Batuque na cozinha sinhá num qué… samba com feijoada.

O Celophane Cultural continuando em rítmo de samba, vai buscar na culinária a mistura mais perfeita que existe: Samba e Feijoada.

O Artigo foi retirado da Revista Continuum

do Itaú Cultural de Janeiro de 2010

“Muito já se falou sobre o samba nas letras das canções. Que ele é branco na poesia e negro demais no coração;
que ele é pai do prazer e filho da dor; que ele é o grande poder transformador; que quem não gosta de
samba bom sujeito não é; que o samba da minha terra deixa a gente mole; que o morro foi feito de samba;
que um samba quente, harmonioso e buliçoso mexe com a gente e dá vontade de viver… Muito também já
se refletiu (e com certeza vai se refletir) sobre o samba em teses, artigos, debates.

Para dar sua contribuição ao tema, nesta edição a Continuum se concentrou em alguns dos aspectos que ajudaram a construir o imaginário do samba ao longo dos séculos”

Samba de Mesa Posta

Reportagem  por  Maria Lutterbach

Em poucas horas, o salão e a calçada do bar ficarão lotados de gente alegre dançando. Por enquanto, o barulho vem das tampas de panela e da faca ligeira sobre a tábua de carne. Quem orquestra a pequena equipe durante a feitura da feijoada no bar Você Vai se Quiser, na Praça Roosevelt, em São Paulo, é dona Maria Inês, a Tia Inês, ex-porta-bandeira da escola de samba paulistana Nenê de Vila Matilde. Com a ajuda dela, em cinco anos o caldeirão dobrou de tamanho e mais uma roda de samba se levantou em torno do prato que é preferência nacional.

Tia Inês e sua sobrinha, a cantora Graça, na cozinha do Você Vai se Quiser - foto: Revista Continuum

 

Quando a feijoada desliza do balcão pelas mesas, o bumbo soa no salão, onde a anfitriã é outra mulher da família.”Costumava sair da cozinha e correr para cantar no palco”, lembra a cantora Graça Braga, que hoje cuida só do microfone, mandando clássicos como o samba-enredo da Mangueira que rima acarajé com samba no pé. À base de muita cantoria e cerveja, a temperatura do lugar sobe e a celebração segue noite afora.

 

 

Esse clima de banquete ritmado que a Roosevelt experimenta todo sábado é ressonância de uma antiga conexão entre samba e comida. Nas senzalas, as festas de oferendas aos santos já anunciavam os primeiros passos do samba de roda, que serviria de base para outras variações do gênero – como o samba carioca. Uma das heranças das noites afro-baianas é o prazer em reunir família e amigos para saborear pratos suculentos em longas jornadas de batucada.

 

Professora dessa arte no Sudeste, a lendária Tia Ciata (Hilária Batista de Almeida), nascida em 1854, se mudou jovem da Bahia para o Rio de Janeiro. Na cidade, a quituteira continuou a dar as festas pelas quais havia sofrido perseguição policial em Salvador. As noites musicais oferecidas na casa dessa filha de Oxum, na Praça Onze, no Rio, renderam o primeiro samba gravado em disco, “Pelo Telefone”, assinado por Donga e Mauro de Almeida em 1917.

 

 

 

“Baixou fariseu na jogada”

O legado de Tia Ciata contagiou as gerações seguintes e, ainda hoje, seu espírito festivo paira sobre o Rio. Não deixa de ter o dedo da mestra baiana, por exemplo, o surgimento do restaurante Zicartola, na década de 1960. Durante anos, ele foi um templo do samba, embalado pelo bom papo de Cartola e pelo tempero de Dona Zica, mitológico no Morro da Mangueira. O lugar, na Rua da Carioca, centro do Rio, começou a perder o charme ao ser invadido por uma clientela que não acompanhava a cadência dos bambas. “Baixou fariseu na jogada. Em lugar do cheirinho gostoso das cocadas no repinicado do samba quente, havia perfume francês e uísque”, escreve o jornalista João Antônio Ferreira Filho no livro Zicartola – E que Tudo Mais Vá pro Inferno! (Scipione, 1991).

Zicartola - Fonte Almanaque Brasil - Matéria: Fogão + violão x Zicartola = Renascença do Samba

 

Lá pelos lados da Portela, a comilança em volta do pandeiro sempre foi liberada para todos e continua sendo atração na escola. Palmas para as pastoras da Velha Guarda, catequizadas pela saudosa Tia Vicentina – aquela do feijão divino cantado por Paulinho da Viola. No início feita com dinheiro do bolso das sambistas, a feijoada das tias Surica, Doca, Eunice e Áurea virou instituição.

 

Tia Surica na "Feijoada da Família Portelense" Foto de Divulgação: Luis Clever

 

“Eu também fazia peixada, galinha com quiabo e rabada, mas casa cheia mesmo era com feijoada”, conta Tia Surica, que criou depois a ala Feijão da Tia Vicentina, formada pela turma da cozinha. O festim no “cafofo da Tia Surica” cresceu tanto que foi assumido pela diretoria da Portela e hoje ocupa a quadra da agremiação. A iguaria continua sendo preparada pela cantora, mas agora é servida num almoço promovido no tradicional Teatro Rival, no fim de cada mês.

Outros episódios sobre as damas da Portela aparecem no livro Batuque na Cozinha, de Alexandre Medeiros (Casa da Palavra, 2004), e no curta homônimo lançado pela diretora Anna Azevedo no mesmo ano. “O samba nasceu e cresceu no quintal dessas tias. Ali, a gente passava a noite toda cozinhando e dançando”, diz Eunice no vídeo. Do fogão de Doca, que morreu neste ano, ficou a lembrança de sua concorrida sopa de ervilha. Depois de se separar do marido, a sambista passou a ganhar a vida realizando o popular pagode da Tia Doca, onde se criaram sambistas como Zeca Pagodinho.

 

 

Cantina adentro

Longe dos morros e debaixo da garoa, Adoniran Barbosa e seus comparsas também brilharam ao combinar samba e sabor. Com lugar cativo no extinto restaurante Parreirinha, em Santa Cecília, São Paulo, o compositor, descendente de italianos, fez parte da patota que se encontrava para beber, comer e fazer samba. Não muito longe dali, em outro reduto de artistas, no bar Mutamba, ele compôs “Torresmo à Milanesa”, em 1979.

 

 

Parceria com Carlinhos Vergueiro, a letra fala sobre a refeição levada na marmita pelos operários.”Chamava-se originalmente ‘Bife à Milanesa’, mas o Adoniran falou para trocar por ‘Torresmo à Milanesa’ porque era mais triste”, afirma o biógrafo do sambista, Celso Campos Jr., autor de Adoniran – Uma Biografia (Globo, 2004).

Mesmo tendo morado pouco tempo no Bixiga, Adoniran ficou associado ao bairro italiano por músicas como “Um Samba no Bixiga”, de 1956. Com os versos “Saiu uma baita duma briga/era só pizza que avoava junto com as brachola”, ele ambientou o samba nas cantinas, até hoje frequentadas por amantes do estilo. “Aqui em São Paulo, todo mundo sai do pagode e vai para a cantina comer espaguete, pizza e continuar tomando cerveja”, diz o compositor Paquera Miranda, presidente do Samba da Vela, reunião de sambistas realizada em Santo Amaro.

 

 

Para aguentar firme as horas de cantoria e remelexo, o público do Samba da Vela se abastece com uma sopa servida em diferentes versões a cada semana. Uma das receitas é o peixe-galo, que leva camarão seco ao azeite de dendê e um toque de coentro e cebolinha verde. Fundado há nove anos, o culto musical e gastronômico agrega cantores, músicos e simpatizantes em volta da vela acesa. Quando a chama finalmente se apaga e os pés pedem descanso, o ritual continua no paladar.

 

 

Se deu fome:

Receita de Feijoada

Bom apetite e não esquece de chamar o pessoal do samba.

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Antonio Nóbrega – “Naturalmente” Brasileiro

“O sonho de Nóbrega, de fazer para a dança brasileira o mesmo que Villa Lobos e Radamés Gnatalli operaram para a música, não parece assim tão remoto.” escreveu Walnice Nogueira Galvão, professora titular de teoria literária e literatura comparada na Universidade de São Paulo, sobre “Naturalmente – Teoria e Jogo de uma Dança Brasileira

Ainda segundo Walnice, vem de longe o desejo de Nóbrega de apresentar publicamente algumas considerações que elaborou em seu percurso, sobre  as possibilidades da constituição de uma dança contemporânea de matrizes populares.

Fruto primoroso da relação de Nóbrega com a dança, Naturalmente une riqueza de informações ao refinamento artístico que faz deste espetáculo uma obra maior da arte brasileira.

Filho de médico, nascido em Recife -1952, aos 12 anos ingressou na Escola de Belas Artes do Recife. Foi aluno do violinista catalão Luís Soler e estudou canto lírico com Arlinda Rocha.

Com sua formação clássica, começou sua carreira na Orquestra de Câmara da Paraíba em João Pessoa, onde atuou até o final dos anos 60. Na mesma época participava da Orquestra Sinfônica do Recife, onde fazia também apresentações como solista.

Nóbrega com seu Violino, instrumento que quase fala em suas mãos.

Em 1971 Ariano Suassuna procurava um violinista para formar o Quinteto Armorial e, após ver Antônio Nóbrega tocando um concerto de Bach, lhe fez o convite que mudaria completamente sua carreira musical.

Quinteto Armorial por J. Borges - Xilogravura

Antônio Nóbrega, que até essa ocasião tinha pouco conhecimento da cultura popular, passou a manter contato intenso com todas suas expressões como os brincantes de caboclinho, de cavalo-marinho e tantos outros, que passou a conhecer e pesquisar.

O Dia que eu ví a LUZ deste artista:

Conheci o Nóbrega por acaso num festival de dança do Rio de Janeiro, em 1990, onde ele sozinho apresentou o solo: “Figural” naquele  imenso palco do Teatro Municipal. Um furacão que tirou o fôlego da platéia especializada e consumidora de Dança. Um espetáculo em que Nóbrega, sozinho no palco, muda de roupa e de máscaras para fazer uma das mais ricas demonstrações da cultura popular brasileira e mundial.

fotos de "Figural" Máscaras e adereços de Romero de Andrade LIma 1990

Foi paixão á primeira vista.  E acompanho sua carreira deste aquele iluminado dia.

