe em um grande teatro a céu aberto. São apresentações ricas de cultura e dramatização, que contam uma historia de perseguição, captura e libertação dos escravos fujões. O espetáculo tem em média 40 figurantes, que na verdade são pessoas comuns da comunidade, são pescadores, marisqueiras, comerciantes e donas de casa.
Os negros fujões, personagens centrais da apresentação, são chamados de “negas”, e geralmente são dramatizados por crianças. Com os rostos pintados com uma mistura feita de óleo de comida e carvão moído, e na boca com um tom avermelhado, feito com papel crepom, representa o sangue e a dor dos negros escravos. Essa aparência, muitas vezes assusta aqueles que não estão acostumados com esse espetáculo.

(foto: Blog Danças Populares do Brasil)

Tem os caçadores, que são geralmente homens fortes e que conseguem executar os movimentos intensos da encenação. Eles usam saias feitas de palhas de folhas de bananeiras, para ajudar na camuflagem do ritual de captura dos negros nas matas. Nessa encenação, também tem figura do soldado, que representa a proteção do Rei. O Rei simboliza os senhores, donos dos engenhos e dos escravos em um ato dessa peça. Os negros cobram as cartas de alforria ao Rei.

Foto Karla Braga – O Capitaõ do mato com a saia de folhas de bananeira usadas como camuflagem.

A princesa Isabel é representada pela figura da “Fada Madrinha”, Ela vem vestida de branco e trás um lenço branco amarado no punho. A “Fada Madrinha” representa o equilíbrio entre a guerra e a paz dos negros e brancos.Tudo acontece em meio aos ritmos dos atabaques e de cantorias ritmados, com características africanas, e criados especialmente para essas apresentações. As letras anunciam o que vai acontecer nas cenas.
É uma manifestação única, e se mantém desde o século XIX, originados dos escravos africanos e de origem Nagô. Provavelmente logo após a Abolição da Escravatura. Ao ouvir os sons dos atabaques as “Negas” dançam enquanto os caçadores cercam os fujões, girando em torno deles. São disparados vários tiros de espingarda, carregadas de espoletas. Quando as “Negas” são atingidas, eles caem e logo são amarrados pelos caçadores, que os obrigam a percorrerem as ruas do Acupe para pedir dinheiro para comprar suas cartas de alforria. Essa parte da dramatização se repete durante os primeiros domingos do mês de julho.

Foto: VAlfredo ROque PEreira – Crianças representando as “Negas”

O desfecho final ocorre no ultimo domingo do mesmo mês, quando acontece a prisão do Rei. Esse ultimo ato, é travada uma grande batalha entre soldado e negros. Os caçadores se unem aos soldados, até conseguir capturar o Rei. Finalmente o Rei é preso, e obrigado a dar a carta de alforria, que é lida pelo Capitão do Mato. Após a leitura, dá início a uma grande festa de comemoração a abolição da escravatura.

Foto: Fernando Sérgio

Durante o mês de julho podemos apreciar também pelas ruas do Acupe os grupos de “Caretas”, “Mândus”, e “Bombachas”. Essas manifestações não têm uma relação direta com a apresentação do “Nego Fugido”, eles são um espetáculo a parte. O “Nego Fugido” não consta nos livros oficiais da historia do Brasil, mas o “Nego Fugido” é uma verdadeira aula de conhecimento e cultura de uma época tão importante para o povo brasileiro e principalmente para a comunidade do Acupe.
O “Nego Fugido” faz parte da memória cultural de Santo Amaro, e quase foi esquecido, pois ficou um tempo “adormecido”, por não ter recursos para se apresentar. Hoje essa preciosidade é comandada por uma verdadeira guerreira, dona Edna Correia Bulcão, conhecida como dona Santa, a “Fada Madrinha” do “Nego Fugido”. Ela assumiu a responsabilidade já há algumas décadas, quando herdou o amor pelo “Nego Fugido” de sua mãe, que sempre ajudava na festa. Com carinho e dedicação, ela ensina as crianças os segredos desse grandioso espetáculo. As dificuldades ainda existem para manter viva essa tradição, mas os integrantes e dona Santa lutam incansavelmente, pois o “Nego Fugido” é um tesouro, que tem que ser valorizado. Um tesouro que impressiona pela sua riqueza de detalhes.
Referencias:
Evilacio Argôlo
Agnaldo Barreto
Texto de Rosanna Ribeiro
ASSOCIAÇÃO CULTURAL NEGO FUGIDO
Rua Edval Barreto nª 68 Acupe –Santo Amaro- BA

contato: monysanto2011@hotmail.com

SÃO PAULO RECEBE “NEGO FUGIDO” E “SAMBA DE RODA RAÍZES” DE ACUPE (BA)

Apresentações com entrada franca, em diversos pontos de São Paulo, marcam Mês da Consciência Negra

Em novembro de 2012 o Projeto Grandes Temas – Edição Batuques da Associação Cultural Cachuera recebe dois grupos que mantêm tradições de cultura popular de Acupe, distrito de Santo Amaro da Purificação (BA): o Nego Fugido e o Samba de Roda Chula Raízes de Acupe.

A vinda de ambos os grupos é, a um só tempo, convite e oportunidade para o público de São Paulo conhecer a tradição do Nego Fugido, que relembra anualmente o período da escravidão do Recôncavo Baiano através de uma vigorosa encenação de rua, e o Samba de Roda Chula, que mantém características locais bem demarcadas.

No período também será lançada uma grande campanha de arrecadação de recursos, via financiamento coletivo, para a construção da Casa Nego Fugido – Centro de Estudos e Práticas Afro-Brasileiras, em Acupe.

NEGO FUGIDO E SAMBA DE RODA CHULA RAÍZES DE ACUPE
Programação completa de apresentações na cidade de São Paulo . 10 a 15/11/12

10/11 (sábado)
Nego Fugido no Espaço Cachuera!
Projeto Grandes Temas – Edição Batuques

16h . Apresentação em ruas próximas ao Cachuera!
18h . Roda de conversa
19h . Samba de Roda Chula com o grupo Raízes de Acupe

Rua Monte Alegre, 1.094 . Perdizes . São Paulo
(11) 3872 8113 . 3875 5563 . cachuera@cachuera.org.br . http://www.cachuera.org.br

Entrada franca

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11/11 (domingo) | 14h
Nego Fugido no Parque da Luz

Praça da Luz, 2 . Bom Retiro . São Paulo
(11) 3324 0942 . educainclusiva@pinacoteca.org.br . http://www.pinacoteca.org.br

Entrada franca

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13/11 (terça-feira) | a partir das 18h
Samba de Roda Raízes de Acupe + exibição de documentários da Cachuera! + exposição – arte em tela de 38 tatuadores de vários países + DJs Zinco e Soares
na Matilha Cultural

Rua Rego Freitas, 542 . Centro . São Paulo
(11) 3256 2636 . http://www.matilhacultural.com.br

Entrada franca
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14/11 (quarta-feira) | a partir das 20h
Noite do Samba de Roda no Espaço Cachuera!
A renda do evento será revertida para a campanha de arrecadação de recursos – construção da Casa Nego Fugido, em Acupe (BA)

