Cruz de Beira de Estrada – a eternização da perda.

Quando fui a primeira vez na Paraíba e cruzei de bugre com um amigo a estrada que vai de João Pessoa a Campina Grande a fim de passar o maravilhoso São João (o maior do mundo), vi umas cruzes em casinhas minusculas na beira da estrada, a partir da terceira, a curiosidade aguçou: o que seria aquilo? ele prontamente me respondeu: “são as Cruzes de Estrada, pequenas homenagens dos familiares ou amigos e representam as pessoas que naquele local morreram em acidentes ou assassinadas”.

Foto Cruz sob uma capela no meio do sertão: autoria de Maria Hsu - http://www.flickr.com/photos/mariahsu

São pequenas e tradicionais cruzes, muitas vezes em madeira crua ou pintada, sustentadas por um amontoado de pedras, ou são presas a um bloco de concreto, outras vezes ficam dentro de um oratório de cimento ou taipa. Algumas com flores outras abandonadas no meio do mato seco. Elas são levantadas pelo autor arrependido do crime, pelos familiares do morto ou erigidas por algum devoto que alcançou uma graça solicitada aos céus, aos pés da cruz e em pagamento ele constrói uma mais merecedora.

… Quando uma pessoa morre assim, caída da perversidade um malvado, o povo acredita que a alma dessa pessoa foi logo para o céu, e começa a fazer-lhe “promessas”: acende velas, e coloca flores no lugar em que se deu o crime; às vezes até se levantam capelinhas, onde o povo vem rezar…

As inscrições são feitas em pedaços de madeira de forma triangular no centro do cruzamento ou nos braços da cruz: “Aqui foi assassinado barbaramente o cristão…”

Casa de Taipa com cruz na beira da estrada, Penedo - Alagoas - 1965 : Acervo Digital da Fundação Joaquim Nabuco

Muitas vezes as cruzes são recheadas de mistérios e assombrações que a tornam num boca a boca um lugar sagrado que pode operar milagres. Quem passa por elas, em respeito, tira o chapéu, se benze ou faz uma pequena oração.
Em algumas delas os devotos depositam ex-votos, figuras esculpidas em madeira ou cera, geralmente representando partes do corpo, como testemunho público de gratidão, para pagamento de promessa ou em agradecimento a uma graça alcançada.

Ex-votos depositados nos pés da cruz da beira de estrada - Penedo - Alagoas - 1965 - Foto Acervo Digital da Fundação Joaquim Nabuco

Confesso que fiquei encantado com a diversidade de formas e tamanhos, interrompendo a monotonia da estrada. pra mim era uma novidade o importante sentido desta rica manifestação popular.

Cruzes marcam o local da morte de duas pessoas BR 262 - Foto: Leo Drumond - Projeto Beira de Estrada

Cruz marca o local da morte de um jovem de 25 anos na BR 116 que liga o Rio á Bahia - Foto: Leo Drumond - Projeto Beira de Estrada

Fiquei pensando que cada pequeno templo daquele, carrega uma história de dor e de perda, eternizado ali, disponibilizado a quem quiser prestar sua homenagem, aquela pequena cruz, por vezes abandonada no meio do mato, nos mostra, a cada Km, que devemos olhar cada vez mais pra o ser humano que morre por um assassinato ou uma desatenção deste outro ser humano, que conduz uma máquina de ferro assassina sem responsabilidade, sem respeito ao outro. Os milhares de motoristas que por ali passam, lembram a cada pequena cruz daqueles que ali encerraram de forma cruel as suas vidas. Esta é a intenção destas pequenas manifestações de fé popular.
Fico imaginando se aqui em nossas grandes metrópoles do Sudeste tivéssemos a mesma tradição, nossas estradas seriam cercadas de túmulos coloridos muito juntos, enfeitados de flores, como uma sinalização de transito celeste. Talvez nossa consciência se tornasse um pouco mais “humana”.
DOC TV – Cruz de Beira de Estrada

 

Fontes:

