Dieta literária

Quando decidimos fazer as coisas de modo diferente, seja para alcançar uma meta, seja para não cair mais nas roubadas, o que fazemos? Damos o primeiro passo e esperamos contar com a torcida das pessoas ao nosso redor, para que não percamos o foco.

O Marco Lazaroto (@magrolima) fez um blog. Ele recentemente tomou a decisão de cortar os gastos com itens literários, pois se viu em frente a um amontoado de livros esperando para ser lidos e uma carteira com dinheiro de menos. Aproveitando que costumamos receber o incentivo alheio em nossas metas e planos, ele elevou este impulso à enésima potência, ao se deixar acompanhar pela rede mundial de computadores em sua jornada rumo  a UM ANO SEM LIVRARIA.

É isso mesmo. Assim como um confessionário, um diário, uma terapia ao estilo alcoólicos anônimos, o Marco se propõe a administrar a ânsia de conferir as útlimas novidades das prateleiras, e ler as obras que já possui, aproveitando para comentá-las e apresentar histórias e autores que podem enriquecer a bagagem literária dos leitores.

Claramente inspirado em casos como o Um Ano Sem Zara, Lazaroto irrompe com textos inteligentes e bem-humorados sobre o que está lendo e comentando as últimas compras em revistas e histórias em quadrinhos, que estão livres da dieta.

Corra para http://umanosemlivraria.tumblr.com, que ainda dá tempo de pegar o bonde andando, e coloque o blog nos seus favoritos!

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Vintage Pop

Mais uma prova de que música e moda estão intimamente ligadas: A outrora pop-rock, depois country, e novamente pop-rock cantora norte-americana Michelle Branch, decidiu vestir os seus discos preferidos, adotando um mix visual das influências sonoras que veio acumulando pela carreira.

Os acessórios como o colar, as pulseiras, o corte da camiseta e o colete remetem aos anos 70, com a música intensa do Jimi Hendrix:

O corte de cabelo, nem precisa dizer de quem é, né? Da musa melancólica, folk e skinny Joni Mitchell:

…Que por sua vez, dividia um gosto excêntrico por chapéus com o Bob Dylan:

Todas as peças da Michelle são da marca Steven Alan, que há cerca de 15 anos lança coleções fortemente inspiradas na cultura norte-americana, mesclando elementos urbanos e do interior.

Reid Rolls e Michelle Branch, Making of West Coast Time

Esta combinação, adotada para o ensaio do disco “West Coast Time”, torna este visual tão único e ao mesmo tempo não tão difícil de compor, seja aqui no Brasil, na Espanha, na Inglaterra, ou qualquer outro lugar que disponha de marcas básicas e mulheres dispostas a bater perna para encontrar acessórios nas feiras e brechós. Confira aqui o site da grife: http://www.stevenalan.com/

Uma boa pedida para inspiração e referências, além de preencher seu tempo com uma leitura bastante enriquecedora, é o livro “Fashion and Music” (Moda e Música), da Mestra em Estudos Históricos e Culturais pela Faculdade de Moda da Universidade de Artes de Londres, Janice Miller.

A obra, de apenas 161 páginas, discorre em tópicos que envolvem uma análise objetiva e de leitura fluida a respeito dos aspectos sociológicos e psicológicos da relação consumidores / fãs /arquétipos sexuais / indústria cultural (atenção para o capítulo referente à moda dos artistas masculinos, desde os Beatles, passando por Mick Jagger, David Bowie, e a altamente sexualizada cultura pop do final dos anos 90 e começo dos  2000, com destaque especial para as boybands.

Sem publicação no Brasil, esta belezura pode ser encontrada em sebos virtuais gringos a um preço bem camarada. Mesmo usado, vale à pena ter em sua estante. Se você tiver algum parente que mora fora ou vai visitar alguma metrópole estrangeira, procure “Fashion and Music” nos melhores becos literários dos centros.

E passe o olho nas referências visuais da Michelle, com o clipe da música “Loud Music”:

Visite o site oficial da Michelle aqui e baixe Loud Music aqui.

Deve ser chato ser Clarice.

Hoje eu acordei com vontade de escrever. Fazia já algum tempo que eu sentia a necessidade de voltar a escoar as letras que se acumulavam dentro de mim. Estava satisfeito em tecer crônicas mentais e preservar a minha intimidade, mas agora sei que as esqueço e não aproveito as conclusões que retiro das situações, se eu não as deixar gravadas para que me acompanhem e puxem minhas orelhas a cada tentativa de repetição de erros às quais eu possa me expor inconscientemente.

Devia ser chato ser Clarice. Acordei com isso na cabeça. Será que a tão cultuada escritora tinha consciência do personagem que ela se tornou? Ou que a tornaram? Duvido que Clarice fosse Lispector o tempo inteiro. Será que a mulher do olhar blasé, gestos elegantes e repostas certas para qualquer tipo de pergunta era assim o tempo inteiro? Ou esta era a porta de entrada para a sua alma, que falava com os outros aqui fora a partir de um interfone, para se preservar? O que parecia íntimo talvez se utilizasse da fluidez das palavras para que outros dessem formas a sentimentos implícitos nelas. Dessa forma, poderiam compartilhar suas visões de mundo.

Clarice deveria ser inteligente demais para cair no lugar comum dos estereótipos que os outros construíam a partir dela. Ou talvez ela fosse assim o tempo inteiro por que gostasse de contemplar as coisas que a rodeavam. Ou talvez se eu fosse ela, acharia uma boa pular uns três livros na estante e ir tomar cerveja com a Hilda Hilst.

Caio, então, nem se fala. Será que ele apreciaria todo o culto em volta do mar revolto do qual ele se cercava? Não que ele não mereça toda a apreciação em torno de sua pessoa e sua obra. Mas será que algum dia ele se perguntaria se era apenas isso que as pessoas esperariam dele? A melancolia? A fragmentação? E se um dia ele acordasse com uma boa dose de ansiolítico na alma? Ele se esforçaria para ser o Caio que as pessoas estavam acostumadas a ler?

É disso que tenho medo. Sei da minha natureza. Na maioria dos casos, ela sempre encontra espaço para tentar fazer as coisas parecerem mais leves do que são, deve ser uma defesa minha para extrair energia e seguir o percurso que eu estou trilhando. Mas tem horas que o saco de piadas se esvazia e os outros podem não me compreender.

É disso que falo agora. Nunca seremos cem por cento isso ou aquilo. E muitas vezes, temos medo de usar outras tintas em nossas telas, medo de não receber mais elogios pelo que pintamos. Nos tornamos uma galeria que aposta em fórmulas de sucesso fácil de público, que cai na tentação cômoda de nunca se renovar, ou pelo menos nunca deixar que outras cores quebrem a harmonia e convivam no mesmo quadro.

Devia ser chato ser Clarice, às vezes. E também o Caio deveria gostar de ter momentos apenas seus, de mais ninguém, descansando o Fernando Abreu em algum cabide no guarda-roupa.

Gosto muito do que sou, mas aprecio muito mais aquilo que geralmente eu não sou. É quando me sinto mais verdadeiro e honesto comigo mesmo. E acreditem, não é fácil pra ninguém sair da comodidade da familiarização de um consigo mesmo que também é talhado lá fora da pele.

Mas quando você se permite fazer isso, é liberdade na certa. Este é um exercício que tento fazer sempre. Sorrir só quando tenho vontade.

Não estou sorrindo agora. Mas me sinto muito feliz por isso.

Texto de Juliano da Hora

Foto de Claudia Andujar