Participação especial dos grupos de Samba de Roda:

Garoa do Recôncavo e Mestre Ananias
Nega Duda
Raízes de Acupe
Samba de Dois . Santo Amaro – Mestre Robinho e Andréia

Rua Monte Alegre, 1.094 – Perdizes . São Paulo

Ingresso: pague o quanto vale (sugestão: a partir de R$ 10)

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15/11 (quinta-feira)
Nego Fugido no Instituto Pombas Urbanas

15h . Apresentação em ruas próximas ao Centro Cultural
17h . Roda de conversa com representantes de grupos de teatro de rua e movimentos sociais

Centro Cultural Arte em Construção
Av. dos Metalúrgicos, 2.100 . Cidade Tiradentes . São Paulo
(11) 2285 5962 . contato@pombasurbanas.org.br . http://www.pombasurbanas.org.br

Entrada franca

“Cosme e Damião: a arte popular de celebrar os gêmeos”

Nos terreiros eles são Ibeji e Erês. Nos relatos dos povos árabes são Acta e Passio. Para a Igreja Católica atendem por Cosme e Damião.

Esses são alguns dos nomes dos santos gêmeos, que inspiraram a colecionadora Ludmilla Pomerantzeff a viajar por todo o Brasil por quase 20 anos e reunir mais de 1.200 peças sacras sobre o assunto. A coleção pode ser conferida no catálogo “Cosme e Damião: a arte popular de celebrar os gêmeos”.

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A publicação reúne em suas mais de 130 páginas representações detalhadas de imagens dos gêmeos objetos de devoção em todo o país e conta com textos e com a coordenação editorial da curadora da exposição, Maria Lúcia Montes.

Para enriquecer o volume foram convidados os historiadores Cândido da Costa e Silva, professor da Universidade Federal da Bahia, Universidade de São Paulo e Universidade Católica do Salvador, e Jaime Sodré, especialista em Conteúdos e Métodos de Ensino, mestre em História da Arte, doutorando em História Social, professor universitário e designer.

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As peças são de artistas anônimos, reunidas pela curadora e pela colecionadora e proprietária, Ludmilla Pomerantzeff, que após ter iniciado uma pequena coleção de imagens de Santo Antônio, acabou se direcionando para Cosme e Damião, por mero acaso, em Marechal Deodoro, no interior de Alagoas, quando dois meninos pequenos a presentearam com uma imagem dos santos gêmeos.

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Fontes:

O3 Comunicação

O Catálogo foi publicado pela:

Expomus Exposições Museus Projetos Culturais

Vejam a outra matéria do Celophane Cultural:  Cosme Damião ou Ibêji – Salvem as Crianças

Matéria muito bacana do Cocada Preta

A “Festa Santa” é matéria da Raiz 11

A Um tempo atrás conheci uma revista que falava de uma forma muito “saborosa” sobre o assunto que mais me dá prazer nesta vida “Cultura Popular” com artigos das verdadeiras feras no assunto.

A convite do Edgard Steffen Junior editor chefe da Revista Raiz tive o prazer de me juntar a estas feras e fazer uma matéria pra edição da Raiz 11

Aqui a matéria na Integra celebrando com vocês este momento tão importante pra mim:

Festa Santa

O povo brasileiro é um povo que tem fé, ele se apropria, se adapta, se transforma, transcende e pronto. Um povo misturado que colocou no mesmo caldeirão as procissões católicas dos europeus, as festas de matriz africanas e a fé em santos não-canônicos. Estes movimentos populares, religiosos ou não, estão espalhados por todo o Brasil.

Foto: Marcelo Feitosa

Mas é no Nordeste que esta fé se revela com mais força como por exemplo os seguidores de Antonio Conselheiro em Canudos e o fenômeno Padre Cícero em Juazeiro.

Um fantástico e ferrenho imaginário de devoção e um relacionamento íntimo, corpo, suor, lágrimas e sangue com o sagrado. As regras são criadas, as formas de expressão são únicas, mas a fé é única e inabalável.

Foto: Marcelo Feitosa

O Fotógrafo, Carioca de nascença e Pernambucano de coração, Marcelo Feitosa,  lançou-se em duas romarias de regiões distintas do Nordeste  – Juazeiro do Norte, sertão do ceará, terra sagrada do líder político/religioso Padre Cícero e o Morro da Conceição, uma procissão da “bandeira” no meio da região metropolitana de Recife. Seu objetivo era conhecer de perto, juntinho enfronhado estas manifestações, trazendo pra nós um retrato, por vezes crítico e profano desta força que move essa gente, desta fé cega e impressionantemente verdadeira expressada nos olhos , mãos e símbolos carregados por estes devotos.

foto: Marcelo Feitosa

A curadora da exposição Andrea Vizzotto destaca: “Tanto no ambiente rural quanto no urbano, observamos práticas religiosas semelhantes, em que tradição e modernidade interagem em hibridismos que buscam novos sentidos para as suas práticas.”

A “Festa Santa” de Feitosa fez parte da exposição do MAP “Caminhos do santo”, em 2010, no Recife. Segundo Marcela Wanderlei curadora e coordenadora do MAP “…a mostra compôs um mapa sobre a temática no nordeste, evidenciando particularidades e expressando diálogos na representação de um universo religioso (re)elaborado.”

foto Marcelo Feitosa

No meio desta “Festa Santa” o fotógrafo nos empresta seu olhar crítico destacando outras manifestações de fé contemporânea onde Xuxa e Michael Jackson desfilam lado a lado com Cícero e Conceição. A Curadora reflete em seu texto de apresentação: “Afinal, é o seu olhar que dessacraliza o ritual de fé dos romeiros ou é o conceito que não consegue explicar a vivência do sagrado e do profano entre esses romeiros?”

Foto: Marcelo Feitosa

A Festa em Madureira:

Agora é a vez de Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, receber esta procissão de fotos, participar desta “Festa Santa”. Os moradores da terra do Samba são pessoas que, de imediato, vão se identificar com o tema. O subúrbio carioca tem como grande parte da população imigrantes nordestinos, desta forma, a identificação destas manifestações típicas das suas regiões, do seu povo, elevam sua identidade a patrimônio cultural da humanidade.

Foto: Marcelo Feitosa

Festas como a de Nossa Senhora da Penha, Iemanjá, São Sebastião e São Jorge, mesmo vindas de tradições europeias misturadas ás tradições dos povos afrodescendentes, mostram esta aproximação, este “(re)conhecimento” de uma fé que não é só do homem do Nordeste e sim das “gentes” brasileiras.

Foto: Marcelo Feitosa

Com a palavra a Curadora:

Procissões e romarias estão entre as mais antigas tradições do Brasil, heranças da nossa colonização portuguesa. Contudo,
o ritual católico encontrou vários obstáculos para se fazer presente em todas as regiões, dificultando sua missão evangelizadora
e criando as condições para que outras práticas populares fossem a ele incorporadas, o que resultou em uma religiosidade
multifacetada. O mesmo espaço de reza e de devoção podia ser também o da festa e o do jogo, pois eram formas não
excludentes de mostrar reconhecimento e agradecimento ao santo de devoção.

