O povo nas ruas é lindo, mas…

Em relação ao protesto ocorrido hoje no Recife, que mostrou-se bastante tranquilo, se comparado aos realizados no resto do país, algo me chamou a atenção.

porque

O movimento iniciado pelos estudantes do Passe Livre é legítimo, e até certo ponto, a intenção que eles tinham de não se deixarem influenciar pela participação partidária era até compreensível. “Se esses partidos até hoje se mostram ineficientes, por que razão nós deixaríamos que eles chegassem perto?” A posição do Passe Livre se assemelha ao conceito do preço ético de um jornal, que precisa se equilibrar entre servir de canal para a sociedade, e abrir espaço para anunciantes, o que  também ajudar a pagar as contas de seus funcionários. Continuar lendo

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Dá licença, moço???

Dá licença, moço? Eu alcancei um ponto do percurso que me deu uma visão panorâmica e crítica a respeito do que me foi apresentado ao longo do caminho. Dá licença, por favor? É que eu me sinto mais seguro que ontem, e estarei bem mais amanhã. Faça o favor de guardar a sua presunção, que mais parece um reboco na alma. Não precisamos disso. É pesado. É inútil. É enfadonho.

Dá licença, que eu prefiro cumprimentar e fazer a minha parte para enxergar melhor as pessoas. É difícil, por que existem muitas com as quais eu não concordo, mas ainda que as coloquemos um rótulo, não custa nada dizer “bom dia”. Uma porta se abre a partir disso, e quando temos duas casas abertas, o muro das idéias pré-concebidas se torna menos turvo.

Dá licença, que eu não preciso parecer legal, ou antenado, ou qualquer outra palavra e atitude da moda. Um passinho adiante, por favor, que tem mais gente vindo aí e eu não vim pra empacar o caminho de ninguém. Muito pelo contrário, quero é estrada cheia como a minha casa, e fluida como uma corredeira que a gente desce rio abaixo, sorrindo com os amigos. Não quero chegar primeiro, por que os primeiros sempre chegam sozinhos. Quero chegar junto.

Olha a gentileza, moço. Essa mesma que lhe lembraram de esquecer. Viu como ela é gente boa? Ao contrário do que muitos pensam, ela não te subtrai em nada. Muito pelo contrário. Ela te adiciona ganhos, companhia e respeito.

Por isso que eu peço licença.

Por que você ainda compra discos?

Sempre me perguntam por que eu ainda compro discos. A resposta é simples: por que eu não sei fazer minhas refeições andando. E apressado come cru. Sempre me senti estranho ao som que você carrega consigo e não divide com ninguém. A música, alimento da alma que por si só tem um forte caráter agregador, agora encontra-se presa em fones de ouvido que por sua vez prendem seus ouvintes. E aí cada um permanece no seu mundo, trancado.

Eu ainda pude presenciar amizades e paqueras que começaram com uma simples pergunta a respeito da voz que saía da caixa de som alheia. Aquelas melodias seriam a cola que uniria e acenderia outras afinidades. Sempre gostei dos discos por que eles eram mais que um balaio de arquivos numa caixinha eletrônica. Cada álbum possuía um conceito, um cuidado em seguir uma sequência harmoniosa e uma moldura visual caprichada que fosse uma extensão da obra.

Agora? Vejo muita coisa disposta como background do caminho pro trabalho, da volta pra casa, da malhação na academia, do esquente pré-balada. Muitas vezes baixamos uma música que achamos legal, sem nem saber o nome do artista. Pra quê serve isso mesmo? A velocidade crescente da informação jogada por aí nos põe numa overdose que nos rouba o tempo necessário para apreciar -e não consumir- a arte musical. Álbuns são a la carte, MP3 são bandeijões.

Da mesma forma que o tempero decai pela pressa do self-service, a qualidade sonora das músicas no formato MP3 também soa indigesta, comprimida e achatada aos meus ouvidos. Por apreciar a vibração das caixas do estéreo da sala de estar desde os três anos de idade, desenvolvi um gosto por contemplar a música, o efeito acústico do estúdio na voz do cantor, os detalhes do instrumento que quase ninguém percebe, ali, escondidinho entre a segunda estrofe e o refrão, tão importante pra mim, que aos meus ouvidos, a música seria nada mais que um corpo amputado de seus membros.

E a capa, e os encartes? E a lista de agradecimentos? Aquilo tudo me enche de satisfação, por estar registrado o amor e o suor empregado por um monte de pessoas que tiraram seus sonhos da folha de partitura para transformá-los em realidade aos nossos ouvidos. As datas de gravação, os estúdios utilizados, tudo isto me faz imaginar como são esses lugares por dentro, como foi a rotina de trabalho, se houve diversão, se houve conflito, se houveram noites em claro para deixar a canção da forma que imaginaram, as parcerias, os copos de bebidas, as saídas para buscar inspiração… Toda esta maravilha da coletividade criativa e emocional das relações humanas está presente naquelas obras que podem afirmar com orgulho: EU SOU UM DISCO! Eu nasci entre uma batucada na mesa e um piano no final da noite! Eu fui gerado por um grupo de pessoas, tão heterogêneas quanto uma colcha de retalhos, e tão harmoniosas quanto uma amizade que se entende com o olhar.

