Krajberg, o senhor da Floresta

 

O Museu Afro-Brasil, instituição da Secretaria de Estado da Cultura, recebe a mostra Krajcberg, o Homem e a Natureza no Ano Internacional das Florestas, do artista plástico Frans Krajcberg que, uma vez mais ergue sua voz em defesa da Natureza do país que adotou. Com curadoria de Emanoel Araújo, a exposição composta por 31 obras conta com esculturas em grandes dimensões, relevos, back-light e fotografias.

Convite da Exposição- fonte: Divulgação

Suas obras, relevos e esculturas são feitos com sobras das matas queimadas que o próprio artista recolhe em suas peregrinações solitárias. As sobras, em verdade, são mais que simples restos. “São o que resulta das atrocidades praticadas contra a natureza do Brasil”, diz seu curador, Emanoel Araújo. Mas nas mãos abilidosas de Frans Krajcberg, que acredita no ideal pelo qual luta há tantos anos, pedaços de madeira carbonizada transformam-se em peças harmônicas e delicadas, que, com toques de cor, unem-se silenciosamente em um protesto contra a devastação. Continuar lendo

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O Olhar brasileiro de Thomaz Farkas – 1924-2011

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O Celophane Cultural homenageia mais um ilustre brasileiro, bem ele era húngaro e naturalizado brasileiro mas muito brasileiro, que voltou no dia 26 de Março passado para o Reino de Oxalá: Thomaz Frakas (1924-2011)

Foto: Farkas por Alexandre Belem/JC Imagem

“[…] propondo que o pensamento descubra a imagem”.

Nome definitivo para a compreensão da fotografia brasileira, também produtor e diretor de cinema, Farkas perpetuou os seus dias com doçura e generosidade tanto quanto o fez com sua arte. Naquele dia a fotografia brasileira se despedia fisicamente de um personagem que, resumiu a imagem da forma mais simples e certeira, como se jamais ouvíssemos de outro fotógrafo: “Fotografia é emoção!”. Apenas isso, emoção.

O interesse pela fotografia

A história começa com o seu pai, fundador da loja Fotoptica, especializada em equipamentos fotográficos. Farkas vivia entre profissionais e conciliava o curso de engenharia com a paixão por imagens.

A Revolução pela Fotografia

Naturalizou-se brasileiro aos 25 anos, passou a amar esse Pais com tanta intensidade que em 1964 diante do anuncio perverso do que seria um longo esquema de repressão política: A Ditadura, imaginou que o melhor para o Brasil seria conhecer a si mesmo “Eu achava que dando essa consciência, mostrando para a população quem somos nós, seria tão revolucionário quanto uma revolução”

Auto retrato - Thomas Frakas - Acervo IMS

Ainda trabalhando na loja do pai, ele reuniu amigos conhecidos para uma ideia simples: a Caravana Farkas: documentar lugares e pessoas pelo Brasil, uma espécie de biblioteca em imagens da cultura popular, em fotos e vídeos. “Esse era o princípio da coisa: como é o Brasil do Norte, como é o Brasil do Sul, como posso ilustrar isso?  A proposta era estudar, correr e documentar o país, em diversas fases.” Essa foi definitivamente o inicio da sua enorme contribuição ao Brasil.

(…) Em 1968, parte para o Nordeste um grupo de jovens cineastas, organizados em torno do empresário, fotógrafo produtor e Thomaz Farkas (2), com o intuito de realizar um projeto pioneiro na área da documentação de manifestações da cultura popular brasileira, em que havia liberdade tanto para o uso das técnicas de reportagem tradicionais quanto para as da ficção, contemplando da precisão etnográfica ao improviso.

No total, foram dezenove os documentários produzidos. Cada um deles traz a abordagem de um tema único: a literatura oral, em A Cantoria e Jornal do Sertão; a religiosidade popular, em Padre Cícero e em Frei Damião; o artesanato, em A Mão do Homem, Os Imaginários e Vitalino/Lampião; a economia, em Casa de Farinha (mandioca), Erva Bruxa (tabaco), O Engenho (rapadura), A Morte do Boi (gado) e Região: Cariri (estrutura agrária); o sertanejo, em A Beste, A Vaquejada, O Homem de Couro e O Rastejador; e o cotidiano na fazenda, em Jaramataia. As exceções ficam por conta de Visão de Juazeiro e Viva Cariri!, que apresentam uma síntese de toda a temática do projeto, relacionando economia, cultura e religiosidade popular.(…)