As fotos que vemos na exposição Festa Santa não são apenas uma afirmação da fé dos romeiros. Ao se lançar em duas romarias
de regiões distintas do Nordeste brasileiro – Juazeiro do Norte, no sertão do Ceará, e Morro da Conceição, na região metropolitana
de Recife –, o fotógrafo Marcelo Feitosa tinha como objetivo conhecer as manifestações culturais presentes nesses espaços, para
além do estrito caráter devocional. O resultado disso é uma coletânea de imagens que mostram o sagrado e o profano convivendo
no mesmo espaço sem constrangimentos. Tanto no ambiente rural quanto no urbano, observamos práticas religiosas semelhantes,
em que tradição e modernidade interagem em hibridismos que buscam novos sentidos para as suas práticas.

Se atualmente desconfiamos da fotografia documental como apenas um registro do real, pois se trata também de uma construção,
o olhar aparentemente herético do fotógrafo constitui-se em um excelente convite à reflexão sobre como é vista e pensada a fé no
mundo contemporâneo. Afinal, é o seu olhar que dessacraliza o ritual de fé dos romeiros ou é o conceito que não consegue explicar
a vivência do sagrado e do profano entre esses romeiros?

Andrea Vizzotto
Curadora

“Festa Santa” – Fotografias de Marcelo Feitosa

Curadoria – Andrea Vizzotto

SESC Madureira – Março e abril 2012

www.sescrio.org.br

Curriculo:

Marcelo Feitosa nasceu no Rio de Janeiro (RJ), onde vive atualmente após um período morando em Recife (PE). Começou a fotografar ainda jovem, nos anos 1980. Fotógrafo independente, trabalha com jornalismo e é repórter fotográfico associado à FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas). A partir de 2007 passou a trabalhar exclusivamente com fotografia digital, tornando-se especialista em pós-produção e tratamento digital de imagens. Nesse mesmo ano começou a desenvolver vários projetos autorais, sempre utilizando a fotografia como forma de expressão. Seus trabalhos começaram a se destacar a partir de 2008, sendo premiado em vários concursos. Entre os prêmios que recebeu, destacam-se o Prêmio SENAD de fotografia 2009, em Brasília, e o IV Prêmio Pernambuco Nação Cultural 2010. Participou de todas as edições da Mostra Recife de Fotografia e também de outras mostras de arte, tais como a I Mostra de Videoarte do Memorial Chico Science, dentro da programação do SPA das Artes 2009, e a Semana de Artes Visuais do SESC Santa Rita (Recife). Ainda em 2009, participou da exposição “Caminhos do Santo”, realizada pelo Museu de Arte Popular da cidade do Recife (MAP), em 2010, participou da exposição “Além da Imaginação”, realizada pelo Centro Europeu de Curitiba (PR), em 2011 foi finalista do concurso internacional Prix Photo Web, promovido pela Aliança Francesa e em 2012 realiza sua primeira exposição individual, no SESC Madureira – RJ, com o projeto Festa Santa. Possui imagens no acervo dos Museus Oscar Niemayer (MON), em Curitiba, e na Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco (FUNDARPE). Atualmente trabalha na cobertura jornalística de eventos para diversas agências de notícia e é professor da escola de fotografia Beco Limon Fotografia.

Na REvista Raiz 11

A Matéria chama “Festa Santa” é logo a primeira matéria da coluna Acontece.
A revista Raiz 11 pode ser comprada pelo site ou em breve na Livraria Cultura da sua cidade.
Revista Raiz 11

Confira e compartilhe comigo este prêmio.

A Luta por se tornar Patrimônio

Escravo tocando berimbau.
DEBRET. Voyage pittoresque et historique au Brésil. Paris: Didot Firmin et Fréres, 1824.

Origem

No século XVI, Portugal tinha um dos maiores impérios coloniais da Europa, mas carecia de mão de obra para efetivamente colonizá-lo. Para suprir este déficit, os colonos portugueses, no Brasil, tentaram, no início, capturar e escravizar os povos indígenas, algo que logo se demonstrou impraticável. A solução foi o tráfico de escravos africanos.

A principal atividade econômica colonial do período era o cultivo da cana-de-açúcar. Os colonos portugueses estabeleciam grandes fazendas, cuja mão de obra era primariamente escrava. O escravo, vivendo em condições humilhantes e desumanas, era forçado a trabalhar à exaustão, frequentemente sofrendo castigos e punições físicas. Mesmo sendo em maior número, a falta de armas, a lei vigente, a discordância entre escravos de etnias rivais e o completo desconhecimento da terra em que se encontravam desencorajavam os escravos a rebelar-se.

Neste meio, começou a nascer a capoeira. Mais do que uma técnica de combate, surgiu como uma esperança de liberdade e de sobrevivência, uma ferramenta para que o negro foragido, totalmente desequipado, pudesse sobreviver ao ambiente hostil e enfrentar a caça dos capitães-do-mato, sempre armados e montados a cavalo.

 

Capoeira Carybé

Nos Quilombos

Não tardou para que grupos de escravos fugitivos começassem a estabelecer assentamentos em áreas remotas da colônia, conhecidos como quilombos. Inicialmente assentamentos simples, alguns quilombos evoluíam atraindo mais escravos fugitivos, indígenas ou até mesmo europeus que fugiam da lei ou da repressão religiosa católica, até tornarem-se verdadeiros estados multiétnicos independentes.

A vida nos quilombos oferecia liberdade e a oportunidade do resgate das culturas perdidas à causa da opressão colonial. Neste tipo de comunidade formada por diversas etnias, constantemente ameaçada pelas invasões portuguesas, a capoeira passou de uma ferramenta para a sobrevivência individual a uma arte marcial com escopo militar.

Foto - Pierre Verger

O maior dos quilombos, o Quilombo dos Palmares, resistiu por mais de cem anos aos ataques das tropas coloniais. Mesmo possuindo material bélico muito aquém dos utilizados pelas tropas coloniais e geralmente combatendo em menor número, resistiram a, pelo menos, 24 ataques de grupos com até 3 000 integrantes comandados por capitães do mato. Foram necessários dezoito grandes ataques de tropas militares do governo colonial para derrotar os quilombolas. Soldados portugueses relataram ser necessário mais de um dragão (militar) para capturar um quilombola, porque se defendiam com estranha técnica de ginga e luta. O governador-geral da Capitania de Pernambuco declarou ser mais difícil derrotar os quilombolas do que os invasores holandeses.

 

Foto: Pierre Verger

 

A Urbanização

Com a transferência do então príncipe-regente dom João VI e de toda a corte portuguesa para o Brasil em 1808, devido à invasão de Portugal por tropas napoleônicas, a colônia deixou de ser uma mera fonte de produtos primários e começou finalmente a se desenvolver como nação.Com a subsequente abertura dos portos a todas as nações amigas, o monopólio português do comércio colonial efetivamente terminou. As cidades cresceram em importância e os brasileiros finalmente receberam permissões para fabricar no Brasil produtos antes importados, como o vidro.