Nóbrega revelou-se um fenômeno, ao conseguir unir a arte popular com a sofisticação. É, literalmente, um homem dos sete instrumentos, capaz de cantar e dançar.

Os Espetáculos

Seus principais espetáculos são: “Na Pancada do Ganzá”, “Madeira que Cupim não Rói”, “A Bandeira do Divino”, “Mateus Misterioso”, “Figural”,”Pernambuco falando para o Mundo”, “Marco do Meio Dia”, “Lunário Perpétuo” e “Nove de Frevereiro”

Site Oficial – Antonio Nóbrega

 

Foto por Marco Aurélio Olimpo

Entrevista muito bacana  feita ao Nóbrega por Marco Antonio Coelho e Aluísio Falcão:

Foto de Naturalmente - fonte: flickr do Festival

Defesa de uma dança brasileira

Por Tatiana Meira – Diário de Pernambuco
“Existe mesmo uma dança brasileira contemporânea, construída a partir de matrizes populares? Antonio Nóbrega tenta responder a este e outros questionamentos, convidando o público à reflexão em Naturalmente – Teoria e jogo de uma dança brasileira.

Em Naturalmente, Antonio Nóbrega – pernambucano morando em São Paulo há três décadas – intercala performances e números de dança com sua faceta de pesquisador da cultura popular, falando sobre as razões que o motivaram a tentar codificar uma linguagem brasileira de dança. Em cena, ele é acompanhado por duas bailarinas (Maria Eugênia Almeida, sua filha, e Marina Abib, que dividem com ele também as criações coreográficas) e oito músicos.

Diferentemente da música e da literatura, a preocupação com o segmento da dança é pequena. O Brasil precisa da base de uma cultura sólida para conseguir dialogar com outras culturas nesta grande roda cirandeira do mundo“, poetiza o dançarino, cantor, compositor e violinista.

Abertura do espetáculo onde nóbrega executa uma musica acompanhado de um vídeo com os diversos tipos e estilos de dança brasileiros, a matriz de onde ele absorveu seu trabalho.

As várias demonstrações das “Danças” brasileiras,  que assistimos no espetáculo, podem ser conferidos na série de 28 vídeos produziodos pelo Canal Futura.

“Viajando pelo Brasil, procurando conhecer e aprender os passos, gingados dos dançarinos populares, aprendemos que as danças circulam, e que o corpo informa sobre a vida de cada dançarino.”

Documentário produzido pelo Canal Futura, apresentado por Antônio Nóbrega e Rosane Almeida . confira: “Danças Brasileiras

Como a dança seduziu o músico:

Nóbrega conta que foi seduzido para a dança aos 19 anos, quando viu um Mateus, figura do bumba-meu-boi, em ação. Desde então, passou a acompanhar vários artistas populares, como os passistas de frevo, os “dançadores” de caboclinho, os ternos de zabumba com seus volteios e passos.

“Nenhuma dança tem prevalência no espetáculo, mas não deixo de ressaltar a riqueza vocabular do frevo, que revolucionou com mais amplitude a linguagem brasileira oriunda deste universo. Faço um frevo desfrevado, que é desconstruído para ser reerguido de outra maneira”, confessa Nóbrega, ao detalhar o trabalho independente que estreou em 2009. “Um dos piores danos na nossa sofrida contemporaneidade cultural é sua folclorização. Se colocamos o frevo numa estante, com roupinha estilizada e passinhos iguais, ele se enfraquece”, exemplifica.

Numa entrevista, Ariano Suassuna, diz que quando Nóbrega  tocava no quinteto, seus pezinhos não paravam de se movimentar dançando… inquieto um verdadeiro “Brincante”.

 

Apresentação de Naturalmente no Festival Internacional de Dança no Recife

Nóbrega ganhou prêmios importantes. Em 2009 a revista Bravo! escolheu Naturalmente como o melhor espetáculo de dança produzido no Brasil na primeira década do século XXI.

Não é pouca coisa né?

 

O Documentário

Em breve teremos a grata oportunidade de assistir ao documentário dirigido por Walter Carvalho que vai receber o nome de “Brincante”, reúne referências do próprio autor.

 

Naturalmente – Teoria e Jogo de uma Dança Brasileira

Direção e concepção: Antonio Nóbrega

Coreografias e atuação: Antonio Nóbrega, Maria Eugenia Almeida e Marina Abib

Figurinos: Eveline Borges

Máscaras e figurinos do espetáculo Figural: Romero de Andrade Lima

O DVD de Naturalmente, dirigido por Walter Carvalho, está a venda nas lojas do SESC SP.

Livreto que acompanha do DVD:

Um abraço “Naturalmente” Brasileiro a quem passa por aqui.

Vídeo do Lunário Perpétuo:

O Nosso “Raloin” é Caipira – 31 de Outubro dia do “SACI”

No Brasil o “Raloin” é CAIPIRA porque temos a nossa própria assombração, voce se lembra daquela figura que tem uma perna só, sacana, defensor das matas, fumador de pito, com gorrinho vermelho, ta sempre aprontando por ai, no meio do redemoinho: sim é ele mesmo, no Brasil dia 31 de Novembro, é dia do SACI.

Em Tupi Guarany – SACI quer dizer “Irriquieto”

Os Defensores

Um grande responsável por manter viva nos dias atuais da “crença” no SACI é uma  sociedade que acredita e se compromete a manter viva a imagem deste representante genuinamente Brasileiro: A Sociedade dos Observadores do Saci – SOSACI


Por que “raloins”, duendes e gnomos? Nós, brasileiros, temos nossos próprios mitos, que não ficam nada a dever a esses importados, comerciais, que são usados para anestesiar a auto-estima do nosso povo. Respeitamos os mitos dos outros, mas não queremos que eles sejam usados pela indústria cultural como predadores dos nossos. Cada vez mais, muitos brasileiros começam a compreender isso.  Uma  prova é a onda de adesões que a Sosaci (Sociedade dos Observadores de Saci) vem recebendo de vários pontos do país. O Saci, a Iara, o Boitatá, o Curupira, o Mapinguari e muitos outros brasileiros legítimos estão aí para serem festejados, sem espírito comercial, como nossos legítimos representantes no mundo do imaginário popular e infantil.
Viva essa turma boa!

O Dia do Saci consta do projeto de lei federal nº 2.762, de 2003 (apensado ao projeto de lei federal nº 2.479, de 2003), elaborado pelo então líder do governo Aldo Rebelo (PCdoB – SP) e Ângela Guadagnin (PT – SP) com o objetivo de resgatar figuras do folclore brasileiro, em contraposição ao “Dia das Bruxas“, ou “Halloween”, da tradição cultural dos Estados Unidos da América. Propõe-se seja celebrado em 31 de Outubro. Anteriormente, consta que iniciativas semelhantes já tinham sido aprovadas na Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo e na Câmara Municipal de São Paulo.

Lei do SACI

A SOSACI fica em São Luiz do Piraitinga e mantem uma exposição permanente noMuseu afro Brasileiro – SP com peças da sua coleção.

Estátua do Saci em exposição no Museu Afro Brasileiro - SOSACI

fotos dos Sacis expostos

Museu Afro Brasil

As várias faces do Saci?

Em seu livro Conversas ao pé do fogo, Cornélio Pires deixou-nos este retrato do endiabrado saci:

“É um molequinho deste porte… risonho e cavorteiro como ele só… Tem de uns pretinho e já hai de uns mulatinho, mestiço de saci português, que us buava truxero pro Brasir no tempo de dante. Tem uma perna só, os óios aceso, sempre reganhado airrindu, mostrano os dente, pulano, granfino e desfrangino a testa, topetudinho cumo mico… É levado da breca e gosta de brincá de vira-mundo no rodamuinho de poêra c’o vento… PRa caçar os tár é perciso fazê um laço de rosário. Moram sempre em cima dos morão das portera e nas encruziada. Cavaleiro que passá na meia-noite de sexta-feira, já sabe: o tarzinho amunta na garupa e garra a fazê cosca que dexa um vivente por nada. O gosto do saci é amuntá e judiá dos animar no pasto, galopeano e trançano a crina. O reméde é marrá um dente de áio no cedenho do cavalo. Im burro eles num munta: são tosado”.

Ilustração do saci sobre um cavalo trançando sua crina

Não há país do mundo que não tenha incorporado a seu folclore e à sua própria vida, lendas e histórias fantásticas criadas na imaginação do povo. Embora a grande maioria seja de caráter internacional, como as crenças a respeito do lobisomem, dos vampiros e fantasmas de toda ordem, há algumas que têm características tipicamente regionais, originadas que foram do modo de vida em cada lugar.

No Brasil, por exemplo, embora as lendas variem acentuadamente de região para região, em todas pode ser encontrada o que os psicólogos chamam de “busca de uma ilusão” que, segundo a voz popular, “não faz mal a ninguém”.

Assim, o negrinho do pastoreio, do Rio Grande do Sul, o uirapuru, do Amazonas, o caipora, da região do Rio Negro e Pará, o saci pererê, da região leste e o boitatá, também do sul, são alguns dos mitos brasileiros já incorporados à música e à literatura do país.

A figura do Saci a princípio surge como um ser maléfico, mas pode ser somente brincalhão ou gracioso, conforme as versões comuns no sul do Brasil. Na Região Norte, a mitologia africana o transformou em um negrinho que perdeu uma perna lutando capoeira, imagem que prevalece nos dias de hoje. Herdou também, da cultura africana, o pito e o cargo de Defensor das matas se misturando á figura de Oassain. Veio da mitologia européia, o píleo, um gorrinho vermelho usado pelo lendário trasgo.

Na cultura afro, a imagem de Ossain é sincretizada com o Saci, devido ao fato do Orixá ser o defensor do poder que vem das folhas.

Todos os sacis reunidos através da tradição oral

O primeiro escritor a se voltar de verdade para a figura do Saci-Pererê foi Monteiro Lobato, que realizou uma pesquisa entre os leitores do jornal O Estado de São Paulo com o título de “Mitologia Brasílica – Inquérito sobre o Saci-Pererê“, Lobato colheu respostas dos leitores do jornal que narravam as versões do mito, no ano de 1917. O resultado foi a publicação, no ano seguinte, da obra Saci-Pererê: resultado de um inquérito, primeiro livro do escritor. Depois o Saci assim como seus amigos da mata viraram personagem do célebre Sítio do Pica Pau Amarelo. O Inquérito pode ser encontrado nas livrarias em sua nova edição de 2008 comemorando seus 90 anos.