Do lado de fora do Estádio do Pacaembu. São Paulo, SP. 1941. Foto: Thomaz Farkas/Acervo IMS

A Imagem pode falar

Farkas não gostava de legendas nas fotografias para que a imagem não tivesse interferência e pudesse “falar” em sua plena representação poética.

torcedores no Estádio do Pacaembu, em São Paulo, em 1942 - Thomaz Farkas - acervo IMS

Foto Cine Clube Bandeirante

O Foto Cine Clube Bandeirante é um dos mais antigos e importantes fotoclubes brasileiros, localizado na cidade de São Paulo. Fundado em 1939, tem diversas atividades e ajudou o conceito de fotografia artística no Brasil, com reconhecimento inclusive de clubes do exterior.

Foto: Thomaz Farkas - Acervo IMS

Do Foto Cine Clube Bandeirante sairam fotógrafos brasileiros famosos, tais como Thomas Farkas, Geraldo de Barros, German Lorca, Eduardo Salvatore, Chico Albuquerque, Madalena Schwartz e José Yalenti, entre outros.

O clube organizou por anos o Salão Brasileiro de Arte Fotográfica, já organizou duas vezes a Bienal Brasileira de Fotografia entre clubes, e salões digitais como Web Art Photos e Tecnologia na Arte.

Sendo um dos pioneiros na fotografia-arte brasileira, o FCCB introduziu na fotografia a partir da década de 40 novoas conceitos para a foto-arte, com seus salões concorridíssimos, exposições e múseus antes só para pinturas e esculturas, também foi responsável pela “Escola Paulista” de fotográfos que mudaram os conceitos de composição, estilo, recortes, etc… na fotografia vista até então como academica e pictorialista.

Farkas fala do vídeo feito por ele: “Pixinguinha e a velha guarada do samba”

O Olhar sobre Brasília

Thomaz se viu em meio à outra revolução. Desta vez estética: Brasília. “Fui até lá quando era só descampado”, lembra. “Tinha amigos entre os arquitetos que concorreram com projetos para a capital. Sobretudo, o Jorge Wilheim.”

Àquela altura, Thomaz era mais que o empresário que tocava os negócios da família. Havia se tornado engenheiro mecânico e eletricista e, também, um apaixonado – e ótimo – cineasta e fotógrafo. “Passei a ir várias vezes à Brasília, antes e depois da inauguração”, conta. “Estava fascinado com toda a modernidade, a maravilhosa aventura de tirar a capital do Rio e fazê-la no meio do País. Continuo juscelinista.”

Foto: Construção de Brasilia - Thomaz Farkas - Acervo IMS

Thomaz encantou-se com um aspecto em especial: a mistura de sotaques. “Era fantástico ouvir os trabalhadores de todos os cantos do País, cada um com seu jeito de falar”, recorda o fotógrafo que, ao longo dos anos, permaneceu visitando e registrando imagens de Brasília. “Continuo fascinado pela cidade!”, exulta. “Ok, ficou com trânsito congestionado. Mas isso ocorre com qualquer metrópole, não tem jeito.”

O FIESP montou uma mostra fotográfica – AS Construções de Brasilia – A mostra fotográfica, reuniu cerca de 200 registros entre fotografias e obras de artes visuais sobre a capital federal. AS imagens feitas por Farkas fizeram parte desta mostra.

“Eu gostaria de ser baiano”

(…) No dia 2 de agosto de 2010, à beira da Bahia de Todos os Santos, no Museu de Arte Moderna da Bahia, inaugurou a exposição Thomaz Farkas – O Tempo Dissolvido, dentro do projeto A Gosto da Fotografia. Já com a saúde debilitada.

Na mostra em Salvador existia um Núcleo para o Afeto, onde estavam tesouros pessoais do fotógrafo, entre eles, um “santinho” enviado por Deoscóredes Maximiliano dos Santos, outro grande homem, o Mestre Didi. O cartão anunciava a “passagem” de Mãe Senhora, rainha absoluta do Ilê Axé Opô Afonjá. Tomado de “emoção”, ele disse, quase em silêncio: “No Brasil, a coisa mais importante não é o dinheiro, mas, sim, a amizade”. Às 19h30, naquele 31 de julho, Thomaz entrou no MAM. Vestido de branco, sentou-se em uma cadeira ao lado do mar da Bahia. Ali, sentia-se o seu tempo dissolvido. Foi como num transe. Recortado pelas luzes da Ilha de Itaparica ao fundo. Sentado em seu trono, diante das imagens que fez durante a vida inteira. Com o mar da sua terra espiritual arrebentando em espumas flutuantes de brancura, memória e solidão (…)

Thomaz sempre conservou um olhar deslumbrado. Possivelmente, semelhante àquele do garotinho húngaro ao chegar ao país. Que se tornou o seu.