 

Foto: Pierre Verger

Já existiam registros da prática da capoeira nas cidades de Salvador, Rio de Janeiro e Recife desde o século XVIII, mas o grande aumento do número de escravos urbanos e da própria vida social nas cidades brasileiras deu à capoeira maior facilidade de difusão e maior notoriedade. No Rio de Janeiro, as aventuras dos capoeiristas eram de tal jeito  que o governo, através da portarias como a de 31 de outubro de 1821, estabeleceu castigos corporais severos e outras medidas de repressão à prática de capoeira.

METER O ANDANTE - Revista A Lamparina - por: Kalixto, 1906.

Mestre Pastinha: 

Vicente Ferreira Pastinha nasceu a 5 de abril de 1889, em Salvador. Foi “o primeiro capoeirista popular a analisar a capoeira como filosofia e a se preocupar com os aspectos éticos e educacionais de sua prática”[1]. Pastinha foi uma das figuras mais queridas de toda a Salvador, por sua extrema devoção à capoeira.

Mesmo depois de idoso, jogava capoeira como um jovem exímio, executando sua movimentação com perfeição e agilidade. No prefácio do livro publicado em 1964, intitulado “Capoeira Angola”, de autoria de Pastinha, José Benito Colmenero afirma que Pastinha teve como mestre de capoeira um negro angolano chamado Benedito. Mas a maioria dos capoeiristas que o conheceram afirma que seu mestre foi Aberrê (na verdade, houve vários “Aberrês” na Capoeira). De Mestre Pastinha, já disseram ser ele… “o guardião da liberdade de criação, da inocência dos componentes lúdicos, da beleza da coreografia… … o gênio que desvendou em palavras simples e puras os aspectos místicos da capoeira. Será sempre simbolizado pela ‘Chamada’, com que arrefecemos o calor da disputa entre vontades que se contrapõem. A Mão Amiga estendida para o Alto, lembrando…

…Somos todos Irmãos à luz do MESTRE A Paz entre os Capoeiristas de Boa Vontade.”

Não é de hoje que a Capoeira luta por um reconhecimento:

 

Na história dos esforços pelo reconhecimento da Capoeira como esporte ou luta nacional de origem étnico brasileira, há um verdadeiro calendário.
Em 1907, apareceu um trabalho, cujo autor se ocultou sob as iniciais O.D.C. (Ofereço, Dedico e Consagro), intitulado O Guia da Capoeira ou Ginástica Brasileira.
Em 1928, Annibal Burlamaqui assina Ginástica Nacional (Capoeiragem) Metodizada e Regrada.
Em 1932, fundação do Centro de Cultura Física e Capoeira Regional, do Mestre Bimba.
Em 1937, registro oficial do Centro de Cultura Física e Capoeira Regional.
Em 1942, foi feito um inquérito pela Divisão de Educação Física do Ministério da Marinha, consultando sobre os melhores elementos para a instalação de um método de ensino da Capoeira.
Em 1945, Inezil Penna Marinho lança o livro Subsídios Para o Estudo da Metodologia do Treinamento da Capoeiragem.
Em 1960, Lamartine Pereira da Costa, então oficial da Marinha, diplomado em Educação Física pela E.E.F.E e instrutor chefe dos cursos da Escola de Educação Física da Marinha, CEM-RJ, lança um livro que se tornou clássico: Capoeiragem – A Arte da Defesa Pessoal Brasileira.
Em 1968, Waldeloir Rego lança o livro Capoeira Angola – Ensaio Sócio-Etnográfico, considerado um dos mais completos sobre Capoeira.
Em 01 de janeiro de 1973, entra em vigor o Regulamento Técnico da Capoeira, oficializando a Capoeira como o ESPORTE NACIONAL BRASILEIRO.
Em 27 de outubro de 1973 são registradas várias associações de capoeira no rio de janeiro.
Em 14 de julho de 1974 é fundada a Federação Paulista de Capoeira (FPC).
Em 17 de maio de 1984 é fundada a liga de capoeira cordel vermelho em Minas Gerais
Em 20 de julho de 1984 é fundada a Federação de Capoeira do Estado do Rio de Janeiro (FCERJ).
Em 21 de abril de 1989 é fundada a Liga Niteroiense de Capoeira (LINC).
Em 23 de outubro de 1992 é fundada a Confederação Brasileira de Capoeira (CBC).
Em 13 de maio de 1995 é fundada a Federação de Capoeira Desportiva do Estado do Rio de Janeiro (FCDRJ).
Em 03 de junho de 1995 é fundada a Liga Carioca de Capoeira.

2013 – Agora a luta é por um reconhecimento mundial:

Abaixo – assinado / Campanha de apoio à candidatura da Rode de Capoeira à lista representativa do Patrimônio Imaterial da Humanidade:

A Unesco, organização internacional de educação e a cultura, vai se reunir em 2013 para avaliar a inclusão da Roda de Capoeira na lista representativa do Patrimônio Imaterial da Humanidade. O Brasil já tem 2 manifestações culturais (bens imateriais) declaradas nessa lista, o samba de roda do Recôncavo Baiano e a arte gráfica dos índios Wajãpi. Em 2013 pode ser a vez da Roda de Capoeira. È mais um passo na consolidação da Capoeira como expressão original do povo brasileiro que se oferece aos povos do mundo como prática, atitude de vida, pensamento, técnica, esporte, prazer, arte e cultura.

Não é só mais um título bonito para colocar na parede nem é mais um simples reconhecimento para compor discursos de exaltação. Vai além. É um pacto entre o Brasil (governo e sociedade) e o mundo para aumentar as bases de expansão das nossas raízes. Um passaporte a mais para abrir fronteiras e dar o tom brasileiro, detentor absoluto das raízes dessa prática, no cenário internacional. O título é um ato de fortalecimento que não interfere na autoria da Capoeira nem na autoridade dos Mestres. A Capoeira continua fiel a sabedoria dos que a criaram sem perder direitos nem sofrer intervenção em seu conceito ou prática. O que se abre é a possibilidade de criação de mais estrutura e força política. Obriga governos e instituições a um zelo mais profundo no incentivo e manutenção das políticas públicas com investimentos continuados e programas definidos a partir do diálogo.

O mundo da Capoeira sabe o valor histórico da luta e o quanto se avançou até aqui. Sabe o tamanho do desafio para prosseguir e o tanto que se exige para uma paixão sair da semente até virar tronco forte na vida. O título da Unesco será mais uma conquista nesse caminho. A Capoeira precisa do comprometimento de muitas parcerias e pontes para ter a chance de se mostrar autêntica e única. Sem perder o tom da raiz brasileira e da sua nem entregar suas raízes para oportunistas. Ninguém “vira patrimônio da humanidade”, do nada. É um processo longo em que o mundo reconhece a realidade que já existe e vai ajudar na estratégia de continuidade mais forte dessa prática, saber, paisagem, pensamento ou celebração.