Monteiro Lobato nosso defensor da fantástica tradição oral

Segundo o estudioso: Luís da Câmara Cascudo

O inquérito fora feito no estado de São Paulo. Depoimentos inúmeros evocaram o saci unípede, pretinho, com um só olho, atrapalhando todas as coisas vivas, assobiando e assombrando. Um traço característico era a carapuça vermelha que o usa o saci no cimo da cabecinha inquieta. Essa carapuça é encantada. Faz o saci ficar invisível. Todas as “forças” vêm desse barrete. Quem lho arrebatar terá direitos completos sobre o negrinho poderoso. Poderá exigir o que quiser. O saci dará riquezas, poderios, grandezas, para que lhe restituam a carapuça. O sr. Luís Fleury, de Sorocaba, prestou depoimento dessas tradições. Narrou que o saci fizera aparecer um monte de moedas de ouro para receber seu barretinho. O ouro sumiu-se porque o viajante esquecera de benzê-lo (Inquéritos, 180).

Publicado no site: Revista Jangada Brasil

O Saci vira astro da TV, Documentário e quadrinhos:

Com a transposição dos textos de Lobato para a Televisão, o Saci deixou o imaginário para ser personificado numa figura de carne e osso e sua imagem se firmou com grande alcance e simpatia do público.

Existe um documentário sobre o Saci feito por Sylvio do Amaral Rocha e Rudá K. Andrade. Somos Todos Says refaz o caminho do Inquérito de Lobato e resignifica o mito hoje. Fruto de longa pesquisa em comunidades rurais, vilas e pequenas cidades do Vale do Paraíba, Vale da Ribeira e da região de Botucatu, o filme dá voz a pessoas que dizem ter visto ou ouvido sacis. Rudá e Sylvio ficaram um ano e meio na realização do projeto, reduzindo o material recolhido para 50 minutos. A pré-estréia de “Somos todos Sacys” ocorreu no MIS, em 27 de abril de 2005. Dois dias depois, foi exibido pela Rede STV (Sesc Senac).

Somos todos Sacys – Vídeo

Ziraldo não criou apenas um personagem, mas uma turma essencialmente Brasileira a Turma do Pererê, com aventuras pra lá de fantásticas.

Como prender o “Danado”

Temido por alguns, que vêem nele uma entidade maléfica, o saci pererê tem sido através dos séculos, o motivo de alegria e zombaria para a garotada que sai à sua procura em dias de ventania.

Conta a lenda que nesses dias, quando há redemoinhos de poeira e folhas secas, o saci aparece no meio deles, dando gargalhadas e assobiando. Embora jamais alguém o tenha conseguido, afirmam os supersticiosos que, quem um dia prender o saci e colocá-lo sem o seu gorrinho dentro de uma garrafa bem fechada e com uma cruzinha na rolha, terá para sempre seus pedidos atendidos por um ente humilde e obediente. Mas, é importante que se tire o gorrinho vermelho, origem de toda a força do tal negrinho.

A forte imagem do saci será sempre eternizada por aqueles que acreditam em sua existencia.

Bom, voce acreditando ou não, o danado Saci existe, muita gente já viu, já ouviu seu assobio, já riu muito e  já sofreu com suas brincadeiras, outros o tem guardado numa garrafa. Acreditar no Saci é manter vivo dentro de si o “encantamento”, a tradição do nosso povo, a nossa cara Caipira.

Em tempos de Sustentabilidade, evocamos nosso maior representante defensor das matas  pra pra dar um baita susto naqueles que querem, de forma absurda e insensível, destruir nossas matas e o poder que vem das nossas folhas.

Salve o Saci

Saiba mais:

Manifesto do Saci – ou – Manifesto Antropofágico Revisitado –

Quer se aprofundar mais no assunto:

Bibliografia sobre o Saci

O Blog saci urbano recebe e publica fotos de Grafites com o perneta.

iva essa turma boa!

Os “Caminhos do santo” e a peregrinação para São Paulo

Como “Caminhei” até os santos

Em uma das minhas visitas a Recife conheci o simpático Museu de Arte Popular de Recife, assunto que muito me interessa, e visitei a Exposição: “Os Caminhos do santo” (sim com “s” minúsculo) e foi amor a primeira vista. Conheci a Marcela Wanderlei a jovem coordenadora da instituição e curadora da mostra que faz um recorte do belissimo acervo do MAP com a contribuição de algumas peças do Museu do Homem do Nordeste. Logo me veio a cabeça: temos que levar esta riqueza pra São Paulo. Uma amizade e encantamento pela pessoa da Marcela fez com que uma parceria se estabelecesse e a mostra  “Caminhos do santo” está disposta a  peregrinar em direção a São Paulo.

O MAP

O Museu de Arte Popular, localizado no Pátio de São Pedro – Recife – PE, possui um acervo representativo de todos os estados do Nordeste do Brasil. Obras com alta carga expressiva, que refletem as vivências, a imaginação e a memória do(s) povo(s).

Páteo de São Pedro - Local de inumeras manifestações Culturais em Recife Foto: Leão Barros, Sandra Augusta


A Religiosidade Popular

Na religiosidade popular, as práticas de comunicação e reafirmação do relacionamento com o sagrado nos permitem vislumbrar como os romeiros, os devotos vivenciam suas experiências cotidianas e as relacionam com um imaginário devocional e de proteção historicamente situado.

Detalhe da Exposição: Foto Jefferson Duarte

Experiências religiosas como a verificada em torno do Padre Cícero, o processo de sacralização dos espaços e do cotidiano, articulado aos símbolos, rituais e mitos fundantes de uma crença, desenham comportamentos, indicando referências e apontando uma ética que se desdobra em narrativas: cruzes de estrada, ex-votos, os santeiros da madeira, a heresia dos santos de barro, a fé, um emaranhado de leituras que compreende um forte veio da cultura e o Museu de Arte Popular, de acordo com o acervo que possui, não poderia se furtar a passear por este que é um dos muitos caminhos que alimentam e refletem a biografia da arte. Continuar lendo

Uma “Casa Grande” cheia de Cultura, Memória e Educação.

O Celophane Cultural vai a Nova OLinda conhecer uma Casa Grande, grande devido ao seu valor cultural, social e de preservação da Memória de um povo.

Logo da Fundação - foto: AUGUSTO PESSOA


A Casa Grande da Fazenda Tapera, no Sertão do Cariri, é uma escola de gestão cultural, hoje  Fundação Casa Grande é sem dúvida uma das ações culturais mais transformadoras de nosso país. Não é por acaso, que é POnto de Cultura e várias vezes premiada no Brasil e no exterior. Ordem do Mérito Cultural e medalhas de Mérito de vários estados brasileiros. Também, Chindren’s World, Unicef, Fellow, entre tantas.

A famosa fachada azul simbolo da fundação - Foto Divulgação

Praça central da fundação - Foto Jefferson Duarte

Possui programas voltados para memória, artes, comunicação e turismo. Conta com laboratório de conteúdos com gibis, CDs, DVDs, informática. Laboratório de produções com rádio, TV, teatro e editora; pesquisa arqueológica, lendas e mitos do Araripe e um Memorial do Homem Kariri.

Além do trabalho com os meninos a Fundação é muito presente no dia a dia da pequena Nova OLinda

A fundação é um lugar maravilhoso de se estar, vivo, pulsante e alegre - foto: AUGUSTO PESSO

Os Produtos embalados prontos para o Mercado

São palestras, espetáculos, cursos e até consultoria. Tudo num círculo virtuoso que vai e volta sempre para a gente cearense de Nova Olinda. Mas, vale ressaltar, com impactos profundos com o seu exemplo e resultados para toda nossa cultura popular.

O caldeirão Cultural chamado Cariri:

O Cariri é localizado na Chapada do Araripe delimitada geograficamente por três estados: Ceará, Pernambuco e Piauí. Conhecido como terra do Padre Cícero, é um oásis no centro do seco sertão nordestino, lugar que foi habitat de populações humanas desde a pré-história, herdando dos seus primeiros habitantes, os índios Kariri, o seu nome regional, de quem herdou também a herança em patrimônio material e imaterial. A região é fortemente marcada pela presença de mitos, lendas, rituais, festas, religiosidade, música, danças, grutas com expressões gráficas rupestres, santuários entre outras formas de riqueza e patrimônio cultural.

Pioneiro da conquista do sertão do Ceará, o Cariri foi colonizado por baianos da Casa da Torre de Garcia D’Avila que ocuparam as terras indígenas com a pecuária que ali introduziu a civilização do couro no final do século XVII.

Expedição Caminhos da Chapada

A Casa Grande tem origem no Ciclo do Couro entre os séculos XVII e XVIII no nordeste brasileiro. Na década de 70, a Casa Grande foi abandonada e se transformou em ruínas. Em 1983 Alemberg Quindins e sua esposa Rosiane Limaverde, iniciaram uma pesquisa de campo coletando lendas regionais para comporem músicas que resgatassem a pré-história do homem Kariri. Em suas andanças pelo sertão, além de várias lendas, foram desvendando todo um acervo arqueológico.

EXpedito Seleiro - um dos mais famosos artitas do couro de Nova Olinda - seus trajes já foram utilizados em várias séries de TV e no cinema foto: Tereza Raquel

Em 1992 resolveram restaurar a velha casa grande da Fazenda Tapera, para dentro, funcionar o Memorial do Homem Kariri. A casa foi tombada como patrimônio histórico municipal e foi criada a Fundação Casa Grande.

A pré-história foi relacionada com a vida dos moradores, orientando-os na preservação, e surgiu a idéia de deixar que as crianças escrevessem as legendas, a fim de que a exposição ficasse mais inteligível para todos. Mas a Casa era muito grande e havia espaço para mais atividades.