O Acervo:

No Instituto Moreira Salles em São Paulo, encontra-se grande parte da obra do artista – cerca de 34 mil imagens.

A expo Thomaz Farkas: uma Antologia Pessoal,  produzida pelo Instituto Moreira Salles, em São Paulo ficou em cartaz até 1º de maio deste ano. Na expo, imagens do fotógrafo produzidas a partir da década de 1940, época em que Farkas se associou ao Foto Cine Clube Bandeirante (FCCB), local de debate sobre a atividade fotográfica. E também trabalhos posteriores do fotógrafo, com uma abordagem mais humanista, quando Farkas se aproxima do fotojornalismo. Destacam-se as séries sobre o Rio de Janeiro que incorporam o retrato e a vida dos moradores de bairros populares e regiões do centro histórico da então capital federal.

Capa do Livro - IMS

Paralelo a mostra, foi lançado o livro homônimo que possui cerca de 140 imagens, com texto de João Farkas, filho do fotógrafo. Para compor livro e exposição, durante dois anos Thomaz Farkas revisitou toda a sua trajetória, com suporte de seus filhos João e Kiko Farkas, e em conjunto com os pesquisadores e curadores do IMS, que hoje preserva sua obra fotográfica.

Entrevista do Blog do Coletivo Produção Cultural:

Fontes:

Matéria da revista Brasileiros : Thomaz Farkas e o tempo dissolvido (1924 – 2011) – Diógenes Moura (Escritor e Curador de Fotografia da Pinacoteca do Estado de São Paulo) Matéria revista Brasileiros

Entrevista na Integra de Tomas Farkas – Blog: Produção CulturalEntrevista em PDF

Blog Olhavê – Por Alexandre Belém – OLhavê

O diálogo entre culturas presente nos filmes documentários da Caravana Farkas: uma proposta de análise por Alfredo Dias D’Almeida

Fotopintura, a memória “tatuada” na parede

Hoje o Celophane Cultural vai tratar de uma arte, quase esquecida pelo tempo, que se não fosse o empenho e perseverança de um Cearense, mestre do ofício, ela hoje não existiria mais: a Fotopintura

São Paulo, Fevereiro de 2011 um workshop sobre as técnicas da Fotopintura e uma parceria entre a Galeria Choque Cultural com o Mestre e ainda o lançamento do livro: “Júlio Santos – Mestre da Fotopintura” celebram mais um paço na preservação desta arte que “tatua” a imagem e a memória das pessoas nas paredes de uma casa.

São Paulo, 05 de Abril a 28 de Maio a Galeria Estação traz a Exposição “Fotopinturas – Coleção Titus Riedl”.
O Ofício da Fotopintura

Ofício muito comum no começo do século XX, tempo em que a fotografia ainda engatinhava e precisava da ajuda de um colorista-pintor que para complementar a imagem preto e branca. Até o final dos anos 1950, era muito comum ver os álbuns de foto da família com retratos pintados à mão ou a família e entes queridos “tatuados’ e emoldurados nas paredes da casa. As câmeras coloridas vieram, com tamanhos menores e valores acessíveis fazendo com que a fotopintura caísse em decadência.

Fotopintura de Mestre Julio - divulgação

No Nordeste, essa tradição continuou por vários motivos, principalmente pela dificuldade de acesso aos novos produtos fotográficos e novidades tecnológicas. Uma outra forma de eternizar um ente querido, já falecido, onde apenas uma foto “carcomida” pelo tempo era a única lembrança, seria a reprodução em fotopintura, preservando a beleza guardada na memória e muitas vezes, a pedido do cliente, consertando alguns defeitinhos que por ventura a foto apresentasse.

O Mestre Julio

No Ceará, o Mestre Júlio, fotopintor de primeira, criou boa fama entre os que precisavam de um retoque de estilo nos retratos e manteve seu negócio até a virada do milênio.