Matéria de Gilvaldar de Campos Monteiro, “Santa crus de beira de estrada“, publicada no Correio de Maceió, em 19 de julho de 1969 e republicada no Jangada Brasil

…”Pois com ela há de casar antes de ser degolado, pagando a ela e a Deus pelo teu crime e pecado — não me entrem na Igreja nem noutro lugar sagrado… mas na beira duma estrada, me pondo na cabeceira a sela do meu cavalo. Quem passar lá de jornada reze por mim desgraçado”…

Blog Overmundo por Joel Ribeiro: a cruz branca da estrada

“Guardou aquele álbum e retornou, um tanto triste, com duas fotos de um rapaz. Um rapaz de físico bem formado, talvez um metro e oitenta, por aí. Bochechas rosadas em derredor de um par de raros olhos azuis. Com a voz cinzelada de nítido sofrimento, disse – nos que aquele era o Renzo, seu filho caçula. Há dois meses, vindo de uma festa à noite, pilotando uma moto, perdera a vida. Lá no asfalto, ladeado de eucaliptos, um pouquinho antes de entrar na estrada para Panorama. Era o morto da cruz branca.”

Acervo Digital da FUNDAJ

Fotos do Projeto: “Beira de Estrada” de Leo  Drumond: Beira de Estrada

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22 de Agosto foi o dia de comemorar o Folclore Brasileiro

Dia 22 Agosto – dia do Folclore Brasileiro.

Dia de celebrar o nosso tesouro, dia de celebrar a cultura criada, vivida, eternizada pelo nosso povo.

Tesouro que passamos de geração a geração, como um bem maior de um povo, aquele bem que define quem somos de verdade, aquele bem que garante para nosso filhos, netos e bisnetos a celebração da nossa origem.

E essa é, e sempre será a luta deste blog lembrar a quem o visita que somos brasileiros, não só na hora de torcer para a copa do mundo, mas lembrar no dia a dia da cultura pura, rica e genuina do nosso povo.

Mas o que é folclore? – fonte: Wikipédia

Folclore é um gênero de cultura de origem popular, constituído pelos costumes e tradições populares transmitidos de geração em geração. Todos os povos possuem suas tradições, crendices e superstições, que se transmitem através de lendas, contos, provérbios, canções, danças, artesanato, jogos, religiosidade, brincadeiras infantis, mitos, idiomas e dialetos característicos, adivinhações, festas e outras atividades culturais que nasceram e se desenvolveram com o povo.

A Carta do Folclore Brasileiro, em sintonia com as definições da UNESCO, declara que folclore é sinônimo de cultura popular e representa a identidade social de uma comunidade através de suas criações culturais, coletivas ou individuais, e é também uma parte essencial da cultura de cada nação.

Parte do trabalho cultural da UNESCO é orientar as comunidades no sentido de bem administrar sua herança folclórica, sabendo que o progresso e as mudanças que ele provoca podem tanto enriquecer uma cultura como destruí-la para sempre.

Vale lembrar que folclore é um movimento vivo, embora se enraíze em tradições, ele muda a cada segundo, mesmo garantindo as raizes, ele está aberto a modificaçãoes no seu dia a dia, a cada movimento feito e re-feito é como se apropriar e dar a sua contribuição.

Por isso eu não gosto muito do termo “Folclore”, que para muitos dá um carater cristalizado, um distanciamento, pra um movimento que está aqui no nosso nariz acontecendo plenamente.

Aproveito o assunto para divulgar o trabalho de uma xilógrafa e Cordelista de São Paulo que tem um livro muito bacana sobre o assunto: Nireuda Longobardi e o seu: “Mitos e Lendas do Brasil em Cordel”

“O folclore brasileiro,
é fruto de rica cultura,
que passa de geração
pra geração com bravura,
através da oralidade,
e também da boa leitura.
(…)
Contarei para vocês,
em estrofes de cordel
as nossas lendas e mitos
em sextilhas como mel.
Na gostosa brincadeira,
Acompanhe-me, menestrel.”

Blog da Nireuda

Um abraço Celophanico

Jeff