E as necessidades eram maiores ainda. Os jovens queriam produzir música. Foi montada uma banda – uma não, algumas. Faltava cinema, montaram uma videoteca. Faltavam livros, montaram uma biblioteca. Faltava teatro, construíram um teatro. Tudo muito simples e utilizando apenas os recursos de que dispunham, mas feito com muito esmero (como na música de Vinicius) e com tudo que um bom centro cultural precisa: cenotecnia, equipamento de iluminação, som, bancos na platéia, área de descanso. Com um museu de qualidade próximo de casa, bandas de música, oferta de filmes que não passam na TV, livros que dificilmente chegariam ao vale e teatro, os moradores quiseram mais. Emissora de rádio, internet, TV local.

foto da antigaCasa Grande da fazenda Tepara - reprodução

Nas paredes da casa a Memória de seus moradores ainda permanece com fotos flores e altares como se eles abençoassem esta iniciativa tão importante para NOva Olinda.

Altar no interior da casa, tradição nordestina - com as fotos da familia que viveu ali protege a Fundação Casa Grande - Foto: Jefferson Duarte

Cada cômodo da casa tem o nome de um dos moradores, uma forma de respeito a quem viveu ali e de alguma forma abençoa a existencia da Fundação - Foto: Jefferson Duarte

Hoje a Fundação Casa Grande trouxe o Cariri para o mapa maior da nossa Cultura com C maiúsculo, respeitando suas tradições, respeitando seu povo e oferecendo a cultura como meio e fim de um trabalho que inova e resgata o melhor do Brasil.

Logo do Memorial do Homem Kariri - foto: AUGUSTO PESSOA

Algumas das ações reconhecidas e premiadas:

A banda: Os Cabinha

Eles têm entre 9 e 11 anos, e estão em turnê. Os Cabinha é a terceira geração da banda de lata da Fundação Casa Grande, que toca com seus instrumentos de brinquedo, construídos por eles mesmos.

No show, o repertório é de rock, ou melhor, uma sátira a ele. Eles brincam com o “mundo rock” adulto, imaginando que estão tocando, enquanto a platéia acredita que está ouvindo. A postura é ainda de menino de interior, ou cabinha, como chamam os pequenos “Caba” (referência a homem) no sertão do Cariri.

Ao longo dos anos, os meninos da bandinha, que tem tradição de iniciação musical, se apresentaram ao lado de nomes como Lobão e Arnaldo Antunes, além da participação no espetáculo Mãe Gentil, de Ivaldo Bertazzo, com Zeca Baleiro. Também foram personagens do documentário Música do Brasil, de Belisário Franca.

Em abril de 2008 essa nova geração, formada por Arthur, Iêdo, Momô, Renê e Rodrigo se apresentou no palco do Itaú Cultural, em São Paulo. Selecionados pelo projeto Rumos, foram as únicas crianças a participar do projeto. Considerada uma das melhores formações, eles puderam contar com a tecnologia do estúdio da Fundação para gravarem seu primeiro cd, em que cuidam de todas as etapas: da composição das músicas à gravação em si.

Banda já conhecida internacionalmente "os Cabinha" - Foto: João Paulo Maropo

Com suas guitarras e baixos feitos de madeira, acompanhadas de percussão e bateria compostas de latas, Os Cabinha, como bem identificou o músico Maurício Pereira, deseletrificou o rock, tantos anos depois do rock ter eletrificado a guitarra.

Preservação:

A Fundação Casa Grande vem desenvolvendo uma proposta de educação patrimonial unindo educação e pesquisa através de um dinâmico e sistemático programa de formação, trabalhando para a identificação dos bens culturais de natureza material e imaterial, os sítios arqueológicos e mitológicos do Cariri com objetivo de manutenção de um banco de dados que revela o património cultural e a evolução da ocupação humana na Chapada do Araripe em sua pré-história, servindo de instrumento para a aplicação das políticas públicas de preservação nacional.

crianças na capacitação sobre os antepassados indios kariris - Foto João Paulo Maropo

OUtra iniciativa da Fundação é a Oficina de Revitalização de Fachadas

Preservar a memória e a identidade cultural da comunidade através da restauração casas do sertão, suas fachadas e platibandas, valorizando a organização, o trabalho comunitário e a reunião: escola, pais e filhos..

Os objetivos:

– Incentivar à conservação do patrimônio histórico e material.

– Repassar técnicas de restauração.

– Resgatar valores identitários da comunidade.

– Incentivar a organização da comunidade em mutirão.

– Reunir pais, filhos, familiares e escola em prol de um objetivo comum.

– Identificar lideranças na escola e na comunidade.

– Repassar noções e conceitos de programação visual, levando em consideração as cores e a geometria de cada casa.

Ruinas que empoderam

O empoderamento social nos Pontos de Cultura deve ser entendido enquanto processo pelo qual podem acontecer transformações nas relações sociais, culturais, econômicas e de poder. Ao concentrar sua atuação nos grupos historicamente alijados das políticas públicas, o Ponto de Cultura potencializa iniciativas já em andamento, criando condições para um desenvolvimento econômico alternativo e autônomo, de modo a garantir sustentabilidade na produção sociocultural das comunidades.

inscrições encravadas no vale ponto de partida para a criação do memorial - foto: AUGUSTO PESSOA

Isto é empoderamento.

E empoderamento pela força das idéias e pelo protagonismo da juventude.

Alemberg e sua esposa, arqueóloga, nem moram mais na cidade (se bem que sempre estão por perto), mas o Ponto de Cultura Casa Grande está cada vez mais forte. Com o tempo a notícia se espalhou e vieram os turistas: 3 mil por mês. Visitam as pinturas rupestres, as cachoeiras, a cultura do sertão e, principalmente, a experiência da Casa Grande.

Uma nova economia surge em Nova Olinda. Era preciso abrigar os turistas, criaram-se hospedarias familiares. O artesanato de couro revigorou-se, alguns adultos voltaram e houve mais renda para a cidade – bem distribuída, porque é repartida entre muitas famílias. E a casa malassombrada foi fazendo com que os moradores gostassem mais de si e de sua cidade, encontrando o seu lugar no mundo, cujo centro estava ali mesmo.

Como contactar e saiba mais:

www.fundacaocasagrande.org.br

Rua Ratisbona Nº 564 – Crato – CE

CEP: 63140-000

Fone/Fax (88) 3521-8133

E-mail: contato@fundacaocasagrande.org.br

SEDE

Fundação Casa Grande Memorial do Homem Kariri

AV. Jeremias pereira Nº 444 – Nova Olinda – CE

CEP: 63165-000

Fone/Fax (88) 3546-1333

Fontes:

REvista Raiz

RUÍNAS QUE EMPODERAM. . – POR CÉLIO TURINO

Matéria sobre expedito Seleiro – O artista do couro

Fotos que fiz em minha visita á Fundação Flickr Celophanico

O Bonde do Getulio não vai mais sair dos trilhos

O Celophane Cultural sobe, de bonde, o morro de Santa Tereza a fim de visitar um ponto turístico do Rio de Janeiro o “Bonde do Getúlio”.

Lá trabalha o artesão Getulio Damano reconhecido artista popular que recebeu uma ordem  da Prefeitura para tirar o seu inusitado Bonde Oficina das ruas. A mobilização popular, os amigos de Getulio que enviaram mails, Artistas de rua, blogueiros e o Facebook intercederam na decisão e hoje ele e seu Bonde estão devidamente seguros.

A ordem de desocupação da Prefeitura - foto Bia Hetzel

Ilustre Passageiro- Bondes de Getúlio Damado

Getúlio Damado, mineiro de descendência italiana, acredita que de sua família materna de oleiros e marceneiros, herdou seu dom de artesão, escolheu o bairro de Santa Teresa para estabelecer a sua banca- oficina de conserto de panelas.

Getulio em frente ao seu Bonde/oficina - foto de Bia Hetzel

De seu posto, via passar o bonde, ladeira acima, ladeira abaixo, observando-o em câmera lenta, de frente e de costas, vazio nas horas prioritariamente domésticas, lotado pela manhã, na hora do almoço e no final da tarde. A imagem dos bondinhos amarelos com corações vermelhos, Getúlio deseja reproduzi-los.

Os bondinhos feitos de resíduos sólidos á venda - foto Sérgio Araujo Pereira

Considerando-se péssimo desenhista decide construí-lo em sucata, brinquedo ou enfeite, meio de transporte, em escala reduzida, para seus sonhos, para sua carreira artística. Entre a colocação da alça numa chaleira e o conserto do fundo de uma panela, o primeiro bonde sai rústico, algumas tentativas adiante, seus bondes passam a despertar a atenção dos moradores, e Getúlio começa a receber propostas de compra. Foi o quanto bastou para ele liberar de vez o artista que aguardava para ganhar mundo.

Os bondes de Santa Tereza são pintados de amarelo com corações vermelhos - Foto Sérgio Araujo Pereira

Com a prática, Getúlio passou a experimentar escalas maiores, mas pequenos ou grandes, são sempre feitos com aproveitamento de material que encontra pelas ruas, caixotes, sobras várias que os amigos levam até sua banca, brinquedos, objetos e guarda-chuvas quebrados, em fim, sucata. Comprados, mesmo, só tinta e pregos.Getúlio ampliou sua a produção: carros, caminhões, casinhas mobiliadas de boneca começaram a aparecer, além dos bonecos, todos batizados segundo sua inspiração ao término da confecção.

O Bonde Oficina de Getulio - foto de Sérgio Araujo Pereira

Por essas figuras, que muitas vezes coloca nos estribos dos bondes, ele tem um carinho especial, admirando-lhes a utilidade, pois usa os bonecos também como sinaleiros, idéia que lhe ocorreu por acaso. Na banca de Getúlio, encostada em uma árvore, na rua Leopoldo Fróes, uma ladeira, paralela à Almirante Alexandrino, fica seu material e instrumental de trabalho, composto tanto de ferramentas usuais, como alicate, martelo, tesoura de cortar folha-de-flandres , quanto outras, improvisadas, como um pedaço de trilho de bonde para bater ferro, uma engenhoca para funilaria, facas velhas, facões entre outras ferramentas inventadas.

A decoração do bonde com personagens feitos de sucata - Foto: SErgio Araujo Pereira

Getúlio, nos seus 50 e poucos anos orgulha-se de ter feito com amor, tudo o que lhe foi possível; e confia nos valores e padrões que ainda repassa aos filhos. Artisticamente sente-se realizado, embora em processo contínuo de aperfeiçoamento e busca de complementação de sua obra.