Fotopintura do Fotografo e amigo Tiago Santana e sua esposa feita por Mestre Julio - a foto faz parte do Livro

Mestre Júlio Santos, fotopintor de retratos, atua há mais de 40 anos em Fortaleza (CE). Foi formado no estúdio do seu pai, o Pai Didi, pelo artista plástico Medeiros –contemporâneo de Estrigas, Aldemir Martins e Mário Barata, todos da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), onde Júlio Santos trabalhou desde os 12 anos. Atualmente, em seu próprio estúdio, o Áureo Studio, atende a todos os pedidos de retrato, restauro e “transformação” do Ceará e outras capitais de norte a sul do país.

Com o advento da fotografia digital, poderia se pensar que o oficio da fotopintura acabaria de vez e ficaria na memória dos saudosistas. Apesar das dificuldades, Mestre Júlio não desistiu e, com a ajuda da filha, resolveu “virar a mesa” trazendo finalmente a tecnologia digital para transformar o negócio da fotopintura. “Mantive as características estéticas da fotografia colorizada, mas hoje uso o Photoshop, scanners e outros programas e equipamentos de captação e tratamento de imagem disponíveis, detalha Mestre Júlio.

Mestre Júlio acredita na transformação pelo trabalho artístico do fotopintor e investe na construção da memória e recuperação da história do cliente que encomenda um restauro ou um retrato. Ao mesmo tempo, já teve seu trabalho registrado em diversos documentários produzidos pela historiadora e diretora do Memorial da Cultura Cearense, Valéria Laena, pelo fotógrafo Tiago Santana e pelo cineasta Joe Pimentel. Participou dos Encontros de Fotografia Popular, no Memorial da Cultura Cearense, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura e do Encontro DeVERcidade, em Fortaleza. Participou também da mostra Retratos Populares, na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, em 2006, ao lado de Telma Saraiva, outra artista do Crato (CE).

Desde 2009 trabalha com o fotógrafo Luiz Santos, de Recife, no projeto Fotopintura Contemporânea, na Tamarineira, nome popular do Hospital Psiquiátrico Ulisses Pernambucano, que fica no bairro homônimo.

O LIvro

“Júlio Santos, Mestre da Fotopintura”

Capa do Livro - “Júlio Santos, Mestre da Fotopintura”

Este livro foi selecionado pelo Edital Conexão Artes Visuais MinC/ Funarte/ Petrobrás e pelo Edital de Incentivo á Fotografia da Secretaria de Cultura de Fortaleza – Secultfor, e foi publicado pela Editora Tempo d’Imagem.

A obra traz texto de apresentação da curadora Rosely Nakagawa e entrevista inédita com Mestre Júlio Santos, realizada por Isabel Santana Terron, Rosely Nakagawa e Tiago Santana, no Áureo Studio, em Fortaleza. Nessa entrevista, Mestre Júlio fala sobre sua carreira desde os primeiros retratos, feitos com recursos de pintura sobre papel de sais de prata, até os retratos feitos hoje com recursos digitais, quando teve que aprender a utilizar o Photoshop.

Foto: divulgação

Imagem do Livro: Divulgação

 

O livro foi produzido por várias mãos, como por exemplo: Rosely Nakagawa, Isabel Santana e Tiago Santana. Com divisão eficiente sobre o tema e bem ilustrado a partir do acervo de Júlio Santos, seguindo o modelo do antes e depois, podemos “entrar” no universo da fotopintura de forma objetiva e clara. Os textos de Rosely nos introduzem ao tema da fotopintura e ao Mestre Júlio.

O didatismo da obra se revela na entrevista com Mestre Júlio e com os últimos capítulos que são dedicados a uma espécie de glossário das técnicas do Estúdio Áureo, assim como de nomes que fazem parte do contexto da fotopintura no Ceará. Outro ponto didático é a apresentação da substituição da técnica artesanal da fotopintura pela ferramenta Photoshop. O livro mostra o passo a passo deste processo na transformação de um retrato em fotopintura.

Livros como esses são significativos, pois tratam de temas caros à difusão de conhecimento sobre história das técnicas fotográficas, da dinâmica do comércio da fotografia popular, do estilo autoral do profissional em questão, do valor simbólico existente entre pedir que a foto renasça de uma outra forma ou mesmo de preservar o que o tempo apagou de um retrato.