A Unesco é mais uma aliada nessa luta. Esta organização internacional foi criada para oferecer condições de diálogo entre culturas, nações e povos com respeito aos direitos humanos, às diferenças culturais comprometidas em trabalhos pela paz e diminuição das desigualdades econômicas entre as nações. Por isso a Unesco desenvolve políticas e projetos em vários países, através de acordos de cooperação técnica e convênios com governos e sociedade na salvaguarda do patrimônio cultural e natural de todo o mundo.

São positivos os resultados desses processos para os grupos que constituem a base social das expressões culturais reconhecidas. Crescem além da visibilidade, criam maior respeitabilidade no trato com o Estado, ampliam possibilidades de fomento a projetos e ações para disponibilizar e adequar espaços físicos para centros de referência, aquisição de acervos, equipamentos e matérias primas, oficinas de transmissão de saberes, treinamentos em pesquisa e gestão de políticas de salvaguarda, ações educativas e edições diversas, até encontros, seminários e outras ações.

A capoeira já tem régua e compasso para traçar seu caminho no mundo. Já tem seu reconhecimento consagrado em inúmeros países e cresce na dedicação daqueles praticantes sempre fiéis a sabedoria dos seus Mestres. Mas há sempre o que se firmar mais. Esta construção coletiva se faz mais complexa atualmente. A exigência de organização da base social precisa contar mais e mais com ferramentas, estratégias e políticas para estabelecer os termos da difusão da prática sem perda da essência que é a própria seiva que legitima tudo. O nosso mundo da Capoeira não perde seu chão quando fica mais forte o jogo da Capoeira no mundo.

O título fortalece o argumento dos que desejam avançar a Capoeira no mundo, pois o mundo se abre melhor para receber, entender, pesquisar, jogar e trocar com mais esta riqueza da diversidade cultural brasileira. Não se perdem direitos de uso nem se concede práticas sem direitos: é um título que legitima quem faz, dentro e fora do país, e funciona para melhor abrir as fronteiras. Um mundo que reconhece o valor da nossa casa é um mundo que nos convida a entrar pela porta da frente.

A lista a ser enviada a Unesco é de responsabilidade do Iphan e tem como base um dossiê de candidatura redigido a partir de pesquisas já realizadas no registro da Roda de Capoeira e do Ofício de Mestre de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. O Grupo de Trabalho Pró-Capoeira coloca na roda o encaminhamento deste dossiê à Unesco. Todas as demandas e propostas levantadas nos Encontros Pró-Capoeira foram consideradas na elaboração do dossiê. Após a finalização da candidatura uma comissão intergovernamental decidirá sobre a pertinência da inscrição.

É com essa intenção que o Iphan encaminha aos capoeiras do Brasil esta Lista de Adesão sobre as candidaturas da Roda de Capoeira à Lista Representativa da Convenção da Unesco para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial.

Sua assinatura de adesão é recebida como incentivo para que esta luta não perca força e mantenha a ginga por tantos anos, fortalecida na superação de adversidades. Dessa luz se alimenta a luta da Capoeira aberta para os povos que desejam e precisam se abrir mais e mais para o nosso mundo da Capoeira.

Assine aqui

"Jogar Capüera ou Dance de la Guerre"
RUGENDAS, J.M. Voyage pittoresque et historique dans le Brasil. Paris: Engelmann et Cie, Paris, 1834.

Fontes:

Centro de Referência da capoeira Carioca

História da Capoeira

O Bê-a-ba das Pipas

O Celophane Cultural traz uma contribuição  de Jorge C Moreira um amante da arte de soltar pipas:

 

Bê-a-ba da Pipa
*Á brinca cruza informal, em que se devolve a pipa abatida ao dono.
*aparar cruza, combate para valer. Quem cortar a linha de outro tem o direito de levar a pipa/o papagaio como troféu.

*arrastar na mão pipeiro que esta mais atrás, que debica a sua pipa nas dos da frente, cortando-as com muita linha.

*carretel de linha 10 tipo de linha preferida dos pipeiros – Linha Marca Corrente nº 10 (agora é linha chilena).

*catreco, jereco ou molambo – pipa mal-feita, maltrapilha, em péssimo estado.

*cerol – O cerol é uma mistura cortante de pó de vidro ou pó de ferro e cola cozida de madeira utilizado na linha da pipa com o objetivo de cortar / cruzar a linha de outra pipa oponente.

 

Menino Empinando pipa - Foto LUiz Neto - Assu RN - http://www.flickr.com/photos/sicalis/

*cola de arroz  – ao fazer a armação da pipa (vareta, presas com linhas),quando não tinha cola, usava colar o papel na armação com arroz usado.

*cortar cruzar com outras pipas e cortar sua linha.

*crocodilagem – acordo entre pipeiro/empinadores para atrair pipa/papaguaios a uma armadilha, ou qualquer ato que fira o código de etica dos pipeiros.

*cruza, combate ou guerra – batalha entre duas ou mais pipas.

*culhão de gato – linha com duas pedras amarradas nas pontas, usadas para jogar nas linhas da pipas que estavam no ar.(roubo de pipas no ar)

*dar de chapeu/dar tabua – é quando a pipa cai por defeito

*debicar – mergulhar a pipa,manobrando a linha com puxões sucessivos

 

Empinando Pipa - Fonte: Wickpedia.

 

 

*empinar, soltar – colocar e mover a pipa no ar.

*estancar – quando a linha arrebenta sem motivo aparente.Denomina também um movimento usado para desprender uma pipa enroscada.

*maranhão – é como os paulistas chamam a pipa carioca de papel seda.

*pipa, Papagaio, cafifa, balde, zoeira, arraia – brinquedo que usa o vento para voar.
brinquedo consistente de varetas de bambu cobertas de papel fino e que se empina através de uma linha, permanecendo no ar

*pipa avoada – pipa que foi cortada ou estancada.

*rabiola – fitinhas de papel ou de plasticos amaradas em uma linha e presa na pipa, para estabilizá-la no ar.Alguns meninos usavam 1/2 de uma gilete,na ponta da rabiola p/cortar outras pipas.

*tança – designação da linha em Portugal

*temperar – passar cerol na linha.

*varetas de bambu ou taquara – estrutura da pipa.

 

Pipas dos mais diferentes formatos - Fonte: Wickpédia

 

*linha poida linha-dentinho – geralmente sabotagem feita na linha, dentadas na linha, para quando a pipa fosse colocada no ar, ela arrebentasse.

*braçadas controle da pipa no ar- fazendo ela subir ou descer , ou qdo cruzava e as duas ou mais pipas ficassem emboladas, dava-se braçadas, para trazer a pipa para mais perto de s/dono.

*carretilhas – onde se enrolava a linha para soltar pipa.
“dar linha

*eolista – especialista em pipas; o nome vem de “Eólo”, Deus dos Ventos…

*O mês certo para soltar papagaios é o oitavo mês do ano – Agosto – quando os ventos são constantes e fortes.

*Os empinadores de pipas usam a imaginação para chamar os ventos com pequenas orações, invocando algum santo para que traga o vento certo, afim que sua pipa voe livre e solta pelos céus.