(Texto extraído da publicação do Museu do Folclore Edison Carneiro, ano 2000.”Veja, Ilustre Passageiro- Bondes de Getúlio Damado”)

TORRES, Maria Helena (pesquisa e texto). VEJA, ilustre passageiro: bondes de Getúlio Damado. Rio de Janeiro: FUNARTE/CNFCP, 2000

Bonde que faz parte do acervo do Museu do Folclore Edson Cordeiro

Saiba mais: Eletrificação dos bondes de Santa Teresa

O bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, possui a única linha urbana remanescente de bondes do Brasil. Seus serviços nunca foram interrompidos, apesar de grande pressão nesse sentido ao longo de muitas décadas. A Companhia Ferro-Carril Carioca, que introduziu o serviço de bondes no bairro na década de 1870, eletrificou as linhas em 1896, sendo um dos feitos mais notáveis o aproveitamento do antigo aqueoduto colonial como via de acesso ao bairro. O aqueoduto – conhecido atualmente como “Os Arcos da Lapa” – também é responsável pela bitola especial dos bondes de S. Teresa: 1,10m.

Arqueduto de Santa Tereza ou os arcos da lapa - fonte: O Rio de Antigamente

Fonte: O Rio de antigamente

A sustentabilidade nas obras do Getulio

Falando de sustentabilidade: os bondes são feitos de material reciclável, caixas de madeira, plásticos, metais, transformando lixo em arte. Por meio do seu trabalho artístico Getulio gostaria de provocar uma melhoria no despejo de resíduos sólidos na sua comunidade e uma maior preservação aos bondes de Santa Teresa que deveriam se tornar patrimônio hsitórico.

Informações coletadas pela Associação Santa Sucata Projetos Culturais e Sócio-ambientais.

Vejam o ensaio fotográfico completo: Sergio Araújo Pereira

Vejam também as fotos de Bia Hetzel que denunciou pelo Facebook o que estava acontecendo

Assistam ao exelente Vídeo “Ordem Urbana” – Por Leonardo Holanda


Video filmado no Dia em que o Artista Getulio conseguiu a liberação para permanecer em seu bonde – Bonzolandia.

Adorável depoimento sobre o Mestre Messias. Filmagem Viviane Rangel. Reparem a devoção de getulio em São Jorge vestindo uma camiseta com a imagem do Santo Guerreiro.


Ontem dia 09 a Prefeitura enviou uma carta a Getulio avisando que ele não será mais despejado o a saga do “Bonde do Getulio” contra o “Dragão da Maldade” chega ao final. Segundo Bia Hetzel “ele está mais feliz do que quando o Brasil ganhou uam copa do mundo.”

O "Nada a opor" entregue pela prefeitura do Rio ao querido artista Getulio: Fonte Bia Hetzel

UM abraço cultural Getulio.

O agradecimento do Mestre Getulio - Foto Bia Hetzel


Os Gigantes de Olinda

No Nordeste o Carnaval ainda não acabou, em tempo o Celophane Cultural mostra uma arte que a cada ano que passa traz pras ruas de Olinda mais e mais personalidades da cultura POP para nos encantar com sua beleza plástica seu bom humor e traços realistas. Os famosos Bonecos Gigantes de OLinda que a dois anos inaugurou um museu numa das ruas mais charmosas do Recife Antigo, a Rua do Bom Jesus,  a Embaixada dos Bonecos Gigantes. A matéria tem a colaboração do correspondente de OLinda, Juliano Mendes da Hora do Blog Cajumanga.

Nas apertadas ladeiras de Olinda os encantadores bonecos desfilam por entre os foliões - Foto: Juliano Mendes da Hora

Os Bonecos Gigantes surgem na Europa, provavelmente na Idade Média, sob a influência dos mitos pagãos escondidos pelos temores da Inquisição. Chegam em Pernambuco através da pequena cidade de Belém do São Francisco no sertão do estado.

AS Margems do rio a Belem do São Francisco todo ano recebe os bonecos gigantes - foto do Homem da Meia Noite personagem indispensável no Carnaval Pernambucano - foto:Renato Spencer/Santo Lima - site: http://carnaval.uol.com.br/2010/album/belem_sao_francisco_album

Os bonecos surgiram da vontade de um jovem sonhador que ouvia atento as narrativas de um padre belga sobre o uso de bonecos nas festas religiosas da Europa.

O primeiro boneco foi às ruas da pequena cidade durante o carnaval de 1919 com o surgimento do personagem Zé Pereira, confeccionado em corpo de madeira e cabeça em papel machê, somente no ano de 1929 resolveram criar sua companheira, boneca esta batizada com o nome de Vitalina.

Quem foi essa tal de Zé Pereira

A constatação da existência de uma diversão carnavalesca conhecida como Zé Pereira em Portugal do século XIX parece apontar para a forte influência lusitana no surgimento da brincadeira no carnaval carioca. A Hsitória oral  atribui a “invenção” do Zé-Pereira a um português de nome José Nogueira de Azevedo Paredes, comerciante estabelecido no Rio de Janeiro em meados do século XIX. Divulgada na maioria dos livros sobre carnaval, essa versão acabou ocultando toda uma série de influências que contribuíram para o surgimento dessa curiosa categoria carnavalesca. As raras referências sobre a tema na literatura carnavalesca são bastante desencontradas. Estas apontam o “surgimento” do Zé Pereira em 1846 (Moraes, 1987), em 1852 (Edmundo, 1987) ou em 1846, 1848 e 1850 (Araújo, 2000).

Zé Pereira no Carnaval - fonte desconhecida

A principal razão dessa discrepância é o fato de que a categoria “Zé Pereira” só se fixaria anos mais tarde. Na segunda metade do século XIX, o termo era usado para qualquer tipo de bagunça carnavalesca acompanhada de zabumbas e tambores, semelhantes ao que chamaríamos hoje de bloco de sujo. Ferreira (2005) e Cunha (2002) abordaram o tema com profundidade destacando a multiplicidade de forma e conceitos que podiam envolver as diversas brincadeiras chamadas genericamente de Zé Pereira.

E viva o Zé Pereira.
Pois a ninguém faz mal
E viva a bebedeira
Nos dias de Carnaval


Os Gigantes de OLinda

A tradição dos bonecos gigantes, iniciada em Belém do São Francisco, ganhou as ladeiras de Olinda em 1932, com a criação do boneco do Homem da Meia Noite, confeccionado pelas mãos dos artistas plásticos Anacleto e Bernardino da Silva

O primeiro Homem da Meia Noite - Fonte: http://www.homemdameianoite.com

Fundado no dia 02 de fevereiro de 1932 pelos senhores Benedito Bernardino da Silva, Sebastião Bernardino da Silva, Luciano Anacleto de Queiroz, Cosme José dos Santos, Manoel José dos Santos e Eliodoro Pereira da Silva. O Homem da Meia Noite é resultado de uma dissidência dos diretores da troça Cariri de Olinda. Porém, muitos mistérios e curiosidades envolvem sua história. Alguns admiradores, historiadores e parentes dos fundadores retratam duas versões sobre a origem desse símbolo cultural, dessa figura mística e encantadora. A 1ª versão; conta a sabedoria popular, que Luciano Anacleto de Queiroz, era um apaixonado pela sétima arte. Em um belo dia de domingo foi ao cinema assitir a um filme “O ladrão da meia noite”. Era a história de um ladrão de classe, que saía de um relógio sempre a meia-noite, cada dia de um lugar diferente, causando pânico na cidade. Impressionado com o personagem do filme, Aanacleto resolveu homenageá-lo criando o Homem da Meia Noite.


A segunda versão, retrata a história de outro fundador, o marceneiro Benedito Bernardino, autor oficial do Hino do Homem da Meia Noite que junto com dois amigos de profissão da comunidade do Bonsucesso deu vida ao calunga mais famoso do Brasil. Conta-se que Benedito ficava madrugada adentro em frente a sua residência compondo músicas carnavalescas, na Estrada do Bomsucesso. Nos finais de semana especialmente do sábado para o domingo, Benedito começou observar que um homem forte, alto e elegante trajando sempre cores verdes e branca com chapéu preto, com um dente de ouro o cumprimentava com um aceno e um belo sorriso. Desconfiado, pois aquele homem passava nos finais de semana, quase sempre a meia noite, fato incomum nos anos 30 na velha Marim dos Caetés.Intrigado, Benetido resolveu segui-lo e descobriu que o homem era um apreciador das belas mulheres, pulava escondido as janelas das donzelas da cidade para namorar. Voltando pra casa muito surpreso com sua descoberta, lhe veio a idéia de homenagear tal figura , o “Dom Juan” das madrugadas olindeses. Qual a verdadeira versão, não se sabe ,a verdade é que o gigante da meia noite arrasta milhões de foliões durante os seus desfiles; e sua saída apoteótica é tradição nos sábados de Zé Pereira.

Porta da sede do Homem da Meia Noite - 1996 - foto acervo Homem da Meia NOite

 

Coencidências ou Fato ?

Versões a parte, outras curiosidades marcaram a história do calunga: Viaje conosco neste mundo de magia .O homem da Meia-Noite nasceu no dia 2 de Fevereiro, dia de Iemanjá à meia-noite, por isso é considerado uma figura mística do candomblé denominado assim de calunga.Sua quarta sede social hoje definitiva fica localizada em frente a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens pretos de Olinda uma das mais mistíca da nossa cidade. Tárcio Botelho,foi o presidente do clube que sucessivamente mas tempo permaneceu no cargo de 1991 à 2001, Tárcio morreu em 2001.O alfaiate “Brasil” é o grande responsavel pelas belas roupas do Homem da Meia-Noite a mais de 30 anos.O Senhor “Brasil” alfaiate antigo da cidade não veste outra cor a não ser a branca, você sabe porque? Outros fatos recentes chamam a nossa atenção a casa número 301 da Rua do Amparo pertence ao atual presidente do clube Luiz Adolpho, que descobriu após anos de pesquisa, que a mesma foi a segunda sede social do homem da meia-noite, o calunga saiu muitas vezes do quintal da sua casa. Segundo o presidente Luiz Adolpho o titúlo mais importante da história do clube “Patrimônio Vivo de Pernambuco” foi conquistado no dia 20 de Dezembro de 2006 dia do aniversário do seu filho mais velho que tem o nome do seu pai Tárcio Botelho.Coincidencias ou fato a verdade é que o Homem da Meia-Noite respira emoção e magia.