O livro acompanha um DVD com oum trecho do documentário “Câmera Viajante” com o título de “Retrato Pintado” de Joe Pimentel.

 

Faça a sua fotopintura em São Paulo

A Galeria Choque Cultural está atenta as iniciativas instigantes, como a de Mestre Júlio que foi convidado para um  workshop, marcando inicio da parceria entre a Choque e o estúdio do artista. “A partir desse dia, vamos oferecer o serviço de retratos fotopintados ao público da galeria. Basta trazer a sua foto 3×4 para receber de volta seu retrato estilizado pelo Mestre”, nos informa Ribeiro sócio da Choque. O preço inicial de uma fotopintura é de R$ 200,00.

Quem estiver no Ceará pode visitar o  Áureo Estúdio

encomendar sua foto e conhecer o simpático mestre:

R. Gonçalves Ledo, 1779 – Fortaleza (CE)

Mas a fotopintura não se restrige a Nordeste, no Rio – Baixada Fluminense a fotopintora D. Diana fez trabalhos com muita delicadeza e simplicidade, ela coloria as fotos do marido fotógrafo sem a intenção de se tornar uma profissional na área.

Auto retrato de D. Diana

A Galeria Estação traz a Exposição “Fotopinturas – Coleção Titus Riedl”, com Curadoria de Eder Chiodetto.

A exposição composta por 200 retratos pintados a partir de fotografias – técnica hoje praticamente extinta – que revelam o universo estético do sertanejo nordestino. Com curadoria de Eder Chiodetto, a mostra apresenta parte da coleção do sociólogo Titus Reidl, que reúne cerca de 5 mil imagens adquiridas, em sua maioria, em Juazeiro do Norte (CE) e região.

O recorte curatorial privilegiou o embate entre fotografia e pintura. Segundo o curador, enquanto numa parte das imagens o aspecto fotográfico se mostra visível, em outras a fotografia é completamente ocultada, com os traços fisionômicos chegando ao limite da caricatura. “A soma das imagens, no entanto, tem a capacidade de revelar, além das feições, os sonhos de projeção, de afetividade, de memória, bem como os valores sociais do povo nordestino”, completa Chiodetto.

Local: Galeria Estação
Rua Ferreira de Araújo, 625
Pinheiros – São Paulo

Convite da EXposição

Fotopintura do acervo de Titus Reidl

Fontes:

Galeria Choque Cultural:

Assessoria de imprensa:  Agência Cartaz

Blog Vila MUndo

Leandro Matulja e Sandra Calvi

Blog Olhave – Alexandre Belem

Fotos e BLog: Georgia Quintas

Workshop na Choque Cultural SP - Foto: Georgia Quintas

“Sigo o historiador Geoffrey Batchen que nos aconselha a olharmos mais para as nossas próprias fotografias e as dos anônimos. São nelas – nas imagens privadas – e nesses fotógrafos espalhados pelo Brasil e no mundo que vamos nos encontrar. Júlio Santos, como ele mesmo fala, acredita que o maior valor da fotopintura é “tatuar” as pessoas nas paredes de uma casa. Júlio Santos e Geoffrey Batchen fazem todo sentido.”

… A fotopintura de Júlio é um procedimento coletivo. A autoria? Quando se coloca o espírito e a alma naquele retrato, já é do mundo, de quem vê, não é mais do fotógrafo. Simples assim. “O retrato é encantador mesmo, não me sinto dono dele”.

Georgia Quintas.


Até a próxima edição do Celophane CUltural

Cruz de Beira de Estrada – a eternização da perda.

Quando fui a primeira vez na Paraíba e cruzei de bugre com um amigo a estrada que vai de João Pessoa a Campina Grande a fim de passar o maravilhoso São João (o maior do mundo), vi umas cruzes em casinhas minusculas na beira da estrada, a partir da terceira, a curiosidade aguçou: o que seria aquilo? ele prontamente me respondeu: “são as Cruzes de Estrada, pequenas homenagens dos familiares ou amigos e representam as pessoas que naquele local morreram em acidentes ou assassinadas”.