Perceber que por trás de cada canção há um conjunto de pessoas que assim como eu, possuem uma bagagem cheia de referências, lembranças e curiosidade, é como estabelecer um vínculo horizontal com os músicos. Nós os admiramos por que no fundo sabemos que eles são iguais a nós, que possuem a mesma fome. Isto talvez explique a relação sem contenção entre os artistas e seus fãs.

É por isso que apesar de toda a tecnologia que facilita a descoberta de novas canções, eu ainda compro discos. A enxurrada digital nunca irá mudar o processo de criação, que é intrinsecamente emoção.

Discos ainda são necessários.

Faça seu pedido. Mude seu menu.

Engraçado como ela sempre chega. Aquela hora em que não queremos mais nada do que tivemos até o momento em que não nos deixamos pressionar mais pelo tempo, por nós mesmos, ou pelos outros. É a hora em que simplesmente nos damos conta do que realmente importa. Para alguns, este momento de desprendimento chega cedo, para outros, um pouco mais tarde. Mas ele sempre chega. Tão certo e natural quanto a morte. Posso estar parecendo um pouco mórbido com esta comparação, mas é verdade.

A morte é só a última página de nossa história. Algumas pessoas conseguem alcançar tempo suficiente para serem enciclopédias, enquanto outras são contos ou estiveram aqui para ser alguns parágrafos, que tenha certeza, não foram escritos em vão.

O amadurecimento é uma morte. Morte de tudo aquilo que fomos antes dele chegar. Morte de uma pele que acumulou escamas demais, pesadas e desnecessárias, para dar lugar a uma nova que esteve se formando por dentro, mas esperava o momento certo para sair.

Àqueles que dizem crer na existência de pessoas que nunca aprendem com os próprios erros, um aviso: Cada um tem o seu tempo. Não há como definir características desta consciência, pois ela é um conjunto de vários acontecimentos e atitudes que nos alimentam por dentro.

Pode ser que você se sinta familiarizado com estas palavras e se sinta tranquilo por ter alcançado o seu amadurecimento. Pode ser que estas palavras te despertem o desejo de conhecer isto tudo e te deixem curioso pra saber como é esta sensação. Mas uma coisa é certa: Quando ela chegar você vai saber. E quando isto acontecer, você não verá fogos de artifício, nem se sentirá completo, como se estivesse no topo olhando pros outros que ainda seguem lá embaixo.

Você estará tranquilo e livre, e não se sentirá triste nem cansado por ver um outro caminho a percorrer com muito mais coisas para aprender. Você se sentirá feliz por poder enxergá-las e abraçá-las, com a curiosidade de uma criança que recebe o mundo sem receio, nem ideias pré-concebidas. Seu entusiasmo terá sabor de serenidade e segurança, por saber o que você realmente quer para si e para os outros à sua volta.

O que vivi nos últimos meses foram como um campo de testes onde todos os cálculos e teorias se comprovaram. Hoje eu posso dizer, feliz e tranquilo, sem soar piegas ou ingênuo, que não se deve fugir daquilo que fazemos de melhor, do que nos faz bem e nos faz crescer. Daquilo pelo qual sempre seremos lembrados e admirados.

Hoje eu não preciso mais enganar o estômago quando a minha fome por mais e melhor é o que me mantém firme. Justamente o contrário do que dizem em relação à incapacidade de um saco vazio ficar em pé. Da mesma forma que sabemos que petiscos e lanchinhos não nos satisfazem nem nos acrescentam em vitaminas, chega um momento em que o nosso coração e a nossa alma ficam enjoados como garçom de pizzaria, que não aguenta mais ver mozzarella na sua frente. A nossa procura por consistência nos ajudará a selecionar o que nos faz bem.

A última coisa que provei, por exemplo, foi estranha.

Fui apresentado a um prato com fama internacional, que aparentemente buscava paladares que pudessem apreciar o sabor especial que ele dizia possuir por dentro. Ele se mostrou vistoso e consistente como num anúncio de TV, mas era um pastel sem recheio. Aliás, de vento. O vento tem um pequeno problema. Ele pode ocupar espaços, pode inflar balões, pode dar formas, mas ele continuará sendo invisível e disperso por dentro das capas que ocupa. Sem elas ele não é nada.