A Família Gigante

Em 1937 surgiu a Mulher do Meio Dia, em 1974 foi à vez do Menino da Tarde pelas mãos do artista plástico Silvio Botelho Botelho, que popularizou a tradição com criação do Encontro dos Bonecos Gigantes, onde vários bonecos de diversos artistas se encontram para um grande desfile pelo sitio histórico de Olinda na terça de carnaval.

 

Silvio Botelho posa ao lado de boneco do fundador do Galo da Madrugada, Enéas Freire, à sua esquerda e do compositor Capiba. - Foto: Geyson Magno / UOL

“Na adolescência, com dez, doze anos já tinha essa energia. Brincava com máscaras. A primeira máscara que fiz, foi uma máscara com o rosto de Glória, minha irmã. Morava no Amaro Branco. Deitei Glória no chão, tinha muito capim e disse: – Eu quero fazer uma máscara. Coloquei papel misturado com goma no rosto de Glória e um canudo na boca para ela respirar. As formigas mordiam Glória, mas ela resistiu. E a primeira máscara ficou pronta.”

“O primeiro boneco que fiz, foi em 1975, foi o Menino da Tarde. Ernandes Lopes foi a pessoa que me pediu para fazer. Nessa época, só existia o Homem da Meia-Noite e a Mulher do Dia. Era o filho dos dois. O maior desafio foi entender o que era fazer um boneco gigante. Um boneco com 2 metros e 90 centrímetros de altura. Em dois meses o Menino da Tarde ficou pronto. O boneco pesava 35 quilos e foi confeccionado em madeira, capim, papelão duro e papel. Ao ver o resultado, o renomado artesãoRoque Fogueteiro ficou impressionado com a beleza da obra e me aconselhou a prosseguir no caminho da arte.”

Silvio Botelho em entrevista para o Blog Arlindo Siqueira

A Nova Geração

Em 2008, o empresário e produtor cultural Leandro Castro criou uma nova geração dos Bonecos Gigantes. Uma equipe montada com diversos artistas como: Antônio Bernardo (Escultor), Aluísio de Nazaré da Mata e a estilista Sineide Castro, responsável pelos figurinos dos bonecos, materializaram grandes ícones da história e cultura brasileira e personalidades mundiais como: Duarte Coelho, Mauricio de Nassau, D. Pedro I, Dragões da Independência, Lampião, Presidente Lula, Obama, Michael Jackson, Nelson Mandela, Ariano Suassuna , Dominguinhos, Chacrinha, Alceu Valença, Chico Science, Nóbrega, Elba Ramalho, Pelé, Renato Aragão, Jô Soares ente outros.

 

personagens da Cultura POp na Embaixada dos Bonecos Gigantes - foto JeffCelophane

A nova geração dos bonecos tem impressionado bastante a todos pelo grande realismo das expressões faciais e figurinos, o que originou o titulo de museu de cera popular itinerante. Este maior realismo foi obtido na inovação dos materiais utilizados, a matriz moldada em argila para posterior aplicação de fibra de vidro, material este mais leve e duradouro, as mãos dos bonecos permaneceram em isopor para não machucar nenhum folião durante as apresentações, a altura média dos bonecos é de 3,90m.

O defensor da Cultura Popular Brasileira eternizado num boneco - Ariano Suassuna - Embaixada dos Bonecos Gigantes - Foto: JeffCelophane

 

Em 2009, foi realizado na segunda feira de carnaval, a primeira Apoteose dos Bonecos Gigantes no Sitio Histórico de Olinda com 30 bonecos, em 2010 o evento contou com mais de 60 bonecos revivendo grandes personalidades da cultura e historia pernambucana, brasileira e mundial.

 

Atualmente os bonecos permanecem em exposição o ano inteiro na Embaixada dos Bonecos Gigantes em REcife.

 

Vejam a Matéria do Blog Cajumanga de Olinda onde o pernambucano JUliano Mendes da Hora nos conta sobre o Carnaval de Olinda e sobre os bonecos gigantes que povoam um dos carnavais mais valiosos de nossa cultura popular.

Juliano nos conta um pouco como foi o Carnaval de Olinda 2011:
A saída dos Bonecos Gigantes de Olinda, que se concentram no Largo de Guadalupe, próximo ao bairro do Amparo, na Terça-Feira de Carnaval, é um espetáculo de cores e tradição popular que é passada de geração em geração. Vale à pena assistir se embrenhar pelas ruas estreitas do bairro e se perder por entre os ícones da cidade alta, que são preparados pelo povo enquanto não iniciam a sua missão de andar por entre os foliões no penúltimo dia de carnaval.

A responsabilidade de carregar um Icone da cultura Pernambucana - Foto Juliano Mendes da Hora

Os bonecos representam as várias culturas e pessoas envolvidas na história da cidade. Não importa a sua classe social, se é famoso, ou se pertence ao cotidiano do bairr: Todos são importalizados e tratados com reverência durante estes dias de folia. Geralmente, artistas são homenageados e recebem suas versões gigantes, assim como Tapioqueiras, cantores, estudiosos, educadores… Cada pessoa que possa ter deixado sua marca na cidade e no mundo é homenageada com um boneco.
Estão presentes desde Capiba, famoso poeta e autor dos mais clássicos frevos do estado, passando por celebridades nacionais como Ayrton Senna, ou internacionais, como Einstein, Fidel Castro e Michael Jacskon, entre outros.
As lendas e personagens do folclore pernambucano também marcam presença, tornando a festa ainda mais autêntica e brasileira.

Fontes:

Embaixada dos bonecos gigantes de Olinda

A Embaixada funciona de domingo a domingo, com horário das 8h às 18h de segunda à sábado e até às 19h nos domingos. A entrada custa R$ 4,00, com gratuidade para crianças até 12 anos acompanhadas de adulto.

Endereço: Rua do Bom Jesus, 183, Recife antigo
Tel: (81) 3441-5102 ou 8775-0540

wikipedia – Zé Pereira

Homem da Meia Noite

Fotopintura, a memória “tatuada” na parede

Hoje o Celophane Cultural vai tratar de uma arte, quase esquecida pelo tempo, que se não fosse o empenho e perseverança de um Cearense, mestre do ofício, ela hoje não existiria mais: a Fotopintura

São Paulo, Fevereiro de 2011 um workshop sobre as técnicas da Fotopintura e uma parceria entre a Galeria Choque Cultural com o Mestre e ainda o lançamento do livro: “Júlio Santos – Mestre da Fotopintura” celebram mais um paço na preservação desta arte que “tatua” a imagem e a memória das pessoas nas paredes de uma casa.

São Paulo, 05 de Abril a 28 de Maio a Galeria Estação traz a Exposição “Fotopinturas – Coleção Titus Riedl”.
O Ofício da Fotopintura

Ofício muito comum no começo do século XX, tempo em que a fotografia ainda engatinhava e precisava da ajuda de um colorista-pintor que para complementar a imagem preto e branca. Até o final dos anos 1950, era muito comum ver os álbuns de foto da família com retratos pintados à mão ou a família e entes queridos “tatuados’ e emoldurados nas paredes da casa. As câmeras coloridas vieram, com tamanhos menores e valores acessíveis fazendo com que a fotopintura caísse em decadência.

Fotopintura de Mestre Julio - divulgação

No Nordeste, essa tradição continuou por vários motivos, principalmente pela dificuldade de acesso aos novos produtos fotográficos e novidades tecnológicas. Uma outra forma de eternizar um ente querido, já falecido, onde apenas uma foto “carcomida” pelo tempo era a única lembrança, seria a reprodução em fotopintura, preservando a beleza guardada na memória e muitas vezes, a pedido do cliente, consertando alguns defeitinhos que por ventura a foto apresentasse.

O Mestre Julio

No Ceará, o Mestre Júlio, fotopintor de primeira, criou boa fama entre os que precisavam de um retoque de estilo nos retratos e manteve seu negócio até a virada do milênio.

Fotopintura do Fotografo e amigo Tiago Santana e sua esposa feita por Mestre Julio - a foto faz parte do Livro

Mestre Júlio Santos, fotopintor de retratos, atua há mais de 40 anos em Fortaleza (CE). Foi formado no estúdio do seu pai, o Pai Didi, pelo artista plástico Medeiros –contemporâneo de Estrigas, Aldemir Martins e Mário Barata, todos da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), onde Júlio Santos trabalhou desde os 12 anos. Atualmente, em seu próprio estúdio, o Áureo Studio, atende a todos os pedidos de retrato, restauro e “transformação” do Ceará e outras capitais de norte a sul do país.

Com o advento da fotografia digital, poderia se pensar que o oficio da fotopintura acabaria de vez e ficaria na memória dos saudosistas. Apesar das dificuldades, Mestre Júlio não desistiu e, com a ajuda da filha, resolveu “virar a mesa” trazendo finalmente a tecnologia digital para transformar o negócio da fotopintura. “Mantive as características estéticas da fotografia colorizada, mas hoje uso o Photoshop, scanners e outros programas e equipamentos de captação e tratamento de imagem disponíveis, detalha Mestre Júlio.

Mestre Júlio acredita na transformação pelo trabalho artístico do fotopintor e investe na construção da memória e recuperação da história do cliente que encomenda um restauro ou um retrato. Ao mesmo tempo, já teve seu trabalho registrado em diversos documentários produzidos pela historiadora e diretora do Memorial da Cultura Cearense, Valéria Laena, pelo fotógrafo Tiago Santana e pelo cineasta Joe Pimentel. Participou dos Encontros de Fotografia Popular, no Memorial da Cultura Cearense, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e do Encontro DeVERcidade, em Fortaleza. Participou também da mostra Retratos Populares, na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, em 2006, ao lado de Telma Saraiva, outra artista do Crato (CE).

Desde 2009 trabalha com o fotógrafo Luiz Santos, de Recife, no projeto Fotopintura Contemporânea, na Tamarineira, nome popular do Hospital Psiquiátrico Ulisses Pernambucano, que fica no bairro homônimo.

O LIvro

“Júlio Santos, Mestre da Fotopintura”

Capa do Livro - “Júlio Santos, Mestre da Fotopintura”

Este livro foi selecionado pelo Edital Conexão Artes Visuais MinC/ Funarte/ Petrobrás e pelo Edital de Incentivo á Fotografia da Secretaria de Cultura de Fortaleza – Secultfor, e foi publicado pela Editora Tempo d’Imagem.