Vários são os nomes dados a esse objeto de competiçao e jogo.

ARRAIA no norte da Bahia e Sergipe.

PIPA no centro e sudeste do Pais.

PANDORGA no sul como em Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

 

"Menino com Pipa" - Cândico POrtinari - 1954

ARRAIA JAMANTA, CURICA na Amazonia e Pará.

ARRAIA, BARRIL, BOLACHA. CANGULO, ESTRELA, PECAPARA no Cearà.

ARRAIA, GAMELO no Pernambuco.

RAIA, CAFIFA, ESTILÂO, PIÂO no Rio de Janeiro.

PIPA, PAPAGAIO,GAIVOTA ARRAIA, RAIA, QUADRADO em Sao Paulo.

 

"Meninos Soltando Pipas" Cândido Portinari de 1943

 

A História das Pipas

A história das pipas é recheada de mistérios, de lendas, símbolos e mitos, mas principalmente de muita magia, beleza e encantamento. Tudo de ter começado quando o homem primitivo se deu conta de sua limitação diante da capacidade de voar dos pássaros. Essa frustração foi o mote para que ele desse asas a sua imaginação.

O primeiro vôo do homem está registrado na mitologia grega e conta que Ícaro e seu pai, Dédalo, aprisionados no labirinto de Creta pelo rei Minos, tentaram alcançar a liberdade voando. Construíram asas com cera e penas e conse-guiram escapar. Apesar das recomendações do pai embevecido pela possibilidade de dominar os ventos, Ícaro negligenciou a prudência e chegou muito perto do Sol, que derreteu a cera das asas e precipitou-o ao mar matando-o.

Dedalo e Icaro

De qualquer forma o homem não parou por aí. Mesmo levando em conta o estranho acidente da lenda de Ícaro, ele continuou a ousar, desafiando a natureza com sua imaginação. As pipas nascem desta tentativa frustrada de voar, quando o homem transferiu para um artefato de varetas, papel, cola e linha sua vontade intrínseca de planar, de alçar vôo de terra firme.Teorias, lendas e suposições tendem a de-monstrar que o primeiro vôo de uma pipa ocorreu em tempos e em várias civilizações diferentes, mas, com toda certeza, a data aproximada gira em torno de 200 anos antes de Cristo. O local: China.

No Egito hieróglifos antigos já contavam de objetos que voavam controlados por fios. Os fenícios também conheciam seus segredos, assim como os africanos, hindus e polinésios. Até o grande navegador Marco Polo (1254 – 1324) explorando-lhe as potencialidades, embora levado por motivos menos lúdicos. Conta-se que, em suas andanças pela China, ao ver-se encurralado por inimigos locais, fez voar uma pipa carregada de fogos de artifício presos de cabeça para baixo, que explodiram no ar em direção à terra, provocando o primeiro bombardeio aéreo da história da humanidade.Nos países orientais foi e continua sendo grande a utilização de pipas com motivos religiosos e místicos, como atrativo da felicidade, sorte, nascimento, fertilidade e vitória. Exemplo disto são as pipas com pintura de dragões, que atraem a prosperidade; com uma tartaruga (longa vida); coruja (sabedoria) e assim por diante.

Outros símbolos afastam maus espíritos, trazem esperança , ajudam na pesca abundante. As pinturas com grandes carpas coloridas representam e atraem o desenvolvimento do filhos. Nesses aspectos mistico-religiosos, continua sendo muito grande a utilização de pipas como oferenda aos deuses nos países orientais.
Um dos quatro elementos fundamentais da civilização ocidental, o vento no caso das pipas, passou rapidamente de inimigo a aliado, pois com o domínio correto de suas correntes e velocidades, o homem conseguiu inteligentemente chegar perto do sonho de voar. O grande mestre e pesquisador de pipas e ação dos ventos é um eolista, palavra criada a partir de Éolo, o deus dos ventos na mitologia grega. Quando Ulisses, famoso personagem do livro Odisséia, de Homero, chegou à ilha Eólia, foi muito bem recebido pelo rei, que o hospedou e a seus companheiros durante um mês.

Ao partir, o herói recebeu uma caixa contendo todos os ventos e que deveriam continuar aprisionados, com exceção de um, que, solto, levaria o navio diretamente de volta a Ítaca, sua cidade natal. No caminho os companheiros de Ulisses imprudentemente abriram a tampa, pensando que continha vinho. Saíram de dentro da caixa os ventos proibidos e furiosos que tocaram o navio para trás. Éolo entendendo que aquela gente teria alguma oculta maldição dos deuses, não os ajudou e ainda por cima os expulsou da Eólia.

A histórias das pipas data de muitos séculos e se confunde com a própria história da civilização, sendo utilizada como brinquedo, instrumento de defesa, arma, objeto artístico e de ornamentação. Conhecido como quadrado, pipa, papagaio, pandorga, barrilete ou outro nome dependendo da região ou país, ela é um velho conhecido de brincadeiras infantis. Todos nós, com maior ou menor sucesso, já tentamos empinar um. E temos obrigação de preservar sua beleza e simbologia, pois uma infância sem pipa certamente não é uma infância feliz. As pipas adornam, disputam espaço, fazem acrobacias, mapeiam os céus. São a extensão natural da mão, querendo tocar nas ilusões.

Fontes:

História das Pipas

Materia na Rede Suburbio Carioca

Pequi, a fruta dourada do grande sertão veredas.

Ouro do Sertão

O famoso Pequi é uma fruta que nasceu no cerrado brasileiro, super utilizada e consumida na culinária. Sim é aquela do Arroz com Pequi famoso prato consumido em Belém e em Goiás.

O Pequizeiro ás vezes chega a 10m de altura, um tronco grosso, torto de casca muito grossa é protegido por lei que impede seu corte e venda. Das folhas vem o Tanino uma tinta usada por tecelãs.

Pequizeiro florido. Tatagiba, setembro de 2006, município de Nova Roma-GO, Vão do Rio Paranã.

AS lindas  e grandes flores brancas e amarelas, de agosto a Novembro, enfeitam as casas de quem tem um pé desta produtiva árvore. O fruto do tamanho de uma laranja que nasce de novembro a fevereiro, redondo, esverdeado como um abacate, está pronto para consumo quando sua casca amoleçe.

Pequi - Arcos MG -foto: Edmilson Carlos

De como, no prazo duma hora só, careci de ir me vendo escorando rifle (…)

trepado em jatobá e pequizeiro, deitado no azul duma lage grande.

João Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas.

A deliciosa e suculenta polpa é bem amarelada e com um caroço no meio, cheio de espinhos que fere as gengivas dos desavisados e gulosos que nele cravam os dentes. Lamber chapéu de couro é a única alternativa para retirar seus espinhos da língua daqueles mais descuidados.

Seu sabor é único (assim como o é o do buriti e o do jatobá, entre outros), não há fruta que se possa comparar.

Fruto do pequi - Frutos do Brasil site Arara.

Não acredite em quem diz que o cheiro do pequi é forte, enjoativo; é preciso experimentar para realmente conhecer. Não tente se convencer que é bom, deixe-se ser convencido.