Foto Cruz sob uma capela no meio do sertão: autoria de Maria Hsu - http://www.flickr.com/photos/mariahsu

São pequenas e tradicionais cruzes, muitas vezes em madeira crua ou pintada, sustentadas por um amontoado de pedras, ou são presas a um bloco de concreto, outras vezes ficam dentro de um oratório de cimento ou taipa. Algumas com flores outras abandonadas no meio do mato seco. Elas são levantadas pelo autor arrependido do crime, pelos familiares do morto ou erigidas por algum devoto que alcançou uma graça solicitada aos céus, aos pés da cruz e em pagamento ele constrói uma mais merecedora.

… Quando uma pessoa morre assim, caída da perversidade um malvado, o povo acredita que a alma dessa pessoa foi logo para o céu, e começa a fazer-lhe “promessas”: acende velas, e coloca flores no lugar em que se deu o crime; às vezes até se levantam capelinhas, onde o povo vem rezar…

As inscrições são feitas em pedaços de madeira de forma triangular no centro do cruzamento ou nos braços da cruz: “Aqui foi assassinado barbaramente o cristão…”

Casa de Taipa com cruz na beira da estrada, Penedo - Alagoas - 1965 : Acervo Digital da Fundação Joaquim Nabuco

Muitas vezes as cruzes são recheadas de mistérios e assombrações que a tornam num boca a boca um lugar sagrado que pode operar milagres. Quem passa por elas, em respeito, tira o chapéu, se benze ou faz uma pequena oração.
Em algumas delas os devotos depositam ex-votos, figuras esculpidas em madeira ou cera, geralmente representando partes do corpo, como testemunho público de gratidão, para pagamento de promessa ou em agradecimento a uma graça alcançada.

Ex-votos depositados nos pés da cruz da beira de estrada - Penedo - Alagoas - 1965 - Foto Acervo Digital da Fundação Joaquim Nabuco

Confesso que fiquei encantado com a diversidade de formas e tamanhos, interrompendo a monotonia da estrada. pra mim era uma novidade o importante sentido desta rica manifestação popular.

Cruzes marcam o local da morte de duas pessoas BR 262 - Foto: Leo Drumond - Projeto Beira de Estrada

Cruz marca o local da morte de um jovem de 25 anos na BR 116 que liga o Rio á Bahia - Foto: Leo Drumond - Projeto Beira de Estrada

Fiquei pensando que cada pequeno templo daquele, carrega uma história de dor e de perda, eternizado ali, disponibilizado a quem quiser prestar sua homenagem, aquela pequena cruz, por vezes abandonada no meio do mato, nos mostra, a cada Km, que devemos olhar cada vez mais pra o ser humano que morre por um assassinato ou uma desatenção deste outro ser humano, que conduz uma máquina de ferro assassina sem responsabilidade, sem respeito ao outro. Os milhares de motoristas que por ali passam, lembram a cada pequena cruz daqueles que ali encerraram de forma cruel as suas vidas. Esta é a intenção destas pequenas manifestações de fé popular.
Fico imaginando se aqui em nossas grandes metrópoles do Sudeste tivéssemos a mesma tradição, nossas estradas seriam cercadas de túmulos coloridos muito juntos, enfeitados de flores, como uma sinalização de transito celeste. Talvez nossa consciência se tornasse um pouco mais “humana”.
DOC TV – Cruz de Beira de Estrada

 

Fontes:

Matéria de Gilvaldar de Campos Monteiro, “Santa crus de beira de estrada“, publicada no Correio de Maceió, em 19 de julho de 1969 e republicada no Jangada Brasil

…”Pois com ela há de casar antes de ser degolado, pagando a ela e a Deus pelo teu crime e pecado — não me entrem na Igreja nem noutro lugar sagrado… mas na beira duma estrada, me pondo na cabeceira a sela do meu cavalo. Quem passar lá de jornada reze por mim desgraçado”…

Blog Overmundo por Joel Ribeiro: a cruz branca da estrada

“Guardou aquele álbum e retornou, um tanto triste, com duas fotos de um rapaz. Um rapaz de físico bem formado, talvez um metro e oitenta, por aí. Bochechas rosadas em derredor de um par de raros olhos azuis. Com a voz cinzelada de nítido sofrimento, disse – nos que aquele era o Renzo, seu filho caçula. Há dois meses, vindo de uma festa à noite, pilotando uma moto, perdera a vida. Lá no asfalto, ladeado de eucaliptos, um pouquinho antes de entrar na estrada para Panorama. Era o morto da cruz branca.”

Acervo Digital da FUNDAJ

Fotos do Projeto: “Beira de Estrada” de Leo  Drumond: Beira de Estrada