A obra traz texto de apresentação da curadora Rosely Nakagawa e entrevista inédita com Mestre Júlio Santos, realizada por Isabel Santana Terron, Rosely Nakagawa e Tiago Santana, no Áureo Studio, em Fortaleza. Nessa entrevista, Mestre Júlio fala sobre sua carreira desde os primeiros retratos, feitos com recursos de pintura sobre papel de sais de prata, até os retratos feitos hoje com recursos digitais, quando teve que aprender a utilizar o Photoshop.

Foto: divulgação

Imagem do Livro: Divulgação

 

O livro foi produzido por várias mãos, como por exemplo: Rosely Nakagawa, Isabel Santana e Tiago Santana. Com divisão eficiente sobre o tema e bem ilustrado a partir do acervo de Júlio Santos, seguindo o modelo do antes e depois, podemos “entrar” no universo da fotopintura de forma objetiva e clara. Os textos de Rosely nos introduzem ao tema da fotopintura e ao Mestre Júlio.

O didatismo da obra se revela na entrevista com Mestre Júlio e com os últimos capítulos que são dedicados a uma espécie de glossário das técnicas do Estúdio Áureo, assim como de nomes que fazem parte do contexto da fotopintura no Ceará. Outro ponto didático é a apresentação da substituição da técnica artesanal da fotopintura pela ferramenta Photoshop. O livro mostra o passo a passo deste processo na transformação de um retrato em fotopintura.

Livros como esses são significativos, pois tratam de temas caros à difusão de conhecimento sobre história das técnicas fotográficas, da dinâmica do comércio da fotografia popular, do estilo autoral do profissional em questão, do valor simbólico existente entre pedir que a foto renasça de uma outra forma ou mesmo de preservar o que o tempo apagou de um retrato.

O livro acompanha um DVD com oum trecho do documentário “Câmera Viajante” com o título de “Retrato Pintado” de Joe Pimentel.

 

Faça a sua fotopintura em São Paulo

A Galeria Choque Cultural está atenta as iniciativas instigantes, como a de Mestre Júlio que foi convidado para um  workshop, marcando inicio da parceria entre a Choque e o estúdio do artista. “A partir desse dia, vamos oferecer o serviço de retratos fotopintados ao público da galeria. Basta trazer a sua foto 3×4 para receber de volta seu retrato estilizado pelo Mestre”, nos informa Ribeiro sócio da Choque. O preço inicial de uma fotopintura é de R$ 200,00.

Quem estiver no Ceará pode visitar o  Áureo Estúdio

encomendar sua foto e conhecer o simpático mestre:

R. Gonçalves Ledo, 1779 – Fortaleza (CE)

Mas a fotopintura não se restrige a Nordeste, no Rio – Baixada Fluminense a fotopintora D. Diana fez trabalhos com muita delicadeza e simplicidade, ela coloria as fotos do marido fotógrafo sem a intenção de se tornar uma profissional na área.

Auto retrato de D. Diana

A Galeria Estação traz a Exposição “Fotopinturas – Coleção Titus Riedl”, com Curadoria de Eder Chiodetto.

A exposição composta por 200 retratos pintados a partir de fotografias – técnica hoje praticamente extinta – que revelam o universo estético do sertanejo nordestino. Com curadoria de Eder Chiodetto, a mostra apresenta parte da coleção do sociólogo Titus Reidl, que reúne cerca de 5 mil imagens adquiridas, em sua maioria, em Juazeiro do Norte (CE) e região.

O recorte curatorial privilegiou o embate entre fotografia e pintura. Segundo o curador, enquanto numa parte das imagens o aspecto fotográfico se mostra visível, em outras a fotografia é completamente ocultada, com os traços fisionômicos chegando ao limite da caricatura. “A soma das imagens, no entanto, tem a capacidade de revelar, além das feições, os sonhos de projeção, de afetividade, de memória, bem como os valores sociais do povo nordestino”, completa Chiodetto.

Local: Galeria Estação
Rua Ferreira de Araújo, 625
Pinheiros – São Paulo

Convite da EXposição

Fotopintura do acervo de Titus Reidl

Fontes:

Galeria Choque Cultural:

Assessoria de imprensa:  Agência Cartaz

Blog Vila MUndo

Leandro Matulja e Sandra Calvi

Blog Olhave – Alexandre Belem

Fotos e BLog: Georgia Quintas

Workshop na Choque Cultural SP - Foto: Georgia Quintas

“Sigo o historiador Geoffrey Batchen que nos aconselha a olharmos mais para as nossas próprias fotografias e as dos anônimos. São nelas – nas imagens privadas – e nesses fotógrafos espalhados pelo Brasil e no mundo que vamos nos encontrar. Júlio Santos, como ele mesmo fala, acredita que o maior valor da fotopintura é “tatuar” as pessoas nas paredes de uma casa. Júlio Santos e Geoffrey Batchen fazem todo sentido.”

… A fotopintura de Júlio é um procedimento coletivo. A autoria? Quando se coloca o espírito e a alma naquele retrato, já é do mundo, de quem vê, não é mais do fotógrafo. Simples assim. “O retrato é encantador mesmo, não me sinto dono dele”.

Georgia Quintas.


Até a próxima edição do Celophane CUltural

Xilogravura, a madeira entalhada com a poesia Nordestina.

Ariano Suassuna disse sentir na gravura popular o que mais lhe agradava: o real transfigurado pelo poético, o real como mero ponto de partida, o achatamento geral da gravura pela ausência de profundidade, pela falta de tons entre o claro-escuro e pela falta de perspectiva, assim como a predominância do traço limpo, puro e forte contornando as figuras. Ele próprio é de opinião que a gravura e a literatura populares nordestinas representam um dos mais autenticamente brasileiros trabalhos de criação.

"Moça roubada" - J Borges - Galeria Brasiliana

Primeiros Traços – Em setembro de 1907, o Nordeste via surgir a gravura nos livretos de literatura popular em versos, ou simplesmente literatura de cordel. Ela ilustrava A História de Antônio Silvino, folheto editado por Francisco das Chagas Rodrigues, na Imprensa Industrial do Recife.

Em 1907 surge no Recife pela primeira vez a xilogravura no cordel. estampa de Antônio Silvino - Acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa.

No começo do século, quando o cangaço inquietava as populações do interior, surgiu um folheto de poesia da chamada literatura de cordel, contendo A greve da estrada de ferro e A história de Antônio Silvino (novas arruaças). Pelos assuntos, percebe-se que os acontecimentos narrados eram muito recentes, de acordo com a linha habitual dessa espécie de publicações, de uma atualidade quase jornalística. Portanto, é de presumir-se, com certeza, que o folheto é anterior a 1914, ano da prisão do famoso cangaceiro. Na capa, vê-se uma gravura reproduzindo a figura de Silvino em corpo inteiro, chapéu de couro, facão na cintura e nas mãos um bacamarte. Era o primeiro ponto de atração para o comprador analfabeto e até para o letrado, revelando a perspicácia do editor em utilizar como ilustração do folheto uma linguagem gráfica do próprio homem do povo, tão ao sabor da poesia.

A Origem no Mundo:

A xilogravura – arte de gravar em madeira – é de provável origem chinesa, sendo conhecida desde o século VI. No Ocidente, ela já se afirma durante a Idade Média, através das iluminuras e confecções de baralhos. Mas até ai, a xilogravura era apenas técnica de reprodução de cópias. Só mais tarde é que ela começa a ser valorizada como manifestação artística em si. No século XVIII, chega à Europa nova concepção revolucionária da xilografia: as gravuras japonesas a cores. Processo que só se desenvolveu no Ocidente a partir do século XX. Hoje, já se usam até 92 cores e nuanças em uma só gravura.

O entalhe da madeira

As matrizes para impressão das ilustrações são talhadas, quase sempre, na madeira da cajazeira , matéria-prima mole, fácil de ser trabalhada e abundante na região Nordeste do Brasil.

Os xilogravuristas utilizam apenas um canivete ou faca doméstica bem amolados.

“Em toscos pedaços de madeira, o artista popular nordestino construiu a mais rica e instigante expressão plástica da cultura brasileira. De pouca leitura, o artista usou a técnica milenar da xilogravura para retratar o seu mágico universo, onde anjos se misturam com demônios, beatos com cangaceiros, princesas com boiadeiros, todos envolvidos nas crenças, esperanças, lutas e desenganos da região mais pobre do país.

A aridez inclemente de todas as estações torna a paisagem sertaneja campo fértil para o fantástico. “Dentro da paisagem real, marcada por contrastes sociais, em que a maior sede é de justiça, os seres sofridos, desprezados e perseguidos encontram nos traços do gravador popular o campo para se transfigurarem em heróis e hóspedes de um mundo melhor.”

Jeová Franklin , curador da exposição: 100 anos da Xilogravura
(Xilogravura popular na literatura de cordel. Brasília: LGE, 2007)

Fontes:

O Conterrâneo – Banco do Nordeste

Exposição 100 anos da Xilogravura no cordel

O Cordel

A popularização da Xilogravura veio com a Literatura de cordel: um tipo de poema popular, originalmente oral, e depois impressa em folhetos, expostos para venda pendurados em cordas ou cordéis, o que deu origem ao nome originado em Portugal, que tinha a tradição de pendurar folhetos em barbantes. No Nordeste do Brasil, o nome foi herdado (embora o povo chame esta manifestação de folheto), mas a tradição do barbante não perpetuou.  São escritos em forma rimada e alguns poemas são ilustrados com xilogravuras, o mesmo estilo de gravura usado nas capas. As estrofes mais comuns são as de dez, oito ou seis versos. Os autores, ou cordelistas, recitam esses versos de forma melodiosa e cadenciada, acompanhados de viola, como também fazem leituras ou declamações muito empolgadas e animadas para conquistar os possíveis compradores.

Em 2007 a Exposição “100 anos de Cordel – a história que o povo conta” com curadoria de Audálio Dantas mostrou que ao contrário do que se imagina, a literatura popular se mantém viva, e com muito vigor no Brasil, apropriando-se em alguns casos das novas tecnologias . Destaca também a presença de poetas populares nos grandes centros urbanos, onde continuam a produzir, não deixando se perder, entretanto, a cultura de origem.