É também conhecido como piqui, piquiá, pequerim, amêndoa-de-espinho, grão-de-cavalo, suarí. A palavra pequi, na língua indígena, significa “casca espinhosa”.

De alguns anos pra cá o pequi tem sido valorizado na cozinha brasileira sendo estudado seu potencial nutritivo e usado em várias receitas e misturas pelo Brasil afora. Mas para o povo do grande sertão veredas  o pequi é o verdadeiro “Ouro do sertanejo” mais um simbolo de cultura persistência e tradição de um povo.

“O Garanço se regalava com os pequís, relando devegar nos dentes aquela

polpa amarela enjoada. Aceitei não, daquilo não provo: por demais distraído que sou,

sempre receei dar nos espinhos, craváveis em língua”

João Guimarães Rosa, Grande sertão: veredas pg. 184.

No livro Cerrado: espécies vegetais úteis, seus autores dedicam sete páginas ao pequi (também conhecido como piqui, piquiá ou piqui-do-cerrado), discorrendo sobre sua ocorrência, distribuição, floração, botânica, uso, entre outros. Pode ser consumido com arroz, feijão, galinha, ou batido com leite e açúcar. Seu uso medicinal tem efeito tonificante, sendo usado contra bronquites, gripes e resfriados, é expectorante, e o chá de suas folhas é tido como regulador do fluxo menstrual.

 

“Essa planta produz abundantes frutos do tamanho de uma laranja, de polpa oleosa e feculenta, muito nutritiva. É a delícia para os moradores do Ceará e Piauí. A árvore atinge a altura de cinqüenta pés, com grossura proporcional. Sua madeira é de tão boa qualidade para a construção naval quanto a cicopira (Sucupira, Bowdíchia virgilioides, H.B.K., dizemos hoje). Cresce muito bem nos terrenos arenosos chamados em Pernambuco tabuleiros e no Piauí chapadas, sendo muitíssimo vantajoso o seu cultivo nos tabuleiros que bordam o litoral e que estão presentemente inúteis. Presta grande auxílio ao povo nas épocas de seca e de fome.”

(Braga, Renato. Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia da alimentação no Brasil, p.187-188)

AS filhas do pequi

Mas o pequi é mais que isso!
Há histórias de crianças “filhas do pequi” – aquelas que nascem exatamente nove meses após a temporada do fruto, pois ele é tido também como afrodisíaco.  Conta-se também que as índias esfregavam o fruto nas partes íntimas para evitar que seus companheiros as procurassem (algo que não devia adiantar muito porque, para quem gosta, o aroma do pequi é irresistível).

Conheça a Lenda do Pequi

…-Como se chamará, Cananxiué, esse fruto, cujo coração são os espinhos de minha dor, cuja cor são os cabelos de ouro de Uadi e cujo aroma é inesquecível como o cheiro dessa mata, onde brinquei com meu filhinho?

-Chamar-se-á Tamauó, pequi, minha filha. Quero ver-te alegre de novo, pois te darei muitos filhos, fortes e sadios como Maluá. E teu marido voltará cheio de glória da batalha, pois muitos séculos se passarão até que nasça um guerreiro tão destemido e tão honrado! Ele comerá deste fruto e gostará dele por toda a vida!”

Tainá-racan sorriu. E o pequizeiro começou a brotar…

Tirando a polpa do pequi. Imagem do filme Cheiro de Pequi. Vídeo nas Aldeias, Imbé Gikegü, Takumã Kuikuro e Maricá Kuikuro

Arroz com Pequi

Ingredientes:
1/4 de xícara de chá de óleo ou banha de porco
1/2 litro de pequi lavado
2 dentes de alho espremidos
1 cebola grande picada
2 xícaras de chá de arroz
4 xícaras de chá de água quente
Sal a gosto
Pimenta-de-cheiro ou Malagueta a gosto
Salsinha, cebolinha picada a gosto.

Modo de Preparo:
Coloque o pequi no óleo ou gordura fria (se usar o fruto inteiro, não é preciso cortar, mas cuidado com o caroço). Acrescente o alho e a cebola e deixe refogar em fogo baixo, mexendo sempre com uma colher de pau para não grudar na panela, e respingue um pouco de água quando for necessário. Quando o pequi já estiver macio e a água secado, acrescente o arroz e deixe fritar um pouco. Junte a água e o sal. Quando o arroz estiver quase pronto, coloque a pimenta-de-cheiro ou malagueta a gosto. Na hora de servir, polvilhe o arroz com salsa e cebolinha e um pouco de pimenta.

Observações:
Para esta receita, não utilize panela de ferro, pois a fruta fica preta.
Cuidado! Se você morder o caroço, ficará com a boca cheia de espinhos. O jeito certo de comer o pequi é roendo. Dica:
Para acompanhar, carne-de-sol frita ou assada no espeto sobre brasas.

Mais receitas com Pequi

Galinhada no Pequi - Foto site Rainhas do Lar

Fontes:

REvista Overmundo

Site: Arara

Revista do Cerrado – Altiplano

Blog Plantas do Cerrado

A Arte Popular coletada por LIna Bobardi revive em exposição na Bahia

O Celophane Cultural vem mostrar que Salvador nesta época não tem só Carnaval, uma dica de exposição no pelourinho pra dar uma descansada da folia e conhecer um pouco mais deste Brasil pelo OLhar da arquiteta LIna BO Bardi.

 

peças coletadas no nordeste brasileiro pela arquiteta Lina Bo Bardi

 

ragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

ragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

ragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

O acervo de peças coletadas no nordeste brasileiro pela arquiteta Lina Bo Bardi, que estava guardado desde 1965, é reaberto para o público, no Centro Cultural Solar Ferrão, no Pelourinho, em Salvador.

Foto: Luciano Oliveira

A mostra “Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi” reúne mais de 800 peças entre utensílios de madeira, objetos de barro, pilões, santos e objetos de candomblé que resistiram às mudanças e viagens da coleção original, que chegou a contar 2 mil itens.

 

Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

Lina Bo Bardi (1914-1992), arquiteta italiana que estabeleceu-se no Brasil em 1946 e é conhecida por projetos como o Masp e o Sesc Pompéia, em São Paulo, mudou-se para a Bahia no final dos anos 1950 e começou a pesquisar a arte popular nordestina. “Lina considerou essas peças como algo contemporâneo, como objetos de design, num pensamento livre dos vícios e preconceitos acadêmicos e europeus que reinavam na época”, afirma o diretor de museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, Daniel Rangel.

 

Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi" - divulgação

 

Logo no início do período de ditadura militar (a partir de 1964, depois da deposição do presidente João Goulart), Lina Bo Bardi foi exonerada do cargo de diretora do Museu de Arte Moderna da Bahia por ter se negado a liberar o foyer do teatro Castro Alves (onde estava temporariamente instalado o MAM) para uma exposição de armamento de guerra. Um ano mais tarde, a exposição “Nordeste do Brasil” (com partes do acervo que será exibido agora em Salvador) foi impedida de estrear na Galeria de Arte Moderna, em Roma.