Quantas vezes já estivemos com pessoas com as quais nos impomos o dever de procurar algum assunto, alguma coisa que faça jus aos minutos que dispomos ao lado delas, da mesma forma que tentamos nos enganar ao dizer que estamos curtindo a comida do hospital, quando na verdade estamos procurando o sabor nela?

Minha última refeição foi assim. Como muitos fast-foods que pipocam todos os dias por aí, o que mais importa é vender, e não manter os clientes. Depois que o sanduíche deixa o balcão, pouco interessa se alguém gostou, ou não. Não há esforço realizado após isso. Há muito mais pessoas dispostas a comer qualquer coisa do que aquelas que preferem andar mais um pouco até achar algo que preste.

Pois é. Engraçado como eu praticamente consumi um menu inteiro de tira-gostos de uns anos pra cá, achando que era natural me distrair com estas opções enquanto o prato principal não chegava. Esse foi o problema. Tira-gostos nos distraem. E chega um momento em que você se cansa deles.

Este foi um ano de tira-gostos. Tanto no lado pessoal quando no profissional. Não me sinto mal por não ter me cansado disso antes. Tudo tem o seu tempo. E agora, é apenas correr pro abraço, pros sorrisos que desenharei só quando tiver vontade, pras poucas calorias, e pro pouco, mas consistente, que levarei em minha bagagem daqui por diante.

Viva la vida.

Deve ser chato ser Clarice.

Hoje eu acordei com vontade de escrever. Fazia já algum tempo que eu sentia a necessidade de voltar a escoar as letras que se acumulavam dentro de mim. Estava satisfeito em tecer crônicas mentais e preservar a minha intimidade, mas agora sei que as esqueço e não aproveito as conclusões que retiro das situações, se eu não as deixar gravadas para que me acompanhem e puxem minhas orelhas a cada tentativa de repetição de erros às quais eu possa me expor inconscientemente.

Devia ser chato ser Clarice. Acordei com isso na cabeça. Será que a tão cultuada escritora tinha consciência do personagem que ela se tornou? Ou que a tornaram? Duvido que Clarice fosse Lispector o tempo inteiro. Será que a mulher do olhar blasé, gestos elegantes e repostas certas para qualquer tipo de pergunta era assim o tempo inteiro? Ou esta era a porta de entrada para a sua alma, que falava com os outros aqui fora a partir de um interfone, para se preservar? O que parecia íntimo talvez se utilizasse da fluidez das palavras para que outros dessem formas a sentimentos implícitos nelas. Dessa forma, poderiam compartilhar suas visões de mundo.

Clarice deveria ser inteligente demais para cair no lugar comum dos estereótipos que os outros construíam a partir dela. Ou talvez ela fosse assim o tempo inteiro por que gostasse de contemplar as coisas que a rodeavam. Ou talvez se eu fosse ela, acharia uma boa pular uns três livros na estante e ir tomar cerveja com a Hilda Hilst.

Caio, então, nem se fala. Será que ele apreciaria todo o culto em volta do mar revolto do qual ele se cercava? Não que ele não mereça toda a apreciação em torno de sua pessoa e sua obra. Mas será que algum dia ele se perguntaria se era apenas isso que as pessoas esperariam dele? A melancolia? A fragmentação? E se um dia ele acordasse com uma boa dose de ansiolítico na alma? Ele se esforçaria para ser o Caio que as pessoas estavam acostumadas a ler?

É disso que tenho medo. Sei da minha natureza. Na maioria dos casos, ela sempre encontra espaço para tentar fazer as coisas parecerem mais leves do que são, deve ser uma defesa minha para extrair energia e seguir o percurso que eu estou trilhando. Mas tem horas que o saco de piadas se esvazia e os outros podem não me compreender.

É disso que falo agora. Nunca seremos cem por cento isso ou aquilo. E muitas vezes, temos medo de usar outras tintas em nossas telas, medo de não receber mais elogios pelo que pintamos. Nos tornamos uma galeria que aposta em fórmulas de sucesso fácil de público, que cai na tentação cômoda de nunca se renovar, ou pelo menos nunca deixar que outras cores quebrem a harmonia e convivam no mesmo quadro.

Devia ser chato ser Clarice, às vezes. E também o Caio deveria gostar de ter momentos apenas seus, de mais ninguém, descansando o Fernando Abreu em algum cabide no guarda-roupa.

Gosto muito do que sou, mas aprecio muito mais aquilo que geralmente eu não sou. É quando me sinto mais verdadeiro e honesto comigo mesmo. E acreditem, não é fácil pra ninguém sair da comodidade da familiarização de um consigo mesmo que também é talhado lá fora da pele.

Mas quando você se permite fazer isso, é liberdade na certa. Este é um exercício que tento fazer sempre. Sorrir só quando tenho vontade.

Não estou sorrindo agora. Mas me sinto muito feliz por isso.

Texto de Juliano da Hora

Foto de Claudia Andujar