Exposição 100 anos de Cordel - Curadoria de Audálio Dantas - Expografia Jefferson Duarte

Fotos: 100 ANOS DE CORDEL

SESC Pompéia – SP

Cordéis pendurados nas cordas - fonte Wikpédia

Os mestres:

Mestre Noza

O precursor da xilogravura decorativa

Inocêncio Medeiros da Costa ou Inocêncio da Costa Nick era do grupo de “santeiros do Padre Cícero”. Nascido em Pernambuco, em 1897, mudou-se para Juazeiro do Norte aos 15 anos. Foi o primeiro artista a ser publicado em álbum de gravuras populares brasileiras com a seqüência da Via Sacra, em Paris (1965) e a trabalhar por encomenda para um produtor cultural.

Página de cordel do Mestre Noza - Fonte: http://mestrenoza.blogspot.com/

Foto do Mestre Noza em seu atelier - por Mgorete

Xilogravura de Antonio Silvino

J Borges

Nascido em Pernambuco, em 1935, é patriarca de um clã de xilogravadores. Diz que tudo que aprendeu deveu-se ao medo de cortar cana. Estudou somente dez meses em escola. Agricultor, pintor, carpinteiro, fabricante de brinquedos, poeta, foi ser cordelista, ilustrar, imprimir e vender seus próprios folhetos. Obteve reconhecimento nacional e internacional e é hoje o mais conhecido xilogravador nordestino.

J. Borges em seu ateliê de xilogravura no Memorial J. Borges em Bezerros, Pernambuco - foto: Mais Cultura

Mãe da Lua de Abraão Batista

A Arte da xilogravura se mantém viva até os dias atuais gerando novos artistas com trabalhos impressionantes destaco aqui dois jovens que gosto muito do trabalho criado por eles:

Eduardo Ver

que está com uma exposição “O Tear Castanho de Eduardo Ver” –  Atelier Piratininga

Xilogravura que está na exposição de Eduardo Ver

Fernando Vilela:

Site Fernando Vilela

Imagens do livro de Fernando Vilela

Teia de Cordéis

A partir de Março de 2011, romances, personagens históricos, operetas, manuais, autos, hinos, elegias, canções, sátiras e muitos outros elementos serão encontrados no Museu de Arte Popular do Recife, através de um passeio por uma parte da coleção de cordéis portugueses do pesquisador Arnaldo Saraiva, professor da Universidade do Porto.

Museu de Arte Popular

Fundação Casa de Rui Barbosa

UM abraço cultural a quem me acompanha

Jefferson Duarte | JeffCelophane

A Arte Popular sobre as águas do Velho Chico

Sim um Barco-Museu é a mais nova atração em Alagoas e Sergipe. Uma inicativa unica, idealizada e posta em prática pelos artistas: Dalton e Maria Amélia. O Museu sobre as águas vai flutuar, levando Arte Popular, sobre um dos mais celebres, curiosos e encantados rios brasileiros: O Velho Chico.

O barco-museu Santa Maria estará percorrendo as águas do rio São Francisco levando exposição de cultura popular, exibição de vídeos e oficinas de arte-educação para cerca de 10 mil moradores ribeirinhos de cidades e povoados de Alagoas e Sergipe.

Imagem do barco Museu sobre o rio

O projeto “O Museu no Balanço das Águas é uma realização da Galeria Karandash – Arte Contemporânea, com o patrocínio do Programa BNB de Cultura Edição 2010 parceria BNDES e apoio do Sebrae-AL, Sesc-AL e das prefeituras por onde a embarcação vai passar.

A viagem cultural do barco-museu Santa Maria começou na Ilha do Ferro (Pão de Açúcar), onde foi montada a exposição “Fernando Rodrigues – O Guardião de Memórias”, em homenagem ao artista e designer morto ano passado.

EScultura de Fernando Rodrigues O Guardão das Memórias em madeira

A embarcação também ganhou carranca (escultura) do artista Veio, o Marinheiro do escultor Resendio e os cataventos de mestre Zezinho.

Carranca criada por "Véio" especialmente para o museu.

Enfeitado e lotado de cultura, o Santa Maria inicia a jornada com paradas nos municípios alagoanos de Pão de Açúcar, Traipu e Belo Monte; atravessa o rio e vai para a margem sergipana, atracando em Porto da Folha, Ilha do Ouro e Niterói.

Em cada local, a comunidade é convocada para visitas guiadas ao barco-museu, assistir vídeos sobre os artistas da região e participar das oficinas de pintura, desenho, escultura e instalações com arte-educadores e professores das escolas públicas das cidades. A intenção é que 1500 crianças e adolescentes da rede pública de ensino participem das atividades.

“O barco-museu, além de possibilitar acesso às manifestações artísticas nas mais variadas linguagens, dentro da diversidade cultural, será um instrumento importante também na comunicação entre os povoados e entre os seus moradores, estreitando laços, revelando talentos e permitindo a troca de saberes, inclusive na proteção ambiental e na valorização patrimonial”, ressalta Maria Amélia, que assina o projeto com o também artista Dalton Costa.

IMagem aérea do barco com as enormes esciulturas anexadas á estrutura da embarcação.

Os "barqueiros" Dalton e Maria Amélia os criadores e responsáveis pelo projeto

Com a sede de conhecer e vivenciar a riqueza da arte popular do interior do Nordeste do Brasil, os artistas falam de uma experiência fantástica. “Numa dessas viagens, saboreando postas de piau com farofa, numa velha embarcação de passageiros do Baixo São Francisco, entre Pão de Açúcar e Ilha do Ferro, nosso olhar se perdeu em algo muito maior do que as nossas necessidades de artistas e colecionadores. Tivemos a grata experiência de olhar além do rio as comunidades ribeirinhas, afastadas dos grandes centros, algumas sem nenhuma comunicação, crianças brincando em suas margens, os cantos das lavadeiras com suas roupas coloridas, o batuque dos lençóis ensaboados nas pedras, os solitários pescadores em seus pequenos barcos, a paisagem mágica e desoladora, enfim, estávamos dentro de um Brasil que não conhecíamos com profundidade. Nossos corações inquietos buscavam muito mais do que os estímulos para nossa arte. Ali nascia a ideia de troca, de intercâmbio, de comunicação entre dois mundos. O mundo das grandes cidades e dos povoados de um Brasil esquecido. Nascia ali um barco-museu batizado pelo talentoso estudioso de literatura Roberto Sarmento de O MUSEU NO BALANÇO DAS ÁGUAS”. Nessa poesia, Dalton e Maria Amélia reverenciam o amor pela arte e pelo povo nordestino.

Fonte:  www.baratelli.com.br

Terminadas as viagens, explica Maria Amélia, o barco-museu não será desmontado. Pelo contrário. Sua nova vocação é permanente e ficará atracado no município de Pão de Açúcar, podendo ser palco de várias ações educativas e culturais.
“É um equipamento cultural à disposição das regiões afastadas dos grandes centros, que irá possibilitar o acesso e a inclusão dessas comunidades aos bens culturais de um modo geral”.

O São Francisco e suas Carrancas

Já não se encontram mais nas proas das embarcações são – franciscanas as célebres carrancas – uma das mais genuínas e enigmáticas manifestações da arte popular brasileira -, cuja forma predominantemente zooantropomorfa se mostra de uma originalidade sem similar na história das navegações.

Mesclando detalhes humanos com os de animais, destes, sobretudo a generosa cabeleira à semelhança de uma juba de leão, elas apresentam em geral uma expressão de ferocidade. São feitas de um único tronco de madeira e retratam apenas a cabeça e o pescoço de alguma figura mitológica indeterminada.

As primeiras referências às carrancas datam de 1888 em livros de Antônio Alves Câmara e Durval Vieira de Aguiar. As carrancas eram construídas a princípio com um objetivo comercial, pois a população ribeirinha dependia do transporte de mercadorias pelo rio, e os barqueiros utilizavam as carrancas para chamar a atenção para sua embarcação. Em certo momento, a população ribeirinha passou a atribuir características místicas de afugentar maus espíritos às carrancas. Esta atribuição colocava em segundo plano o aspecto artístico da produção das carrancas, ou seja, como forma de manifestação cultural popular de uma região brasileira.

Especial Velho Chico no site Jangada Brasil:

Universalidade

É difícil determinarmos a sua real origem, devido à sua universalização. Os selvagens adaptavam uma espécie de maraca na extremidade de seus barcos que serviam para conduzir os guerreiros ao combate. No Egito antigo, tais figuras eram por demais populares no rio Nilo; e nas regiões do Congo e da Guiné tornaram-se inconfundíveis pelo aspecto ornamental.

A primeira figura de proa de que se tem conhecimento teria sido uma criação dos Argonautas e representa a efígie de Argos. Aproveitaram, inicialmente, como idéias, criaturas humanas ou entidades fantásticas.

Os gregos exibiam sua mais famosa figura mitológica – Vênus, enquanto cartagineses e latinos esculpiam aves; mais tarde, ingleses e espanhóis difundiram largamente essas figuras, dando-lhes, os últimos, um cunho religioso.

Proteção

É provável que as carrancas das barcas do rio São Francisco tenham advindo do Mediterrâneo, sob a influência de portugueses e espanhóis. Possuem igual caráter religioso, porém ora de fundo fetichista, ora de fundo católico. Sua função é proteger a embarcação e os seus tripulantes dos inimigos que podem estar ocultos nas águas do rio.

As carrancas são entalhadas em madeira, recebendo depois um colorido quase grotesco. O leão e o cavalo são os animais preferidos para a representação, uma vez que os elementos marinhos são desconhecidos nos rios.

O fato mais importante, no entanto, a se assinalar é que elas se encontram correlacionadas ao ciclo pastoril em nosso país com marcante tipo de escultura.

(Saldanha, Maria Emília F. “Leões e cavalos garantem proteção aos barqueiros do São Francisco”. O Globo, Rio de Janeiro, 18 de julho de 1968)

Viagem conosco nesta aventura cultural sobre este Velho rio cheio de costumes e mistérios. Conheça o melhor da arte ribeirinha. Fonte: acessoria de Imprensa  do “Balanço nas águas”:

Galeria Karandash

Av. Moreira e Silva, n° 89 – Farol – Maceió / AL – Fone: +55 82 3221.0883

Email: karandash@karandash.com.br