 

Saiba mais sobre o episódio:

ZEVI, Bruno. A arte dos pobres apavora os generais, Revista da Civilização Brasileira, n.2, maio 1965. Traduzido do L’Espresso de Roma, março 1965 [artigo publicado quando o governo brasileiro impediu a realização da Exposição Nordeste na Galleria d’Arte Moderna em Roma]

 

Após o episódio, recortes da coleção de Lina Bo Bardi chegaram a ser expostos em mostras como “A Mão do Povo Brasileiro”, de 1969, no Museu de Arte de São Paulo, e “Design no Brasil, História e Realidade”, de 1982, no Sesc Pompéia, ambas em São Paulo.

Planta expográfica e conjunto da exposição 'Bahia' realizada no antigo 'Pavilhão Bahia' sob a marquise do Parque do Ibirapuera em São Paulo, 1959 -

 

BAHIA. Exposição no Parque do Ibirapuera, São Paulo, Brasil, 1959. [Bahia]: [s.n.], 1959. Parque do Ibirapuera, São Paulo, 1959. Folheto de Exposição. Textos de Jorge Amado, Lina Bo Bardi e Martim Gonçalves. Arquivo do Núcleo de Museologia do Museu de Arte Moderna da Bahia. In: Habitat, São Paulo, n.56, 1959

“Bahia” é preparada por Lina e Martim Gonçalves em Salvador e trazida para São Paulo durante a V Bienal Internacional.O universo ligado à Bahia torna-se o centro dessa exposição: suas cidades,sua arquitetura,festas,crenças,arte popular,culinária,música,objetos do cotidiano e sua população que vêm representados de diversas formas,seja por fotografias,pela presença dos objetos ou pela recriação de um ambiente que os situam na realidade.

 

Planta do térreo e conjunto da exposição 'Nordeste' realizada no 'Museu de Arte Popular do Unhão' em Salvador, 1963 - acervo Instituto Lina Bo Bardi

 

 

Planta do primeiro pavimento e conjunto da exposição - acervo Instituto Lina Bo Bardi

Planta expográfica e conjunto da exposição 'A mão do povo brasileiro' realizada no 'Museu de Arte de São Paulo', 1969-acervo Instituto Lina Bo Bardi

 

Em “A mão do povo brasileiro” apresenta-se através de um mesmo suporte que é reorganizado diante dos objetos que deve expor, inúmeros elementos do mobiliário, instrumentos, adornos, vestuário, cerâmica, esculturas, figuras religiosas e brinquedos realizados no Brasil. Objetos que são colocados lado a lado e misturados no espaço da exposição, sem uma separação clara, mas mostrados como conjunto.

 

 

Centro de Lazer SESC Fábrica da Pompéia, espelho d'água 'Rio São Francisco', as quatro exposições seguintes são realizadas neste mesmo galpão

Exposição 'Design no Brasil: história e realidade' SESC Pompéia de 1982

Exposição 'Mil brinquedos para a criança brasileira' SESC POmpéia de 1982-3 - acervo Instituto Lina Bo Bardi

 

Exposição 'Caipiras, capiaus: pau-a-pique' de 1984 - Acervo Instituto LIna Bo Bardi

 

Exposição 'Entreato para crianças' de 1985 - fonte Instituto Lina Bo Bardi

 

O DESIGN NO BRASIL: história e realidade. São Paulo: SESC – Fábrica Pompéia, MASP, 1982. Centro de Lazer SESC Fábrica Pompéia, São Paulo, fevereiro a julho 1982. Textos de Pietro Maria Bardi, José Mindlin e Alexandre Wollner. Catálogo de Exposição MIL BRINQUEDOS

PARA A CRIANÇA BRASILEIRA. Lina Bo Bardi et al. montagem. São Paulo: SESC – Fábrica Pompéia, MASP, 1982. Centro de Lazer SESC Fábrica Pompéia, São Paulo, dezembro 1982 a julho 1983. Texto de Pietro Maria Bardi. Catálogo de Exposição.

Design e Mil brinquedos, além de apresentarem os objetos antigos, como nesta exposição A Mão, abrem espaço para a mais recente produção industrial. As quatro exposições do SESC possuem uma particularidade pelo fato de não se realizarem em um contexto de museu,mas sim em um Centro de Cultura e Lazer projetado por Lina, situação que permite uma maior relação entre as exposições aos conceitos presentes na arquitetura da Fábrica da Pompéia.

Nessas duas primeiras exposições é possível dizer que existe uma espécie de separação no espaço entre a produção “antiga-artesanal” e a “recente-industrial”, apesar de uma se encontrar espacialmente ao lado da outra.Na exposição Design, no início estão os objetos artesanais e ao fundo os produtos industrializados e o design gráfico. Assim, como a exposição Mil brinquedos que de um lado apresenta os brinquedos antigos e de outro os industrializados.

Em “Caipiras,capiaus:pau-a-pique” a relação “artesanal”-“industrial” é dada não pela presença simultânea dos elementos artesanais e industriais, como ocorre nas outras exposições, mas sim pela realização de uma exposição que recria os aspectos da vida do interior rural de São Paulo e Minas Gerais inserindo-os no contexto urbano-industrializado do Centro de Lazer em São Paulo. Ai são construídas as casas de pau-a-pique, o forno a lenha e o alambique pelos habitantes dessas regiões que foram trazidos ao SESC para montar a exposição à maneira como organizam sua vida. O interior das casas foi ambientado com seus objetos, assim como a venda, o paiol e a capela.

 

O Centro Cultural Solar do Ferrão

Reaberto em 2008 com o novo conceito de Espaço Cultural, o Centro Cultural Solar do Ferrão uma das mais antigas edificações do Pelourinho, no Centro Histórico de Salvador (CHS),  é um espaço dedicado a arte, cultura, história e memória da população baiana.

Além da biblioteca, o espaço abriga uma galeria de arte homônima e outras três importantes coleções de arte sacra, africana e popular que possibilitam o dialogo entre os povos que deram origem aos baianos: africanos, indígenas e portugueses.

Saiba mais pouco mais sobre LIna Bo Bardi

 

Lina na sala da Casa de Vidro, 1952 Foto de Fernando Albuquerque

 

Fontes:

Instituto Lina Bobardi

Matéria de 17/03/2009 – UOL – Acervo de arte popular coletado por Lina Bo Bardi é exibido na Bahia

TRabalho final de Graduação da FAU/USP  – Mayra de Camargo Rodrigues – Luciano Migliaccio – Exposições de LIna Bo Bardi

 

Lina na Casa de Vidro, 1952 Foto do arquivo pessoal

 

 

“Fragmentos: Artefatos populares, o olhar de Lina Bo Bardi”

Onde: Centro Cultural Solar Ferrão – r. Gregório de Mattos, 45, Pelourinho, Salvador/BA – tel. (71) 3116-6467
Quando: Exposição de longa duração desde 17 de Março de 2009.

Visitação de terça a sexta, das 10h às 18h; finais de semana e feriados, das 13h às 17h
Quanto: Grátis